terça-feira, 23 de junho de 2020

Adriana - 86



“O mundo quadrimensional convoca a humanidade para ser livre, convida-a para herdar a Terra e os céus, para possuir todas as coisas e para compreendê-las por meio do amor e da unidade” – A Quarta Dimensão.
(Vera Alder)


De passagem em casa da minha irmã, fiquei sabendo que Rita e Nuno iam lá almoçar. Era a oportunidade de a conhecer, porque nunca nos tínhamos encontrado. Além disso, estava grávida, o que era uma alegria para ambas as famílias. E assim o jovem casal apareceu.

Feitas as devidas as apresentações, achei que era uma garota simples e educada, simpática e acessível. E a única coisa que eu sabia dela é que, por ter sido secretária do sogro, teve assim a oportunidade de conhecer o Nuno. A vida faz o trabalho que tem que fazer. O universo abre-nos o caminho, dá-nos até escolhas, mas a responsabilidade é nossa. Os acordos e as missões são para serem cumpridas.

Muitas vezes penso no meu casamento e no facto de ao fim de doze anos me ter divorciado, porquê(?), porque é que não deu certo, porque é que não continuámos, etc..., etc…, etc… e chego sempre à mesma conclusão. O que tinha que ser feito, foi feito. O resto, à luz dos registos akáshicos, não é relevante. A missão era: une-te àquele indivíduo e tem um filho com ele. Só com ele. Despois, outras coisas virão. E foi o que aconteceu. Quando penso no que éramos, tão diferentes um do outro nalgumas coisas, noutras nem tanto, mas diferentes. Era um verdadeiro choque, um enorme desafio. No entanto, esse choque foi superado para que uma criança nascesse e também tivesse a sua missão. Cada um tem o seu selo especial, porque é único. E às vezes não conseguimos perceber de imediato qual é o nosso papel nisto ou naquilo, mas se deixarmos o tempo passar, mais tarde, é só olhar para trás, para ver o desenho que ficou impresso na estrada da nossa vida e está lá tudo. Foi assim porque tinha que ser assim.

Voltando atrás, o almoço começou a decorrer num ambiente descontraído e agradável, onde se dizem piadas e se ri muito. E já quase no fim do almoço, Nuno chega-se bem juntinho à namorada e segreda-lhe qualquer coisa que termina assim “… mãe dos meus filhos”, a que ela correspondeu com um sorriso de conivência, de concordância e que ao mesmo tempo confirmava a sua felicidade.

Achei curioso ele tê-la definido como “a mãe dos filhos dele”, em vez de tratá-la por “meu amor”, “minha querida” ou de outra forma qualquer carinhosa, dentro deste género. Mas não foi assim. E ela não se importou nada, bem pelo contrário, ficou até vaidosa, digamos, por ele a ter tratado daquele jeito. Pois, é que Rita tinha uma missão. Ela não sabia, nem ela nem ninguém e muito menos eu, mas isso não interessa. Rita estava apenas cumprindo a missão a que estava destinada.

Esta cena, que para todos passou completamente despercebida, para mim não passou. Foi um alerta, daqueles alertas inexplicáveis, mas aos quais já me habituei e que mais tarde se esclarecem, porque tudo tem a sua razão de ser.

E um pouco mais tarde, conversa para lá, conversa para cá, fiquei a saber que já sabiam o sexo da criança, uma menina e até o nome já tinham. Perguntei e responderam “Adriana”. Adriana(!)… um nome não muito vulgar, mas que achei bonito e que soava bem. Pareceu-me uma escolha interessante e apeteceu-me saber porque tinham escolhido aquele nome, mas achei que não faria muito sentido e decidi não falar. Em todo o caso, o meu sensor ou a minha intuição, novamente deu sinal sem que, no entanto, tivesse a mais pequena ideia do porquê e portanto descartava e passava à frente, ou seja, ignorava por completo.

Acabado o almoço, e eles tiveram que se retirar logo de seguida, ficámos nós, os “adultos” ou os “velhos” por ali, no relaxe, a curtir a existência, sem nenhuma preocupação em especial, enquanto as conversas rolavam também descontraidamente, até que, de repente, minha irmã salientou o facto do companheiro estar preocupado ou apreensivo, pelo facto de ter uma neta e não um neto. Ingenuamente, como é meu hábito, porque estou sempre alheia a tudo - sendo que é nesse alheamento que encontro os pontos que mais ninguém encontra -, ingenuamente, perguntei porquê. Ah, porque como ele teve dois rapazes, acha que não vai saber lidar com uma menina. Sorri e pensei, ele há-de habituar-se. Será uma excelente aprendizagem.

O tempo passou, Adriana nasceu, correu tudo às mil maravilhas e como é natural, Adriana virou o centro do universo familiar.

Há pouco tempo, estando num outro grupo familiar, alguém falou que no Domingo ia almoçar com o Fernando e a Guida, minha irmã, que vivem juntos há uns bons anos. Fernando ficou viúvo duas vezes, da mãe dos filhos e da segunda mulher. Da terceira separou-se e veio uma quarta, que é precisamente a actual, minha irmã. E o casamento funciona muito bem. Os rapazes ficaram sem a mãe muito pequenos e depois foram criados com a madrasta e foi outro choque, quando ficaram sem ela. Isto tudo já eu sabia, mas o que eu não sabia é que, a primeira mulher, a mãe dos filhos, se chamava Adriana. E a conversa continuou: é por isso que a bebé se chama Adriana. Adriana? Isso eu não sabia.

A missão da Rita estava cumprida com todo o rigor. Adriana voltava para continuar o amor que uma vida curta lhe tinha roubado cedo demais, o amor incondicional pelos filhos. A lei da reencarnação manifestava-se assim, agora, através de Rita, a “mãe dos filhos” de Nuno, conforme ele mesmo a tinha referido.

