segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A esfera armilar 131


Sete de Setembro de mil novecentos e oitenta. Cerca das nove e cinquenta da manhã estava eu deitada numa maca, na Clínica de S. Gabriel, em Arroios. O médico tinha sido mandado chamar às pressas e agora estava aos pés da maca, com a ajuda da enfeira, fazendo tudo para que o meu filho nascesse e viesse à vida são e salvo, como tudo indicava.

Era o grande momento da minha vida. O momento porque sempre tinha ansiado, passar por aquela prova, por aquela experiência de dar à luz e ser mãe. Desde que me conheço como gente, muito cedo compreendi que o meu maior desejo era ser mãe. Não sabia quantos filhos teria, mas um, eu teria com toda a certeza. E no meio de tanta coisa que fiz, no meio de toda a confusão que foi a minha vida, a verdade é que nuca perdi esse foco. Não sabia quando nem como, nem com quem seria, evidentemente, mas eu sabia que a vida havia de me encaminhar para lá, para esse ponto que para mim era mais do que desejado, era uma certeza no meu destino. Por isso eu iria aguardar até encontrar essa pessoa para ter o meu filho e que não seria, de maneira nenhuma, uma pessoa qualquer. Tinha que ser a pessoa certa. 

Não raras vezes ouvira dizer, vindo da minha família mais próxima, que eu não valia nada e não era capaz de fazer nada, por isso nunca na vida ia ser capaz de ter uma criança, um filho meu. Achava aquilo estranhíssimo, para além de ser uma grande maldade, porque ninguém ensina ninguém a ser mãe e ter filhos. Então porque razão eu não seria capaz, como qualquer outra mulher, de um dia ser mãe? Apesar da ideia que faziam de mim eu achava que ninguém na minha família era mais ou melhor do que eu e, portanto, aquelas coisas que, de certa forma me magoavam, nem por isso me faziam sentido. O problema é que muito cedo perdi a minha mãe, pelo que passei a ser um fardo para todos e por isso descarregavam da maneira que podiam. Contudo, e porque eu era a mais velha da minha geração, sempre fui incumbida da missão de olhar pelos outros. Estava habituada a responsabilizarem-me por tudo o que faziam, além de ter que tomar conta deles, como dar-lhes de comer e até banho, era tudo eu. 

Porém, contra tudo e todos, um dia, na altura certa, eu seria mãe de um filho meu, que eu cuidaria com o maior amor do mundo e com todo o cuidado possível e impossível. Eu tinha a certeza de que essa missão eu iria levar a cabo com muito êxito, com certeza. E isso nada nem ninguém me podiam tirar, apesar da ideia que faziam de mim e das coisas insanas que me eram dirigidas. 

Levei a vida toda ditada pela religião e enfiada na igreja católica, pela minha avó e pelos meus tios. Cumpri na perfeição todos os rituais e mais alguns. Era uma coisa meio doentia, mas também reconheço que era um escape, uma maneira de fugir a um ambiente deveras tóxico e que muito mal me fazia. E só por essa razão, aos quinze anos eu queria ser freira. Aos dezassete, reconheci que não era esse o meu destino e decidi que queria ser missionária, ir para África e ajudar crianças desfavorecidas. Aos dezanove acordei. Acordei para a vida e percebi que esse não era o meu caminho, pois se assim fosse, não tinha como me dedicar a mim, à minha vida pessoal e ao que eu realmente queria da vida e isso eu sabia muito bem, que era ter um filho meu, saído das minhas entranhas e ser a única responsável por essa criança, eu e o pai, evidentemente. Estava farta e cansada de todos. 

E chegou a minha hora. Era nesse ponto que agora me encontrava, tomando consciência de que o destino me tinha conduzido no caminho certo. Aí estava eu, de pernas abertas, com o médico às voltas para a criança nascer. As dores eram muito fortes, as normais do parto, uma vez que fiz questão absoluta de não ter ajudas de anestesias nem outras coisas, pois não sabia se teria mais filhos e queria ter essa experiência na íntegra, tal qual ela era, porque isso também era muito importante. 

