terça-feira, 4 de agosto de 2026

O além - 130

 

Estamos sempre em contacto com o além. Mas o que é o além? O universo que nos rodeia e no qual estamos enfiados sem hipótese de fuga. Tudo faz parte do universo. Tudo pertence ao universo. É a nossa casa, a casa de tudo e de todos. Inclusivamente, o nosso cérebro está sempre conectado com o universo, consciente ou inconscientemente. É de lá que vem tudo: o bom e o mau, o visível e o invisível - não tem o que saber. E só por isso, não estranho nem um pouco as “mensagens” que caiem na minha mente, através da intuição, que comigo está sempre conectada e sempre em aberto. Assim, acontecem coisas que para os outros podem parecer estranhas, mas para mim são perfeitamente normais, sendo que, algumas delas considero absolutamente extraordinárias.

Um dia conheci uma pessoa de quem eu gostava muito e que também gostava de mim com a mesma intensidade. Foi muito fácil o nosso relacionamento, pois estávamos na mesma sintonia e ambos queríamos o mesmo da vida. Isso deu início a um novo episódio das nossas vidas, o que foi muito bom para ambos. Mas a vida tem seus mistérios e propósitos que nos ultrapassam. Mesmo estando em sintonia com o universo, há coisas que estão acima de nós, porque assim tem que ser, caso contrário elas não aconteceriam. Quantas vezes nos perguntamos porquê isto, porquê aquilo e as respostas nem sempre vêm porque não somos “deuses” e não temos o controle de tudo; porque existe uma coisa mais forte – o destino -, o qual é para ser cumprido, custe o que custar, doa a quem doer.

Por essa razão, estava destinado que este relacionamento acontecesse. Porém, estava escrito que teria uma duração muito breve, de apenas sete meses e isso ninguém poderia adivinhar. E durante esses sete meses foi realmente um relacionamento excepcional. De tal modo, que eu achava que não merecia uma relação assim tão boa. Nunca na minha vida me atreveria a ter sonhado com uma situação igual ou parecida. A vida não me foi propriamente fácil e nunca desejei mundos e fundos, como muita gente está sempre a querer. Sempre me considerei uma pessoa simples e jamais me antevi a sonhar ou desejar encontrar um “príncipe” que me facilitasse tanto a vida e me tratasse como ele me tratava. Estava acima de tudo o que eu poderia imaginar. E não era só como as coisas se apresentavam no presente, era ainda o futuro, a médio e longo prazo, porque ele fazia planos e mais planos. Eram viagens que se programavam, era uma casa na praia… sei lá que mais. Para mim era um sonho que eu nunca imaginei que um dia me pudesse acontecer.

Mas como o destino tinha que ser cumprido, um dia, sem que contássemos com isso, pelo menos naquela altura, um dia ele teve um problema de saúde e, no espaço de apenas uma semana, partiu para não mais voltar. É a vida. Nunca sabemos onde está o fim. Ele é certo, mas para quando? E quando se está feliz, tudo o que se quer e tudo em que se pensa é em viver, viver, viver. A vida tem seus reveses aos quais não é possível contrapormo-nos. Há que aceitar, da forma que for possível, o que nem sempre é fácil. E, neste caso, foi particularmente difícil. Até porque, nessa altura, estava certa de que não haveria mais ninguém na minha vida. Não aconteceu quando era mais nova, como naquela altura!?

Passei a minha existência toda praticamente sozinha, visto que o meu casamento durou dez anos. Aos sessenta anos conheço uma pessoa excepcional, que consegue transformar-me a vida num verdadeiro paraíso. Ao fim de sete meses subitamente parte. É duro. Foi um osso duro de roer. Fiquei mal, muito mal. O meu filho tinha regressado definitivamente de Inglaterra no dia anterior ao sucedido. Uma coincidência e tanto. Já não o viu vivo porque ele estava hospitalizado. Fui contactada pelo médico assistente por volta das sete horas da manhã. Achei que era uma brincadeira, dizerem-me que ele tinha morrido, se na noite anterior eu tinha estado no hospital e tudo estava bem encaminhado!? Não havia como entender. Mas tinha que aceitar a situação e eu, simplesmente não conseguia, não estava preparada para um choque daqueles. Valeu-me o apoio da família, porque eu não tinha condições para nada. O meu espírito planava no éter, à procura de respostas: porquê… porquê… porquê… porque assim tinha que ser! Mas eu não conseguia compreender ou aceitar. Sabia que era isso que se seguia, mas não conseguia sequer raciocinar. Toda eu estava em choque, desfeita em lágrimas: um caco, o que sobrara de mim.

Velório, funeral… um monte de gente, porque ele era uma pessoa muito conhecido profissionalmente… muita gente. Eu mal me aguentava de pé, porque não tinha forças. A minha nora de um lado e o meu filho do outro, eram eles que me aguentavam para eu não cair. O meu sofrimento era visível, física e psicologicamente. Os colegas, os amigos, chegavam ao pé de mim e eu mal os reconhecia, sem conseguir proferir uma palavra sequer. Foi muito difícil! Nunca imaginei passar por uma situação daquelas, tão sofrida e tão complicada. Eu não conseguia imaginar a minha vida a seguir o seu rumo normal, o caminho que era só meu. Estava desfeita.

Nesta confusão toda, no silêncio da minha alma, só ouvia a minha pergunta: porquê… porquê… parecia que a minha vida estava sempre num mar de tramas e de emaranhados. Como eu sairia daquela situação!? O que fazer para me reerguer e continuar a ser eu, a que era antes dele aparecer? Precisava urgentemente de respostas, respostas que não havia e que eu não tinha. Eu sabia disso, mas nem por isso a minha cabeça parava para me dar descanso. E dizia a mim mesma: foi ele que morreu, não fui eu, eu estou viva e tenho que continuar o meu caminho até onde ele me levar. Todavia, estava plenamente consciente de que não reunia forças para tal e não fazia a menor ideia de onde iria buscá-las. Estava metida num buraco sem saída.

Mas eu queria viver, pois tinha a minha neta bebé por essa altura, e queria vê-la crescer e acompanhar o seu desenvolvimento, bem como tantas outras coisas que eu ainda gostaria de fazer, embora a minha neta fosse o mais importante de tudo. Como eu iria conseguir ultrapassar isto? Como? Sentia-me perdida, arruinada. O destino tinha-me traído. Mas eu não conseguia sentir revolta, porque isso na minha ideologia não faz sentido. Tudo o que nos acontece faz parte do nosso percurso. Cada um tem o que tem que ter. Não é merecimento nem castigo. É o que é. Contudo, havia um sentimento parecido com “humilhação”, pelo que eu estava a passar: “a coitadinha”, como diziam as pessoas! Mas tinha sido ele que morreu, não eu!? Porquê “coitadinha”, se eu estava viva!? Em todo o caso, isso conseguia atingir-me. Coitadinha porque foi atingida por um golpe muito duro; porque ficou sem o seu amado, porque… porque… e isso contribuía para que eu me sentisse muito envergonhada e sem me conseguir sobrepor nem fazer frente. Parecia que todos passavam por cima de mim, fazendo-me sentir cada vez mais reles, abandonada, desprezada, castigada por algo desconhecido. Muito difícil!