Era essa a razão pela qual o meu sensor tinha dado o alerta. O puzzle acabava de fechar.


domingo, 26 de abril de 2020

O poder do pensamento - 85



Há mais de vinte anos atrás fui a um oftalmologista para retirar um pequeníssimo sinal que me apareceu na pálpebra inferior do olho esquerdo, mais exactamente entre as pestanas, o que parecia o encravamento de uma delas ou mais, e comecei a embirrar com aquilo. Fui ao médico que me confirmou que não era nada maligno mas se queria tirar, tirava-se e resolvia-se o problema. Assim fiz. O sinal foi retirado, contudo, após a cicatrização, a coisa não melhorou, porque apenas tomou outra forma, ou seja, no mesmo sítio, ficou uma marca equivalente a um sinal, diferente, mas um sinal.

Dei tempo para que aquilo desaparecesse, o que não aconteceu, pelo contrário, desenvolveu-se ainda mais. É certo que estou a falar de uma coisa minúscula, mas por ser no sítio em que era, incomodava-me do ponto de vista estético. Incomodava-me a mim, que sabia que o tinha e o via com espelho de aumentar, porque aos outros passava completamente despercebido. A questão é que não tinha mesmo valido a pena ter mexido naquilo. O resultado estava à vista. E agora não me arriscava a voltar a tirar. Portanto, a solução era esquecer. Mas isso era fácil de dizer. A questão é que eu estava sempre a ver e a fazer as minhas próprias críticas e havia alturas em que me chateava mais do que outras.

O tempo foi passando e andei anos com isto. A maquilhagem era sempre muito cautelosa para disfarçar, porque ainda que os outros não reparassem eu sabia que o tinha e incomoda-me. Em todo o caso, durante muito tempo aprendi a viver assim e a maior parte do tempo até me esquecia.

Até que chegou um dia em que reparei que o sinal tinha tomado uma forma um pouco diferente, porque estava ligeiramente maior. E novamente comecei a dar-lhe mais atenção e a embirrar ainda mais com aquilo. Andava constantemente a olhar no espelho o aspecto da coisa, que não gostava nada de ver. Estava na hora de voltar a pensar em tirar. A questão é que tinha que ser alguém confiável e que me resolvesse o problema de vez e bem, para não acontecer o mesmo. Andei uma série de tempo com o assunto em mente para resolver da melhor maneira possível. Pensei em vários médicos, mas estava sempre com um certo receio. E acabei por deixar andar, à espera que a solução caísse do céu. Mas, entretanto, chegou um dia em que havia um evento para o qual tinha que me arranjar um pouco melhor do que o habitual, o  que também exigia uma maquilhagem perfeita. Como aquilo estava maior e um pouco mais em evidência, foi mais difícil, ainda assim, consegui disfarçar muito bem o indesejado sinal.

Porém, acabada a festa e de regresso a casa, chegou a noite e a hora de retirar a maquilhagem e limpar o rosto. Findo este processo, frente ao espelho, reparo que o sinal estava horrível, muito feio, alterando completamente a minha fisionomia, porque tinha ganho uma cor que agora não queria sair de maneira nenhuma e eu já não podia mexer mais para não irritar a pele. Olhando bem para mim, no espelho, decidi que no dia seguinte iria tomar as providências necessárias para encontrar o sítio certo, para uma vez mais o tirar. Agora seria definitivo. A minha paciência com aquilo tinha acabado de vez.

No dia seguinte quando me levantei e fui tomar duche, logo me deparei com o chato do sinal e nem me apetecia olhar para o espelho. Precisava de sair para fazer umas compras de supermercado e tratar de mais outras coisas e depois concentrar-me-ia naquele assunto. Pus os óculos de sol para não ter que olhar para aquela coisa e fui à minha vida. Na estrada nacional, passando em frente do meu oculista, decidi parar e perguntar se por acaso não tinham um oftalmologista que me resolvesse o problema.  Responderam que não, mas que ali um pouco mais adiante, havia uma clínica de dermatologia onde tiravam sinais e que fariam aquilo na perfeição. Senti convicção por parte deles na informação que me estavam a sugerir e decidi que o faria. Porém, àquela hora não estava lá ninguém, pelo teria que esperar para o dia seguinte. No dia seguinte livrar-me-ia daquilo de uma vez por todas, estava decidido.

Cheguei a casa sentindo-me aliviada pela tomada de decisão, sendo que a recomendação me parecia bastante segura e ainda por cima à porta de casa, pelo que no dia seguinte, logo de manhã, iria lá direitinha. Agora estava decidido, porque eu não queria mais o meu olho assim. Aquilo tinha que desaparecer. Queria maquilhar-me à vontade ou não me maquilhar, mas não ter que me preocupar constantemente e diariamente com aquela coisa. Há anos que me vinha aborrecendo demais por uma coisa tão insignificante. Estava na hora. Olhei fixamente no espelho e visualizei o meu rosto livre do sinal. Sem dúvida, no dia seguinte ele desapareceria como que por magia. Já era!

E o dia seguinte chegou. Acordei e logo me lembrei do que me tinha proposto fazer. Levantei-me e tranquilamente fui para a casa de banho para a minha higiene diária. E mais uma vez olho-me no espelho para ver o aspecto do sinal. Surpresa das surpresas, o sinal não estava lá. Fui para o espelho de aumentar e nem sinal dele. Olhei, olhei demoradamente, mas o sinal tinha desaparecido como que por magia. Não, não havia mais sinal. A pele estava lisa e sem marca. Era impressionante! O inusitado é que não desapareceu num dia qualquer. Desapareceu exactamente quando me propus, quando me determinei a tirá-lo. E uma vez mais constactei a força e o poder do pensamento, porque foi isso mesmo que aconteceu. O poder do pensamento é uma coisa maravilhosa que, infelizmente, continuamos a ignorar.

