Sete de Setembro de mil novecentos e oitenta. Cerca das nove e cinquenta da manhã estava eu deitada numa maca, na Clínica de S. Gabriel, em Arroios. O médico tinha sido mandado chamar às pressas e agora estava aos pés da maca, com a ajuda da enfeira, fazendo tudo para que o meu filho nascesse e viesse à vida são e salvo, como tudo indicava.
Era o grande momento da minha vida. O momento porque sempre tinha ansiado, passar por aquela prova, por aquela experiência de dar à luz e ser mãe. Desde que me conheço como gente, muito cedo compreendi que o meu maior desejo era ser mãe. Não sabia quantos filhos teria, mas um, eu teria com toda a certeza. E no meio de tanta coisa que fiz, no meio de toda a confusão que foi a minha vida, a verdade é que nuca perdi esse foco. Não sabia quando nem como, nem com quem seria, evidentemente, mas eu sabia que a vida havia de me encaminhar para lá, para esse ponto que para mim era mais do que desejado, era uma certeza no meu destino. Por isso eu iria aguardar até encontrar essa pessoa para ter o meu filho e que não seria, de maneira nenhuma, uma pessoa qualquer. Tinha que ser a pessoa certa.
Não raras vezes ouvira dizer, vindo da minha família mais próxima, que eu não valia nada e não era capaz de fazer nada, por isso nunca na vida ia ser capaz de ter uma criança, um filho meu. Achava aquilo estranhíssimo, para além de ser uma grande maldade, porque ninguém ensina ninguém a ser mãe e ter filhos. Então porque razão eu não seria capaz, como qualquer outra mulher, de um dia ser mãe? Apesar da ideia que faziam de mim eu achava que ninguém na minha família era mais ou melhor do que eu e, portanto, aquelas coisas que, de certa forma me magoavam, nem por isso me faziam sentido. O problema é que muito cedo perdi a minha mãe, pelo que passei a ser um fardo para todos e por isso descarregavam da maneira que podiam. Contudo, e porque eu era a mais velha da minha geração, sempre fui incumbida da missão de olhar pelos outros. Estava habituada a responsabilizarem-me por tudo o que faziam, além de ter que tomar conta deles, como dar-lhes de comer e até banho, era tudo eu.
Porém, contra tudo e todos, um dia, na altura certa, eu seria mãe de um filho meu, que eu cuidaria com o maior amor do mundo e com todo o cuidado possível e impossível. Eu tinha a certeza de que essa missão eu iria levar a cabo com muito êxito, com certeza. E isso nada nem ninguém me podiam tirar, apesar da ideia que faziam de mim e das coisas insanas que me eram dirigidas.
Levei a vida toda ditada pela religião e enfiada na igreja católica, pela minha avó e pelos meus tios. Cumpri na perfeição todos os rituais e mais alguns. Era uma coisa meio doentia, mas também reconheço que era um escape, uma maneira de fugir a um ambiente deveras tóxico e que muito mal me fazia. E só por essa razão, aos quinze anos eu queria ser freira. Aos dezassete, reconheci que não era esse o meu destino e decidi que queria ser missionária, ir para África e ajudar crianças desfavorecidas. Aos dezanove acordei. Acordei para a vida e percebi que esse não era o meu caminho, pois se assim fosse, não tinha como me dedicar a mim, à minha vida pessoal e ao que eu realmente queria da vida e isso eu sabia muito bem, que era ter um filho meu, saído das minhas entranhas e ser a única responsável por essa criança, eu e o pai, evidentemente. Estava farta e cansada de todos.
E chegou a minha hora. Era nesse ponto que agora me encontrava, tomando consciência de que o destino me tinha conduzido no caminho certo. Aí estava eu, de pernas abertas, com o médico às voltas para a criança nascer. As dores eram muito fortes, as normais do parto, uma vez que fiz questão absoluta de não ter ajudas de anestesias nem outras coisas, pois não sabia se teria mais filhos e queria ter essa experiência na íntegra, tal qual ela era, porque isso também era muito importante.
