terça-feira, 16 de julho de 2019

A morte - 76



Desde que nascemos, a morte é a coisa mais certa da vida. Na cultura ocidental, porém, a morte está muito distanciada, isto é, não queremos nada com ela e frequentemente, quando alguém morre, independentemente do motivo, achamos que foi um grande azar. Há acidentes de vária natureza, há também erros de medicina, falhas humanas, mas sempre arranjamos uma desculpa, considerando que a morte se podia ter evitado. O que nunca pensamos e aceitamos é que ela tem dia e hora marcada. Quando nascemos, já a trazemos predestinada e não vai ser possível alterá-la. É do domínio dos registos akáshicos e nada nem ninguém pode mudar essa circunstância. Mas na nossa cultura, de facto, a morte nunca é aceite como algo inerente à própria vida. O culto à morte está entre muitas culturas, paradoxalmente nas mais ancestrais, e é algo comum entre culturas indígenas, com uma aceitação pacífica e normal. Porém, quanto mais o homem evolui, mais se afasta da realidade da morte. Alguém disse esta frase muito certa “Os homens vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido” (Jim Brown).

 

Há uns bons anos atrás, tive um companheiro paquistanês que residia em Portugal. E durante os sete anos que vivi com ele, aprendi a pensar e a ver por outras perspectivas e outros prismas de vista. Por exemplo, ele casou-se muito novo, de acordo com os costumes da sua cultura, com casamento marcado pela família e desse casamento tinha um filho com oito anos, mas esse foi o segundo filho, porque antes houve um outro, o primeiro, que morreu após um dia de vida. 


Desde a primeira hora em que ele me contou isto, achei triste ter um filho que morre logo de seguida. Achei que se acontecesse comigo morreria também. Mas a ele parecia não incomodar. É certo que já lá iam uns anos, mas ele sempre me parecera muito sereno em relação a esse assunto. E de vez em quando fazia-lhe perguntas para tentar perceber a razão de tal ter acontecido, para perceber se teria havido alguma hipótese daquela criança ter sobrevivido. Eu achava que podia entender e ele ia respondendo conforme podia, de acordo com as informações que tinha, que eram escassas, digamos. Até um dia em que já estava farto de tanta insistência da minha parte com aquele assunto e me respondeu simplesmente que tinha acontecido porque deus (Alá) tinha mandado aquela criança à vida e lhe tinha dito, vais e vives um dia, depois morres. E o assunto para ele estava encerrado. 


E percebi que era óbvio. Não era fácil para mim tratar aquele assunto assim, mas entendi que ele estava certo. Esta é que é a verdade. Ele estava certíssimo. Não havia motivo para tanta relutância da minha parte. O que estava em causa era a aceitação das coisas que são naturais e a morte é uma coisa natural. Todos os que vêm à vida morrem. Eles não ficam felizes com a morte, mas têm uma postura completamente diferente da nossa ou da maioria das pessoas.

 

Quando eu era criança, tinha os meus cinco anos de idade, vivi uns tempos em Lisboa com os meus tios, enquanto os meus pais e a minha irmã bebé, ainda estavam em África, por conta de problemas complicados que agora não vem ao caso. O facto é que tive que vir para Portugal e ficar com eles, o que me custou bastante, mas que era necessário. Quando chegou o verão, eles mandaram uma empregada que tinham a tempo inteiro (interna) de férias para a terra dela, a Chamusca, e fui com ela porque acharam que seria bom para mim. Não se enganaram, porque tudo era melhor do que fichar fechada num terceiro andar, no coração de Lisboa. A família dela era gente humilde e viviam no campo. Não havia água canalizada, pelo que a toda a hora era preciso ir à fonte encher os cântaros de barro, que carregavam sobre a cabeça por cima de uma rodilha. E como a casa ficava num monte, para tudo andávamos ladeira abaixo, ladeira acima.

 

Havia um grande quintal em volta da casa, com árvores, capoeiras, tanque de lavar roupa, terreno lavrado e cultivado, onde se iam colher os produtos para depois se cozinhar. Tudo aquilo era muito giro e, embora diferente, trazia muito de volta a minha África. Pelo menos eu tinha ar livre. Podia correr, cair, sujar-me. Podia novamente trepar às árvores. Não havia cajus nem mangas, mas havia figos doces como o mel e descobri que adorava aquela fruta maravilhosa, até hoje. Enfim, a criança aventureira que havia em mim renasceu, saiu à vida e agradeceu aquela maravilhosa oportunidade. 