E quando eu achava que não podia mais e só queria cair, sair dali para fora, para qualquer outro lugar, outra realidade, não importava qual - só que não tinha como(!?) -, quando, mais uma vez, tive consciência de que estava no limite do que podia aguentar, aconteceu uma coisa surpreendente, deveras surpreendente, e que me salvou do colapso de forma espantosa. Do além, das entrelinhas do além, surgia uma mensagem escrita com caracteres de ouro, que brilharam bem no fundo do meu coração e me trouxeram de volta a vida. É claro que por fora continuava um caco, mas por dentro a minha alma revestia-se de uma nova roupagem cheia de côr e leve, leve como uma pluma. De repente, quase tinha chegado ao céu. A minha coragem e o meu eu, conseguiam vir ao de cima e eu estava imensamente grata pela conexão divina que o universo acabava de me proporcionar. Lavada em lágrimas continuava, sim - porque não deixava de ser uma carga muito pesada -, mas maravilhada pelo acontecido. O que a mensagem me trazia era tão espantoso e não só pelo seu conteúdo, mas pela forma e pelo momento como tudo aconteceu. Uma coisa maravilhosa!

A vida espiritual nunca pára de me surpreender. Não consigo compreender como há gente que, de forma sistemática, consegue virar as costas para uma dimensão desta natureza. A vida espiritual é um maná de inteligência, de bondade, nobreza, virtude, uma infinidade de coisas do bem. Estamos sempre agraciados por ela e abrangidos por essa força que, para muitos, é completamente desconhecida, apenas porque passam ao lado e lhe viram as costas. Pelo contrário, devíamos, sim, estar sempre atentos e abertos a essa conexão. Ela existe. Ela é real.

E só por isso, uma vez mais, fui salva e resgatada do mal que me estava a sufocar. Essas palavras que acabavam de cair do céu tinham o propósito de me “salvar” e me guiar pelo caminho certo, o caminho do bem e da Paz, porque era tudo o que, no momento, eu precisava: paz. Compreendi porque tinha sido atingida. Compreendi porque me estava a sentir tão mal, ao invés de sentir bem estar a até felicidade, porque não!? Os caminhos da vida são um emaranhado de surpresas. E muitas vezes estamos em negação, apenas porque não compreendemos. Era o que estava a acontecer comigo. E era tão simples… o além convidava-me a entender aquilo que estava para além da razão. Porque as coisas não são o que parecem. Nesse exacto momento lembrei-me de uma coisa que aparentemente não tinha grande importância, mas que naquele preciso momento foi mais que relevante. A mãe dele várias vezes tinha deixado escapar o comentário “há quanto tempo o meu filho não era feliz!?” Era isso mesmo. Agora tudo estava claro.  E aquilo que pode parecer um “castigo”, um grande “golpe” da vida… e que parecia aniquilar a minha sanidade, humilhando-me até mais não, pelo´contrário, levava-me ao podium da espiritualidade, por assim dizer, porque eu simplesmente tinha sido o caminho para a felicidade de alguém que estava em fim de vida. A mensagem era um “diploma” do além, que confirmava o sucesso daquilo para que tinha sido escolhida. Pode parecer arrogância e até vaidade. Mas é tudo menos isso. É a vida a acontecer para além da matéria. E eu simplesmente, compreendi, aceitei e agradeci:

“Esse homem tinha o direito de ser feliz antes de partir. Tu eras a pessoa certa para essa missão”.

  

terça-feira, 14 de julho de 2026

Histórias - 129

 

A vida é feita de histórias. Histórias que ficam por contar. A maior parte das histórias que compõem a nossa vida muitas vezes são descartadas, simplesmente porque são “histórias”, ou seja, porque não lhes damos o verdadeiro valor.

Era uma vez uma quinta… uma quinta grande, muito bonita, muito agradável, com muitas árvores, muita vegetação, onde até havia cavalos, entre outros animais. Nessa quinta passava uma ribeira, o que tornava tudo ainda mais bonito. E havia um casarão onde morava uma família. E… aqui… começa a história.

Um dia, a filha da dona da quinta telefona à sua manicure preferida para lhe ir arranjar as unhas, caso fosse possível. Ela já não morava ali, desde que se casara. Em todo o caso, de vez em quando, ia à quinta onde cresceu, para estar com a família. Josy aceitou de imediato, até porque, no momento, estava sem o seu salão e à procura de trabalho. Por outro lado, as duas, mãe e filha eram muito simpáticas e Josy tinha por ambas uma grande estima. E combinam para o dia seguinte, na quinta, onde Maria Rosa estará à sua espera.

Mas, nessa noite Josy teve um sonho. E ao acordar, tendo tomado consciência do sonho, acha estranho. O sonho era com a jovem da quinta que lhe tinha telefonado no dia anterior e com quem se ia encontrar naquele mesmo dia para lhe fazer as unhas. Foi só um sonho que a surpreendeu ao acordar, mas que ela, de imediato, pôs para trás das costas. O sonho era lindo, mas era só um sonho e ela nem compreendia porque razão o subconsciente tinha ido buscar tal coisa. Por isso não pensou mais no assunto.

Na hora certa, dirige-se ao local onde tinham combinado encontrar-se. À sua chegada, avista a jovem envolta em toda aquela frescura, por entre os ramos das árvores, num quadro muito bonito. De repente, reconhece imediatamente a visão. Ela sonhou com aquela imagem nessa mesma noite. No sonho, tinha visto Maria Rosa, tal qual ela se apresentava naquele momento, enquadrada numa belíssima moldura da natureza. E para ela é surpreendente o que está a acontecer, uma vez que tinha sonhado precisamente com o que os seus olhos agora viam. Os olhos da alma também veem e como!? E acha realmente espantoso que os olhos da alma tenham visto o que os olhos físicos estavam agora a ver: uma e a mesma coisa.

Quando chega ao pé de Maria Rosa, logo se apercebe que esta está grávida. Grávida!?... E a estranheza continua, porque no sonho ela realmente vê a jovem grávida. Porquê, é a pergunta que não quer calar. Porque, segundo Josy, ela nem sequer era sua amiga ou dos seus círculos de amizade. Apenas lhe fazia as unhas quando solicitada. Porém, há um pequeno pormenor, que talvez explique um pouco a situação: Josy admite que, sem saber porquê, sempre teve um grande afecto, uma grande ligação por Maria Rosa; porque ela era muito querida e desde o início teve um lugar muito especial no seu coração. Não tinha como explicar, mas ela amava aquela menina.

Ao chegar perto, a sensação de estranheza de toda a situação continua a manifestar-se. É a certeza daquela ligação inexplicável que sente pela jovem, o bem estar que ela lhe passa; é a beleza de toda a aura que a envolve; é uma série de sensações e sentimentos que as palavras não têm como explicar. Maria Rosa é bonita e doce, mas é muito mais do que isso. Josy sente-se até emocionada pelo que admite sentir, porque acha tudo inexplicável. Mas é o que é.