E já não precisava mais de ir à clínica. Estava livre daquilo. Mas sobretudo, estava maravilhada por, uma vez mais, poder admirar o quanto pode a nossa mente. A força que está em nós contida é como um diamante em bruto. Temos tantas capacidades que estão fechadas, bloqueadas, à espera apenas de uma oportunidade para virem à tona e se fazerem ouvir. É fascinante, poder pensar que não somos só isto que vemos ao espelho, mas somos muito, muito mais. Não somos deuses, mas sem dúvida temos o poder que conseguirmos e quisermos alcançar. Ele só está à espera de uma oportunidade nossa. E essa oportunidade que um dia tem que chegar é, nem mais nem menos, o poder do pensamento.


sexta-feira, 13 de março de 2020

Amor incondicional - 84


“Aqui não há nada de errado que você possa fazer.

Aqui você é amado infinitamente”…


Esta maravilhosa frase é de um livro que li há um tempo, de alguém do sexo masculino, que viveu uma experiência de quase morte (EQM), tendo sobrevivido, e com a qual aprendeu a ver e a valorizar a vida de modo diferente. É o que sempre acontece nestes casos. E por isso decidiu escrever um livro, a fim de partilhar esta bonita e enriquecedora experiência.

Resumindo, ele entra em estado de coma e, segundo os médicos, o seu estado é grave, não dando assim à família, muita esperança da sua recuperação.

Muitas pessoas entram em estado de coma, sem que isso implique a morte. Às vezes, o estado de come até precisa de ser induzido. Neste caso particular ele entra em estado de coma e contra todas as previsões, as mais pessimistas, não morre. Consegue recuperar-se. O inusitado é que não perde a totalidade da consciência, o que lhe permite lembrar-se da “viagem” que fez enquanto aparentemente ausente, em estado de coma e quando volta à vida, isto é, quando se recupera, tem uma bonita história para contar.

Não vou contar a história com todos os detalhes. Vou limitar-me a abreviar e concentrar-me apenas naquilo que no momento me interessa.

Então, a dada altura da sua viagem pelo inconsciente, ele chega a um lugar muito bonito. Um jardim cheio de flores maravilhosas e uma atmosfera surreal, onde se sente muita paz. Um lugar belíssimo, sem igual, onde apetece entrar para não mais sair. E mesmo à entrada desse lugar tão especial aparece uma linda menina, muito jovem e de uma beleza extraordinária, que o recebe com um sorriso e um olhar de uma incrível doçura.

Ele não imagina onde está, mas está deliciado com o que lhe está a acontecer. Contudo, há um receio da parte dele, o receio de “manchar” aquele lugar paradisíaco. E então, lendo o pensamento dele, ela lhe transmite mentalmente a seguinte mensagem: “aqui não há nada de errado que você possa fazer… aqui você é amado infinitamente”…

Lembro-me perfeitamente que, quando li isto, fiquei impressionadíssima com o conteúdo desta mensagem, com a força do amor que ela encerra. E se eu tinha alguma dúvida enquanto lia o livro, sobre a veracidade deste depoimento, aqui, foram-se todas. Dei-me por vencida.

Transportando isto para a vida real, pensei que jamais existiria este estado de alma, esta vibração, na terra, enquanto seres encarnados. Durante alguns dias andei em êxtase com esta mensagem sempre presente, porque a achei uma coisa do “outro mundo”, por assim dizer. Mas, ao mesmo tempo, sentia uma certa tristeza, por não podermos vivenciar a autenticidade de uma amor assim. De um sentimento de tal modo nobre, puro, genuíno, elevado ao mais alto grau. Era bonito de mais para poder ser sentido e vivido aqui na terra. Mas aí, à força de tanto meditar sobre o assunto, vieram-me à lembrança passagens da vida entre mim e o meu pai, nas quais encontrei uma certa analogia. E então percebi que, afinal, aquele amor não era tão impossível. Tal vibração amorosa paira por entre seres encarnados, no nosso mundo, planeta terra, mas passa facilmente despercebida, porque o nosso tecido material fecha a passagem e impede tal percepção, por ser uma vibração muito elevada.

“Aqui não há nada de errado que você possa fazer”. Lembro-me de que na altura pus esta frase à consideração, na minha aula de Meditação na universidade sénior e a resposta consensual que tive foi que por ser o “céu” não havia nada para fazer e não havendo nada para fazer, não há como errar. Fiquei devastada com a pobreza da interpretação dada. E prossegui com a segunda frase “aqui você é amado infinitamente”, mas não houve observações. Pode ser que tenham entendido ou não. Talvez até nem tenham achado nada de tão espectacular como eu achei. Mas isto não é fácil no nosso mundo.

Numa tarde quente de verão, estávamos na casa de campo do meu pai, que tinha ido apanhar um balde cheio de figos para mim. Para mim, porque eu adoro figos e, por saber disso, ele deu-se ao trabalho de ir apanhá-los só para mim. Às tantas, chegou de visita ao tio, uma prima minha, com a família toda. Ela gostava muito do meu pai. Chegaram, cumprimentámo-nos todos, abancaram e a conversa começou. De repente, ela reparou nos figos. Tanto comentou e desejou os figos, que fez com que o meu pai imediatamente lhos oferecesse, sem mais delongas. E enquanto ela se desfazia em agradecimentos e toda desvairada por causa do meu pai lhe ter dado os “meus” figos, a minha irmã mais nova, que estava presente, veio ter comigo indignadíssima porque o pai tinha ido apanhar os figos de propósito para mim e não para ela(?!). E não se conformava, achando que eu devia exigir os meus “direitos”.

