terça-feira, 4 de agosto de 2026

O além - 130

 

Estamos sempre em contacto com o além. Mas o que é o além? O universo que nos rodeia e no qual estamos enfiados sem hipótese de fuga. Tudo faz parte do universo. Tudo pertence ao universo. É a nossa casa, a casa de tudo e de todos. Inclusivamente, o nosso cérebro está sempre conectado com o universo, consciente ou inconscientemente. É de lá que vem tudo: o bom e o mau, o visível e o invisível - não tem o que saber. E só por isso, não estranho nem um pouco as “mensagens” que caiem na minha mente, através da intuição, que comigo está sempre conectada e sempre em aberto. Assim, acontecem coisas que para os outros podem parecer estranhas, mas para mim são perfeitamente normais, sendo que, algumas delas considero absolutamente extraordinárias.

Um dia conheci uma pessoa de quem eu gostava muito e que também gostava de mim com a mesma intensidade. Foi muito fácil o nosso relacionamento, pois estávamos na mesma sintonia e ambos queríamos o mesmo da vida. Isso deu início a um novo episódio das nossas vidas, o que foi muito bom para ambos. Mas a vida tem seus mistérios e propósitos que nos ultrapassam. Mesmo estando em sintonia com o universo, há coisas que estão acima de nós, porque assim tem que ser, caso contrário elas não aconteceriam. Quantas vezes nos perguntamos porquê isto, porquê aquilo e as respostas nem sempre vêm porque não somos “deuses” e não temos o controle de tudo; porque existe uma coisa mais forte – o destino -, o qual é para ser cumprido, custe o que custar, doa a quem doer.

Por essa razão, estava destinado que este relacionamento acontecesse. Porém, estava escrito que teria uma duração muito breve, de apenas sete meses e isso ninguém poderia adivinhar. E durante esses sete meses foi realmente um relacionamento excepcional. De tal modo, que eu achava que não merecia uma relação assim tão boa. Nunca na minha vida me atreveria a ter sonhado com uma situação igual ou parecida. A vida não me foi propriamente fácil e nunca desejei mundos e fundos, como muita gente está sempre a querer. Sempre me considerei uma pessoa simples e jamais me antevi a sonhar ou desejar encontrar um “príncipe” que me facilitasse tanto a vida e me tratasse como ele me tratava. Estava acima de tudo o que eu poderia imaginar. E não era só como as coisas se apresentavam no presente, era ainda o futuro, a médio e longo prazo, porque ele fazia planos e mais planos. Eram viagens que se programavam, era uma casa na praia… sei lá que mais. Para mim era um sonho que eu nunca imaginei que um dia me pudesse acontecer.

Mas como o destino tinha que ser cumprido, um dia, sem que contássemos com isso, pelo menos naquela altura, um dia ele teve um problema de saúde e, no espaço de apenas uma semana, partiu para não mais voltar. É a vida. Nunca sabemos onde está o fim. Ele é certo, mas para quando? E quando se está feliz, tudo o que se quer e tudo em que se pensa é em viver, viver, viver. A vida tem seus reveses aos quais não é possível contrapormo-nos. Há que aceitar, da forma que for possível, o que nem sempre é fácil. E, neste caso, foi particularmente difícil. Até porque, nessa altura, estava certa de que não haveria mais ninguém na minha vida. Não aconteceu quando era mais nova, como naquela altura!?

Passei a minha existência toda praticamente sozinha, visto que o meu casamento durou dez anos. Aos sessenta anos conheço uma pessoa excepcional, que consegue transformar-me a vida num verdadeiro paraíso. Ao fim de sete meses subitamente parte. É duro. Foi um osso duro de roer. Fiquei mal, muito mal. O meu filho tinha regressado definitivamente de Inglaterra no dia anterior ao sucedido. Uma coincidência e tanto. Já não o viu vivo porque ele estava hospitalizado. Fui contactada pelo médico assistente por volta das sete horas da manhã. Achei que era uma brincadeira, dizerem-me que ele tinha morrido, se na noite anterior eu tinha estado no hospital e tudo estava bem encaminhado!? Não havia como entender. Mas tinha que aceitar a situação e eu, simplesmente não conseguia, não estava preparada para um choque daqueles. Valeu-me o apoio da família, porque eu não tinha condições para nada. O meu espírito planava no éter, à procura de respostas: porquê… porquê… porquê… porque assim tinha que ser! Mas eu não conseguia compreender ou aceitar. Sabia que era isso que se seguia, mas não conseguia sequer raciocinar. Toda eu estava em choque, desfeita em lágrimas: um caco, o que sobrara de mim.

Velório, funeral… um monte de gente, porque ele era uma pessoa muito conhecido profissionalmente… muita gente. Eu mal me aguentava de pé, porque não tinha forças. A minha nora de um lado e o meu filho do outro, eram eles que me aguentavam para eu não cair. O meu sofrimento era visível, física e psicologicamente. Os colegas, os amigos, chegavam ao pé de mim e eu mal os reconhecia, sem conseguir proferir uma palavra sequer. Foi muito difícil! Nunca imaginei passar por uma situação daquelas, tão sofrida e tão complicada. Eu não conseguia imaginar a minha vida a seguir o seu rumo normal, o caminho que era só meu. Estava desfeita.