O meu filho estava a nascer. Era uma coisa surreal. O dia tinha chegado, sim, tinha finalmente chegado a hora. Tanto que eu sonhara com aquilo. Agora estava em plena realidade com tudo a acontecer. A minha vida nunca mais seria a mesma. Essa criança seria dona da minha liberdade. Essa criança seria dona de todos os meus momentos, de todas as minhas horas, minutos e segundos. Eu estaria lá para tudo. Tinha essa consciência e não é que isso não me desse alguma ansiedade. E aí eu pensava, será que vou conseguir, será que vou ser capaz, mas também sabia que muita dessa ansiedade tinha que ver com o facto de sempre ter sido motivo de dúvidas e o centro das atenções indesejáveis. Mas acima de tudo eu confiava nessa força maior que nos conduz e nos protege. Sim, sempre confiei plenamente nos planos do universo e sabia que fazia parte desse mistério maior do que tudo. Portanto, posso dizer que estava preparada. 

E o médico falando comigo, faça assim, e tal e coisa, e a criança começava a sair. E no momento em que a cabecinha já estava de fora, num misto de dor, de ansiedade, de inúmeras sensações indescritíveis, todas ao mesmo tempo, que não dá para compreender nem explicar, de repente, o meu espírito deu um salto maior do que eu, maior do que eu poderia supor ser possível. E de repente saio do meu corpo ali deitado. Saio e sou projectada para o espaço. Meio assustada, mais ainda, espantada, vejo-me flutuando algures no universo. Meu corpo estava lá. Eu tinha saído da cama onde estava com o médico para ficar lá em cima. 

Não sabia o que pensar. Não sabia, nem percebia o que me estava a acontecer. Era a minha cabeça, os meus braços um para cada lado, as minhas pernas abertas, mas o meu corpo não era o meu corpo. No centro do meu corpo havia uma bola enorme, um mundo cujo peso eu sentia duma maneira avassaladora, apesar de não compreender o que estava a acontecer. Esse mundo no centro de mim, em que o meu corpo se tinha transformado começou a ficar cada vez mais definido. Com essa transformação começou também a vir informação e percebi que era a esfera armilar. Mas o que faria a esfera armilar tomando conta do meu corpo?! Ficou tudo muito estranho. Comecei a sentir uma série de coisas, de sensações avassaladoras… mais e mais. Parecia que eu não ia conseguir aguentar tudo o que estava a acontecer comigo, dentro de mim, no meu eu mais profundo. 

Percebi que a criança que estava dentro de mim estava relacionada com toda aquela informação que vinha do espaço, e aquela era uma maneira de me fazer entender um pouco o mundo que essa vida representava e no que se tornaria. A esfera armilar tinha um sentido muito lato, mas transmitia-me a certeza de que aquela criança que estava a sair das minhas entranhas era muito mais do que meu filho, porque era para o mundo que ele tinha vindo; era para o mundo que ele estava predestinado. Por momentos fui invadida por uma força de sentimentos que aquilo tudo envolvia, que eu achava que não ia conseguir aguentar, de tal modo que, simultaneamente, pedia a ajuda do universo para ser capaz de aceitar tudo aquilo, que ultrapassava completamente as minhas possibilidades, na minha insignificância, na minha pequenez, no meu mundo tão reduzido, onde parecia que tudo aquilo não tinha cabimento. 

Na verdade, só hoje entendo tudo na perfeição. Naquela altura como eu poderia adivinhar que meu filho seria um cientista que trouxe à humanidade um benefício tão grande!? Quem poderia adivinhar? Eu reconhecia no pai uma inteligência muito fora do normal, e esse foi um dos motivos que me aproximaram dele, mas ele conseguiu ir ainda mais além. E a esfera armilar era isso que significava, tudo o que estava ainda dentro de mim: a totalidade do universo, a harmonia cósmica, a perfeição divina e a busca infinita pelo conhecimento.


 

 


terça-feira, 4 de agosto de 2026

O além - 130

 

Estamos sempre em contacto com o além. Mas o que é o além? O universo que nos rodeia e no qual estamos enfiados sem hipótese de fuga. Tudo faz parte do universo. Tudo pertence ao universo. É a nossa casa, a casa de tudo e de todos. Inclusivamente, o nosso cérebro está sempre conectado com o universo, consciente ou inconscientemente. É de lá que vem tudo: o bom e o mau, o visível e o invisível - não tem o que saber. E só por isso, não estranho nem um pouco as “mensagens” que caiem na minha mente, através da intuição, que comigo está sempre conectada e sempre em aberto. Assim, acontecem coisas que para os outros podem parecer estranhas, mas para mim são perfeitamente normais, sendo que, algumas delas considero absolutamente extraordinárias.