Eu compreendia o ponto de vista dela. Mas ela só via as coisas de um lado, o lado da irmã. Não conseguia ver o lado do pai. E o que eu via, não era o facto de eu ter ficado sem os figos, porque os figos, a bem dizer, não eram de ninguém e nas figueiras havia muito mais para apanhar. O que eu não conseguia deixar de ver, era a felicidade do meu pai, por fazer a sobrinha feliz por tão pouco. E se isso o fazia feliz, então eu estava feliz e, portanto, não havia nada de errado. Era uma questão de "amor". Quando me lembrei deste episódio, percebi que aquela mensagem bonita se encaixava ali perfeitamente bem. O meu querido e amado pai só não tinha feito nada de errado para comigo porque, por mim, ele era amado infinitamente. E como o meu amor por ele era genuíno, a mensagem encaixava sem o menor favor. Portanto, aqui na terra é possível, sim. E quando testemunhamos uma experiência a este nível, então, somos abençoados, porque o cosmos nos permitiu tal abertura de espírito, o que, infelizmente, ainda não é para todos.

Outro caso é o facto de, muito perto de partir desta vida, o meu pai, quase em jeito de pedido de desculpa, me confidenciou que, das três casas que tinha, todas tinham ficado em nome da minha irmã mais nova e não uma para cada uma das três filhas que tinha, o que seria normal. É que ele achava que essa, a mais nova, não tinha as capacidades que nós tínhamos para enfrentar a vida. Por isso ele assim tinha decidido.

Em primeiro lugar ele não tinha que pedir desculpa. Para mim, a decisão dele era soberana e eu só tinha que aceitar. Em segundo lugar eu percebia muito bem o que ele queria dizer com aquilo de ela não ter as capacidades de vingar que nós tínhamos. E por último, eu o amava demais, para questionar uma decisão dele. É mesmo tudo uma questão de amor. Mais uma vez, a mensagem encaixava perfeitamente e eu tinha a particularidade de me sentir feliz, numa situação em que qualquer outra pessoa se sentiria injustiçada. Não havia julgamentos a fazer. A única coisa que para mim importava era vê-lo feliz com as decisões que tomava. Há quem não entenda isto. Há quem não deixe entrar no seu coração a energia do amor. São escolhas a fazer. Renunciar à matéria para sentir algo muito mais importante e valoroso – o amor incondicional – vale muito a pena.

Entretanto, a minha irmã está com problemas monetários graves, não obstante as heranças que lhe foram deixadas, não só por parte do pai. Mas esse é o karma dela. Com efeito, mesmo que o meu pai não me tivesse dado a explicação que deu, é como se eu sempre soubesse que as casas lhe pertenciam a ela, porque eram o instrumento da sua aprendizagem, ou seja, a lição que tiraria desta vida.

Outra coisa que acho extraordinário é também o facto de o meu pai não ter ficado nada incomodado com a sua decisão. Acredito que estávamos os dois na mesma sintonia e, portanto, não eram necessárias explicações adicionais, perante um facto bem reconhecido e assumido a nível das nossas almas: amor incondicional.

E aqui fica a mensagem para aqueles que amo verdadeiramente:


“Aqui não há nada de errado que você possa fazer.

Aqui você é amado infinitamente”…



segunda-feira, 9 de março de 2020

Um salto "quântico" - 83



Muita gente sofre de crises de pânico. Mas quem não tem esse problema não valoriza o sofrimento que isso é, o que eu compreendo, porque também devem pensar que não tem importância, que é uma coisa estúpida, que pode ser evitado, que se tem porque se quer, etc. …, etc. …, etc. …

As crises de pânico são uma coisa muito séria. Deixam as pessoas completamente arrasadas e muito mais. Tem gente que não sai à rua com medo. Tem gente que se inibe de tudo o que se possa imaginar, por causa do medo do pânico, que pode ser generalizado ou por uma razão específica.

Falando assim, até parece que sou especialista no assunto. De certa forma sou, mas não pelas melhores razões, ou seja, não por ser médica, mas porque bem cedo comecei a padecer desse mal horroroso. E sei o que é ficar “inválida” por causa do pânico. E sei o que é não querer ou não conseguir sair à rua, falar com as pessoas, fazer o que se tem que fazer, por causa das crises de pânico.

E não foi à falta de lutar contra isso. Quanto mais crises tinha, mais dominada por elas eu ficava. Andei em médicos e mais médicos, medicamentos, mas o pânico persistia. Foram muitos anos a lutar contra o pânico. Foram sessões com psicólogos e de tudo eu tentei, mas o pânico dava cabo de mim.

Também tinha muitos colegas, mulheres na sua maioria, mas também homens, que tinham o mesmo problema. E o que isso interferia na vida profissional, para não falar do desgaste na vida pessoal!? Era muito complicado. Era terrível. Depois, eram as consequências irreversíveis, que se projectavam em todas as áreas das nossas vidas. Até hoje eu penso, felizes daqueles que não compreendem. É porque nunca passaram por isso.

Uma crise de pânico derruba-nos. Deita-nos completamente por terra, às vezes no sentido literal da palavra. Depois, seguem-se uma série de sentimentos, nada dignificantes, como a humilhação, por exemplo, porque se fica sempre com a consciência de que se deveria ter sido capaz de ultrapassar. Mas como? O sentimento de inferioridade e de impotência, como “não valho nada, sou um zero à esquerda, não mereço o respeito nem a admiração de ninguém, só atraio a pena, pena de mim própria e o desprezo dos outros” e por aí fora. É um nunca mais acabar de intolerância e desaprovação do próprio e dos outros. E depois voltar a encarar tudo, voltar à “normalidade”… até à próxima crise, que nunca se sabe quando vem. De repente, no momento menos oportuno, na situação mais indesejável, na altura menos própria, para uma vez mais nos derrubar.

Mas eu não queria. Eu não queria aquilo. Estava farta, cansada. Eu não precisava daquilo para nada. Era isso que eu pensava e achava que era impossível livrar-me daquele problema. Mas aí é que eu estava enganada, porque um dia, com efeito, livrei-me do pânico de uma vez por todas. Sem mais nem menos, porque assim o quis.

