sexta-feira, 28 de julho de 2017

Era ele - 63


Era ele. Não era, não podia ser. Mas era como se fosse. Eu não queria acreditar no que os meus olhos viam. A impressão que tive era tão forte que não conseguia admitir que não era ele.

A noite estava quente. Nem uma brisa corria. O mar calmo, tranquilo. A rua começava a encher-se de gente. Gente para lá, gente para cá. Gente de todas as idades e de todas as nacionalidades. Os feirantes já instalados nas suas bancas iluminadas davam à noite um ar animado. Cada um com seu comércio. Desde as tatuagens às exibições artísticas, nada faltava. Para não falar das lojas abertas e cheias de movimento. E eu olhava descontraidamente quem passava, ao mesmo tempo que espraiava a vista no horizonte escondido pelo cair da noite, onde mar e céu se confundiam.

Um grupo de músicos preparavam o seu habitual show, passando fios, cabos eléctricos, etc… e de repente, olhando para eles… era ele! Era ele sem tirar nem pôr. Desviei o olhar porque senti um arrepio pela coluna de cima a baixo. Não, não podia ser. Isso era certo. Estávamos a cerca de duzentos e cinquenta quilómetros de distância um do outro. Recompus-me do choque emocional e olhei de novo. Estava sempre de costas, mas era a mesma figura. Faltava-lhe um nadinha de altura e era ligeiramente mais forte, mas assim, de repente, a sensação é que estava ali, a escassos metros de distância. Como? Porquê? Porque é que me estava a passar aquela cena pela cabeça? Eu sabia que não era. Em momento algum duvidei da minha certeza. Mas o arrepio que senti quando olhei a primeira e a segunda vez, eram sinal de alguma coisa. Alguma coisa estranha.

A noite estava óptima. As pessoas lá em baixo passeavam com prazer e descontraidamente, apreciando a temperatura que se fazia sentir e dando atenção às bancas por onde passavam. As crianças acompanhavam os familiares, uns de mãos dadas, outros soltos, alguns até correndo e gritando. E havia os mais românticos, que desciam até à beira mar para fazer umas selfies captando o mistério da escuridão nocturna, o brilho da lua na água, ou simplesmente para sentir uma vez mais os pés na areia macia e mergulhá-los na espuma prateada.

Mas eu não conseguia ignorar a “visão” que tinha tido e pela terceira vez olhei. A noite estava ainda mais escura. E a imagem dele persistia em aflorar e tornar-se cada vez mais forte. E quanto mais eu negava, mais forte era aquela coisa que me agarrava com uma impetuosidade efervescente. Até chegava a doer. Que quereria aquilo dizer? Se ele pudesse sentir o mesmo que eu estava sentindo(?)… era como se o meu corpo estivesse enrolado no dele, com aquela chama acesa e ao mesmo tempo uma sensação de paz que ele sempre me passava. Uma coisa indescritível! Era como se os dois fôssemos um só… era deveras bonito, lindo de mais. Aquela visão tinha-me feito chegar tão perto daquelas lembranças. Era tão forte! Que quereria aquilo dizer? Não era normal. Algo estava acima do meu entendimento. Seria possível que estivesse a sentir o mesmo que eu, naquele momento? Quem poderia responder? Não era possível que eu estivesse a sentir aquilo sozinha. Era um sentimento forte demais para ser unilateral. Transbordava da minha pessoa. Transbordava sem limites. Nunca me tinha acontecido nada igual. Aquilo realmente era sintomático. Mas como poderia eu saber se ele estava a sentir o mesmo?

E de repente, pela terceira vez, parei o “delírio”. Achei por bem sair da varanda e ir para dentro. No mesmo instante o telemóvel disparou sinal de mensagem. Quando ouvi, pensei: “Só pode ser ele!” Só isso justificava o que eu estava a sentir.

Era ele.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Dois de Agosto de 2016 - 62



Aeroporto da Portela, dois de agosto de 2016. Eu tinha ido levar a minha norinha e a sua filhota ao aeroporto para seguirem viagem de regresso a Nova York, onde o meu filho as esperava. Já tinham vindo todos, três semanas em Julho, para as habituais férias de Verão. E, apesar de estar o tempo todo com eles, a minha pequena Sofia estava sempre a fugir de mim, como que me achando uma “chata”. 


Pronto, criança é assim mesmo, espontânea e na maioria das vezes, incapaz de mentir. Para uma avó ausente, que só tem a neta duas vezes por ano, pelo Natal e no Verão, por tempo muito reduzido e que, para compensar a distância tenta de tudo para mimar as suas "crianças", provavelmente a Sofia lá tinha as suas razões para se afastar sempre que podia, tanto mais que, tendo recebido a visita do avô apenas por um fim-de-semana, se agarrou a ele com unhas e dentes, não o largando de jeito nenhum, o que muito o encantou, claro.

 

E não é que isso me tenha deixado infeliz. Muito pelo contrário, o meu coração se enche de alegria vendo e observando a cumplicidade dos dois, ainda que eu tenha que ficar de fora. Mas nem por isso desisto de fazer tudo para, continuadamente, agradar à minha neta querida.

 

O facto é que, aproximando-se a hora da partida dos três, o meu coração de mãe e de avó, ficou apertado de mais, sentindo-se ultrajado e enganado por ter querido um pouquinho mais de atenção. Dentro de mim, muito honestamente, havia tristeza e não posso dizer que fosse pequena, porque na verdade não era. Embora eu tentasse racionalizar as emoções, a verdade é que nada adiantava porque sabia, sabendo, que tinha sido pouco apreciada pela minha pequena Sofia. Não por mal. Isso também o sabia. Mas a verdade é que não tinha conseguido ter aquele bocadinho especial, aquela atençãozinha que o avô sem esforço conseguiu, ainda que num só fim-de-semana em que “roubou” o pouquíssimo que eu tinha. E assim, tentava consolar-me com o regresso no Natal, a próxima vinda para, de alguma forma, tentar recuperar um pouco desse vazio que afogava silenciosamente a minha alma, num segredo que era só meu, porque conhecendo o meu povo como só uma mãe conhece, se me tivesse descuidado e mostrado o mais pequeno sinal dessa angústia, ainda por cima corria o risco de ser mal interpretada e de ficar pior do que já estava pois, na certa, achariam não passar de uma “fantasia” minha.

 

E a hora do voo aproximava-se, enquanto eu tentava minimizar aquela dor que me sufocava. Ao chegar a casa, com toda a certeza, jogar-me-ia no sofá para chorar todas as lágrimas que tinha direito. Mas até lá, tinha que me aguentar sem dar parte de fraca.

 

O chek-in foi feito e os três lá se despediram mais uma vez, com a pequena Sofia cada vez mais distante, não só da minha vista, mas de tudo em mim. E num último instante, talvez egoísta da minha parte, mas decididamente inconformada, rapidamente me sintonizei com o divino, me perguntando “porquê?” Porque, para mim, muito no meu íntimo e muito honestamente, alguma coisa me dizia que não podia ser assim. Bem no meu fundo e de acordo com a necessidade de expressão da minha alma, algo estava realmente errado. Algo não batia certo, porque não se tinha estabelecido aquele elo afetivo entre mim e a minha neta, como sempre acontecia. Por mais que eu tenha feito e tentado, todo o tempo a sentia escapar-se e essa é que era a verdade que tanto doía em mim. E à medida que a distância aumentava, a minha dor aumentava. Faltava. Faltava tudo. Para poder minimizar a minha dor e aceitar esse facto, fiz a única coisa que podia ter feito: entreguei para Deus. Entreguei nas mãos de Deus tudo o que sentia, aquela angústia e as perguntas que não tinham resposta. Porque, até Dezembro, era muito tempo para consolidar aquela falta de harmonia. E quando eu não consigo, porque está muito além das minhas humanas possibilidades, entrego para Deus. Só ele pode. Só ele sabe.