Josy é uma brasileira casada com um português e já está em Portugal há bastante tempo. O marido está a trabalhar em Angola, pelo que, de vez em quando, ela vai até lá passar uns tempos com ele. E por ser Brasileira, também, sempre que pode, vai ao Brasil estar com a família: os filhos, os netos e a mãe. O pai, que na verdade era seu padrasto, tinha morrido há pouco mais de um ano, o que, estranhamente, deixara Josy de rastos, completamente. Todos morremos um dia… mais cedo ou mais tarde. E dizemos que a ordem natural das coisas é os pais morrerem mais cedo que os filhos. Mas nem sempre assim é. Neste caso foi. Porém, Josy teve muita dificuldade em aceitar a sua morte. A sua relação com o pai, segundo ela, era muito boa. Ela amava demais o pai que, em boa verdade, não era o seu pai de sangue. Mas foi o homem que a criou, que ela sempre conheceu como seu pai e com quem teve uma relação muito chegada e muito bonita.

Então, quando recebeu a notícia de que seu pai tinha falecido, ficou num estado deplorável e inconsolável, sem comer, sem dormir, chorando de forma quase histérica… uma coisa inexplicável, porque Josy também já não era propriamente criança, já era avó e a vida vai acontecendo como tem que acontecer e há coisas que são difíceis de aceitar, mas é sabido que mais dia, menos dia, elas acontecem. Por isso, foi difícil entender o porquê de tamanha agitação com a morte do pai. Não batia muito certo. Em todo o caso, cada um é como é e temos que aceitar os outros como são. O tempo faria o seu trabalho, com certeza.

Pode dizer-se que situação análoga se passava com Maria Rosa, pelo sentimento que Josy transportava dentro do seu coração por aquela jovem que apenas via de vez em quando, não fazendo muito sentido, à primeira vista, um sentimento assim tão forte por ela!? Mas há coisas que a razão desconhece. Essa é que é a verdade.

Agora, Josy estava junto de Maria Rosa, admirando a sua barriguinha redonda da gravidez, passando carinhosamente a sua mão, ao mesmo tempo que a felicitava pelo acontecimento, enquanto Maria Rosa agradecia feliz e contente do seu estado maternal.

E, enquanto Josy, no seu subconsciente, continuava admiradíssima, porque espantada com tudo aquilo, lembrando o facto de ter sonhado com aquela situação tal qual ela se apresentava, sempre pensando no porquê… porquê sonhar com Maria Rosa e ainda por cima grávida; porquê aquela premonição com alguém que ela só via de tempos em tempos, não havendo uma ligação mais justificativa? Contudo, e apesar dessa espaçosa ligação no tempo, digamos assim, era certo e ela tinha plena consciência de que algo acima disso de sobrepunha, ou seja, a ligação com Maria Rosa era muito forte a nível sentimental, sem dúvida nenhuma e talvez isso fosse muito mais importante?!... Mistérios da vida.

Foi então que, conversando uma com a outra, Maria Rosa explicou que estava no final da gravidez. Era um menino e… e aqui o puzzle fechou. Fechou porque, na cabeça de Josy, repentinamente, tudo se encaixou. Embora as perguntas continuassem, havia uma resposta que falava mais alto do que tudo, bem mais alto… vinda não se sabe donde… do campo holístico… do universo infinito, que muita gente não consegue aceitar, pelo facto de sair fora da nossa realidade, da nossa dimensão, mas que é a única verdade verdadeira, porque é quando o Todo é maior do que a soma das partes… e não há como contestar, negar, enfim, apenas uma imensa capacidade para aceitar, o que para muitos também não é fácil.

Calma, tranquila e feliz, Maria Rosa falou na sua voz serena e doce, que o menino que estava em fim de gestação, seu filho, se chamaria Francisco.

Agora sim, estava tudo explicado e não precisava de mais respostas, porque a chave tinha aberto a caixinha das surpresas, da maneira mais bela e imaginária possível. Josy, sim, extava extasiada e encantada; sem fala, quase engasgada por ter sido apanhada com tamanha surpresa e maravilhada como nunca. Fez-se luz e era como estar numa “terra” que lhe era totalmente desconhecida, mas que a fazia sentir no sétimo céu.

Seu pai ou padrasto, não importa, de nome Francisco, o pai que ela amava mais que muito, estava de volta, através do processo de reencarnação, o qual tinha sido anunciado através do sonho. Ali, bem na sua frente. E, então, tudo agora se encaixava, fazendo sentido, no que estava plenamente agradecida à vida. 

 

domingo, 7 de dezembro de 2025

O último encontro - 128

 

Udo! Günther!... Günther, Udu!... Gritávamos nós que nem umas loucas, num dia maravilhoso do verão quase a terminar.

Naquele domingo, a paróquia da igreja tinha organizado um passeio com paragem no Cabo da Roca e só por isso estávamos ali. Podíamos ter ido a outro sítio qualquer, pois a nós tanto fazia. O importante era sairmos de casa, desopilar, sendo que a única possibilidade era aproveitarmos aquelas coisas promovidas pela igreja. Até porque as únicas saídas que nos eram permitidas era ir à igreja e pouco ou nada mais. Quantas vezes saía para dar uma volta pela baixa de Setúbal, onde vivíamos, e me via obrigada a entrar na igreja, para não ter que mentir, coisa para a qual não fui feita.

Foi por isso que aproveitámos aquele passeio. A minha irmã em breve voltaria para o colégio, onde era interna e eu para o meu trabalho, no Ministério, em Lisboa. Aquele passeio tinha vindo numa boa hora. Precisávamos de respirar um ambiente diferente e ali vinha mesmo a calhar. Olhei o mar na linha do horizonte e nesse olhar meio perdido no infinito, o espírito mergulhado nas águas, as saudades tomaram conta de mim. Aquele céu azul e toda a paisagem à volta, mexeram comigo de verdade.

O grupo começou a dispersar um pouco e acabámos por ficar só nós duas, apreciando a paisagem e tudo à volta. Era a nossa possível liberdade. Mas havia uma angustiazinha dentro de nós, que não queria calar e muito menos esquecer as férias que tínhamos tido. Ali, naquele lugar, tudo ficava mais forte, mais ao de cima e, de repente, num impulso inexplicável, comecei aos gritos, a que logo a minha se irmã se juntou: “Udo! … Günther …!” E repetíamos até ficarmos exaustas com a gritaria que estávamos fazendo. Parecíamos loucas.

As nossas férias tinham sido uma coisa muito fora do normal. Passámos três semanas em casa dos meus tios, que viviam em Beja, e foram umas férias inesquecíveis, coisa que jamais poderíamos imaginar. Estávamos habituadas a estar com a avó e os outros tios, que nos proibiam tudo e mais alguma coisa. Naquele ano a família despachou-nos para Beja. E fomos, porque tínhamos que obedecer, só por isso. No entanto, depois de lá estarmos, o difícil foi ter que voltar à base, isto é, voltar para casa da família.

Em Beja não havia como ir à praia, aquilo a que estávamos habituadas a fazer todo o Verão. Então, os meus tios, disseram-nos para irmos à piscina. Como não havia alternativa, o que equivalia a ficar em casa, lá fomos nós à piscina. Era uma bela piscina, por sinal. Só isso, para nós, já era muito bom. A minha irmã tinha dezasseis anos e eu dezanove. A experiência que tínhamos da vida era zero. Qualquer coisa que fosse diferente do habitual já era muito bom para nós. E foi aí que tudo aconteceu.

