Diz-se que a mentira tem perna curta. A verdade é que
a mentira não resolve nada e por mais dura que seja a realidade, não há por que
mentir. Não faz sentido. Todavia, durante toda a minha vida e já vai longa, por
duas vezes, que me lembre, me vi em situações embaraçosas e muito delicadas
que, de certa forma, me obrigaram a “mentir”. E digo mentir entre aspas, porque
foi exatamente isso.
A primeira vez, foi com o meu filho, que teria uns
dez, onze anos e andava no quinto ano. Estávamos mais ou menos a meio do
primeiro período escolar e ele já tinha feito testes, todos com bom
aproveitamento. Mas um dia, à saída da escola, percebi que alguma coisa não
estava bem. Prestei atenção e sem dúvida alguma, algo não estava bem com o meu
querido filhote. Dei-lhe um beijo, ele deu-me outro e enquanto nos dirigíamos
para o carro, perguntei-lhe o que é que se passava. Ele também não escondeu.
Estava pesado e confiava cem por cento na mãe para o que quer que fosse, por
isso, logo começou a dizer que estava triste, muito triste. E uma lágrima
escapou-lhe, mostrando o desalento que sentia. Aflita, perguntei-lhe qual a
razão daquele sofrimento, ao que me respondeu que tinha recebido um teste de
Ciências da Natureza com um suficiente menos e ainda por cima a professora tinha
salientado que o teste dele tinha sido o pior da turma!
Oh! O coitado vinha arrasado. Ele não estava
habituado de todo, a ter notas negativas e sempre tinha sido dos melhores, para
não dizer o melhor. Pela primeira vez na vida tinha um suficiente menos. Estava
explicada e entendida a razão de tanta tristeza. Pensando que se tratava de
algo mais grave, posso dizer que fiquei aliviada e disse-lhe que não era
relevante, porque havia muito tempo para reverter a situação e afinal, nem
sequer chegava a ser uma negativa. Mas em nada o reconfortou. Dizia que eu não
estava a perceber. É que ele se sentia envergonhado e humilhado perante os
colegas, porque tinha tido o pior teste. Estava tão zangado, que resolveu logo o
problema. Ia imediatamente pôr de lado aquela disciplina, da qual não gostava e
não percebia. Estava o assunto arrumado.
Bom... pensei que não podia ser essa a solução, de jeito
nenhum. Pôr de lado uma disciplina, não combinava em nada com ele, mas
compreendia perfeitamente o seu sentimento de frustração e rapidamente tinha
que pensar em algo para o ajudar. Olhando-o bem nos olhos, esse lugar onde não
é possível encobrir seja o que for, errar ou magoar, porque é o centro da alma,
na sua mais profunda essência, disse-lhe com toda a firmeza, que íamos resolver
o problema, que o ia ajudar de forma que, no próximo teste, ele ia subir a
nota.
Ouviu-me, mas não foi o suficiente para o convencer. Continuava a achar que não
ia ser capaz, porque não gostava daquilo, etc. Olhei para ele com a maior
serenidade, mas com toda a convicção e olhos nos olhos, perguntei-lhe: “Alguma
vez te menti?” Não – respondeu ele. Então, disse-lhe que não se preocupasse, porque íamos resolver o problema. Em casa, ia ver o teste, perceber as
dificuldades e ajudá-lo e no próximo teste ele seria o melhor da turma.
Ao dizer isto, uma voz em mim se sobrepôs, advertindo-me para o que estava a
dizer ao meu filho. “Vais ter o melhor teste”… estas palavras ecoavam dentro da
minha cabeça. Aquilo era grave, porque se revestia de uma enorme responsabilidade.
Mas precisava de lhe dizer aquilo. Não tinha a menor intenção de o enganar,
como nunca o enganei. Só precisava de lhe incutir a força necessária para
conseguir o pretendido e para isso não podia dizer-lhe pouca coisa. Aquilo
tinha que ser verdade, porque era com toda a força da minha alma que aquelas
palavras me saíam. De onde elas vinham eu não sabia. Mas o que,
provavelmente, seria uma grande mentira, estava dito e eu não tinha como voltar
atrás. Não tinha, não podia, não queria.
O conflito agora era dentro de mim, porque ele já
começava a interiorizar e a achar que podia ser possível, o que a pouco e pouco
o foi acalmando. E, para se certificar, perguntava ainda, solene e
ingenuamente: “a mãe promete?” Não tinha retorno. Dentro de mim lamentava a
"mentira", mas era por uma boa causa. Era a promessa de uma mãe que
sempre lhe fora fiel, incondicionalmente, e em quem ele acreditava cegamente.
Isto era complicado de gerir. O que seria de mim?... Jamais me perdoaria por
mentir ao meu filho. Mas estava em jogo o sucesso e a felicidade daquela
criança que eu amava com todo o meu ser, portanto, não podia estar a mentir.
Por isso, continuei firme, sem pestanejar, sem lhe mostrar a mais pequena sombra
de dúvida ou de medo e sem dar a mínima atenção àquela voz impertinente,
pausadamente, respondi: “Sim, a mãe promete”.