 

De facto, eu estava certa e a resposta veio duas semanas depois, quando a minha norinha informou que viria com a Sofia mais três semanas, no mês de Agosto. Ah!... Eu nem queria acreditar. Vinha porque o trabalho a chamava temporariamente a Lisboa e a Sofia vinha para estar mais tempo com os primos. Vinha, vinha, vinha… a verdade é que vinha porque tinha que vir, porque o Universo sabia que eu precisava da presença dela como de pão para a boca. Aquilo era um presente divino. Era a consolidação da minha paz, da minha alegria, a serenidade da minha alma sedenta da comunhão que havia falhado com a minha pequena. Não era coincidência nenhuma, nem por isto nem por aquilo, era o cosmos organizando-se para reparar a desordem. Não importa… era a resposta. Essa é que era a única verdade. Mas isso só eu sabia.

 

E assim, durante três semanas estive praticamente todos os dias com a minha pequena, sendo que muitas vezes fiquei sozinha com ela só para mim, enquanto a mãe precisava de ir à Universidade por força do trabalho. Nós duas, ela e eu. E como brincámos e nos entendemos! Eu estava tendo a minha oportunidade… aquela a que eu tinha direito, todo o direito… eu sabia que essa coisa boa me tinha sido sonegada. Eu sentia o vazio. Não era uma coisa palpável, mas a minha intuição dava sinal, dava o alarme que soava dentro de mim de maneira inegável. Eu sabia que aquela outra não tinha sido a minha hora. Mas ela chegaria, caso contrário o puzzle da vida estaria todo errado e isso nunca pode acontecer.

 

E como foi bom! Foi uma recompensa sem tamanho. A Sofia resolveu trazer uma das suas bonecas e queria roupas para ela. A mãe achou que as roupas para a boneca eram mais caras do que para ela e então… então esta avó entrou em cena. As duas, avó e neta desenharam um guarda-roupa completo, tão completo, que até fato de banho a boneca ganhou e não foi um fato de banho qualquer, foi um fato de banho igual ao dela. Aquilo é que foi trabalhar e dar asas à imaginação. E a menina precisava de um casaquinho de malha quentinho, com gorro e pompom igual, porque em Nova York fazia muito frio… e num piscar de olhos apareceu o casaquinho lindo com o gorro igual, para não falar dos vestidinhos, saias, blusinhas, etc... etc… etc...

 

A Sofia estava feliz. Por cada pecinha de roupa que lhe chegava às mãos ficava deliciada, encantada e era um tal vestir e despir e depois desfilava por toda a gente “olha”, “olha”, “olha”, ela só queria que apreciassem o guarda-roupa especial que a sua linda boneca tinha ganho. A Sofia tremia de emoção. Estava completamente extasiada, felicíssima com aquela novidade. Agora tínhamos finalmente tido o nosso tempo, as nossas conversas, os nossos pactos, só nossos. Eu estava saciada e agradecida à vida que sempre me surpreende por tudo o que me pode dar, mas muito especialmente por aquela oportunidade de ouro que não era mais do que um acerto de contas. O puzzle estava completo e perfeito.

 

Mas o tempo acabou e no dia dois de agosto lá fui ao aeroporto deixar as duas para seguirem viagem. Desta vez, em paz comigo, com a vida, com tudo. Eu tinha tido a minha enorme recompensa.

 

E aqui começa outra história.

 

Enquanto aguardávamos na fila para o chek-in, atrás de nós estava uma família com várias pessoas e uma criança, um menino da idade da Sofia. Apesar de estar concentrada na minha neta, não passou despercebido o que atrás de mim se passava. Algo estava errado. Como não sou bruxa, não podia adivinhar o que era e quando assim é, penso sempre que deve ser “impressão” minha. Antes fosse.

 

Quatro adultos e a criança. Eu sentia a energia do grupo e aquilo incomodava-me. Mas porquê, é a pergunta que não quer calar, quando me apetece que nada perturbe a minha paz. O que tenho eu que ver com esta gente que não conheço de lado nenhum e nunca antes vi?! Mas ali havia no ar um mistério, um problema, um poço sem fundo carregado de uma energia pesada, tão pesada que uma simples sensitiva como eu não conseguia deixar de captar. Raios!...

 

Desliguei-me e foquei-me na minha pequena família prestes a partir para os Estados Unidos: Sofia e sua querida momy. Tudo em ordem, seguimos para a entrada das portas de embarque, até onde me era possível acompanhá-las e onde fiquei até as perder de vista. Mais um último adeus e desapareceram da minha vista. Respirei fundo, dei meia volta e preparava-me para bater em retirada quando uma criança começou a chorar, a chorar, a chorar cada vez mais alto e mais forte, num desespero desesperado.

 

Volto-me e vejo o menino que estava atrás de nós no chek-in. A criança estava agarrada às calças e às pernas do pai, um indivíduo de cerca de trinta e cinco anos. Já tinham transposto a cancela uma senhora que, pela idade e postura, deveria ser avó e em cujo semblante não havia sinal de vida. A expressão era vazia, ausente. Depois havia um casal, um dos quais deveria ser irmão do suposto pai da criança, porque uma criança só se agarra daquela maneira desesperada a um pai ou uma mãe, que evidentemente não era o caso do casal com quem a criança teria que viajar. Já todos tinham transposto os torniquetes de inspeção, com exceção do pai da criança e da criança que, decididamente, não largava o pai e toda aquela família não sabia o que fazer, muito menos o pessoal da inspeção do aeroporto. O homem andou de um lado para o outro, tentando desligar-se da criança, enquanto a família, já do lado de lá, puxava por ele, tentando falar-lhe, convencê-lo, mas não havia forças que o demovessem, forças mais fortes que ele, naquele momento, que o fizessem largar do pai. Ele iria para onde o pai fosse e ponto final.

 

Eu estava estarrecida, pensando, o que faz uma criança gritar daquela maneira, como se estivesse a levar uma surra de morte? E a questão era exatamente essa. Quando, finalmente, os dois foram separados e sem dó nem piedade a criança foi obrigada a passar para o outro lado, arrastado a toda a força e os seus gritos de horror se ouviam e se repercutiam por todo o aeroporto, atraindo os olhares de toda a gente, por alguns segundos o pai da criança ficou imóvel, sem reação alguma, olhando a partida do menino, que a única coisa que podia e queria fazer era chorar ou morrer, porque de certeza, viver, ele não queria. Aquele choro denunciava tudo isso e muito mais.

 

E quando, finalmente, o rapaz se virou para bater em retirada e esbarrou em mim, que estava um pouco atrás dele, sem pensar, a pergunta saiu-me, foi mais forte do que eu “why?…” e ficámos a olhar um para o outro, o que me deu tempo suficiente para me aperceber da tensão a que estava submetido. Mas a pergunta estava no ar e eu precisava daquela resposta. No mesmo instante, umas lágrimas rolaram-lhe pela face e respondeu, ainda que distante e sob forte comoção “mom died…”, ao mesmo tempo que rapidamente desapareceu, ao som dos gritos continuados da criança, que lutava pela sua sobrevivência espiritual, mortalmente atingida por um complexo e fatídico destino que ele não entendia, não queria e se recusava terminantemente, sob qualquer pretexto, a ser obrigado a aceitar aquilo que jamais pedira. 

 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A verdade da mentira - 61


Diz-se que a mentira tem perna curta. A verdade é que a mentira não resolve nada e por mais dura que seja a realidade, não há por que mentir. Não faz sentido. Todavia, durante toda a minha vida e já vai longa, por duas vezes, que me lembre, me vi em situações embaraçosas e muito delicadas que, de certa forma, me obrigaram a “mentir”. E digo mentir entre aspas, porque foi exatamente isso. 