Um dia, estando eu a trabalhar, levantei-me para ir à fotocopiadora que ficava numa pequena sala dentro do espaço em que trabalhávamos. Como só havia uma, às vezes estava ocupada e tínhamos que esperar. Foi isso que aconteceu. Cheguei lá e estava uma colega a utilizar a máquina, pelo que me aproximei com os papéis que tinha na mão, aguardando que ela terminasse o que estava a fazer. De repente, sem mais nem menos, começo a sentir o corpo todo a estremecer. Mas ainda não era exactamente o meu corpo, ainda era fora do meu corpo. Porém, já estava a começar a afectar a minha cabeça, que deu imediatamente o alarme. Daí, a instalar-se a crise, eram fracções de segundo. Portanto, ao primeiro sinal de tomada de consciência, resolvi agir. Pensei, mais uma crise de pânico que está pronta para tomar conta de mim. Voltei a pensar para comigo mesma o quanto eu estava fartíssima daquilo e porquê aquilo? Era preciso pôr um fim, se é que era possível. Era urgente. E tive plena consciência de que era chegado o momento de fazê-lo. Mas como? Se as outras pessoas não conseguiam, como é que eu iria conseguir?

Mas eu não era os outros. Eu era eu. Em fracções de segundo percebi que estava pronta para mudar essa situação. Era chegada a hora. Ou era naquele momento ou nunca mais seria. Senti a energia negativa subir, preencher todo o meu ser, mas ao contrário das outras vezes em que me deixava contaminar por ela e assumia que estava mal, muito mal, prestes a morrer, desta vez fiquei quieta, parada, como se nada estivesse a acontecer. Ninguém se apercebeu de nada e eu própria fiquei como que de fora, como simples espectadora do medo avassalador que inundava todo o meu ser. A única coisa que tinha em mente era “não faz mal, deixa estar, vai passar, não é nada” e coisas assim do género, enquanto permanecia imóvel e aparentemente serena e calma.

E a onda de energia fez o seu trabalho habitual, rondando a minha paciência, testando as minhas capacidades e os meus limites, enquanto eu resistia heroicamente. Sabia que era tudo ou nada. Tinha plena consciência de que tinha feito uma auto análise e tinha tomado consciência de que seria mais forte do que o pânico. Mas não foi por magia! A chave para este confronto foi o facto de acreditar que seria capaz de não me deixar vencer pelo medo e o medo era morrer. Por isso trabalhei secretamente para não ter mais medo de morrer e aceitar o que quer que fosse.

Finalmente, não encontrando o terreno fértil como sempre encontrava, a onde de energia negativa deu-se por vencida e desistiu, partindo subitamente. Assim, tive consciência de que estava liberta. Tive consciência de que tinha controlado o meu emocional e imediatamente a seguir à saída dessa energia negativa, uma onde de energia muito positiva dava entrada no meu ser, invadindo-me sem permissão, de um bem estar inaudito. Era uma sensação maravilhosa e de uma leveza incrível. Era o melhor presente que eu acabava de receber da vida e bem que o merecia. Agora tinha consciência de que algo muito importante e muito especial tinha acontecido e eu tinha conseguido, ou melhor, tinha conquistado.

De facto, não era pouca coisa. Aquele momento tinha sido decisivo para alterar o padrão de registo do medo. Eu estava a salvo, mas não era só em relação àquele momento específico, não. Eu tinha acabado de vencer, de uma vez por todas, as minhas crises de pânico. Claro que o medo voltaria. Voltaria sempre, muitas vezes, porque o medo faz parte de nós. Quem não sente "medo"? Mas daí até se transformar em pânico, isso não. Isso não voltaria mais, porque eu já não estava em situação de lhe dar entrada. Algo muito importante tinha mudado. Algo fundamental e decisivo.

E o que antes me parecia impossível, foi resolvido num breve instante em que me permiti apenas fazer um simples salto "quântico”.


domingo, 26 de janeiro de 2020

Ananda - 82



Há uns anos atrás, numa determinada altura da minha vida em que me sentia muito sozinha, comecei a frequentar o centro Hare Krishna em Lisboa, mais precisamente junto ao Saldanha. Andava à procura de um restaurante onde se comesse comida indiana e por mero acaso ou não, encontrei aquela referência.

 

Como o sítio era bem acessível, decidi ir lá para almoçar e acabei por descobrir um lugar em plena cidade de Lisboa, diferente de tudo o que eu podia imaginar, com gente um pouco “estranha”, com rituais interessantes, com toda uma série de comportamentos e filosofias de vida intrigantes.

 

Aquilo era bom para desanuviar o meu fim de semana, já que quase sempre ficava sem o meu filho, que nessa altura saía com o pai. Assim, aos domingos, lá ia eu para o Hare Krishna onde passava a tarde inteira e vinha para casa já de noite, um pouco antes dele chegar. Além disso, comecei a ir lá almoçar com amigos/amigas e colegas e toda a gente que levava achava aquilo uma coisa espectacular em todos os aspectos. Adoravam a comida e adoravam o lugar. Se o tempo estivesse bom, podíamos comer ao ar livre, se preferíssemos comíamos lá dentro.

 

Com isto, tornei-me assídua e íntima de todo o pessoal interno, os devotos e iniciados de Krisnha. O cozinheiro era um jovem indiano que cozinhava maravilhosamente bem. Aquilo era mesmo um manjar dos “deuses”. Absolutamente delicioso. E as minhas amigas que iam lá comigo, só me perguntavam onde é que eu tinha descoberto aquilo, mesmo ali à mão de semear, no centro da cidade, um lugar sensacional.