As piscinas estavam praticamente tomadas pelos alemães, que nessa altura ocupavam a base aérea alemã, sendo que, nos tempos livres, iam para as piscinas e por lá ficavam o tempo todo, até à hora dos treinos, porque também não havia mais para onde ir - essa é a verdade. Duas garotas portuguesas na piscina, logo fomos alvo das atenções deles, ávidos de companhia feminina, apesar de que alguns deles, os mais velhos, tinham consigo as respectivas mulheres. Eles eram muito simpáticos e gentis connosco. Na sua maioria falavam inglês, pelo que a nossa comunicação só assim foi possível.

Falávamos com todos. Ríamos, brincávamos, trocávamos ideias, impressões, enfim… as conversas fluíam muito naturalmente e eles ofereciam-nos tudo e mais alguma coisa, apesar de apenas bebermos água e sumos. E foi assim que um deles logo se encantou com a minha irmã, o Günther, que era um típico alemão, por ser louro e de olhos azuis. Já eu, que sempre gostei de morenos, fui atraída para um diferente de todos os outros. Udo era alto, magro, bem constituído e moreno de olhos escuros. Esse era sem dúvida o meu preferido.

Apercebendo-se de que havia da nossa parte uma certa reciprocidade no jeito de tratar e de lidar com eles, porque era visível que havia uma conexão mais forte com estes dois do que com todos os outros, começaram a convidar-nos para sair à noite. Günther era piloto e Udo, técnico. Os dois trabalhavam sempre em equipa. E começámos a sair com eles à noite. Não havia nada de interessante em Beja, por isso passeávamos pela cidade. Nesses passeios começou o namoro de Günther com a minha irmã e o Udo comigo. Como já disse, nós não tínhamos experiência de vida. Tudo nos era proibido. Contudo, ali, os meus tios davam-nos carta branca e diziam que éramos jovens e tínhamos que aproveitar a vida. Quando eles nos iam deixar em casa, nas noites bem quentes do verão em Beja, em que os meus tios ficavam longas horas na varanda, por não conseguirem dormir com o calor, quando nos viam chegar, normalmente por volta das onze e tal, meia noite, lá de cima, diziam-nos sempre que ainda era cedo para irmos para casa e que devíamos aproveitar para passear mais.

Isto para nós era muito estranho. Não estávamos nem um pouco habituadas a este tipo de comportamento por parte da família. Tudo o que fazíamos era mal feito e passavam a vida a ralhar connosco por tudo e por nada. Ali, além de não termos nada disso, ainda nos estimulavam a fazer mais, dando-nos toda a liberdade possível. Era uma sensação e tanto e só por isso estávamos muito agradecidas.

Então, se os dias eram bem passados, as noites, essas eram magníficas. Fazíamos o que nunca jamais tínhamos feito, nem pensado que podíamos fazer. Eles levavam-nos à base alemã, a um bar enorme repleto de alemães, homens e mulheres, onde se convivia tomando umas bebidas ao som da música. Até hoje me lembro de um licor de ovo que um deles me deu a provar, porque eu não bebia álcool e que era divinal. Estar com eles era realmente maravilhoso. Uma sensação incrível de liberdade. Mas liberdade em segurança. Todos se queriam juntar a nós para conhecer as duas portuguesas que estavam com Günther e Udo.

Quando passeávamos à noite pela cidade, Gunther e a minha irmã eram um pouco chamativos para o meu gosto. Os dois tinham muito fogo e não tinham vergonha. Já eu era bem mais reservada e limitava-me a andar de mão dada com Udo. Por isso, chegava sempre uma altura em que ele não aguentava mais e pegava em mim ao colo, rodopiando, enquanto eu dizia “oh, no, no, no…” mas ele não se importava e como era alto e tinha bom físico, elevava-me para o alto, dizendo “Lilly, night is beutiful, stars are beautiful, but you are more beautuful”… deixando-me completamente sem palavras, sem fôlego, envergonhada, tímida, mas feliz, feliz até mais não. Caramba, nunca ninguém me tinha dito nem feito nada daquilo. E nunca pensei que alguém alguma vez o fizesse, porque eu achava que era feia, que ninguém ia gostar de mim e aquele homem lindo de morrer, abrir-se e agir assim comigo, era uma coisa muito louca. Era uma versão da minha pessoa que eu desconhecia completamente.

Uns dias antes de regressarmos, porque as férias estavam a acabar e eu tinha que voltar ao trabalho, estávamos a ficar meio tristes, porque aqueles belos dias estavam a chegar ao fim. Sem mais nem menos, Udo perguntou-me se eu queria casar com ele e ir para Alemanha. Caramba! Não estava nada à espera daquilo. Apanhou-me completamente de surpresa. Mas logo lhe respondi que isso não podia ser. Ele ainda insistiu dizendo para pensar nisso. Só que eu sabia que ir para a Alemanha era um grande risco. Se as coisas não dessem certo e eu tivesse filhos, como ia ser? Se quisesse voltar para Portugal, como ficaria a minha situação sem o ou os meus filhos? Além de que teria que arranjar emprego, porque viver à custa dos outros não era possível. Enfim, era muito, muito complicado. Sonhar, sim, mas fazer loucuras não. E o tempo acabou e tivemos que regressar à base. O curioso é que eles também já não iriam ter muito mais tempo na base aérea em Portugal. O tempo deles também estava a terminar, o que me fazia pensar que o nosso caminho, o nosso encontro, estava escrito nas estrelas.

A vida voltaria à rotina e restavam-nos apenas as saudades dos alemães, que tinham tornado as nossas férias numa verdadeira festa, pela forma como nos trataram. Agora, ali, perante o mar e o céu azul, gritávamos os nomes deles feitas parvas, dando voz às nossas frustrações, com o pensamento centrado neles, num grito saído das profundezas das nossas almas, demostrando o quanto eles tinham sido importantes para nós e com plena consciência da profunda saudade que já marcava o álbum das nossas recordações, era certo que não nos tornaríamos a ver e era por isso que não nos conformávamos. Era difícil ter que aceitar isso. Mas era o que era. A vida!

Longe do resto do grupo, afastadas de toda a gente, começámos a caminhar em direcção ao mar, onde havia um monte gente. Perto do mar, afogaríamos as nossas mágoas, sem esquecer que era apenas o resultado de algo muito bom que tínhamos vivido. A vida é estranha!? E os caminhos por onde passamos e nos cruzamos, ainda mais estranhos. O universo dá voltas e mais voltas. E nesses estranhos caminhos, que só mesmo o universo conhece e tem a palavra, caminhando para perto da água, há dois homens que, lá em baixo, levantam os braços na nossa direcção, começando a dirigir-se para onde estamos. Na mais pura ingenuidade, imaginámos que seriam eles, conscientes de que tal coisa seria o mais improvável possível. Na nossa cabeça, sabíamos que era completamente irracional. E eles gritavam qualquer coisa que não conseguíamos entender. Então parámos, porque a coisa estava a ficar estranha e não queríamos complicações. Mas o universo já tinha feito o seu trabalho e também ele tinha dado os seus passos.

E assim, no lugar mais improvável do mundo, perante a nossa - e deles - máxima consternação, sem palavras que pudessem descrever o nosso espanto e a quanta “coincidência” o ser humano está sujeito, Udo e Günther, em pessoa, eles mesmos, num perfeito e último encontro.