A primeira vez, foi com o meu filho, que teria uns dez, onze anos e andava no quinto ano. Estávamos mais ou menos a meio do primeiro período escolar e ele já tinha feito testes, todos com bom aproveitamento. Mas um dia, à saída da escola, percebi que alguma coisa não estava bem. Prestei atenção e sem dúvida alguma, algo não estava bem com o meu querido filhote. Dei-lhe um beijo, ele deu-me outro e enquanto nos dirigíamos para o carro, perguntei-lhe o que é que se passava. Ele também não escondeu. Estava pesado e confiava cem por cento na mãe para o que quer que fosse, por isso, logo começou a dizer que estava triste, muito triste. E uma lágrima escapou-lhe, mostrando o desalento que sentia. Aflita, perguntei-lhe qual a razão daquele sofrimento, ao que me respondeu que tinha recebido um teste de Ciências da Natureza com um suficiente menos e ainda por cima a professora tinha salientado que o teste dele tinha sido o pior da turma! 

Oh! O coitado vinha arrasado. Ele não estava habituado de todo, a ter notas negativas e sempre tinha sido dos melhores, para não dizer o melhor. Pela primeira vez na vida tinha um suficiente menos. Estava explicada e entendida a razão de tanta tristeza. Pensando que se tratava de algo mais grave, posso dizer que fiquei aliviada e disse-lhe que não era relevante, porque havia muito tempo para reverter a situação e afinal, nem sequer chegava a ser uma negativa. Mas em nada o reconfortou. Dizia que eu não estava a perceber. É que ele se sentia envergonhado e humilhado perante os colegas, porque tinha tido o pior teste. Estava tão zangado, que resolveu logo o problema. Ia imediatamente pôr de lado aquela disciplina, da qual não gostava e não percebia. Estava o assunto arrumado. 

Bom... pensei que não podia ser essa a solução, de jeito nenhum. Pôr de lado uma disciplina, não combinava em nada com ele, mas compreendia perfeitamente o seu sentimento de frustração e rapidamente tinha que pensar em algo para o ajudar. Olhando-o bem nos olhos, esse lugar onde não é possível encobrir seja o que for, errar ou magoar, porque é o centro da alma, na sua mais profunda essência, disse-lhe com toda a firmeza, que íamos resolver o problema, que o ia ajudar de forma que, no próximo teste, ele ia subir a nota. 

Ouviu-me, mas não foi o suficiente para o convencer. Continuava a achar que não ia ser capaz, porque não gostava daquilo, etc. Olhei para ele com a maior serenidade, mas com toda a convicção e olhos nos olhos, perguntei-lhe: “Alguma vez te menti?” Não – respondeu ele. Então, disse-lhe que não se preocupasse, porque íamos resolver o problema. Em casa, ia ver o teste, perceber as dificuldades e ajudá-lo e no próximo teste ele seria o melhor da turma. 

Ao dizer isto, uma voz em mim se sobrepôs, advertindo-me para o que estava a dizer ao meu filho. “Vais ter o melhor teste”… estas palavras ecoavam dentro da minha cabeça. Aquilo era grave, porque se revestia de uma enorme responsabilidade. Mas precisava de lhe dizer aquilo. Não tinha a menor intenção de o enganar, como nunca o enganei. Só precisava de lhe incutir a força necessária para conseguir o pretendido e para isso não podia dizer-lhe pouca coisa. Aquilo tinha que ser verdade, porque era com toda a força da minha alma que aquelas palavras me saíam. De onde elas vinham eu não sabia. Mas o que, provavelmente, seria uma grande mentira, estava dito e eu não tinha como voltar atrás. Não tinha, não podia, não queria. 

O conflito agora era dentro de mim, porque ele já começava a interiorizar e a achar que podia ser possível, o que a pouco e pouco o foi acalmando. E, para se certificar, perguntava ainda, solene e ingenuamente: “a mãe promete?” Não tinha retorno. Dentro de mim lamentava a "mentira", mas era por uma boa causa. Era a promessa de uma mãe que sempre lhe fora fiel, incondicionalmente, e em quem ele acreditava cegamente. Isto era complicado de gerir. O que seria de mim?... Jamais me perdoaria por mentir ao meu filho. Mas estava em jogo o sucesso e a felicidade daquela criança que eu amava com todo o meu ser, portanto, não podia estar a mentir. Por isso, continuei firme, sem pestanejar, sem lhe mostrar a mais pequena sombra de dúvida ou de medo e sem dar a mínima atenção àquela voz impertinente, pausadamente, respondi: “Sim, a mãe promete”. 

Eu estava consciente do que lhe estava a dizer. Sim, eu sabia que estava a assumir um compromisso que não poderia falhar em hipótese alguma, caso contrário, correria o risco de deixar de ser a mãe que até então tinha sido. E isto foi tão convincente para ele, que respirou fundo e a tristeza desvaneceu-se. Enfim, por enquanto, o problema estava resolvido e eu não tinha tido alternativa. 

Fomos para o carro e pelo caminho ele já foi explicando os problemas dele. Chegámos a casa e fomos trabalhar na terra, num vaso que tinha na varanda e todos os dias de manhã lá ia ele a correr para inspecionar os caules a crescer, as folhas, etc. É claro que as coisas na prática, tiveram um impacto que na teoria não lhe bastou e então ele se encantou com aquilo que achava que não tinha interesse nenhum. 

Tudo voltou à normalidade, mas não sem que eu ficasse bastante inquieta pela “promessa” que lhe tinha feito, claro, porque não podia esquecer que, deliberadamente, tinha ultrapassado os meus limites, por amor, sim, mas tinha feito essa coisa aparentemente horrível. Contudo, acreditava que no segundo teste ele melhorasse e à parte o facto de não ser o melhor, havia de lhe dar uma boa explicação, fazendo-o entender que na vida não podemos estar sempre do lado dos campeões e que muitas vezes, temos que aceitar perder. Perder, faz parte da batalha da vida. Faz parte da nossa aprendizagem, da nossa condição como seres humanos que somos. 

O importante é que ele nunca mais falou em pôr de parte a dita disciplina e um dia, à saída da escola, lá vinha ele, o lindo filhote que Deus me deu. Descontraído, com um ar leve, algo misterioso, envolvido numa excelente aura. Ah, que bem que o meu coração se sentiu ao vê-lo assim. Chegou junto de mim, dei-lhe um beijo e ele retribuiu, para logo em seguida começar a falar: “A mãe sabe… o teste de Ciências que foi o pior da turma?” - Oh, Deus! – pensei – já me tinha esquecido daquela cena e o meu coração imediatamente se apertou. Sim… respondi. “Hoje – continuou ele – a professora entregou o segundo teste – acho que até parei de respirar -  e eu já estava a ficar muito aflito, até porque eram só negativas, mas finalmente a professora disse o meu nome e disse ainda que o meu teste estava todo certo, foi a nota máxima – eu nem falava –, mostrando como exemplo, porque os outros todos baixaram a nota e eu levantei. Ainda por cima o meu teste anterior tinha sido o pior. A mãe disse que eu ia ter o melhor teste – e olhando para mim, concluiu - A mãe prometeu… a mãe cumpriu!”. Eu prometi? Eu cumpri?! - pensei e respondi-lhe “não… tu conseguiste”. 

As palavras dele perdiam-se no ar e eu estava como que anestesiada. Um peso enorme saía de cima de mim. Estava completamente de parte a ideia de descartar aquela disciplina. Pelo contrário, tinha agarrado a coisa a sério. E eu tinha prometido… como é que eu tinha feito uma coisa daquelas?! Afinal eu não tinha “mentido”? Eu não podia imaginar, mas eu realmente não tinha mentido!... Era uma coisa absolutamente espantosa, mas acima de tudo, eu continuava fiel à minha verdade, viesse ela de onde viesse.  

A outra mentira. 

A Catarina era minha colega e minha amiga. Isto, até ao dia em que nos tornámos inimigas de morte, por uma situação muito delicada, que não dava para continuarmos amigas. A mulher do chefe dela começou a receber chamadas telefónicas de alguém que não se identificava, dizendo que ela, Catarina, andava com o marido dela, o que era um facto. Toda a gente sabia, porque nem sequer o escondiam. A senhora, muito perturbada com a situação, começou a pedir responsabilidades ao marido que, por sua vez, começou a chatear todas as mulheres à sua volta na empresa querendo, a toda a força, encontrar a responsável pelos telefonemas anónimos. Mas toda a gente negava a acusação, até ao dia em que sobrou para mim.  