 

Aos domingos havia festa, que é mais ou menos o equivalente à missa dos católicos, mas não tem nada a ver. São uns rituais diferentes. Claro que também tem um altar todo enfeitado de flores por todo o lado, incenso, panos bonitos cheios de cor e figuras consideradas da mitologia hindu, a quem os devotos prestam a sua homenagem através de danças e cânticos e aos quais se vão juntando todos os que estão a assistir e o grupo vai crescendo, crescendo, aumentando o volume dos cânticos, acentuando o estado vibratório até ao máximo possível de uma energia muito contagiante, de muita alegria e felicidade, uma espécie de transe, que acaba por envolver todos os presentes. É interessante, mas eu ficava sempre de fora, apenas como espectadora, para tentar compreender tudo e todos.

 

Depois, há o arroz que é atirado e espalhado, como símbolo de fertilidade e muitas outras coisas que já nem me lembro. Fora disto, os devotos juntavam-se discutindo sobre coisas existenciais, sobre coisas inerentes aos seus princípios, lembrando passagens dos Vedas, os livros sagrados do hinduísmo e por aí fora. Às vezes faziam-se verdadeiros colóquios. Para uns, fazia todo o sentido, para outros, nem tanto. E nessas alturas eu estava lá, porque era esse o aspecto que mais me interessava, tirando as refeições, claro. Ouvir, aprofundar, entrar no espírito do hinduísmo, porque há coisas que não são de nada nem de ninguém em especial, ou seja, não são unicamente de uma religião. O princípio em que todas ou quase todas se baseiam são simplesmente um valor universal e portanto, por outras palavras, por outras vias, a base de todos os princípios, o início em que tudo se baseia. Posso dizer com toda a verdade que, todos em geral, gostavam de mim, porque eles diziam que quem não era devoto tinha dificuldade em entender, por mais explicações que lhes dessem, e não entendiam porque não conheciam nada da doutrina dos Deva. Mas, segundo eles, eu chegava lá, e isso era intrigante para eles, porque sabiam que eu nunca tinha lido os livros sagrados, nem nunca antes tinha estado ou convivido no ambiente deles. Como eles próprios diziam, não sabiam como, mas eu chegava lá. Tanto assim, que queriam que eu me tornasse devota de Krisnha, o que para mim estava absolutamente fora de questão. Religião, para mim, não. Eu tinha a minha própria religião. Bastava-me a ligação pessoal e intransmissível com o Divino. Era a minha única religião.

 

Ananda, de seu nome Ana, estava sentada numa mesa com outros devotos e conversavam entre si. Eu estava relativamente perto e não estava a prestar atenção. Mas, a páginas tantas, apercebi-me de que ela estava a falar do seu estado de gravidez e contava às outras que tinha sonhado com o parto e no sonho, logo após dar à luz o menino que estava à espera, quase no fim do tempo, simplesmente desencarnava. E isto incomodava-a, falando com uma certa inquietude e tristeza. Eu não a conhecia especialmente. Todos eles me eram relativamente pouco familiares, apenas isso. Mas ela era jovem e tinha um ar delicado, doce. Sem querer, ouvi a conversa e fiquei tocada. Qual é a mãe que não fica incomodada com a hipótese de morrer depois de dar à luz?!

 

E num impulso levantei-me e fui até ela. Baixei-me e falei-lhe quase ao ouvido, dizendo-lhe que ficasse calma, tranquila que tudo ia dar certo, pelo que não havia motivo algum para recear fosse o que fosse.

 

Ananda olhou-me nos olhos e sem se fazer esperar, segurou as minhas mãos, e num gesto carinhoso de profundo agradecimento, com um sorriso delicioso em todo o rosto, deixando-me verdadeiramente tocada e um pouco espantada, mas que tornou a nossa relação a partir daí uma coisa realmente muito especial, respondeu: “Krishna falou por si. Obrigada”.

 

Ananda acreditara piamente nas minhas palavras, tinha um ar tranquilo e feliz e nunca mais me largou. Sempre que me via, o seu rosto iluminava-se de forma espantosa e agarrava-se a mim com todo o carinho.

 

O menino nasceu e tudo correu muito bem.

 

“Hare Krishna”!...




terça-feira, 12 de novembro de 2019

Uma mensagem - 81




Na manhã do dia 12 de Outubro de 2019, não sem razão, eu acordava para o dia num perfeito desespero. A minha instabilidade emocional reflectia-se em todo o meu ser, dos pés à cabeça, dentro e fora de mim. Tudo era uma negação aflitiva e eu não tinha a menor ideia dos passos que deveria dar. Toda eu era mal estar. Um mal estar profundo e verdadeiramente infernal, que eu não queria e não estava a conseguir aceitar. Apetecia-me gritar, pedir socorro, inventar alguém que me ajudasse, porque eu não sabia mesmo o que fazer. Fui à cozinha e peguei um ansiolítico muito fraco, porque não estou habituada a tomar coisas fortes. Tomei, mas a confusão continuava banhando e revirando todo o meu cérebro, todo o meu ser. Passado pouco tempo voltei à cozinha e tirei metade de um outro, que continuava a ser muito pouco para o estado de desequilíbrio em que me encontrava. 

Os problemas que me atormentavam parecia que não tinham solução e o meu mundo desmoronava. Não seria a primeira vez que tinha essa sensação, pois durante os meus 67 anos de vida perdi a conta de quantas vezes o mundo desmoronou à minha volta. E na verdade já devia estar habituada. Mas não. De todas as vezes que isso acontece é como se fosse a primeira vez. Eu não queria estar onde estava e não queria ser eu. Pensei nas tragédias que vão por esse mundo fora, nos problemas complicadíssimos que cada um enfrenta neste mundo e racionalmente conseguia perceber que o que me estava a acontecer era quase normal, vulgar, comum, considerando que nada na vida é perfeito e que o caminho de todos nós está destinado a enfrentar barreiras, pois é para isso que cá estamos. E enquanto o meu lado espiritual apelava fortemente para manter a calma necessária e dar tempo ao tempo, na verdade o meu lado emocional estava completamente destroçado, sem ponta por onde pegar. Sentia-me mal, muito mal e completamente sozinha e esquecida. Mas pior do que tudo, tinha a perfeita noção de que estava “perdida”. Perdida no meio de uma inesgotável angústia e de uma tristeza sem fim. O mal não me dava tréguas. 