Eu estava consciente do que lhe estava a dizer. Sim, eu sabia que estava a
assumir um compromisso que não poderia falhar em hipótese alguma, caso
contrário, correria o risco de deixar de ser a mãe que até então tinha sido. E
isto foi tão convincente para ele, que respirou fundo e a tristeza
desvaneceu-se. Enfim, por enquanto, o problema estava resolvido e eu não tinha
tido alternativa.
Fomos para o carro e pelo caminho ele já foi explicando
os problemas dele. Chegámos a casa e fomos trabalhar na terra, num vaso que
tinha na varanda e todos os dias de manhã lá ia ele a correr para
inspecionar os caules a crescer, as folhas, etc. É claro que as coisas na
prática, tiveram um impacto que na teoria não lhe bastou e então ele se encantou
com aquilo que achava que não tinha interesse nenhum.
Tudo voltou à normalidade, mas não sem que eu ficasse
bastante inquieta pela “promessa” que lhe tinha feito, claro, porque não podia
esquecer que, deliberadamente, tinha ultrapassado os meus limites, por amor,
sim, mas tinha feito essa coisa aparentemente horrível. Contudo, acreditava que
no segundo teste ele melhorasse e à parte o facto de não ser o melhor, havia de
lhe dar uma boa explicação, fazendo-o entender que na vida não podemos estar
sempre do lado dos campeões e que muitas vezes, temos que aceitar perder.
Perder, faz parte da batalha da vida. Faz parte da nossa aprendizagem, da nossa
condição como seres humanos que somos.
O importante é que ele nunca mais falou em pôr de
parte a dita disciplina e um dia, à saída da escola, lá vinha ele, o lindo
filhote que Deus me deu. Descontraído, com um ar leve, algo misterioso,
envolvido numa excelente aura. Ah, que bem que o meu coração se sentiu ao vê-lo
assim. Chegou junto de mim, dei-lhe um beijo e ele retribuiu, para logo em
seguida começar a falar: “A mãe sabe… o teste de Ciências que foi o pior da
turma?” - Oh, Deus! – pensei – já me tinha esquecido daquela cena e o meu
coração imediatamente se apertou. Sim… respondi. “Hoje – continuou ele – a
professora entregou o segundo teste – acho que até parei de respirar -
e eu já estava a ficar muito aflito, até porque eram só negativas, mas
finalmente a professora disse o meu nome e disse ainda que o meu teste estava
todo certo, foi a nota máxima – eu nem falava –, mostrando como exemplo, porque
os outros todos baixaram a nota e eu levantei. Ainda por cima o meu teste
anterior tinha sido o pior. A mãe disse que eu ia ter o melhor teste – e
olhando para mim, concluiu - A mãe prometeu… a mãe cumpriu!”. Eu
prometi? Eu cumpri?! - pensei e respondi-lhe “não… tu conseguiste”.
As palavras dele perdiam-se no ar e eu estava como que
anestesiada. Um peso enorme saía de cima de mim. Estava completamente de parte
a ideia de descartar aquela disciplina. Pelo contrário, tinha agarrado a coisa
a sério. E eu tinha prometido… como é que eu tinha feito uma coisa daquelas?!
Afinal eu não tinha “mentido”? Eu não podia imaginar, mas eu realmente não
tinha mentido!... Era uma coisa absolutamente espantosa, mas acima de tudo, eu
continuava fiel à minha verdade, viesse ela de onde viesse.
A outra
mentira.
A Catarina era minha colega e minha amiga. Isto, até
ao dia em que nos tornámos inimigas de morte, por uma situação muito delicada,
que não dava para continuarmos amigas. A mulher do chefe dela começou a receber
chamadas telefónicas de alguém que não se identificava, dizendo que ela,
Catarina, andava com o marido dela, o que era um facto. Toda a gente sabia,
porque nem sequer o escondiam. A senhora, muito perturbada com a situação,
começou a pedir responsabilidades ao marido que, por sua vez, começou a chatear
todas as mulheres à sua volta na empresa querendo, a toda a força, encontrar a
responsável pelos telefonemas anónimos. Mas toda a gente negava a acusação, até
ao dia em que sobrou para mim.
Eu estava sozinha, o meu chefe ainda não tinha chegado
e ele entrou, começou a dizer coisas sem sentido, ameaçando-me, esquecendo-se
completamente da ética, descartando todos os princípios morais e profissionais,
ultrapassando todos os limites do razoável. E eu fiquei mal. Fiquei tão
assustada que até fiquei de baixa médica, com o medo que ele me incutiu. Foi
horrível. E tudo aquilo por causa da Catarina!? Não, não dava para continuarmos
amigas. Devo dizer que, mais tarde, muito mais tarde, ele deve ter percebido a
injustiça que cometeu e as coisas foram ao lugar, porque me pediu desculpas. Mas
isso foi muito mais tarde. Então, a Catarina, para mim, deixou de existir.
Um dia, sem mais nem menos, puseram-na na minha sala,
mesmo ao pé de mim. Uma chatice! Bem, o trabalho de ambas não nos fazia
colidir, por isso, nem profissionalmente tínhamos que falar. Era zero. Ela
estava-me atravessada e também não parecia nada incomodada com isso.