Eu estava sozinha, o meu chefe ainda não tinha chegado e ele entrou, começou a dizer coisas sem sentido, ameaçando-me, esquecendo-se completamente da ética, descartando todos os princípios morais e profissionais, ultrapassando todos os limites do razoável. E eu fiquei mal. Fiquei tão assustada que até fiquei de baixa médica, com o medo que ele me incutiu. Foi horrível. E tudo aquilo por causa da Catarina!? Não, não dava para continuarmos amigas. Devo dizer que, mais tarde, muito mais tarde, ele deve ter percebido a injustiça que cometeu e as coisas foram ao lugar, porque me pediu desculpas. Mas isso foi muito mais tarde. Então, a Catarina, para mim, deixou de existir. 

Um dia, sem mais nem menos, puseram-na na minha sala, mesmo ao pé de mim. Uma chatice! Bem, o trabalho de ambas não nos fazia colidir, por isso, nem profissionalmente tínhamos que falar. Era zero. Ela estava-me atravessada e também não parecia nada incomodada com isso. 

Mas então chegou um dia em que as coisas mudaram. Eu tive que me levantar para ir buscar um dossier à estante que ficava à direita dela e baixei-me para o apanhar. Entretanto, ela, que estava ao telefone, falando quase nada e muito baixinho, perdeu completamente a voz e desligou o telefone de uma maneira estranha. Levantei-me para ir para o meu lugar, quando a vejo com a cabeça baixa e a cara escondida entre as mãos. Percebi que alguma coisa não estava bem, mas não fazia a mínima intenção de ligar importância quando, de repente, ela desata a soluçar, num enorme sufoco, com uma jorrada de lágrimas sem cessar. 

E aí, num impulso, sem ter tempo de pensar no que quer que fosse, inclinei-me para ela, segurei-lhe as mãos, que estavam frias e trémulas, perguntando-lhe o que se estava a passar. Ela continuou naquele choro sufocado, quase sem respirar e percebi que a coisa era séria, muito séria, embora não tivesse a mínima ideia do que fosse. Esqueci-me completamente que estávamos de relações cortadas e de toda aquela cena e segurei-a nas duas mãos, ainda com mais força. Voltei a perguntar o que tinha acontecido e levantando um pouco o rosto para mim, disse: “É a minha Lisa”. 

Lisa, era a filha. Ela só tinha aquela filha que, na altura, tinha quinze anos. Perguntei-lhe o que é que tinha acontecido com a Lisa e ela respondeu: “Está doente, muito doente”. Interrompi logo, perguntando, doente como, o que tem ela? Continuou dizendo: “Tem um problema nos ovários e todas as chances de ser maligno” e desata novamente a chorar, a bom chorar, completamente destroçada. E enquanto eu ouvia aquilo, sem querer acreditar, porque eu conhecia muito bem a Lisa, ela só se lamentava “Ai a minha Lisa… ai a minha Lisa… eu morro, se ela morrer eu morro também, não me interessa mais viver”. 

Agarrei-a com toda a força nos braços, dizendo-lhe: “Olha para mim”, enquanto ela tentava desviar, mas continuei com toda a força que tinha dentro de mim: “Catarina, olha bem para mim, olha nos meus olhos e escuta o que te vou dizer”- e só continuei a falar quando ela finalmente olhou fixamente nos meus olhos. “Não vai acontecer nada com a tua filha. Não vai acontecer nada à Lisa”. E disse isto com quanta força e convicção me moviam naquele momento, olhos nos olhos, sem lhe deixar a mais pequena sombra de dúvida, como se eu fosse dona da situação, o que fez com que, aos poucos, ela se fosse acalmando, silenciosa e tranquila. E repeti, marcando cada palavra que dizia: “Não, vai, acontecer, nada, à Lisa. Acredita. Acredita mesmo. Está tudo bem! Ouviste?” 

E mais uma vez eu ouvia aquela voz dizendo, "és doida, quem és tu para saberes o que vai acontecer? Tu não és deus!" Eu sabia, sabia disso tudo, mas era mais forte do que eu. Era a única coisa que conseguia dizer-lhe naquele momento e vinha algures do meu fundo, não sei de onde, mas vinha com uma força tremenda, que nada me poderia fazer parar. Era preciso que ela acreditasse com todas as forças do seu ser, tanto quanto eu parecia acreditar, embora soubesse que, provavelmente, aquilo também pudesse ser a maior mentira da minha vida. E mais uma vez, eu não tinha alternativa. O desassossego dela exigia aquela minha atitude, estranha, sim, que nem eu entendia, mas era daquela maneira que as coisas estavam a acontecer, como se eu não tivesse mais controle sobre mim mesma. Enxugou a cara, foi à casa de banho, voltou e a partir daí recomeçamos a falar, esquecendo o passado.

Tempos depois, um dia qualquer, ela estava muito feliz e veio ter comigo, com uma calma e um sorriso muito especial. Os olhos brilhavam, mas eram os olhos da alma. Havia ali uma felicidade transcendente. Não era uma felicidade comum. Chegou perto de mim e disse-me: “Tu estavas certa, tu tinhas razão”. E eu, que já nem me lembrava daquela cena, não reagi, porque não percebia a que se referia ela. E continuava: a minha Lisa está bem. Vai fazer um tratamento e fica bem”. Foi então que me situei e percebi a que ela se estava a referir. Confesso que fiquei aparvalhada, como se não fosse eu que lhe tivesse dito aquelas coisas. E pensei “que fiz eu, meu Deus!?”… Mas ela sorria para mim com aquele brilho imaculado e continuava: “eu vi nos teus olhos a força com que me disseste que a minha Lisa ia ficar bem. Eu vi e acreditei. Era impossível estares a mentir” - Oh meu Deus! E como é que sabia eu disso?  

Pensei para comigo mesma: é a segunda vez na minha vida que minto, dizendo a verdade que desconheço. É a segunda vez que Deus fala por mim!...


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A Mári - 60



Mári é uma jovem Guineense de trinta e um anos, que está em Portugal há quatro. Viveu dois anos no Porto e agora está em Lisboa. 

Quando veio do Porto para Lisboa ficou provisoriamente em casa de uma irmã, mas logo providenciou a sua independência e encontrou um apartamento para alugar, nada mais, nada menos, no prédio onde vivo. 

Quando a vi pela primeira vez, na porta de entrada, percebi que estava de mudança. Depois, surpresa das surpresas, era precisamente para o meu patamar, um apartamento que estava constantemente a mudar de inquilinos, para onde só iam Africanos e Brasileiros, que depois não podiam pagar a renda e tinham que sair. 

Mas, como ia dizendo, quando a vi e percebi que ia para o meu andar, pensei “pelo menos agora vamos ter sossego durante algum tempo”. É que vi nela coisas que me fizeram acreditar nisso. Tinha bom aspecto, um ar diligente, enérgico e ao mesmo tempo calma, tranquila… segura, é esse o termo certo. E gostei. Achei-a decidida e gosto de gente assim. Senti imediatamente uma forte empatia com ela e a verdade, também, é que logo o destino se encarregou de armar situações que nos puseram lado a lado, frente a frente. 

Eu sabia que a última família que tinha estado na casa para onde ela ia, tinha levado tudo o que lhe pertencia e o que não lhe pertencia, de modo que, a pobre da Mári, que devia ter alugado um apartamento minimamente mobilado, não tinha nada, absolutamente nada. 

O prédio tem seis apartamentos por andar e no meu andar, damo-nos todos excepcionalmente bem, como uma verdadeira família. Assim, logo nos reunimos e acolhemos a mais recente vizinha, da melhor maneira possível, incluindo-a desde logo na nossa pequena “comunidade”. Todos gostaram muito dela e logo se disponibilizaram para a ajudar. 