 

sábado, 1 de novembro de 2025

Um dia diferente - 127

 

Vinte e oito de Abril de dois mil e vinte cinco, um dia diferente, um dia memorável. Um dia de sol, com uma temperatura excelente. Os cafés abertos e cheios de gente animada, por sinal. Quem havia de dizer que este dia chegaria!? Um enorme desafio, sem dúvida. Alguns estavam calmos, outros nem tanto. Talvez meio desorientados, sem saber o que fazer. Por isso, o convívio nos cafés, porque não?!

Eu tinha ido para a universidade sénior, onde as coisas decorreram normalmente. No regresso, pouco depois das onze, pelo caminho, aproveitei para ligar a uma vizinha e amiga, colega da universidade, que nesse dia não tinha ido. Liguei, mas ao segundo ou terceiro toque, a chamada desapareceu, simplesmente. Voltei a ligar e aconteceu exatamente o mesmo. Não achei estranho. Pensei que talvez ela estivesse num sítio sem rede. No elevador, por exemplo. Precisava de ir à Farmácia, mas primeiro tinha que ir a casa buscar a receita.

Ao chegar a casa, estacionei o carro e dirigi-me ao meu prédio. Logo aí, cruzei-me com um jovem casal, meus vizinhos que, sem mais nem menos, me informaram que não havia luz. Não havia luz? Ok, ela voltaria, pensei. Mas eles prosseguiram, dizendo “não há luz em toda a Póvoa”. Ok, continuei a pensar, ela virá quando tiver que vir. Qualquer coisa que aconteceu e pronto. Mas os meus vizinhos continuavam “não se sabe quando virá”. E percebi que a falta de luz estava a incomodá-los, o que não combinava nada com eles, que são bem descontraídos, um pouco demais para o meu gosto.

Fui a casa pegar a receita e tive que subir e descer as escadas, pela falta de elevadores, pensando na falta que faz a luz. Já na Farmácia, alguém falou que estavam sem luz. Aí já comecei a entrar na realidade e a perceber que alguma coisa de maior se passava. Contudo, não me detive demasiado com esse assunto. Saí e do lado de fora da Farmácia, estava uma mulher sentada no lancil, que tinha ouvido a conversa no interior da Farmácia e à minha passagem resolveu continuar o assunto que vinha lá de dentro, sobre a falta de luz, começando a falar para mim, para eu ouvir e ficar esclarecida, porque lhe deve ter parecido que eu não estava nem um pouco a perceber o que se estava a passar, no que não estava enganada.

Dizia “não há eletricidade na Póvoa, nem em Lisboa, nem em todo o país. Mas Espanha e França também não têm. E parece que há mais…”

Eu, que não estava nem aí para uma coisas dessas proporções, apesar do que os outros tinham falado e que não levei muito em conta, parei para olhar bem para ela, pensando no que ela acabava de me transmitir. Agora percebia o estado dela, o ar indiferente e a posição meio alheada de tudo. Não há luz, não posso fazer nada. Desinteressada, por assim dizer. Parecia que se tinha posto de parte em relação a tudo, à vida, ao seu mundo. O seu mundo estava como que submerso na escuridão, digamos. Falava comigo como se estivesse a lamentar-se para si mesma e passava a mensagem para mim, para que eu ficasse contagiada do mesmo jeito que ela.

Eu ouvia o que ela dizia, estudando a sua postura de “abandonada” pela sorte, pensando, vou para casa e não há luz… é… é chato, muito chato. Mas o que se há de fazer? Estamos todos na mesmíssima situação! Na minha cabeça imaginava a extensão do problema, uma vez que ela tinha mencionado já três países. Mas seria aquilo verdade?

E a mulher continuava “e não se sabe quando virá… parece que foi pirataria. Provavelmente um ataque terrorista… agora vamos ficar assim uma semana no mínimo…, mas pode levar mais tempo…” … …

Naquele momento, depois de ouvir tudo o que ela despejou, os meus sensores deram imediatamente sinal. Tudo bem, que podia ter sido um apagão com a dimensão que ela estava a dar. Mas, independentemente da origem que teve, não íamos ficar sem luz todo esse tempo. Era inadmissível uma coisa dessas. Tanta coisa dependente disso!? Mas… e se ela estivesse certa?!...

Queria sair dali para me informar, para saber o que se estava a passar de facto, mas, nem ela terminava a conversa, nem eu conseguia conciliar o pensamento porque, ir para casa, claro, tinha que ir mesmo, mas sem luz, não havia televisão e, portanto, não havia como saber notícias fidedignas. Que fazer?

A mulher, que continuava aparentemente a falar comigo, mas que, na verdade, falava com ela própria - porque aquilo era um lamento, um queixume, a maneira como ela estava a interiorizar o acontecimento - focava-se sobretudo no tempo que o apagão, como ela dizia, iria demorar. Uma semana no mínimo. Comecei a pensar nas proporções de um alarme daquela natureza e, de repente, parecia que a vida se tinha virado de cabeça para baixo. Sim, ela estava a conseguir passar para mim toda a angústia em que estava mergulhada.

Uma semana era muito tempo … tempo demais, o que não podia ser. Um dia já era muito! Parecia que não íamos poder sobreviver. E quando estava a ficar no auge das minhas emoções, antevejo uma onda de retrocesso, que começa a chegar até mim, contrariando toda aquela ansiedade motivada pela notícia desastrosa. Enquanto a mulher continuava a insistir no tempo, “uma semana, ou até duas semanas, não se sabe quanto irá durar” … eis que aquela onda de informação começa a descodificar-se, para me trazer a notícia, a boa notícia de que, no máximo, naquele mesmo dia à noite, a luz chegaria a nossas casas. Caso contrário, na manhã do dia seguinte, tudo estaria resolvido, o que quer que tenha acontecido. E tudo voltaria à normalidade.

Fiquei então bem mais tranquila e apetecia-me dizer-lhe, “não, olhe que não, posso dizer-lhe que hoje mesmo as coisas se resolvem e o mais tardar amanhã de manhã tudo estará normalizado”, mas não fui capaz. Não fui mesmo. Aquilo era uma informação minha, muito minha, que a minha intuição tinha conseguido acessar. A minha conexão com o cosmos é uma coisa muito minha e os outros não têm que aceitar e nem compreender. Se eu lhe tivesse dito alguma coisa, talvez ela pensasse que eu era doida. Por isso abstive-me e muito educadamente me recolhi, afastando-me dela calma e tranquilamente, para ir para o carro.

Cheguei a casa meio perdida com tudo o que estava a acontecer. Comecei a pensar nas consequências, coisas grandes e coisas pequenas, como: ficar fechado num elevador(!?) Enfim… a situação era delicada. Contudo, a minha cabeça continuava a dizer para não me preocupar, porque a luz chegaria às nossas casas naquele mesmo dia à noite. Estaria eu a sonhar? Não estava. Eu sabia e tinha plena consciência da veracidade da minha mensagem, vinda diretamente do cosmos. Todos estamos ligados, essa é a questão que muitos ainda esquecem, ignoram ou descartam. Para mim, isso faz todo o sentido, por isso me situo nessa dimensão. Não é nada demais. Isso, do meu ponto de vista. E se estamos todos ligados, o ponto de encontro será o universo.



sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Mistérios - 126

 

A vida tem tanta coisa para a qual não temos resposta! Nestes casos, o mais sensato é ter uma atitude positiva e encarar os factos tal como são, sem demandas, sem questões, para que tudo se torne o mais normal possível. Foi o que fiz a partir de um certo ponto da minha vida, que já vai longa e, assim, as estranhezas deixaram de ser estranhas para passarem a ser simplesmente o que são.