É claro que estavam sempre a reprimir-me, com medo disto e daquilo, que me acontecesse alguma coisa, e tentavam quebrar a minha liberdade. Mas eu sabia como me defender. Eu era perita nisso e acabava sempre por fazer aquilo que me apetecia. Desassossegava os galos, as galinhas e foi uma festa e tanto, quando descobri uma ninhada de pintainhos pequeninos, amarelinhos, uma coisa muito fofa, que me deixou completamente deliciada. Todos os dias me massacravam a paciência com uma gemada com açúcar em jejum porque, diziam, dava muita força… como se eu precisasse disso. Eu precisava era de ar livre e espaço para brincar. Só me sentia infeliz e desarticulada quando ficava enclausurada, sem saber o que fazer. E, depois, havia contra uma parede exterior da casa, um banco corrido de pedra onde, nas noites muito quentes, o pai delas, um senhor já com bastante idade, estendia uma manta velha e dormia ao relento. No outro dia quando me levantava, já lá não estava nunca, para lhe poder perguntar se tinha dormido bem e como era ficar ali fora, porque o meu sonho secreto era um dia poder dormir ali, adormecer olhando as estrelas naquele céu limpo onde, sem as luzes dos candeeiros, brilhavam com uma intensidade maior. E queria sentir a noite, momento após momento, a noite na noite dentro, estar atenta à natureza, a tudo o que à minha volta se passava e descobrir os mistérios da escuridão. Só que isso nunca aconteceu, que elas nunca me deixaram fazer, com grande pena minha.

 

E no meio dessa brincadeira toda, dessas novidades da província, da vida simples do campo, das idas ao rio para tomar banho e refrescar do calor, no meio das vinhas onde eu queria à força integrar-me para também apanhar as uvas e mostrar que era capaz como, as outras crianças, e os tomates que eram o mais parecido com os frutos tropicais por causa da cor, caminhar nas estradas de terra onde a poeira se levantava no ar, enfim, eu sei lá já há quanto tempo, parece que foi noutra vida… mas no meio disso tudo, aconteceu um episódio que nunca esqueci.

 

Um dia correu a notícia de que a senhora não sei quantas estava mal, muito mal. A senhora não sei quantas era uma velhota, muito velhota. Estava de cama e não se levantava mais. E toda a gente ia lá para a ver. A população era reduzida, as pessoas conheciam-se todas umas às outras. Então chegou a vez da empregada dos meus tios, a Leonor e a irmã, irem lá vê-la, também. E como não me iam deixar sozinha, porque eram só elas em casa durante o dia, o marido da irmã e o pai estavam na lavoura, lá fui eu também a casa da senhora velhota que, efectivamente, estava na cama. 


Era um ambiente soturno, triste, deprimente. Havia a família e depois os amigos. Estavam todos à beira dela, por assim dizer. Uma cama no meio de um quarto quase sem nada e a velhota lá deitada, de olhos fechados, com umas vestes pretas, um silêncio de cortar à faca e as pessoas falando em segredo. Até já lá tinha ido o padre para dar a extrema unção, porque não se sabia quanto tempo ela podia estar naquele estado. As pessoas chegavam, aproximavam-se dela, algumas tocavam-lhe, parecia que rezavam e iam-se, para dar lugar a outras. Coitada, diziam algumas pessoas, deus a leve em paz... e outras coisas do género. E eu olhava atentamente para aquele ser inerte, tentando vislumbrar algum rasgo de luz. Mas ela estava mais para lá do que para cá.  E alguém pergunta baixinho, sobre o estado dela, querendo saber quanto tempo é que ela iria sobreviver. E alguém respondeu baixinho que o sofrimento dela era muito doloroso e que podia ficar assim por dias, semanas, até se finar de vez. Coitada, diziam, deus tenha piedade(!).

 

E eu, que era uma criança de cinco anos apenas e que nessa altura ainda não tinha o trauma da morte, porque a minha mãe ainda não tinha falecido, ainda estava viva e bem viva; eu que não tinha experiência da vida e muito menos da morte, quando ouvi dizerem que ela ficaria assim por muitos dias, até semanas, achei aquilo um absurdo, uma loucura, pensando para comigo que era impossível, porque ela estava exalando o último suspiro e teria apenas umas horas de vida!? Era isto que eu via e era isto que eu sentia. Em todo o caso, como era muito pequena e não sabia nada de nada, acreditei no que ouvi e fiquei com imensa pena de ver um ser humano viver dias ou semanas naquele estado miserável, mais morto que vivo.