Mas então chegou um dia em que as coisas mudaram. Eu tive que me levantar para
ir buscar um dossier à estante que ficava à direita dela e baixei-me para o
apanhar. Entretanto, ela, que estava ao telefone, falando quase nada e muito
baixinho, perdeu completamente a voz e desligou o telefone de uma maneira
estranha. Levantei-me para ir para o meu lugar, quando a vejo com a cabeça
baixa e a cara escondida entre as mãos. Percebi que alguma coisa não estava
bem, mas não fazia a mínima intenção de ligar importância quando, de repente,
ela desata a soluçar, num enorme sufoco, com uma jorrada de lágrimas sem
cessar.
E aí, num impulso, sem ter tempo de pensar no que quer que fosse, inclinei-me
para ela, segurei-lhe as mãos, que estavam frias e trémulas, perguntando-lhe o
que se estava a passar. Ela continuou naquele choro sufocado, quase sem
respirar e percebi que a coisa era séria, muito séria, embora não tivesse a
mínima ideia do que fosse. Esqueci-me completamente que estávamos de relações
cortadas e de toda aquela cena e segurei-a nas duas mãos, ainda com mais força.
Voltei a perguntar o que tinha acontecido e levantando um pouco o rosto para
mim, disse: “É a minha Lisa”.
Lisa, era a filha. Ela só tinha aquela filha que, na altura, tinha quinze anos.
Perguntei-lhe o que é que tinha acontecido com a Lisa e ela respondeu: “Está
doente, muito doente”. Interrompi logo, perguntando, doente como, o que tem ela?
Continuou dizendo: “Tem um problema nos ovários e todas as chances de ser
maligno” e desata novamente a chorar, a bom chorar, completamente destroçada. E
enquanto eu ouvia aquilo, sem querer acreditar, porque eu conhecia muito bem a
Lisa, ela só se lamentava “Ai a minha Lisa… ai a minha Lisa… eu morro, se ela
morrer eu morro também, não me interessa mais viver”.
Agarrei-a com toda a força nos braços, dizendo-lhe: “Olha para mim”, enquanto
ela tentava desviar, mas continuei com toda a força que tinha dentro de mim:
“Catarina, olha bem para mim, olha nos meus olhos e escuta o que te vou dizer”-
e só continuei a falar quando ela finalmente olhou fixamente nos meus olhos.
“Não vai acontecer nada com a tua filha. Não vai acontecer nada à Lisa”. E
disse isto com quanta força e convicção me moviam naquele momento, olhos nos
olhos, sem lhe deixar a mais pequena sombra de dúvida, como se eu fosse dona da
situação, o que fez com que, aos poucos, ela se fosse acalmando, silenciosa e
tranquila. E repeti, marcando cada palavra que dizia: “Não, vai, acontecer,
nada, à Lisa. Acredita. Acredita mesmo. Está tudo bem! Ouviste?”
E mais uma vez eu ouvia aquela voz dizendo, "és
doida, quem és tu para saberes o que vai acontecer? Tu não és deus!" Eu
sabia, sabia disso tudo, mas era mais forte do que eu. Era a única coisa que
conseguia dizer-lhe naquele momento e vinha algures do meu fundo, não sei de
onde, mas vinha com uma força tremenda, que nada me poderia fazer parar. Era
preciso que ela acreditasse com todas as forças do seu ser, tanto quanto eu
parecia acreditar, embora soubesse que, provavelmente, aquilo também pudesse ser
a maior mentira da minha vida. E mais uma vez, eu não tinha alternativa. O
desassossego dela exigia aquela minha atitude, estranha, sim, que nem eu
entendia, mas era daquela maneira que as coisas estavam a acontecer, como se eu
não tivesse mais controle sobre mim mesma. Enxugou a cara, foi à casa de banho,
voltou e a partir daí recomeçamos a falar, esquecendo o passado.
Tempos depois, um dia qualquer, ela estava
muito feliz e veio ter comigo, com uma calma e um sorriso muito especial. Os
olhos brilhavam, mas eram os olhos da alma. Havia ali uma felicidade
transcendente. Não era uma felicidade comum. Chegou perto de mim e disse-me:
“Tu estavas certa, tu tinhas razão”. E eu, que já nem me lembrava daquela cena,
não reagi, porque não percebia a que se referia ela. E continuava: a minha Lisa
está bem. Vai fazer um tratamento e fica bem”. Foi então que me situei e
percebi a que ela se estava a referir. Confesso que fiquei aparvalhada, como se
não fosse eu que lhe tivesse dito aquelas coisas. E pensei “que fiz eu, meu
Deus!?”… Mas ela sorria para mim com aquele brilho imaculado e continuava: “eu
vi nos teus olhos a força com que me disseste que a minha Lisa ia ficar bem. Eu
vi e acreditei. Era impossível estares a mentir” - Oh meu Deus! E como é que
sabia eu disso?
Pensei para comigo mesma: é a segunda vez
na minha vida que minto, dizendo a verdade que desconheço. É a segunda vez
que Deus fala por mim!...