A vida é feita
de histórias. Histórias que ficam por contar. A maior parte das histórias que
compõem a nossa vida muitas vezes são descartadas, simplesmente porque são
“histórias”, ou seja, porque não lhes damos o verdadeiro valor.
Era uma vez uma
quinta… uma quinta grande, muito bonita, muito agradável, com muitas árvores, muita
vegetação, onde até havia cavalos, entre outros animais. Nessa quinta passava
uma ribeira, o que tornava tudo ainda mais bonito. E havia um casarão onde
morava uma família. E… aqui… começa a história.
Um dia, a filha
da dona da quinta telefona à sua manicure preferida para lhe ir arranjar as
unhas, caso fosse possível. Ela já não morava ali, desde que se casara. Em todo
o caso, de vez em quando, ia à quinta onde cresceu, para estar com a família.
Josy aceitou de imediato, até porque, no momento, estava sem o seu salão e à
procura de trabalho. Por outro lado, as duas, mãe e filha eram muito simpáticas
e Josy tinha por ambas uma grande estima. E combinam para o dia seguinte, na
quinta, onde Maria Rosa estará à sua espera.
Mas, nessa noite
Josy teve um sonho. E ao acordar, tendo tomado consciência do sonho, acha
estranho. O sonho era com a jovem da quinta que lhe tinha telefonado no dia
anterior e com quem se ia encontrar naquele mesmo dia para lhe fazer as unhas. Foi
só um sonho que a surpreendeu ao acordar, mas que ela, de imediato, pôs para
trás das costas. O sonho era lindo, mas era só um sonho e ela nem compreendia
porque razão o subconsciente tinha ido buscar tal coisa. Por isso não pensou
mais no assunto.
Na hora certa,
dirige-se ao local onde tinham combinado encontrar-se. À sua chegada, avista a
jovem envolta em toda aquela frescura, por entre os ramos das árvores, num
quadro muito bonito. De repente, reconhece imediatamente a visão. Ela sonhou
com aquela imagem nessa mesma noite. No sonho, tinha visto Maria Rosa, tal qual
ela se apresentava naquele momento, enquadrada numa belíssima moldura da
natureza. E para ela é surpreendente o que está a acontecer, uma vez que tinha
sonhado precisamente com o que os seus olhos agora viam. Os olhos da alma
também veem e como!? E acha realmente espantoso que os olhos da alma tenham
visto o que os olhos físicos estavam agora a ver: uma e a mesma coisa.
Quando chega ao
pé de Maria Rosa, logo se apercebe que esta está grávida. Grávida!?... E a
estranheza continua, porque no sonho ela realmente vê a jovem grávida. Porquê,
é a pergunta que não quer calar. Porque, segundo Josy, ela nem sequer era sua
amiga ou dos seus círculos de amizade. Apenas lhe fazia as unhas quando
solicitada. Porém, há um pequeno pormenor, que talvez explique um pouco a
situação: Josy admite que, sem saber porquê, sempre teve um grande afecto, uma
grande ligação por Maria Rosa; porque ela era muito querida e desde o início
teve um lugar muito especial no seu coração. Não tinha como explicar, mas ela
amava aquela menina.
Ao chegar perto,
a sensação de estranheza de toda a situação continua a manifestar-se. É a
certeza daquela ligação inexplicável que sente pela jovem, o bem estar que ela
lhe passa; é a beleza de toda a aura que a envolve; é uma série de sensações e
sentimentos que as palavras não têm como explicar. Maria Rosa é bonita e doce,
mas é muito mais do que isso. Josy sente-se até emocionada pelo que admite
sentir, porque acha tudo inexplicável. Mas é o que é.
Josy é uma
brasileira casada com um português e já está em Portugal há bastante tempo. O
marido está a trabalhar em Angola, pelo que, de vez em quando, ela vai até lá
passar uns tempos com ele. E por ser Brasileira, também, sempre que pode, vai
ao Brasil estar com a família: os filhos, os netos e a mãe. O pai, que na verdade
era seu padrasto, tinha morrido há pouco mais de um ano, o que, estranhamente, deixara
Josy de rastos, completamente. Todos morremos um dia… mais cedo ou mais tarde.