Nesta confusão toda, no silêncio da minha alma, só ouvia a minha pergunta: porquê… porquê… parecia que a minha vida estava sempre num mar de tramas e de emaranhados. Como eu sairia daquela situação!? O que fazer para me reerguer e continuar a ser eu, a que era antes dele aparecer? Precisava urgentemente de respostas, respostas que não havia e que eu não tinha. Eu sabia disso, mas nem por isso a minha cabeça parava para me dar descanso. E dizia a mim mesma: foi ele que morreu, não fui eu, eu estou viva e tenho que continuar o meu caminho até onde ele me levar. Todavia, estava plenamente consciente de que não reunia forças para tal e não fazia a menor ideia de onde iria buscá-las. Estava metida num buraco sem saída.

Mas eu queria viver, pois tinha a minha neta bebé por essa altura, e queria vê-la crescer e acompanhar o seu desenvolvimento, bem como tantas outras coisas que eu ainda gostaria de fazer, embora a minha neta fosse o mais importante de tudo. Como eu iria conseguir ultrapassar isto? Como? Sentia-me perdida, arruinada. O destino tinha-me traído. Mas eu não conseguia sentir revolta, porque isso na minha ideologia não faz sentido. Tudo o que nos acontece faz parte do nosso percurso. Cada um tem o que tem que ter. Não é merecimento nem castigo. É o que é. Contudo, havia um sentimento parecido com “humilhação”, pelo que eu estava a passar: “a coitadinha”, como diziam as pessoas! Mas tinha sido ele que morreu, não eu!? Porquê “coitadinha”, se eu estava viva!? Em todo o caso, isso conseguia atingir-me. Coitadinha porque foi atingida por um golpe muito duro; porque ficou sem o seu amado, porque… porque… e isso contribuía para que eu me sentisse muito envergonhada e sem me conseguir sobrepor nem fazer frente. Parecia que todos passavam por cima de mim, fazendo-me sentir cada vez mais reles, abandonada, desprezada, castigada por algo desconhecido. Muito difícil!

E quando eu achava que não podia mais e só queria cair, sair dali para fora, para qualquer outro lugar, outra realidade, não importava qual - só que não tinha como(!?) -, quando, mais uma vez, tive consciência de que estava no limite do que podia aguentar, aconteceu uma coisa surpreendente, deveras surpreendente, e que me salvou do colapso de forma espantosa. Do além, das entrelinhas do além, surgia uma mensagem escrita com caracteres de ouro, que brilharam bem no fundo do meu coração e me trouxeram de volta a vida. É claro que por fora continuava um caco, mas por dentro a minha alma revestia-se de uma nova roupagem cheia de côr e leve, leve como uma pluma. De repente, quase tinha chegado ao céu. A minha coragem e o meu eu, conseguiam vir ao de cima e eu estava imensamente grata pela conexão divina que o universo acabava de me proporcionar. Lavada em lágrimas continuava, sim - porque não deixava de ser uma carga muito pesada -, mas maravilhada pelo acontecido. O que a mensagem me trazia era tão espantoso e não só pelo seu conteúdo, mas pela forma e pelo momento como tudo aconteceu. Uma coisa maravilhosa!

A vida espiritual nunca pára de me surpreender. Não consigo compreender como há gente que, de forma sistemática, consegue virar as costas para uma dimensão desta natureza. A vida espiritual é um maná de inteligência, de bondade, nobreza, virtude, uma infinidade de coisas do bem. Estamos sempre agraciados por ela e abrangidos por essa força que, para muitos, é completamente desconhecida, apenas porque passam ao lado e lhe viram as costas. Pelo contrário, devíamos, sim, estar sempre atentos e abertos a essa conexão. Ela existe. Ela é real.

E só por isso, uma vez mais, fui salva e resgatada do mal que me estava a sufocar. Essas palavras que acabavam de cair do céu tinham o propósito de me “salvar” e me guiar pelo caminho certo, o caminho do bem e da Paz, porque era tudo o que, no momento, eu precisava: paz. Compreendi porque tinha sido atingida. Compreendi porque me estava a sentir tão mal, ao invés de sentir bem estar e até felicidade, porque não!? Os caminhos da vida são um emaranhado de surpresas. E muitas vezes estamos em negação, apenas porque não compreendemos. Era o que estava a acontecer comigo. E era tão simples… o além convidava-me a entender aquilo que estava para além da razão. Porque as coisas não são o que parecem. Nesse exacto momento lembrei-me de uma coisa que aparentemente não tinha grande importância, mas que naquele preciso momento foi mais que relevante. A mãe dele várias vezes tinha deixado escapar o comentário “há quanto tempo o meu filho não era feliz!?” Era isso mesmo. Agora tudo estava claro.  E aquilo que pode parecer um “castigo”, um grande “golpe” da vida… e que parecia aniquilar a minha sanidade, humilhando-me até mais não, pelo´contrário, levava-me ao podium da espiritualidade, por assim dizer, porque eu simplesmente tinha sido o caminho para a felicidade de alguém que estava em fim de vida. A mensagem era um “diploma” do além, que confirmava o sucesso daquilo para que tinha sido escolhida. Pode parecer arrogância e até vaidade. Mas é tudo menos isso. É a vida a acontecer para além da matéria. E eu simplesmente, compreendi, aceitei e agradeci:

“Esse homem tinha o direito de ser feliz antes de partir. Tu eras a pessoa certa para essa missão”.

  

1 comentário:

  1. Lindo! ..."Os caminhos da Vida são um emaranhado de surpresas. E muitas vezes estamos em negação, porque não compreendemos."
    A Luísa "...foi a pessoa certa para essa missão."

    ResponderEliminar