 

Feita a visita e os cumprimentos da praxe, lá fomos rumo ao monte, no caminho para casa, ainda imbuídos daquele clima mórbido e doentio. Pelo caminho fiz a mesma pergunta que tinha ouvido fazer, na esperança de ter uma resposta diferente, mas a resposta foi a mesma, ou seja, que podia ficar assim muitos dias em sofrimento e mais uma vez não gostei e fiquei impressionada, achando que ela realmente teria apenas algumas horas, quando muito. Sim... apenas e somente algumas horas.


Passou-se a noite e no outro dia logo de manhã veio a notícia de que, naquela madrugada, a velhota tinha morrido. Quando ouvi pensei logo, eu estava certa. Como é que mais ninguém tinha visto o que eu vi?! Gente da aldeia, de certa forma habituados a lidar com a morte de uma maneira mais familiar do que nas cidades e não perceberam?!

 

O facto é que realmente vimos coisas diferentes. Aquela criatura já não representava a vida mas, sim, a morte imediata, que parece que só eu vi.

 

Muita gente pensa que as crianças não compreendem e não entendem, como se fossem cegas, surdas e mudas. É um engano de todo o tamanho! A sensibilidade e a percepção de tudo está lá inteiríssima, toda concentrada, porque ainda nada se perdeu. Vamos crescendo e aí sim, o melhor, o mais genuíno de nós, vai ficando pelo caminho e em muitos casos desaparece completamente, para a grande destruição e ruína do ser humano.




sábado, 13 de julho de 2019

As duas faces da moeda - 75



Tiago era emigrante nos Estados Unidos, onde residia há mais de vinte anos. Tinha ido com uma namorada portuguesa, com quem casou e teve dois filhos. As coisas não correram muito bem entre eles e veio o dia em que se separaram tendo, no entanto, continuado a viver na América, mais propriamente em Miami. Tiago vinha a Portugal sempre que podia, uma vez por ano e os filhos acompanhavam-no para estarem com os avós e restante família, que não era pouca.

 

Com os filhos já adolescentes e separado da primeira mulher, Tiago conheceu Nina, uma jovem cubana também emigrante, com idade para ser filha dele, mas que se apaixonou por ele e ele por ela. Nina veio uma primeira vez a Portugal para conhecer a família do namorado e todos se encantaram com ela, bem como ela com a família dele. Uma paixão “caliente”, bem evidente para todos. Os dois estavam felizes e as famílias também. Era uma alegria e tanto. Os filhos gostavam muito da madrasta e vice-versa. Era uma família feliz, muito bem dispostos, onde havia alegria para dar e vender. O casal dava-se às mil maravilhas e tudo era bom demais.

 

Os primeiros anos passaram e Nina começou a falar em ter um filho. Ela insistia em querer ter um filho dele. Afinal ele tinha dois filhos do primeiro casamento e Nina era jovem, por isso achava que era justo ter um filho. Tiago não parecia estar para aí virado, talvez porque já tinha dois adolescentes e como ele sempre fazia questão de salientar, outro filho significava noites mal dormidas, fraldas, biberões, papas e choro de criança. Tudo o que está implícito na vida de um casal quando chega um filho. E Tiago fazia questão de lembrar a Nina um certo desassossego que, com toda a certeza, interferiria na vida de ambos. A questão era simples. Valeria a pena? Quereriam ambos o mesmo?

 

Nina queria, porque queria. Queria ser mãe e ter um filho seu. Ela gostava muito dos enteados, a quem tratava com muito amor e todo o carinho, mas ter um filho seu, disso não abdicava. E quando, às vezes, Tiago, meio brincando, meio a sério, lhe dizia que se queria um filho teria que arranjar alguém que lho fizesse, porque ele não queria outro filho, ela dizia-lhe com todas as letras que podia até ser, mas que era ele, Tiago, que o iria criar com ela. Isto evidenciava bem o quanto ela admirava o companheiro e como ela achava que ele era gente boa, com bons valores, a ponto de querer que fosse ele a educar um filho dela, como o fazia com os outros.