Então, aproveitámos que uma vizinha estava em obras e sabendo que ia mudar os móveis, pedimos-lhe para os deixar para a Mári. Mais uma amiga, mais uma ajuda. Agora já havia mesa, cadeiras e um enorme móvel de parede, um misto de estante e louceiro, tudo em madeira. Eu tinha um divã que não usava, lá foi ele para a Mári, cheio de almofadas, umas maiores, outras mais pequenas, que bem que ele ficou. 

Depois, fomos todas aos nossos armários da cozinha e da sala e lá veio louça, tachos de cozinha, panelas, copos, pratos e tudo o mais. A casa que, inicialmente estava vazia, compunha-se com uma rapidez excepcional e com uma vantagem: aquilo não era da casa, era tudo dela. E por cada novidade que aparecia, lá íamos todas ver como ficava e era uma festa. 

Cortinados, que deram logo um ar acolhedor; umas plantas, que deram vida à sala e até livros para a estante, apareceram. Realmente, quando queremos ser solidários, acontecem milagres. E no ar pairava um não sei quê de festa, de alegria por toda aquela partilha. Muito bom! Muito bom, mesmo. 

Por ser verão, começámos a ir à praia e lá chamávamos a Mári para ir connosco, até porque ela, coitada, não conhecia nada de Lisboa. Passeio aqui, passeio ali, a Mári lá se foi familiarizando com tudo e com todos. Estava deliciada com a recepção que tinha tido. Achava que aquilo não existia. Mas existiu e existe. 

Enfim, o tempo foi passando e a vida acontecendo. 

A Mári tinha muitos irmãos e irmãs. Como uma boa Guineense, não fugia à regra. O pai já tinha falecido e a mãe era uma senhora dos seus setenta e muitos anos e a Mári era a segunda mais nova. Depois dela, só havia um rapaz. A Mári tinha uma filha de dez anos, que tinha ficado aos cuidados da mãe, na Guiné-Bissau. A menina adorava a avó, mas é claro que queria vir para perto da mãe, com quem falava frequentemente. 

Um dia, de manhã muito cedo, a Mári ligou-me pelo telemóvel, a chorar, que queria vir ter comigo. A mãe tinha falecido. A Mári estava muito, muito triste e preocupadíssima, por causa da filha. Tinha lá irmãos e irmãs, mas a menina estava muito habituada à avó, com quem vivia. Bom, perante esta situação a Mári foi à Guiné para estar com a família e porque a filha precisava dela, mais do que nunca. 

Resolvido que foi tudo por lá, regressou a Portugal, à sua nova vida. A menina ficou, agora por conta de uma das irmãs que também tinha uma filha da mesma idade. Menos mal. Mas a Mári sempre prometia à filha que tudo faria para a trazer para Portugal e ficar definitivamente com ela, o que era mais do que justo, mas muito complicado. 

E o tempo foi passando e as coisas normalizando. 

Um dia, eu estava em casa, sozinha, sentada no sofá da sala, vendo qualquer coisa na TV e de repente a minha atenção é atraída para a porta da rua. Olhei e vi um vulto negro, escuro, sem luz alguma. “Que estranho”! – pensei. E logo se foi. Soube de imediato que aquela energia era a falecida mãe da Mári. Claro que não era ela em pessoa, porque simplesmente já não estava neste mundo, mas era o seu espectro, por assim dizer. Não tinha dúvida nenhuma, só não conseguia entender porque estava ela ali. Comecei a tentar descodificar e ela estava colada à porta, de lado, vestida de negro e o rosto escondido pelo lenço da cabeça, porque era muçulmana. 

Levantei-me, dei umas voltas, sempre pensando no que aquilo poderia querer dizer, mas não sabia. Não tinha nenhuma luz. Alguma coisa ela queria, o quê, eu não imaginava. Ela estava envolta no escuro, mas isso não era de estranhar. Tinha falecido recentemente, portanto, ainda não havia luz, quero dizer, ainda estava muito ligada à matéria, ao mundo físico. Bom, não havia nada que eu pudesse fazer. Assunto encerrado e desliguei-me daquilo. 

Umas duas horas depois, a campainha da porta tocou. Fui abrir, era a Mári. De repente, lembrei-me do que tinha acontecido, mas não falei nada. Nem todas as pessoas entendem e eu não sabia qual seria a reacção dela e não a queria assustar, porque não havia necessidade. A Mári entrou, esteve um pouco comigo, disse que estava com saudades minhas, falou um pouco das coisas dela, do trabalho, da filha e aparentemente, tudo estava bem. Isto era o que ela dizia, mas alguma coisa parecia ficar por dizer - foi a sensação com que fiquei. Ela sabia que podia falar comigo tudo o que fosse preciso. Sabia que podia contar comigo, como eu com ela, por isso, não forcei nada. Quando ela entendesse, falaria. Ou também podia ser impressão minha. E até a história da mãe, ali, podia ter sido da minha cabeça. Nada era dado como certo.  

Os dias passaram normalmente, com o trabalho, os afazeres de cada uma, a rotina, os convívios, mas a Mári começou a ser diferente. A sua alegria natural e expontânea começou a esbater-se, a esfumar-se a olhos vistos e todas percebíamos isso. Era como se fizesse um esforço para estar connosco, para nos agradar, para nos ser reconhecida e grata pela maneira como a tínhamos recebido e ajudado. Mas ela não precisava nada disso, era isso que eu pensava. Ela já sabia que o tínhamos feito de alma e coração e era evidente que nada queríamos em troca, apenas e somente, que ela se sentisse muito feliz. Mas alguma coisa atormentava a minha amiguinha, embora ela tentasse esconder o melhor que podia. 

Uma tarde, estando eu a descansar no sofá, novamente senti a presença de alguém e a mesma necessidade de olhar na direcção da porta da rua e lá estava ela, a falecida mãe da Mári, exactamente da mesma maneira. A mesma energia. Eu sabia que era ela. Não que alguma vez tivesse visto uma só foto e, mesmo que tivesse visto, não era por aí, porque a figura não apresentava sequer o rosto, que estava de costas, mas é que a alma sabe disso, a alma sabe reconhecer aquilo que nunca os olhos viram. Era ela. Virada para a porta, como se quisesse entrar, mas se sentisse acanhada, receosa, vestida de negro, com o lenço e na maior escuridão. Tudo igual. Que estranho(!), pensava eu. Mas continuava a não ter a menor ideia do que ela poderia querer de mim. O que se estaria a passar?! 

Uma coisa era certa, se aparecia era porque alguma coisa queria. Alguma coisa muito importante. Só um motivo muito forte pode levar uma entidade desencarnada a baixar de novo à terra, materializando a sua energia, porque isso é atrasar a sua sua ascenção aos mundos da luz e nenhum ser quer isso para si. Não é o percurso correcto, nem desejado. 

No dia seguinte a Mári liga-me, porque já tinha ido a minha casa no dia anterior e não me tinha encontrado, o que era perfeitamente natural. Liga-me e diz-me que precisa de ter uma conversa comigo. Ah! – pensei – aquilo que anda escondido, mas que não quer, não pode mais calar. Disse-lhe que estaria em casa logo após o almoço, portanto, que aparecesse. 

Às duas e meia da tarde, a Mári apareceu. Bateu à porta, abri e ela entrou. E mais uma vez me calei em relação ao aparecimento da mãe. Com o seu ar aparentemente sereno, sentou-se olhando para mim com um sorriso que era só por fora, que não vinha de dentro, sendo evidente que parecia ser um caso de vida ou de morte. Aí, comecei a ficar pouco à vontade. O que seria? Precisaria de dinheiro? Não me parecia que fosse isso e os problemas graves das pessoas não passam por ser só de dinheiro!... Mas era uma hipótese. Seria alguma coisa com o namorado? Bom, com trinta e um anos e já no terceiro casamento, já devia saber resolver os problemas dela!? Já não sabia o que pensar, mas que estava a ficar ansiosa, estava. Então, a Mári toda constrangida e agoniada, muito receosa, com a voz quase a tremer, começou a falar. 