O meu filho estava a nascer. Era uma coisa surreal. O dia tinha chegado, sim, tinha finalmente chegado a hora. Tanto que eu sonhara com aquilo. Agora estava em plena realidade com tudo a acontecer. A minha vida nunca mais seria a mesma. Essa criança seria dona da minha liberdade. Essa criança seria dona de todos os meus momentos, de todas as minhas horas, minutos e segundos. Eu estaria lá para tudo. Tinha essa consciência e não é que isso não me desse alguma ansiedade. E aí eu pensava, será que vou conseguir, será que vou ser capaz, mas também sabia que muita dessa ansiedade tinha que ver com o facto de sempre ter sido motivo de dúvidas e o centro das atenções indesejáveis. Mas acima de tudo eu confiava nessa força maior que nos conduz e nos protege. Sim, sempre confiei plenamente nos planos do universo e sabia que fazia parte desse mistério maior do que tudo. Portanto, posso dizer que estava preparada.
E o médico falando comigo, faça assim, e tal e coisa, e a criança começava a sair. E no momento em que a cabecinha já estava de fora, num misto de dor, de ansiedade, de inúmeras sensações indescritíveis, todas ao mesmo tempo, que não dá para compreender nem explicar, de repente, o meu espírito deu um salto maior do que eu, maior do que eu poderia supor ser possível. E de repente saio do meu corpo ali deitado. Saio e sou projectada para o espaço. Meio assustada, mais ainda, espantada, vejo-me flutuando algures no universo. Meu corpo estava lá. Eu tinha saído da cama onde estava com o médico para ficar lá em cima.
Não sabia o que pensar. Não sabia, nem percebia o que me estava a acontecer. Era a minha cabeça, os meus braços um para cada lado, as minhas pernas abertas, mas o meu corpo não era o meu corpo. No centro do meu corpo havia uma bola enorme, um mundo cujo peso eu sentia duma maneira avassaladora, apesar de não compreender o que estava a acontecer. Esse mundo no centro de mim, em que o meu corpo se tinha transformado começou a ficar cada vez mais definido. Com essa transformação começou também a vir informação e percebi que era a esfera armilar. Mas o que faria a esfera armilar tomando conta do meu corpo?! Ficou tudo muito estranho. Comecei a sentir uma série de coisas, de sensações avassaladoras… mais e mais. Parecia que eu não ia conseguir aguentar tudo o que estava a acontecer comigo, dentro de mim, no meu eu mais profundo.
Percebi que a criança que estava dentro de mim estava relacionada com toda aquela informação que vinha do espaço, e aquela era uma maneira de me fazer entender um pouco o mundo que essa vida representava e no que se tornaria. A esfera armilar tinha um sentido muito lato, mas transmitia-me a certeza de que aquela criança que estava a sair das minhas entranhas era muito mais do que meu filho, porque era para o mundo que ele tinha vindo; era para o mundo que ele estava predestinado. Por momentos fui invadida por uma força de sentimentos que aquilo tudo envolvia, que eu achava que não ia conseguir aguentar, de tal modo que, simultaneamente, pedia a ajuda do universo para ser capaz de aceitar tudo aquilo, que ultrapassava completamente as minhas possibilidades, na minha insignificância, na minha pequenez, no meu mundo tão reduzido, onde parecia que tudo aquilo não tinha cabimento.
Na verdade, só hoje entendo tudo na perfeição. Naquela altura como eu poderia adivinhar que meu filho seria um cientista que trouxe à humanidade um benefício tão grande!? Quem poderia adivinhar? Eu reconhecia no pai uma inteligência muito fora do normal, e esse foi um dos motivos que me aproximaram dele, mas ele conseguiu ir ainda mais além. E a esfera armilar era isso que significava, tudo o que estava ainda dentro de mim: a totalidade do universo, a harmonia cósmica, a perfeição divina e a busca infinita pelo conhecimento.