E dizemos que a ordem natural das coisas é os pais morrerem mais cedo que os
filhos. Mas nem sempre assim é. Neste caso foi. Porém, Josy teve muita
dificuldade em aceitar a sua morte. A sua relação com o pai, segundo ela, era
muito boa. Ela amava demais o pai que, em boa verdade, não era o seu pai de
sangue. Mas foi o homem que a criou, que ela sempre conheceu como seu pai e com
quem teve uma relação muito chegada e muito bonita.
Então, quando
recebeu a notícia de que seu pai tinha falecido, ficou num estado deplorável e
inconsolável, sem comer, sem dormir, chorando de forma quase histérica… uma
coisa inexplicável, porque Josy também já não era propriamente criança, já era
avó e a vida vai acontecendo como tem que acontecer e há coisas que são
difíceis de aceitar, mas é sabido que mais dia, menos dia, elas acontecem. Por
isso, foi difícil entender o porquê de tamanha agitação com a morte do pai. Não
batia muito certo. Em todo o caso, cada um é como é e temos que aceitar os
outros como são. O tempo faria o seu trabalho, com certeza.
Pode dizer-se
que situação análoga se passava com Maria Rosa, pelo sentimento que Josy
transportava dentro do seu coração por aquela jovem que apenas via de vez em
quando, não fazendo muito sentido, à primeira vista, um sentimento assim tão
forte por ela!? Mas há coisas que a razão desconhece. Essa é que é a verdade.
Agora, Josy
estava junto de Maria Rosa, admirando a sua barriguinha redonda da gravidez,
passando carinhosamente a sua mão, ao mesmo tempo que a felicitava pelo
acontecimento, enquanto Maria Rosa agradecia feliz e contente do seu estado
maternal.
E, enquanto
Josy, no seu subconsciente, continuava admiradíssima, porque espantada com tudo
aquilo, lembrando o facto de ter sonhado com aquela situação tal qual ela se
apresentava, sempre pensando no porquê… porquê sonhar com Maria Rosa e ainda
por cima grávida; porquê aquela premonição com alguém que ela só via de tempos
em tempos, não havendo uma ligação mais justificativa? Contudo, e apesar dessa
espaçosa ligação no tempo, digamos assim, era certo e ela tinha plena
consciência de que algo acima disso de sobrepunha, ou seja, a ligação com Maria
Rosa era muito forte a nível sentimental, sem dúvida nenhuma e talvez isso
fosse muito mais importante?!... Mistérios da vida.
Foi então que, conversando
uma com a outra, Maria Rosa explicou que estava no final da gravidez. Era um
menino e… e aqui o puzzle fechou. Fechou porque, na cabeça de Josy,
repentinamente, tudo se encaixou. Embora as perguntas continuassem, havia uma
resposta que falava mais alto do que tudo, bem mais alto… vinda não se sabe
donde… do campo holístico… do universo infinito, que muita gente não consegue
aceitar, pelo facto de sair fora da nossa realidade, da nossa dimensão, mas que
é a única verdade verdadeira, porque é quando o Todo é maior do que a soma das
partes… e não há como contestar, negar, enfim, apenas uma imensa capacidade
para aceitar, o que para muitos também não é fácil.
Calma, tranquila
e feliz, Maria Rosa falou na sua voz serena e doce, que o menino que estava em
fim de gestação, seu filho, se chamaria Francisco.
Agora sim, estava
tudo explicado e não precisava de mais respostas, porque a chave tinha aberto a
caixinha das surpresas, da maneira mais bela e imaginária possível. Josy, sim,
extava extasiada e encantada; sem fala, quase engasgada por ter sido apanhada
com tamanha surpresa e maravilhada como nunca. Fez-se luz e era como estar numa
“terra” que lhe era totalmente desconhecida, mas que a fazia sentir no sétimo
céu.
Seu pai ou
padrasto, não importa, de nome Francisco, o pai que ela amava mais que muito,
estava de volta, através do processo de reencarnação, o qual tinha sido
anunciado através do sonho. Ali, bem na sua frente. E, então, tudo agora se
encaixava, fazendo sentido, no que estava plenamente agradecida à vida.