Passei a vida toda praticamente sozinha, posto que o meu primeiro casamento durou apenas doze anos. E aos trinta e seis anos, eu estava novamente sozinha, como estava antes de me casar. Só que agora tinha um filho.

Por isso, posso dizer com toda a verdade, que fiz a vida sozinha. Aos sessenta anos encontrei uma pessoa excepcional, com quem vivi apenas sete meses, pura e simplesmente porque, repentinamente, ele se foi, para não mais voltar. Se existe algo que não têm volta é a morte.

Passaram-se doze anos desde esse acontecimento trágico que, na altura me deixou de rastos, e eu já estava com a vida organizada, sozinha, mas com um projecto pela frente, para ter uma rotina normal, por assim dizer, com a minha cabeça equilibrada e emocionalmente estável, enraizada na realidade do dia a dia, em que ninguém sabe o que vem a seguir e o mais correto é focar-se no presente, aqui e agora, e quando eu pensava em mim, na minha vida, eu tinha a certeza absoluta de que daí para a frente seria sempre sozinha. Não me imaginava nem queria mais ninguém comigo. Não, não era aceitável, não fazia sentido, não havia porque pensar numa coisa dessas, era isso que eu sentia. Era assim que eu queria estar e ficar.

Tinha amigas da minha idade que ainda sonhavam em encontrar o tal do príncipe encantado, mas eu, como nunca tive essa fantasia, nem a queria para mim, não era agora que ia pensar numa coisa dessa natureza. Sempre fui muito terra-a-terra, nunca vi o casamento ou uma relação a dois, nessa perspectiva, por isso não era aos setenta anos que isso ia acontecer, de certeza absoluta. Isso era mais do que certo. Só que, a dada altura começaram a acontecer umas coisas bem estranhas.

Uma noite, depois de ter estado a arrumar umas roupas no meu quarto, sentei-me na cama a arranjar as almofadas para me deitar. E na altura em que me vou deitar na cama apercebo-me de que há uma energia masculina de pé, do lado direito, junto à mesa de cabeceira e bem em frente à janela. Era a figura de um homem alto, magro, despido, que desapareceu imediatamente, após confirmação da minha visualização. Achei estranho, mas eu vi e sei o que vi. Não inventei, não imaginei, não sonhei… enfim. As tais coisas estranhas que não têm explicação. Mistério!

O mais estranho nisto é que eu sabia que não era a visão de uma alma, ou seja, de alguém que já não estivesse entre nós. Era a energia muito precisa, por sinal, de alguém que, definitivamente, eu não conhecia, não fazia a menor ideia de quem era, mas que estava vivo, bem vivo. Estava ali, despido, indo-se deitar comigo, com todo o à vontade. Estranho!? A que propósito? Não tinha mesmo resposta para uma coisa daquelas. Por isso, decidi descartar e deitar-me para dormir, sem pensar mais no assunto.

De facto, não pensei mais naquilo. Eu não pensei mais naquilo, mas “aquilo” pensou em mim. Uns dois ou três dias depois, de manhã, depois de ter vindo da casa de banho, com o banho tomado e o corpo enxuto, vou para o quarto para me vestir e novamente aquela visão me surpreende. Lembrei-me imediatamente de a ter visto no outro dia à noite, mas agora era manhã e ali estava novamente a mesma figura enigmática, exactamente igual, despido, e agora passava aos pés da cama. Fiquei parada, a olhar e a pensar comigo mesma, mas quem é esta criatura, este homem que passeia pela minha casa, mais precisamente pelo meu quarto, sem roupa, o que me dizia que era alguém com quem eu teria intimidade, alguém que estava na minha vida, instalado no meu caminho e partilhando a vida comigo!? Era deveras curioso, estranho… todas as perguntas apareciam sem que houvesse a mais pequena possibilidade de lhes dar respostas. Mas, mais uma vez eu decidi descartar, porque não sabia o que fazer com aquela informação vinda do além, do campo holístico, que não pára de me surpreender.

Era a segunda vez que eu via aquela imagem. Era a segunda vez que aquela mensagem me era dirigida. E o que é que eu poderia fazer em relação àquilo? Nada. Estava bem definido na minha cabeça e não só, que eu não seria capaz de voltar a ter um relacionamento. Além disso, aquela visão, mostrava-me que era um relacionamento com bases muito sólidas, e não uma coisa passageira. Mas como? Donde viria aquela criatura e como iria parar à minha vida? Era mesmo estranho! A meu ver, não tinha a mais pequena possibilidade de isso acontecer. Até porque, para que tal acontecesse, era preciso que eu quisesse e eu não queria, de jeito nenhum. Enfim, não ia matar a minha cabeça com um mistério daqueles. Talvez fossem mesmo maluquices minhas e eu não estivesse a ver a coisa como devia.

Passaram-se mais uns dias. Não pensei no assunto. Fiz questão de pôr de parte e seguir o meu caminho. Talvez uma semana mais tarde, novamente à noite, na hora de me deitar, fui atraída pela figura que passava da casa de banho para o quarto, indo na minha frente. E foi então que tive a certeza absoluta de que, num espaço de tempo relativamente curto, a minha vida mudaria por completo. Num futuro muito próximo, eu iria conhecer o meu companheiro, o meu futuro marido. E senti-me obrigada a aceitar aquela notícia, porque ela fazia parte do meu destino, do percurso da minha vida. Não havia escolha. Eu estava simplesmente a ser notificada da reviravolta que a minha vida levaria.

Sentei-me na cama olhando para o lugar onde o tinha acabado de ver, a tentar assimilar e digerir aquilo. Como era possível? Eu sabia que não ia aparecer mais, porque estava tudo dito e não havia mais nada a revelar. Antes, eu compreendia o que tinha visto, mas parecia que não queria aceitar. Agora, porém, eu tinha acabado de perceber que era algo que estava acima do meu querer. Era algo que estava registado no Akasha e não tinha como ser eliminado ou ignorado. O universo fizera chegar até mim uma espécie de ordem comandada pelo cosmos. E ponto final.

A partir daí, sim, eu pensava naquilo, como aconteceria, que voltas eu daria para ir naquele sentido. Ou que voltas a vida daria para pôr aquela pessoa no meu caminho. Todavia, não valia a pena ficar mergulhada naquele assunto, porque não era nada que estivesse ao meu alcance. Era coisa do destino. Eu saberia quando chegasse o momento. A própria vida se encarregaria de fazer acontecer as coisas.