Posso dizer que, logo que ela começou a falar, me desdobrei em duas dimensões: a real e a não menos real, mas… a outra. Uma, que via e sentia o sofrimento daquela jovem mulher, que só Deus sabe o quanto estava a custar-lhe tudo aquilo, que não era pouca coisa, não, e na verdade, era de uma responsabilidade de todo o tamanho e que ela não tinha mais a quem pedir senão a mim, porque não tinha meios para resolver por si mesma. Impossível. E a outra dimensão, aquela que nunca sei onde é, onde fica... 

Mas eu só a ouvia, dando-lhe espaço para falar, para se justificar e aliviar a carga que trazia, para a fazer desabafar e descontrair, mas que em nada resolvia e nem pensar interrompê-la para ser eu a falar. 

E enquanto olhávamos uma para a outra, na expectativa de arrancar de mim um sim, claro, foi então que percebi o significado da estranha “visita”. Agora tudo fazia sentido. Ela precisava que eu assinasse um termo de responsabilidade e assumisse toda a burocracia necessária para poder trazer a filha para junto dela. A "estranha" visita era a mensagem antecipada, codificada. O pedido de uma mãe que, mesmo ausente, não deixa nunca no desamparo uma filha amada. Onde quer que o seu espírito se encontrasse nesse momento, veio correndo, descendo à terra, antecipando-se, fazendo o possível e o impossível, por amor. 

Apenas isso.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Judite - 59


Naquela manhã eu tinha várias coisas a fazer e depois de sair de casa decidi que a primeira seria passar no sapateiro. Era difícil estacionar ali pelo que, àquela hora, talvez ainda não fosse muito problemático.

 

Quando lá cheguei, o sapateiro estava ao balcão e o pai, um senhor já velhote, mas que ainda dava alguma ajudinha ao filho, estava sentado, como habitualmente, numa cadeira junto à máquina de costura industrial, entretido com qualquer coisa.

 

Aquilo era mais do que um sapateiro. Era uma verdadeira oficina, muito bem equipada, o que fazia com que tivessem sempre muitos clientes. Além do mais, trabalhavam muito bem e rápido. Até calçado por encomenda faziam, portanto, tinham que estar verdadeiramente bem equipados.

 

Disse “bom dia” e quando lá estava o pai, geralmente dizia “Namasté”, que sabia que ele gostava de ouvir e ficava contente, com um sorriso bonito, os olhos muito brilhantes e quase emocionado. Namasté é das palavras mais bonitas que conheço e cujo significado é: “O Deus (ou o eu) que há em mim, saúda o Deus (ou o eu) que há em ti, para promover a paz e a luz”…

 

E dito isto, o sapateiro filho que estava ao balcão, portanto, na minha frente, parou de martelar e calma e tranquilamente como era seu hábito e costume, disse “então, a sua colega”… e em fracções de segundo, sem que ele tivesse tido tempo de continuar a frase, percebi logo que não ia querer ouvir porque, por detrás da sua calma e tranquilidade, a minha intuição percebia que algo de muito feio se escondia e tudo o que eu não queria era saber.

 

Havia algum tempo que eu não andava propriamente no meu melhor. Tudo chegava até mim com um não sei quê de dor. Fugia, mas as coisas atravessavam a barreira da sensibilidade com uma fúria desgraçada. Quase não via televisão. Os telejornais davam comigo em doida. Os filmes, as séries e até as telenovelas me incomodavam. Constantemente, dava comigo a pensar “que parva que eu sou...”. Mas eu sempre sabia que aquilo era passageiro. A questão era saber quanto tempo iria andar assim, feita parva, porque não há outro adjectivo que caracterize uma coisa desta natureza.

 

Mas deixemos isso… e como ele tinha acabado de dizer “então a sua colega”… eu sabia! Mas como? Porquê, se eu tinha chegado naquele preciso instante, absorvida apenas pelos meus pensamentos e era somente largar os sapatos e pouco mais!? 


Mas não… a tragédia estava feita, eu sabia. Mas ele só tinha dito “a sua colega”… podiam ser tantas, tantas outras… mas eu sabia qual era. Porquê, não o sabia, mas sabia qual era. Mal ele abriu a boca, eu vi-a na minha frente e dizia a mim mesma… eu não tenho empatia nenhuma com ela, nem nunca trabalhei com ela… mas tinha que ser ela. 


E ele continuava “a sua colega Judite”… pronto, estava instalada e reafirmada a tragédia. O meu estômago já tinha acabado de levar um soco de todo o tamanho e a minha cabeça gritava “socorro, tirem-me daqui”. O pânico tomava conta de mim e eu só queria fugir. Mas que raio, com tantas colegas que eu tinha, logo tinha que ser aquela e eu ainda nem tinha ouvido o desfecho da notícia!?... Contudo, sabia que era algo de terrível, de muito mau. Estava estampado na cara dele? - Perguntava a mim e respondia com toda a convicção - “Claro que não”. 


Ele disse por dizer; porque era a notícia do dia; mas, principalmente, porque, embora ela já lá não trabalhasse, ele sabia que tinha estado muitos anos na RTP e portanto, tínhamos sido colegas. Fomos, durante muitos anos, em sectores totalmente diferentes, mas fomos colegas da mesma empresa. Todavia, não raro, encontrávamo-nos nos elevadores de acesso ao parque de estacionamento, com os nossos filhos ainda pequenos. O discurso dela era sempre o mesmo: “Ouviu o que a professora disse? Tem que estudar mais, tem que se comportar bem; a mamã não gosta”… e eu pensava em como era diferente o meu. Os professores sempre me diziam que não havia nada a dizer sobre o Henrique e que esperavam que continuasse assim. Enfim, não se pode ter tudo.

 

E o meu sapateiro indiano, com quem muitas vezes já tinha conversado sobre a Índia e sobre a nossa terra – Gôa -, continuava:  “A sua colega Judite… o filho teve um acidente na piscina”… a cena passava na minha cabeça e dentro de mim havia um mal estar infernal. Mas porquê, se não era nada comigo? E por mais que racionalizasse a informação, a coisa não digeria. Não era nada comigo, mas eu tremia. 


Era certo que a Judite me era indiferente. Independentemente de tudo isso, não queria estar na pele dela. Mas quem quereria? Coitada! Coitada, coitada, coitada. “O filho teve um acidente na piscina e está a morrer”. Oh, não! Era o André, ligeiramente mais novo que o meu querido e amado filho. Filho único como o meu. Que situação!? Oh, não, que horror! Porque tinha eu decidido começar o dia ali? Mas eu iria saber a notícia, mais cedo ou mais tarde. De qualquer lado ela tinha que disparar. Era inevitável.

 

E no meio daquela agitação toda que se tinha instalado dentro de mim e a que eu não conseguia escapar, pensava em como era possível, antes de ele falar no nome dela e dizer o que tinha acontecido, eu já saber que o assunto se referia à Judite e tinha a ver com o filho? Como?!

 

Às vezes, o meu chefe RM e eu, começávamos os dois a falar em simultâneo sobre o mesmo assunto, e ficávamos a olhar um para o outro com a “coincidência” da situação que, naturalmente, como ele muito bem observava, não era coincidência nenhuma. Levávamos o tempo todo a trabalhar nos mesmos assuntos, que às vezes demoravam meses a resolver, mas se um carregava uma coisa, disparava no outro e vice-versa.

 

Agora, que tudo voltou ao normal e que consigo finalmente manter a devida distância do assunto “Judite”, realmente, não sei se o que mais me afectou foi o drama dela ou o facto de ter sido um perfeito receptor do meu amigo e sapateiro indiano. É claro que me condoí e muito com a dor dela. Mas também é verdade que na altura, fiquei tão confusa, que não me apercebi de que tinha ficado bastante assustada com o facto de ter recebido a notícia de forma astral. As duas coisas mexeram muito comigo. Foi tudo muito forte. 


E a dor dela foi minha. Não invalida o facto de sempre a ter achado uma chata, de ouvir de todos os lados os colegas dizerem que ela era insuportável, histérica, que só sabia gritar, mandar e desmandar, enfim… mas a dor dela foi minha durante bastante tempo. 