Um dia conheci uma pessoa de quem eu gostava muito e que também gostava de mim com a mesma intensidade. Foi muito fácil o nosso relacionamento, pois estávamos na mesma sintonia e ambos queríamos o mesmo da vida. Isso deu início a um novo episódio das nossas vidas, o que foi muito bom para ambos. Mas a vida tem seus mistérios e propósitos que nos ultrapassam. Mesmo estando em sintonia com o universo, há coisas que estão acima de nós, porque assim tem que ser, caso contrário elas não aconteceriam. Quantas vezes nos perguntamos porquê isto, porquê aquilo e as respostas nem sempre vêm porque não somos “deuses” e não temos o controle de tudo; porque existe uma coisa mais forte – o destino -, o qual é para ser cumprido, custe o que custar, doa a quem doer.

Por essa razão, estava destinado que este relacionamento acontecesse. Porém, estava escrito que teria uma duração muito breve, de apenas sete meses e isso ninguém poderia adivinhar. E durante esses sete meses foi realmente um relacionamento excepcional. De tal modo, que eu achava que não merecia uma relação assim tão boa. Nunca na minha vida me atreveria a ter sonhado com uma situação igual ou parecida. A vida não me foi propriamente fácil e nunca desejei mundos e fundos, como muita gente está sempre a querer. Sempre me considerei uma pessoa simples e jamais me antevi a sonhar ou desejar encontrar um “príncipe” que me facilitasse tanto a vida e me tratasse como ele me tratava. Estava acima de tudo o que eu poderia imaginar. E não era só como as coisas se apresentavam no presente, era ainda o futuro, a médio e longo prazo, porque ele fazia planos e mais planos. Eram viagens que se programavam, era uma casa na praia… sei lá que mais. Para mim era um sonho que eu nunca imaginei que um dia me pudesse acontecer.

Mas como o destino tinha que ser cumprido, um dia, sem que contássemos com isso, pelo menos naquela altura, um dia ele teve um problema de saúde e, no espaço de apenas uma semana, partiu para não mais voltar. É a vida. Nunca sabemos onde está o fim. Ele é certo, mas para quando? E quando se está feliz, tudo o que se quer e tudo em que se pensa é em viver, viver, viver. A vida tem seus reveses aos quais não é possível contrapormo-nos. Há que aceitar, da forma que for possível, o que nem sempre é fácil. E, neste caso, foi particularmente difícil. Até porque, nessa altura, estava certa de que não haveria mais ninguém na minha vida. Não aconteceu quando era mais nova, como naquela altura!?

Passei a minha existência toda praticamente sozinha, visto que o meu casamento durou dez anos. Aos sessenta anos conheço uma pessoa excepcional, que consegue transformar-me a vida num verdadeiro paraíso. Ao fim de sete meses subitamente parte. É duro. Foi um osso duro de roer. Fiquei mal, muito mal. O meu filho tinha regressado definitivamente de Inglaterra no dia anterior ao sucedido. Uma coincidência e tanto. Já não o viu vivo porque ele estava hospitalizado. Fui contactada pelo médico assistente por volta das sete horas da manhã. Achei que era uma brincadeira, dizerem-me que ele tinha morrido, se na noite anterior eu tinha estado no hospital e tudo estava bem encaminhado!? Não havia como entender. Mas tinha que aceitar a situação e eu, simplesmente não conseguia, não estava preparada para um choque daqueles. Valeu-me o apoio da família, porque eu não tinha condições para nada. O meu espírito planava no éter, à procura de respostas: porquê… porquê… porquê… porque assim tinha que ser! Mas eu não conseguia compreender ou aceitar. Sabia que era isso que se seguia, mas não conseguia sequer raciocinar. Toda eu estava em choque, desfeita em lágrimas: um caco, o que sobrara de mim.

Velório, funeral… um monte de gente, porque ele era uma pessoa muito conhecido profissionalmente… muita gente. Eu mal me aguentava de pé, porque não tinha forças. A minha nora de um lado e o meu filho do outro, eram eles que me aguentavam para eu não cair. O meu sofrimento era visível, física e psicologicamente. Os colegas, os amigos, chegavam ao pé de mim e eu mal os reconhecia, sem conseguir proferir uma palavra sequer. Foi muito difícil! Nunca imaginei passar por uma situação daquelas, tão sofrida e tão complicada. Eu não conseguia imaginar a minha vida a seguir o seu rumo normal, o caminho que era só meu. Estava desfeita.