Aquela manhã ficaria na história, na história da minha vida, devidamente marcada e registada. Peguei no telemóvel e escrevi: “Família, estou no limite. Amo todos vocês do fundo do meu coração. Recebam um beijo com muita luz e muita paz, o que eu não consigo para mim. Adeus”. 

Isto era muito mais do que uma mensagem. Era um grito de aflição. Um pedido de socorro que eu não tinha outra forma de expressar. A única coisa que eu sabia é que queria, precisava urgentemente de me retirar do sufoco em que estava, de me evadir por qualquer acto de magia, de me subtrair ao sofrimento que sentia e em relação ao qual não podia fazer nada, porque era um problema intrinsecamente ligado à alma humana e para o qual eu não tinha solução. 

Esta mensagem, que foi intencionalmente enviada a todos os meus irmãos, foi recebida da pior maneira possível, simplesmente porque foi muito mal interpretada. Eu precisava, na verdade, que percebessem o quanto eu estava em sofrimento, mas mais do que tudo, era uma informação de que, no fundo do meu eu, estava a retirar-me da agitação da vida para me isolar por completo e encontrar novamente o meu eu. E mais ainda, era um urgente pedido ao universo familiar presente e ausente, já que em princípio ninguém poderia fazer nada. Assim, esta mensagem saiu efectivamente dos escombros do meu eu, do fundo da aflição da minha alma cansada de sofrimento. Esta mensagem, que foi mais forte do que eu, chegou a todos os destinatários a quem era dirigida, mas foi ainda mais longe, bem mais longe do que isso, ultrapassando os limites do tangível. A força da sua natureza fez com que atravessasse a barreira do limiar e atingisse o inacessível. 

Não sei se fiz bem ou se fiz mal, mas sei que fiz o que tive que fazer e bem ou mal, não me arrependo. Não me arrependo mesmo. Sou humana. Como qualquer um, estou sujeita a erros. Não me orgulho disso, mas também não me envergonho. E neste caso reconheço que o sofrimento me transcendeu e me venceu. Mas não completamente, não na totalidade do meu ser. Por isso enviei a mensagem. Foi um acto consciente, talvez pertinente, mas no qual estavam presentes todas as forças que ainda me restavam. E então o inusitado aconteceu. O inesperado teve lugar. 

No dia 11 do 11, Hermés, esse deus da mitologia consagrado no planeta Mercúrio, fez uma trajectória fenomenal, e cruzando a Terra e o Sol, absorveu o meu grito de socorro, deu ouvidos à minha mensagem e de posse de todas as suas faculdades e poderes inacessíveis à humanidade, da maneira mais nobre e surpreendente, deu-se ao trabalho de acabar com o meu sofrimento. Em resposta à minha mensagem, através do poder da comunicação e da dinâmica da sua sublime sabedoria, enviava-me a ajuda necessária que se manifestou na forma mais bela e generosa, cristalizando-se, dando-lhe a forma humana, que conseguiu complementar o meu eu mais profundo, devolvendo-me a paz, a harmonia e o amor. 

E uma vez mais, a vida estava de volta!



 


domingo, 15 de setembro de 2019

A assinatura - 80



A pasta de Despacho estava na minha frente, enquanto eu estava sentada à secretária. Ao lado tinha uma quantidade de documentos de despesa já assinados, prontos para entregar. Para isso, tinha que retirar de cada um deles a última cópia, a amarela, para meu arquivo. Todos os dias ou quase todos os dias, passavam por mim documentos daqueles, cujo número variava, podendo atingir umas dezenas, nunca se sabia, e que reflectiam os gastos do pessoal da Direcção, com as mais diversas coisas, como refeições ou material técnico ou outro e eu dava uma vista de olhos em todos eles.

 

Em princípio estaria tudo certo, mas por uma questão de ética, ao tirar a folha amarela, verificava o conteúdo, que também não era assim tanto que o não pudesse fazer. E naquele dia, enquanto ia separando e juntando as ditas cópias amarelas para o meu arquivo, de repente, há uma que chama a minha atenção. Fiquei parada a olhar. Olhei a importância, vi a que se referia e a quem se destinava. Estava tudo certo. Assinado pelo respectivo responsável, um dos subdirectores que fazia parte do meu leque de secretariado. Porém, a minha atenção tinha ficado retida exactamente na assinatura dele e perguntava a mim mesma porquê e antes de a juntar às outras, decidi deixá-la de lado, continuando sem saber bem porquê. Despachei tudo, inclusive outros documentos, mas aquela cópia continuou de parte. Parecia que não era igual às outras. Claro que era. Estava tudo certo! Porque razão tinha despertado em mim alguma incerteza, isso eu não conseguia explicar para mim mesma.

 

Depois de tudo despachado, encaminhado e arrumado, voltei a pegar na folha para a contemplar com um pouco mais de atenção, agora só eu e ela. A outra papelada toda já tinha seguido o seu caminho, só faltava mesmo aquela. Era só fazer o mesmo, arquivá-la e pronto. Mas ela parecia que não queria ir para o sítio. Parecia que me queria dizer alguma coisa, coisa essa que eu continuava sem saber o que seria.

 

Examinando a folha uma vez mais, percebi que o que estava a chamar a minha atenção era a assinatura. Contudo, era a assinatura do responsável. Era do pelouro dele e estava tudo certo. Mas eu olhava e voltava a olhar para a assinatura. Caramba, porque é que naquele dia eu havia de estar a embirrar com um pormenor que nunca tinha reparado? A assinatura estava correcta, bem feita, sem nada a opor! Era a assinatura dele, sem dúvida, não tinha que enganar. Estava bastante bem feita, com o pormenor da voltinha da última letra, o “a” a vir da direita para a esquerda, sublinhando todo o nome, como ele sempre fazia. Estava tudo bem. Estava até bem de mais e percebi então que era essa a questão. 