Apenas porque sou mãe, com muito amor.

 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

As Túlipas - 58


As tulipas são lindas, mas aquelas eram mais do que isso. Eram belíssimas e muito especiais. Negras, brancas, amarelas, roxas…

Aquelas tinham sido especialmente encomendadas. Os bolbos vieram da Holanda directamente para o frigorífico da casa de Alcobaça. E foram para o frigorífico porque não era a altura de irem para a terra. Mas chegou o dia em que era necessário plantá-las e então escolheu-se cuidadosamente o lugar.

Na porta que dava para o jardim, frente à piscina, havia dois potes de barro, muito grandes e altos, que estavam vazios. Foi aí mesmo que decidimos plantá-las e ficámos a aguardar, com grande espectativa, o dia em que elas surgiriam à luz do sol.  

Antes disso, muito chuva viria, certamente, e muitas outras coisas também, acima de tudo, com que não contávamos. Seguramente... 

O tempo passou e o Álvaro queria tanto ver as suas túlipas, sobretudo porque não sabia de que cores eram. Era surpresa e eu também estava ansiosa por vê-las, pois elas ficariam lindamente naquele espaço e dariam outra vida ao terraço e ao jardim, demasiado verde, apesar de que o verde nunca é demais. 

Todas as semanas íamos a Alcobaça e todas as semanas espreitávamos as nossas tulipas, mas nem sinal delas. O Álvaro já achava que não iam dar em nada. Já eu, não. Porque não pegariam? Tinham todas as condições, pelo que era apenas uma questão de tempo, só isso. Ele ouvia-me e ficava na expectativa de que eu estivesse certa, porque ele adorava flores. Nunca antes tinha visto um homem gostar tanto de flores. Era admirável. 

Finalmente, chegou o dia em que fomos surpreendidos com os caules das benditas tulipas a proliferarem, despontando na terra. Estavam quase todas já de fora, umas mais adiantadas que outras, mas agora já não havia dúvidas, as que faltavam haveriam de chegar, tal como aquelas. E ficámos muito contentes, feito crianças.  

Semana a semana os caules cresciam e todas rebentaram, cada uma a seu tempo. Entretanto, a chuva parou e era necessário regá-las, para garantir o seu sucesso, por isso, todas as semanas íamos a Alcobaça, nem que fosse só para as regar e supervisionar, dado que os caules continuavam a crescer a olhos vistos. 

Mas então, o imprevisto aconteceu. O inusitado chegou e as voltas das nossas vidas foram trocadas, sem dó nem piedade. O homem põe e Deus dispõe. Assim, o Álvaro adoeceu. Teve que ser internado, submetido a uma intervenção cirúrgica, a outra e mais outra e em menos de uma semana foram, nada mais, nada menos que três cirurgias. 

Logo após a terceira, percebemos que não poderíamos ir a Alcobaça e era preciso regar as tulipas. O resto podia esperar, as tulipas não. Para o efeito e a seu pedido, telefonei para o único vizinho que tinha acesso ao jardim, para fazer o favor de regar as tulipas. Tudo acautelado. 

Fui para casa descansar, posto que as coisas tinham corrido bem com a cirurgia e esperava que no dia seguinte, o mais tardar no outro, ele tivesse alta e saísse do hospital. Mas nessa mesma madrugada o coração dele não resistiu às três cirurgias em tão pouco tempo e subitamente partiu, para não mais voltar. O terramoto estava instalado. 

À minha volta tudo tremia e ruía e eu não sabia, literalmente, onde pôr os pés. Da mesma maneira que tudo ruía eu caía, não conseguia estar de pé. Um mar de emoções avassaladoras tomava conta de mim e eu não assimilava o que me estava a acontecer. Era um pesadelo infernal. Todos os nossos sonhos se desfaziam. As nossas viagens sonhadas, os planos de vida em comum, tudo, tudo... e tudo... já era. 

Tinham decorrido três semanas em que eu só chorava. Não fazia outra coisa que não fosse chorar. Falava a chorar, comia a chorar... chorava, chorava. Mas foi preciso ir a Alcobaça uma última vez. Era estranho ir lá sem ele. Seria a última vez. E a Clara levou-me no carro dela, porque eu não tinha condições de fazer aquela viagem, nem de ir lá sozinha.  

Pelo caminho, fomos conversando e eu chorava. Aquele percurso, aquela estrada de que eu tanto gostava, parecia-me um inferno, não fazia mais sentido nem queria vê-la mais. Lá fui dando à Clara as indicações, até que chegámos. Abri o portão para o carro entrar e chorava. Olhei para a figueira que todas as vezes saciava a minha gula com os deliciosos figos com que sempre me presenteava e percebi que não voltaria a tê-los. Até isso acabava ali. Claro que o supermercado tinha figos, mas não eram seguramente os mesmos, nem nada que se parecesse. Aqueles eram únicos. E eram mesmo. 

Entrámos em casa e tudo aquilo era estranho para mim. Nada mais era igual. Eu gostava tanto daquela casa... gostava, agora menosprezava. Não queria estar ali. Olhei lá para fora, em três semanas e mais uma em que ele esteve internado, a relva tinha crescido e a falta de manutenção do jardim era notória, bem como a sujidade da água da piscina, etc... 

Enfim, tal como ele, eu já não pertencia ali. Aquilo que até há bem pouco tempo eu tinha como o meu paraíso, era agora um lugar vazio, que já pertencia ao passado e que me fazia sentir mais mal do que já estava. Não percebia porquê, mas era assim que eu sentia. Tudo tinha mudado e o pior é que não havia nada a fazer, nada que pudesse reverter a situação. Era definitivo. 

Passei pela garagem e abri a porta que dava acesso ao terraço do jardim e que ficava em linha de vista com a porta que dava para a piscina e parei. As tulipas as tulipas... lindas! Esplendorosas! Elas estavam ali à espera dele, mas ele tinha partido sem ter tido tempo de vê-las. E ele queria tanto!... O choro parou momentaneamente. Perante tanta beleza, algo travou e mudou a minha emoção. A energia dele estava ali. Eu podia sentir. Era quase visível, quase palpável.  

Os potes tinham ficado lindos, adornados pelas tulipas de cores variadas. Elas ali estavam, imponentes, cheias de vitalidade, embora evidenciando rigorosamente a sua bela fragilidade, pela doçura das suas formas, do desenho das pétalas, da graciosidade de toda a frescura e até das tonalidades fortes, mas cálidas. 

De pé, bem erguidas à luz, enraizadas na terra, davam a sensação de homenagear algo ou alguém, ao mesmo tempo que pareciam estar gratas à mão que as tinha dado à terra, para que lhes desse vida. Vida, era isso, elas homenageavam e estavam agradecidas à vida, ainda que essa vida tivesse partido. 

Eu sentia as lágrimas nos meus olhos a rolar pela face. A pele do meu rosto já estava massacrada e cansada desse rio que se acostumara a invadi-la sem descanso. Mas, naquele momento eu não me importava de sentir o peso delas. Essas eram quase de felicidade, porque ali havia algo de mágico, algo que o tocava a "ele". 

Ali, naquele espaço, no éter ou onde quer que fosse, estávamos os dois ligados de uma forma misteriosa, através da magia libertada pelas tulipas, que se recusava a ficar presa e o manifestava abertamente, através de uma pétala que se tinha evadido. 

Sim, havia uma, uma tulipa branca... talvez um pássaro ali tivesse pousado, ou não, mas uma pétala de uma tulipa branca como a neve, tinha ido parar ao chão, a menos de um metro de distância do pote onde estava. 

E aquilo que eu via da garagem, tão bem enquadrado pela ombreira da porta aberta, bem podia ser um quadro, uma pintura. Um misto de Van GoghDelacroix ou até mesmo Renoir, pela luz e pela cor. Mas ali, era ao natural, genuinamente natural, aquela bela combinação da natureza com a cor e a luz. A luz!... 

O amor corria ali ao de leve, com a paz a seu lado, bebendo tranquilidade e respirando harmonia infinita, transportada pelo berço da natureza até à eternidade. 