Nesta confusão toda, no silêncio da minha alma, só ouvia a minha pergunta: porquê… porquê… parecia que a minha vida estava sempre num mar de tramas e de emaranhados. Como eu sairia daquela situação!? O que fazer para me reerguer e continuar a ser eu, a que era antes dele aparecer? Precisava urgentemente de respostas, respostas que não havia e que eu não tinha. Eu sabia disso, mas nem por isso a minha cabeça parava para me dar descanso. E dizia a mim mesma: foi ele que morreu, não fui eu, eu estou viva e tenho que continuar o meu caminho até onde ele me levar. Todavia, estava plenamente consciente de que não reunia forças para tal e não fazia a menor ideia de onde iria buscá-las. Estava metida num buraco sem saída.

Mas eu queria viver, pois tinha a minha neta bebé por essa altura, e queria vê-la crescer e acompanhar o seu desenvolvimento, bem como tantas outras coisas que eu ainda gostaria de fazer, embora a minha neta fosse o mais importante de tudo. Como eu iria conseguir ultrapassar isto? Como? Sentia-me perdida, arruinada. O destino tinha-me traído. Mas eu não conseguia sentir revolta, porque isso na minha ideologia não faz sentido. Tudo o que nos acontece faz parte do nosso percurso. Cada um tem o que tem que ter. Não é merecimento nem castigo. É o que é. Contudo, havia um sentimento parecido com “humilhação”, pelo que eu estava a passar: “a coitadinha”, como diziam as pessoas! Mas tinha sido ele que morreu, não eu!? Porquê “coitadinha”, se eu estava viva!? Em todo o caso, isso conseguia atingir-me. Coitadinha porque foi atingida por um golpe muito duro; porque ficou sem o seu amado, porque… porque… e isso contribuía para que eu me sentisse muito envergonhada e sem me conseguir sobrepor nem fazer frente. Parecia que todos passavam por cima de mim, fazendo-me sentir cada vez mais reles, abandonada, desprezada, castigada por algo desconhecido. Muito difícil!

E quando eu achava que não podia mais e só queria cair, sair dali para fora, para qualquer outro lugar, outra realidade, não importava qual - só que não tinha como(!?) -, quando, mais uma vez, tive consciência de que estava no limite do que podia aguentar, aconteceu uma coisa surpreendente, deveras surpreendente, e que me salvou do colapso de forma espantosa. Do além, das entrelinhas do além, surgia uma mensagem escrita com caracteres de ouro, que brilharam bem no fundo do meu coração e me trouxeram de volta a vida. É claro que por fora continuava um caco, mas por dentro a minha alma revestia-se de uma nova roupagem cheia de côr e leve, leve como uma pluma. De repente, quase tinha chegado ao céu. A minha coragem e o meu eu, conseguiam vir ao de cima e eu estava imensamente grata pela conexão divina que o universo acabava de me proporcionar. Lavada em lágrimas continuava, sim - porque não deixava de ser uma carga muito pesada -, mas maravilhada pelo acontecido. O que a mensagem me trazia era tão espantoso e não só pelo seu conteúdo, mas pela forma e pelo momento como tudo aconteceu. Uma coisa maravilhosa!

A vida espiritual nunca pára de me surpreender. Não consigo compreender como há gente que, de forma sistemática, consegue virar as costas para uma dimensão desta natureza. A vida espiritual é um maná de inteligência, de bondade, nobreza, virtude, uma infinidade de coisas do bem. Estamos sempre agraciados por ela e abrangidos por essa força que, para muitos, é completamente desconhecida, apenas porque passam ao lado e lhe viram as costas. Pelo contrário, devíamos, sim, estar sempre atentos e abertos a essa conexão. Ela existe. Ela é real.

E só por isso, uma vez mais, fui salva e resgatada do mal que me estava a sufocar. Essas palavras que acabavam de cair do céu tinham o propósito de me “salvar” e me guiar pelo caminho certo, o caminho do bem e da Paz, porque era tudo o que, no momento, eu precisava: paz. Compreendi porque tinha sido atingida. Compreendi porque me estava a sentir tão mal, ao invés de sentir bem estar e até felicidade, porque não!? Os caminhos da vida são um emaranhado de surpresas. E muitas vezes estamos em negação, apenas porque não compreendemos. Era o que estava a acontecer comigo. E era tão simples… o além convidava-me a entender aquilo que estava para além da razão. Porque as coisas não são o que parecem. Nesse exacto momento lembrei-me de uma coisa que aparentemente não tinha grande importância, mas que naquele preciso momento foi mais que relevante. A mãe dele várias vezes tinha deixado escapar o comentário “há quanto tempo o meu filho não era feliz!?” Era isso mesmo. Agora tudo estava claro.  E aquilo que pode parecer um “castigo”, um grande “golpe” da vida… e que parecia aniquilar a minha sanidade, humilhando-me até mais não, pelo´contrário, levava-me ao podium da espiritualidade, por assim dizer, porque eu simplesmente tinha sido o caminho para a felicidade de alguém que estava em fim de vida. A mensagem era um “diploma” do além, que confirmava o sucesso daquilo para que tinha sido escolhida. Pode parecer arrogância e até vaidade. Mas é tudo menos isso. É a vida a acontecer para além da matéria. E eu simplesmente, compreendi, aceitei e agradeci:

“Esse homem tinha o direito de ser feliz antes de partir. Tu eras a pessoa certa para essa missão”.

  

terça-feira, 14 de julho de 2026

Histórias - 129

 

A vida é feita de histórias. Histórias que ficam por contar. A maior parte das histórias que compõem a nossa vida muitas vezes são descartadas, simplesmente porque são “histórias”, ou seja, porque não lhes damos o verdadeiro valor.

Era uma vez uma quinta… uma quinta grande, muito bonita, muito agradável, com muitas árvores, muita vegetação, onde até havia cavalos, entre outros animais. Nessa quinta passava uma ribeira, o que tornava tudo ainda mais bonito. E havia um casarão onde morava uma família. E… aqui… começa a história.

Um dia, a filha da dona da quinta telefona à sua manicure preferida para lhe ir arranjar as unhas, caso fosse possível. Ela já não morava ali, desde que se casara. Em todo o caso, de vez em quando, ia à quinta onde cresceu, para estar com a família. Josy aceitou de imediato, até porque, no momento, estava sem o seu salão e à procura de trabalho. Por outro lado, as duas, mãe e filha eram muito simpáticas e Josy tinha por ambas uma grande estima. E combinam para o dia seguinte, na quinta, onde Maria Rosa estará à sua espera.

Mas, nessa noite Josy teve um sonho. E ao acordar, tendo tomado consciência do sonho, acha estranho. O sonho era com a jovem da quinta que lhe tinha telefonado no dia anterior e com quem se ia encontrar naquele mesmo dia para lhe fazer as unhas. Foi só um sonho que a surpreendeu ao acordar, mas que ela, de imediato, pôs para trás das costas. O sonho era lindo, mas era só um sonho e ela nem compreendia porque razão o subconsciente tinha ido buscar tal coisa. Por isso não pensou mais no assunto.

Na hora certa, dirige-se ao local onde tinham combinado encontrar-se. À sua chegada, avista a jovem envolta em toda aquela frescura, por entre os ramos das árvores, num quadro muito bonito. De repente, reconhece imediatamente a visão. Ela sonhou com aquela imagem nessa mesma noite. No sonho, tinha visto Maria Rosa, tal qual ela se apresentava naquele momento, enquadrada numa belíssima moldura da natureza. E para ela é surpreendente o que está a acontecer, uma vez que tinha sonhado precisamente com o que os seus olhos agora viam. Os olhos da alma também veem e como!? E acha realmente espantoso que os olhos da alma tenham visto o que os olhos físicos estavam agora a ver: uma e a mesma coisa.

Quando chega ao pé de Maria Rosa, logo se apercebe que esta está grávida. Grávida!?... E a estranheza continua, porque no sonho ela realmente vê a jovem grávida. Porquê, é a pergunta que não quer calar. Porque, segundo Josy, ela nem sequer era sua amiga ou dos seus círculos de amizade. Apenas lhe fazia as unhas quando solicitada. Porém, há um pequeno pormenor, que talvez explique um pouco a situação: Josy admite que, sem saber porquê, sempre teve um grande afecto, uma grande ligação por Maria Rosa; porque ela era muito querida e desde o início teve um lugar muito especial no seu coração. Não tinha como explicar, mas ela amava aquela menina.

Ao chegar perto, a sensação de estranheza de toda a situação continua a manifestar-se. É a certeza daquela ligação inexplicável que sente pela jovem, o bem estar que ela lhe passa; é a beleza de toda a aura que a envolve; é uma série de sensações e sentimentos que as palavras não têm como explicar. Maria Rosa é bonita e doce, mas é muito mais do que isso. Josy sente-se até emocionada pelo que admite sentir, porque acha tudo inexplicável. Mas é o que é.