Os dias passaram, as semanas foram correndo, uma após outra e um mês e outro e um dia… sem mais nem menos… as coisas aconteceram e no dia vinte e cinco de Outubro de dois mil e vinte e quatro eu estava de aliança no dedo. Nunca pensei, sinceramente. O homem que mudou radicalmente a minha maneira de pensar em relação à vida. De repente, aquela “visão” de uma energia que aparecia no meu quarto, deixou de ser apenas uma energia, para ser um ser completo, de corpo e alma. Aos setenta e dois anos, perfeitamente consciente do que tinha feito, do passo que tinha dado, eu estava novamente casada, pela segunda vez. Mistérios!...



terça-feira, 7 de outubro de 2025

O pacto - 125

 

Meu filho amado acabava de chegar a este mundo. O médico arrancou-o de mim para o entregar a uma enfermeira que, após os devidos cuidados, o colocou no berço. Enquanto isso, eu penava por conta da placenta, que não queria sair de jeito nenhum. E o médio dizia: “não havia como perder esta criança”. É que a placenta se desfazia nas mãos dele e foi preciso muita perícia para não deixar nada, caso contrário, eu poderia ter uma infecção. Mas a experiência dele conseguiu levar tudo a bom termo. Por isso, só agora eu olhava o meu bebé, pela primeira vez, com olhos de ver.

Pensava em tudo o que tinha feito para chegar àquele momento, que não tinha sido pouco. Tudo fora planeado com todo o rigor. Desde muito nova que queria ser mãe. E esse desejo foi crescendo comigo, com uma força muito grande. Tudo fora planeado ao mais pequeno detalhe. Não posso por isso dizer que “aconteceu”. Não, não foi nada disso. Ser mãe, para mim, era determinante. Posso dizê-lo de outra forma e talvez se compreenda melhor: eu sempre soube que um dia seria mãe. Eu sabia que isso estava no meu caminho. Mas também sabia que só aconteceria na altura certa. Podia até ter mais do que um filho, mas um, pelo menos, eu sabia que ia ter.

Todos os rapazes que conhecia não me diziam nada. No primeiro olhar, ficava logo a saber que não era aquele. Às vezes chegava a duvidar da possibilidade de encontrar essa pessoa, porque também não tinha como descrevê-la. Mas eu olhava e era como se estivesse escrito no rosto, na testa, que não era aquele. Não foi fácil. Até que fui para os Açores, ilha de S. Miguel e pouco tempo depois de lá estar, conheci alguém, meu colega de trabalho, a quem, prestando um pouco de atenção, ao contrário de todos os outros, olhando para ele, percebi que era o tal, o pai do meu filho. Não me enganei.

Eu tinha essa enorme vontade, esse desejo muito forte, de ver como seria um filho meu. Um filho saído das minhas entranhas. Uma continuação de mim mesma, por assim dizer. Mas para isso eu teria que encontrar a tal pessoa, que eu também não sabia como seria. Mas uma coisa era certa, quando ele cruzasse o meu caminho eu identificá-lo-ia de imediato.

Foi então que fiquei a saber que tinha chegado a hora. Incrível! As coisas que a gente sabe, sem saber que sabe. A minha vida nunca mais seria a mesma, mas era o que eu tinha decidido, ou melhor, o que me estava destinado.

Eu sabia exatamente quando tinha sido concebido: o dia a hora, o local… tudo na perfeição. Quando fui ao médico foi só para confirmar, porque assim que a menstruação faltou, senti logo a transformação interior no meu corpo. Tudo em mim me dizia que estava grávida. Depois, foi tudo devidamente acautelado. Para isso deixámos os Açores, voltando para o Continente, a fim de poder ter uma gravidez devidamente assistida e ter o meu filho com toda a segurança possível. E assim foi.

Curiosamente, eu conectava-me com ele, com o seu espírito, e pedia-lhe para que viesse a este mundo, de manhã, quando eu estava cheia de força e energia, mas não muito cedo, para poder dormir o suficiente e ter um parto o mais natural possível. Pedia-lhe que não viesse à noite para não estar cansada e alguma coisa dar errado. O certo é que a nossa conexão foi tão perfeita, que ele nasceu às 09,50. E não foi por um acaso. Foi assim, porque foi o nosso acordo. Tudo foi calculado e programado com vista a ser muito bem sucedido.

E aí estava eu, com aquela criaturinha desconhecida, acabado de nascer, de dois quilos, novecentos e cinquenta, com cinquenta e três centímetros de comprimento, pensando para comigo mesmo: finalmente chegou.

Foi então que tive a noção de que a minha vida nunca mais seria a mesma. Isso era certo. Mas eu tinha conseguido ter o meu amado filho. Amado e desejado, sim. E aí estava ele. Aquela criança passaria a ditar tudo, porque estaria sempre em primeiro lugar. Daí para a frente eu nunca mais seria só eu. Estaríamos sempre, sempre, juntos. A minha liberdade esvaía-se literalmente e totalmente, para ser preenchida por outro ser, o meu pequenino. Isso assustava-me um pouco, porque sempre prezei a minha liberdade, na qual só eu mandava e fazia apenas o que eu queria, sem ninguém a dar-me ordens, o que nunca permiti nem tolerei.

Aí estava ele, a comandar e a preencher a minha vida a cem por cento. Não deixava de ser um pouco estranho, um pouco constrangedor. Nunca mais iria ter um tempo só para mim. Tudo seria por conta dele. A minha cabeça debatia-se em silêncio com essa nova situação, que me dava um certo medo. Estaria eu preparada para isso, depois de tudo o que tinha planeado para chegar àquele momento? A dúvida pairava duma maneira avassaladora, porque percebia que não havia volta a dar, nem como recuar. E se eu não for capaz(!?) era o que martelava na minha cabeça.

Foi então que aconteceu uma coisa inusitada e de tal modo extraordinária, que não há palavras que possam descrever fidedignamente tal coisa. Vou apenas fazer uma tentativa. Aquele ser minúsculo, enfiado nas suas roupinhas de recém-nascido, ali na minha cama, enquanto eu estava sentada a seu lado, não sei como, virou o rostinho na minha direção, como que me olhando nos olhos, ainda meio fechados, deixando passar esta mensagem:

“Mãe, eu preciso de ti. Eu preciso de ti para crescer e para ser um homem. Preciso do teu apoio, da tua ajuda em tudo, para chegar onde quero. Só posso contar contigo. Só te tenho a ti. Tu vais-me ajudar?” Eu preciso de ti!”

Que loucura, pensava eu?  Primeiro achei que estava a sonhar, a inventar ou a fantasiar!?... Mas não, não era nada disso. A cabecinha dele tinha-se virado de frente para mim, ao encontro do meu rosto, o que me tinha deixado completamente sem chão. E logo, logo, aquela mensagem tocou no mais fundo da minha alma, bem dentro do meu coração, fazendo com que eu não tivesse a mais pequena possibilidade de duvidar que era a sua voz interior, do meu amado filho… e sem pensar em mais nada e sem me fazer esperar, ali, na presença dele e do Criador, como testemunha, imediatamente fui ao seu encontro:

“Sim, meu filho… sim, sim, sim. Eu vou fazer tudo o que me for humanamente possível, o possível e o impossível, para que nada te falta e dar-te-ei sempre o meu apoio e o meu amor incondicional, pois estou aqui para ti e só para ti.”

E ele continuava:

“A mãe vai fazer isso, vai estar sempre do meu lado, sempre pronta para mim, para as minhas necessidades? Posso mesmo contar com a mãe?”