Era uma coisa linda de se ver, de se sentir, aliás, era uma coisa única, que apelava a todos os sentidos extra-sensoriais. Todas as campainhas tocavam, dando alarme de algo belo e único que jamais se repetiria e que além de mim, ninguém, mas ninguém mesmo, poderia testemunhar. Um exclusivo que a minha alma jamais dispensaria. 

Não havia nada naquela casa que eu quisesse, a não ser ele. Nem mobília, nem objectos me seduziam ou valiam de alguma coisa. Apenas ele era importante.  

Mas de repente, corri para os potes, meti as mãos bem fundo na terra e arranquei os bolbos com o cuidado necessário e o propósito de os não danificar em hipótese alguma e um por um, guardei-os num saco para voltar a pô-los na terra, bem perto de mim. Aquele era o único e real valor que dali me interessava. 

Voltaria a pô-las em outra terra para voltarem a florir à luz da vida. 

Só uma pétala ficou caída.

 

terça-feira, 17 de março de 2015

O roubo das jóias - 57


As histórias da minha vida não fazem de mim a melhor das criaturas, nem tão pouco uma heroína. Esta, muito particularmente, serve de exemplo e talvez nem a devesse escrever. Mas essa não seria eu já que, a primeira pessoa a quem devo fidelidade, é a mim mesma.  

Uma tia minha, octogenária, tinha muito ouro que sempre foi comprando em Portugal ou por esse mundo fora, nas viagens que fazia. Caixas e mais caixas de tudo: anéis, brincos, colares, gargantilhas, enfim, muita coisa. 

Há uns anos atrás, tive umas dificuldades financeiras e a minha cabeça começou a trabalhar no sentido de encontrar uma solução para o problema. Passei dias, semanas, a pensar, mas no fim, nada me parecia viável. 

Eu acredito que o ser humano nasce com o bem e o mal, o que todos têm em medidas diferentes, porque ninguém é igual a ninguém. Começa-se a crescer e começa-se assim a definir a quantidade ou tendência para o bem e para o mal, porque não há ninguém que seja cem por cento bom, assim como não há ninguém que seja cem por cento mau. A vida que levamos e as experiências que vivemos, levam-nos e conduzem-nos a bons ou maus caminhos e pronto. Por isso, muitas vezes somos surpreendidos com atitudes de outras pessoas com que realmente não contávamos, mas esquecemo-nos de que nós também estamos sujeitos a cair nessas teias. 

Mas eu tinha um problema para resolver ou achava que tinha. O certo é que um dinheiro extra dava jeito naquela altura e aquilo não me saía da cabeça. E durante bastante tempo, todos os dias pensava nisso, à procura de um milagre que não acontecia, é claro, até que um dia, estando em casa da minha tia, mais propriamente no quarto dela, que estava a escolher as joias que usaria naquela noite para ir à ópera, me dei conta da quantidade de ouro que ela possuía e de repente bateu-me uma ideia. Se eu levasse alguns anéis e mais umas coisas, ela nem daria por isso porque, com tanta coisa, era quase impossível perceber. 

Até hoje, não sei como aquela ideia maluca me veio. Nunca tinha feito nada igual nem parecido. Considerava-me uma pessoa “boa”, correcta, justa e honesta… mas são muitos predicados para uma só pessoa. Mas era assim que todos devíamos ser(?!). 

E a minha cabeça que, tinha andado semanas infrutíferas a pensar em como arranjar dinheiro, de repente, viu-se a braços com uma solução especialmente embaraçosa - roubar - sim, porque seria um roubo. Na minha cabeça, inventava mil e uma desculpas e razões para o fazer, mas era apenas para me justificar e não me sentir uma pessoa tão vil, só isso. E a mesma ideia que uns dias me parecia inofensiva, outros dias parecia-me abominável. 

Os dias passavam e a minha cabeça trabalhava, trabalhava sem descanso. O facto é que era uma solução viável. Pelo menos eu assim achava e todos os dias ensaiava a cena, tornando-a mais verídica para a conseguir concretizar. Fui amaciando a ideia, visualizando, encenando, preparando o espírito para uma coisa que nunca na minha vida tinha feito, pensando que para tudo havia uma primeira vez; não, nem tudo tem que ter uma primeira vez. Mas, digamos que, naquela altura, me dava jeito pensar assim.  

E o tempo passando e eu me torturando, dando cabo da minha cabeça a inventar as mil e uma maneiras de me sair bem daquela história, com o problema resolvido e sem ninguém dar por nada porque, ninguém, jamais, saberia desta história. Não me achava esperta por isso. Tinha apenas que me desenrascar e de entre todas as hipóteses, aquela ainda era a que me parecia mais “praticável”, por assim dizer. Ela não precisava nada daquilo tudo e a mim dava-me imenso jeito, só isso. 

O tempo foi passando, passando, até que um dia, a minha cabeça voltou a ser a minha cabeça, porque aquela outra não era a minha, com certeza. Aquela não era eu e nisso estava certíssima, porque eu jamais faria uma coisa daquelas e no final das contas, vendo bem, eu nem precisava nada de um dinheiro extra. Tinha tudo o que precisava e o que não tinha não precisava. Não havia mais o que pensar. Pedi desculpa a mim mesma, conscientemente me perdoei a mim mesma e senti vergonha de ter pensado numa coisa daquelas. Eu não podia. Se tivesse cometido aquele deslize, nunca mais seria a mesma. Era impossível fazer semelhante coisa. Não é da minha índole, nem faz parte dos meus princípios; não tem nada que ver comigo. Eu não sou assim. E respirei aliviada, ainda sem saber muito bem como me tinha passado pela cabeça semelhante coisa e ainda que ninguém, a não ser eu mesma, soubesse daquela treta. E a história deveria terminar aqui. Mas não termina. 

Oito dias depois, exactamente oito dias depois, uma senhora estranha, da maneira mais idiota possível, entrou lá em casa, levou boa parte das joias e foi-se. Não havia muito o que explicar. Ao que parece, enquanto a minha tia estava na casa de banho a tomar o seu duche e a fazer a sua higiene diária, uma desconhecida qualquer tocou à campainha e quando a empregada foi atender, ela disse que ia fazer uma visita à senhora. A empregada pediu-lhe que aguardasse na sala de estar, tendo-se retirado para a cozinha. Com a passagem livre, foi direita ao quarto, levou o que pode e pôs-se a andar sem a empregada dar por isso. E a minha tia, infeliz, telefonou-nos, dizendo: fui roubada.

A história também podia terminar aqui. Mas ainda não vai terminar. 

As casas são assaltadas – acontece. A minha tia ficou sem as suas queridas joias, no entanto e estranhamente, nem ficou tão abalada quanto eu supunha. Mas eu pensava: aquele roubo foi planeado por mim! Porque não aconteceu antes? Antes, enquanto eu decidia sobre o assunto? Podia ter sido; mas não. Aconteceu exactamente quando eu decidi que não faria semelhante coisa. Coincidência! 

Mas coincidências não existem, isto é, para além da coincidência, as coisas têm uma razão de ser. O roubo só aconteceu depois, “depois” de eu ter decidido que não o faria. Se tivesse acontecido uma semana antes, na altura em que eu ainda estava a decidir o que fazer, o meu livre arbítrio não teria sido posto em causa e a minha escolha não teria mérito algum. 

Pois é. Estava escrito que ela ficaria sem as joias, por razões que se prendem a ela e só a ela dizem respeito. A vida pôs-me à prova, só isso. Deu-me a mim a oportunidade de escolha. A escolha, claro está, não se trata da posse das joias, mas do acto em si: um roubo. A vida deu-me uma lição. Disse-me para roubar as joias. Eu disse que não e ela enviou outra pessoa que aceitou a tarefa. 

E é aqui neste ponto que se define o ser humano, a qualidade da alma, a delicadeza do espírito. Todos somos chamados e postos à prova. Cabe a nós escolher o caminho que queremos. 

Agora sim, a história chegou ao fim.