Josy é uma brasileira casada com um português e já está em Portugal há bastante tempo. O marido está a trabalhar em Angola, pelo que, de vez em quando, ela vai até lá passar uns tempos com ele. E por ser Brasileira, também, sempre que pode, vai ao Brasil estar com a família: os filhos, os netos e a mãe. O pai, que na verdade era seu padrasto, tinha morrido há pouco mais de um ano, o que, estranhamente, deixara Josy de rastos, completamente. Todos morremos um dia… mais cedo ou mais tarde. E dizemos que a ordem natural das coisas é os pais morrerem mais cedo que os filhos. Mas nem sempre assim é. Neste caso foi. Porém, Josy teve muita dificuldade em aceitar a sua morte. A sua relação com o pai, segundo ela, era muito boa. Ela amava demais o pai que, em boa verdade, não era o seu pai de sangue. Mas foi o homem que a criou, que ela sempre conheceu como seu pai e com quem teve uma relação muito chegada e muito bonita.

Então, quando recebeu a notícia de que seu pai tinha falecido, ficou num estado deplorável e inconsolável, sem comer, sem dormir, chorando de forma quase histérica… uma coisa inexplicável, porque Josy também já não era propriamente criança, já era avó e a vida vai acontecendo como tem que acontecer e há coisas que são difíceis de aceitar, mas é sabido que mais dia, menos dia, elas acontecem. Por isso, foi difícil entender o porquê de tamanha agitação com a morte do pai. Não batia muito certo. Em todo o caso, cada um é como é e temos que aceitar os outros como são. O tempo faria o seu trabalho, com certeza.

Pode dizer-se que situação análoga se passava com Maria Rosa, pelo sentimento que Josy transportava dentro do seu coração por aquela jovem que apenas via de vez em quando, não fazendo muito sentido, à primeira vista, um sentimento assim tão forte por ela!? Mas há coisas que a razão desconhece. Essa é que é a verdade.

Agora, Josy estava junto de Maria Rosa, admirando a sua barriguinha redonda da gravidez, passando carinhosamente a sua mão, ao mesmo tempo que a felicitava pelo acontecimento, enquanto Maria Rosa agradecia feliz e contente do seu estado maternal.

E, enquanto Josy, no seu subconsciente, continuava admiradíssima, porque espantada com tudo aquilo, lembrando o facto de ter sonhado com aquela situação tal qual ela se apresentava, sempre pensando no porquê… porquê sonhar com Maria Rosa e ainda por cima grávida; porquê aquela premonição com alguém que ela só via de tempos em tempos, não havendo uma ligação mais justificativa? Contudo, e apesar dessa espaçosa ligação no tempo, digamos assim, era certo e ela tinha plena consciência de que algo acima disso de sobrepunha, ou seja, a ligação com Maria Rosa era muito forte a nível sentimental, sem dúvida nenhuma e talvez isso fosse muito mais importante?!... Mistérios da vida.

Foi então que, conversando uma com a outra, Maria Rosa explicou que estava no final da gravidez. Era um menino e… e aqui o puzzle fechou. Fechou porque, na cabeça de Josy, repentinamente, tudo se encaixou. Embora as perguntas continuassem, havia uma resposta que falava mais alto do que tudo, bem mais alto… vinda não se sabe donde… do campo holístico… do universo infinito, que muita gente não consegue aceitar, pelo facto de sair fora da nossa realidade, da nossa dimensão, mas que é a única verdade verdadeira, porque é quando o Todo é maior do que a soma das partes… e não há como contestar, negar, enfim, apenas uma imensa capacidade para aceitar, o que para muitos também não é fácil.

Calma, tranquila e feliz, Maria Rosa falou na sua voz serena e doce, que o menino que estava em fim de gestação, seu filho, se chamaria Francisco.

Agora sim, estava tudo explicado e não precisava de mais respostas, porque a chave tinha aberto a caixinha das surpresas, da maneira mais bela e imaginária possível. Josy, sim, extava extasiada e encantada; sem fala, quase engasgada por ter sido apanhada com tamanha surpresa e maravilhada como nunca. Fez-se luz e era como estar numa “terra” que lhe era totalmente desconhecida, mas que a fazia sentir no sétimo céu.

Seu pai ou padrasto, não importa, de nome Francisco, o pai que ela amava mais que muito, estava de volta, através do processo de reencarnação, o qual tinha sido anunciado através do sonho. Ali, bem na sua frente. E, então, tudo agora se encaixava, fazendo sentido, no que estava plenamente agradecida à vida.