E continuei, completamente arrebatada por aquela via espiritual que nos ligava com uma força indescritível:

“Sim. Sim, sem sombra de dúvida. Eu vou conseguir tudo o que precisares e eu estarei sempre contigo. Eu juro, eu prometo, acredita”. Enquanto precisares de mim eu cá estarei para tudo, absolutamente tudo”.

E ele ainda perguntava:

“E se um dia eu me quiser ir embora, à minha vida, eu posso?”

E eu respondia:

“Sem dúvida. Tu vais fazer tudo o que tu quiseres, tudo o que precisares e decidires. És livre para isso. Estarei sempre contigo e sempre respeitarei as tuas decisões. Quando fores grande, podes fazer o que quiseres, mas enquanto precisares de mim eu estarei sempre, sempre, aqui.”

E a sua cabecinha minúscula retornava à posição inicial, como que confirmando que a mensagem estava feita.

Em êxtase profundo e absolutamente assoberbada com uma coisa daquelas, tinha plena noção do que acabara de acontecer. A nossa ligação vinha de uma dimensão muito para além deste nosso mundo, onde tudo é possível e o pacto estava feito. 


quinta-feira, 10 de julho de 2025

A mãe do Carlos - 124


Naquele final de tarde o Carlos tinha chegado com vontade de falar. Ao fim de um bocado percebi que não era só vontade, era um pouco mais do que isso: necessidade de falar. Ele não é muito falador e quando fala, normalmente, é sobre o trabalho e pouco mais. Coisas que não me dizem muito, porque não sei, não conheço, pelo que fico só a ouvir, sem muito para falar.

As pessoas precisam de trocar energia e uma maneira de o fazerem é através do que expressam e comunicam pela linguagem. Há outras maneiras de trocar energia, mas esta é a mais básica, digamos. Todos nós precisamos de falar e ouvir os outros, também. Às vezes fala-se de assuntos mais sérios, outras vezes é só conversa, sem nada de especial. Mas tudo faz falta.

Uns são mais calados do que outros. Há pessoas que falam, falam, estão sempre a falar e às vezes até falam sozinhas. Outras, quase não falam e até têm dificuldade em exprimir-se. Mas o Carlos é das pessoas que realmente não falam muito. Ou guarda tudo para si ou realmente não lhe vem o assunto.

Já eu, preciso de falar e ouvir. O problema é que têm que ser assuntos que me digam alguma coisa, caso contrário não sei fazer conversa e prefiro ficar em silêncio. Mas naquele dia, em vez de ficar agarrado ao telemóvel, vendo as coisas dele, que não sei exactamente o que são, mas é muito conteúdo, porque fica tempo indeterminado agarrado ao telemóvel, sentou-se no sofá em frente ao meu e começou a relatar questões familiares que o marcaram, porque todos temos, com toda a certeza.

Começou a falar, esmiuçando o assunto, o que não é muito seu hábito, coisa que chamou e muito a minha atenção. As questões levantadas por ele prendiam-se com a família, mais exactamente com a mãe, falecida há muitos anos, de quem já tem falado assim muito por alto, sem aprofundar demasiado.

A sua relação com a mãe não foi o que se pode dizer uma relação amorosa. Havia muitos atritos e ele guarda muita mágoa da infância e depois pela vida fora. Ao contrário do pai, do qual fala muito e sempre muito bem, fazendo questão de dar exemplos da vida dele, que o salientam como uma pessoa extraordinária, um verdadeiro exemplo para todos.

E aquela conversa sobre a mãe, poderia ter passado despercebida, independentemente de ter prendido a minha atenção, porque ele precisava dessa atenção e eu jamais negaria tal coisa, tanto mais que percebi perfeitamente que naquele dia estava com uma necessidade especial de falar, mas poderia sim, ter passado despercebida, se nesse mesmo dia não tivesse acontecido algo inusitado, que me deixou com muitas perguntas na cabeça.

Pouco depois de me ter levantado da cama, senti no quarto uma energia que de imediato se materializou de cima a baixo e que muito estranhei. Nunca tinha visto uma materialização assim. Era um corpo de mulher nua, muito bem definido, extremamente bem feita, meio de costas, meio de lado, pelo que a parte da frente não se via. Da cabeça aos pés, viam-se as costas, as nádegas e a anca, tudo do lado esquerdo.

Quem seria, o que queria, o que faria ali? A resposta que não havia, porque caía num vazio completo. Não fazia a menor ideia de quem poderia ser. Até pensei que eram coisas da minha cabeça e que estava com “visões”. Ela estava junto à porta, como quem vai a sair do quarto. Contudo, apesar de parecer sem contexto, ficou registado no meu subconsciente.

Mais tarde, já não me lembro em que lugar da casa, voltei a ver o mesmo espectro, exactamente com a mesma forma, e foi então que registei imediatamente como segunda visão, porque já tinha visto anteriormente, embora continuando a não ter resposta. Ao todo foram três vezes que aquela visão me apareceu, pelo que concluí que não era nenhuma impressão minha, só que realmente não fazia ideia de quem era e o que queria, porque aquilo que via não me dizia absolutamente nada.

Já vi espíritos desencarnados que se me apresentaram completamente vestidos e apesar de nunca ter conhecido, a informação veio em simultâneo com a imagem apresentada. Não sei como, mas veio. Uma visão completamente nua nunca tinha visto. Devo dizer que era uma forma muito bonita. Parecia um desenho a carvão, muito bem feito. Não me transmitiu nenhum sentimento negativo, embora eu saiba que se isso acontece é porque há algo por detrás. Mas, com toda a verdade, não me vinha informação alguma.

E o Carlos lá, sentado, falando da mãe, enquanto eu o ouvia e uma ou outra pergunta lhe fazia. Ele falava da mãe e eu ia visualizando no meu íntimo e silenciosamente a personalidade dela, compondo com toda a informação que ele me fornecia, acrescentando pormenores aqui e ali.

Estava curiosa por ele estar com aquela conversa e ao mesmo tempo estava completamente tranquila, num fim de tarde de verão, em que o calor nos obrigava a relaxar um pouco, apreciando a conversa e bem mais do que isso, a companhia um do outro.

E como não era costume ele falar assim detalhadamente de coisas mais íntimas, perguntava a mim própria, porquê fazê-lo naquele dia!? Achei que era um pouco estranho. Porque o estaria a fazer? E a pergunta foi tão forte que, então, se fez luz e a mensagem veio, sem dúvida nenhuma, o que me deu uma certa tranquilidade, porque aquilo que antes não tinha resposta, agora fazia todo o sentido.

A visão que eu tinha tido três vezes naquele dia, era nem mais nem menos a presença da mãe lá por casa, antecipando a conversa do filho. Porque razão ela apareceu completamente nua? Primeiro, porque eu já tinha visto uma ou outra foto dela e achei que era uma senhora muito bonita e muito elegante. Segundo, porque a descrição que o Carlos fazia da mãe invocava predicados de personalidade muitíssimo profundos, de coisas que eram analisadas de modo muito negativo, “descascando”, por assim dizer, todo o espírito dela, ou seja, a sua alma, pelo que a nudez encaixava perfeitamente no conteúdo menos digno, digamos, sem pudor, pelos erros que lhe eram apontados, ao invés de ter sido uma mãe carinhosa como ele tanto desejaria.