 

A minha intuição deu sinal. Era a assinatura dele, muito bem feitinha, mas não tinha o seu cunho pessoal. Era isso mesmo. Parecia que tinha sido copiada por cima. Mas isso era um perfeito disparate! Porque faria ele isso? A minha intuição novamente deu alarme. Ele não, mas alguém o poderia ter feito!? Que disparate(!)… não estava a ver ninguém com motivos para fazer tal coisa e a importância nem era nada de especial. De qualquer modo ninguém faria uma coisa dessas. Eu conhecia todos os colegas, homens e mulheres. Éramos uma família, ninguém faria uma coisa dessas. Por qualquer motivo, no momento em que assinou aquele documento, vacilou um pouco e saiu assim com um jeito(?)… ah, aquilo não era nada, eram maluquices da minha cabeça. E veio-me à ideia uma lembrança muito, muito antiga.

 

Quando eu andava no liceu, no que seria agora um sexto ano escolar, era muito má aluna, e não era só má, era complicada. Os professores costumavam dizer que não me entendiam. É que eu era muito boa a Português e Matemática, mas nas outras disciplinas era um zero à esquerda, porque não estudava. Português não precisava de estudar e matemática era um passatempo, como um jogo, cujas regras eu decifrava e não tinha segredos.

 

Estudar História, Geografia e todas as outras coisas, eu queria lá saber! Estudar porquê? A vida tinha desmoronado todo o meu mundo e eu alimentava uma espécie de raiva e revolta por tudo o que tinha acabado de passar. A minha mãe tinha falecido recentemente e o meu pai estava na guerra, sempre ausente. Ninguém se importava comigo, porque é que eu havia de querer estudar? E por causa disso, uma vez, falsifiquei a assinatura da minha avó. Devo dizer que o fiz com uma perfeição e tanto e só foi descoberto porque, uma segunda vez, ela foi chamada e quando lhe mostraram ela de facto negou, porque na verdade sabia que não tinha assinado nada. Eu tinha assinado por ela, sabia o que estava a fazer e não me arrependia de o ter feito. O resto não vem ao caso. Mas aí eu era uma pré-adolescente cheia de problemas comigo mesma, com a vida, uma revoltada por tudo o que a vida me tinha levado, etc… e era obrigada a sobreviver de qualquer maneira.


E agora estava diante de um documento com o qual não me sentia segura. Aquela assinatura não parava de mexer comigo, querendo-me dizer alguma coisa, sem que eu conseguisse uma uma explicação razoável. O que fazer? E a folha ficou de lado mais algum tempo, porque eu não estava certa em relação ao seu destino. E quando se mete uma coisa na minha cabeça não há quem a tire.

 

Comecei a trabalhar no arquivo e por momentos esqueci-me daquele assunto. Gente que entrou, gente que saiu, as televisões a trabalhar, os telefones a funcionar, a normal rotina. Olho através da porta envidraçada e o sub estava sozinho, debruçado sobre papéis. Para lhe ir falar sobre aquilo eu nem sabia bem o que dizer, nem por onde começar. Fazer a pergunta directamente de caras, se tinha sido ele a assinar, era muito complicado, pois ia parecer que estava a apontar o dedo a alguém. Claro que tinha sido ele. Mas a minha inquietação continuava sem me dar descanso. Fui à minha secretária, peguei na folha e entrei. Ele continuava a fazer o que estava a fazer, sem olhar para mim. Então, com a folha na mão, calma e tranquilamente, disse-lhe que achava aquela assinatura dele esquisita, só isso. Quando ele ouviu as minhas palavras imediatamente levantou a cabeça dos papéis que estava a ver e um tanto bruscamente retirou a folha da minha mão, dizendo que era para ele, dando-me a entender que não queria falar naquilo e que o assunto estava arrumado.

 

Isto era muito estranho e fiquei sem perceber nada. Esperava tudo menos aquilo. A questão é que, se eu não lhe tivesse levado aquela folha, ele nem sabia da existência dela, apesar de que a tinha assinado (ou não?). Quando comecei a falar com ele, ele nem olhou para mim, nem para o que eu tinha na mão. Só quando falei na assinatura é que ele deu sinal e sem sequer analisar as coisas, imediatamente a reclamou para si, sem mais demandas, sem mais comentários ou explicações, deixando-me intencionalmente de fora do que quer que fosse. Sem dúvida que era estranho!? Mas agora eu sabia que a minha decisão estava certa. E ainda nem sabia exactamente porque o tinha feito. Parecia que alguma força superior me estava a comandar. Mas alguma coisa estava no ar.

 

Saí para ir beber água fresca à máquina que ficava junto à máquina do café e também para arejar as ideias. Estavam duas colegas a tomar café. Fiquei um pouco com elas, até que uma se foi embora e fiquei só com a outra, que era da secretaria de apoio à Direcção, de onde vinham todos os documentos de despesa com pessoal. Sem mais nem menos, comecei a falar com ela sobre o sucedido, dizendo-lhe que tinha ido mostrar ao subdirector um documento cuja assinatura me parecia estranha e ele me arrancou a folha das mãos, guardando-a a sete chaves. Era esta a sensação com que eu tinha ficado. Ela parou de beber o café, olhou para mim com ar de caso e por instantes manteve-se em silêncio. O mistério continuava e intrigava-me cada vez mais. O que seria? E agora eu queria uma explicação, caso contrário iria parecer que eu estava a bater mal da cabeça. Mas não foi preciso insistir muito para que ela finalmente começasse a falar. Aquele documento era a peça de um puzzle que acabava de fechar e infelizmente a assinatura tinha sido falsificada.