 

O tempo foi passando e um dia Nina ficou grávida e então Mia nasceu. Uma fofa. Uma coisinha muito querida, muito docinha. Um encanto. E o Face Book mostrava fotos sem fim dos dois em Miami com a sua pequenina Mia, que crescia a olhos vistos. Fotos que mostravam o grande amor entre eles, deliciados com a sua pequenina. Mia fez um aninho e veio a Portugal com os pais e a avó materna, para ser baptizada com a família toda junta. Uma grande festa, uma grande alegria. Exceptuando uma amiga, que à porta da igreja, para não dar vexame, chorava baba e ranho de todo o tamanho, porque estava casada há bastantes anos e não conseguia engravidar de maneira nenhuma. E então, como não podemos estar sempre felizes, ela chorava que só vendo.

 

Um dia, quando Mia já estava com dois aninhos, Tiago chega a Portugal sozinho, para não mais voltar. Ah!... E agora? E então? Pior ainda, sem dinheiro, sem emprego, sem nada. Além do mais, parecia que não estava a bater bem. Era natural, com uma mudança destas tão brusca, qualquer um fica a bater mal.

 

Enfim, toda a família - irmãos, tios, primos e a própria mãe – estava preocupada e apreensiva com a situação de Tiago, agora com quarenta e oito anos, de volta, sozinho e sem nada, absolutamente nada. E começaram a mobilizar-se para o ajudar. A ajuda veio de vários lados, mas Tiago não se adaptava a nada. Estava estranho, chateado e sem perspectiva de coisa nenhuma. Os irmãos começaram a ficar cada vez mais preocupados com a situação dele, que continuava a dar sinais de perturbação mental.

 

Já tinham decorrido uns meses desde que chegara a Portugal, quando a família recebeu a visita de Nina com a pequena Mia. A chegada das duas, apenas para férias, dava, no entanto, à família, alguma esperança de um possível entendimento das suas vidas, já que ambos se gostavam tanto. Mas tal não aconteceu. Durante toda a sua estadia em Portugal e em casa da sogra, Nina fez questão absoluta de mostrar de forma decisiva, que não havia volta a dar e que a sua decisão estava tomada. Tiago não fazia mais parte da vida dela. Tiago não tinha nada para ela e era um vazio completo, do qual ela abdicava pura e simplesmente. Ele alimentara uma secreta esperança que fora redondamente em vão. Assim, a família ficou ciente de que Nina não queria mais Tiago. Tudo o que ela via nele tinha-se desvanecido completamente. Tudo virara fumaça no ar. Não restava nada do amor que tinham um pelo outro. Nina tinha vindo exactamente para deixar a situação bem esclarecida, bem definida e para que ninguém tivesse a menor dúvida. E mais, uma vez que Tiago não tinha lá família, ela achava que ele não tinha motivos para voltar para os Estados Unidos. Queria que ele ficasse de vez em Portugal. De facto, toda a família dele estava em Portugal, tirando os filhos, cujas mulheres viviam em Miami. E dito isto, partiu com a filhinha, rumo aos Estados Unidos onde, nesta altura, já vivia com a família.

 

Perante esta situação, Tiago estava completamente de rastos. A vida tinha perdido todo o sentido e não havia forças para organizar as ideias do que restava de si mesmo. Depois de muita luta, os irmãos conseguiram levá-lo a um psiquiatra. Contrariado, Tiago foi e voltou para casa medicado, o que nada adiantou, porque os medicamentos ficaram metidos numa gaveta. O tempo foi passando e Tiago não melhorava, muito pelo contrário. Toda a família preocupadíssima com as suas atitudes inadequadas, uma vez mais se envidaram esforços para o levar a um psicólogo e mais uma vez ele reagiu mal. Em todo o caso, por insistência dos irmãos e primos, Tiago foi ao psicólogo. Não era um, mas uma psicóloga e ele logo começou a falar da psicóloga de modo nada abonatório. Mas isso já era de esperar.

 

O tempo foi passando e um dia Tiago sentiu-se mal, pelo que foi necessário levá-lo à urgência hospitalar. Exames e mais exames, já não saiu do hospital. No curto espaço de tempo em que ficou internado, teve o  azar de contrair uma bactéria. Mas para além disso foi-lhe diagnosticado um tumor no cérebro. A situação que já era complicada, mais complicada ficou. Os médicos chamaram a família e comunicaram que o tumor precisava de ser removido o mais depressa possível, para lhe poderem tratar da infecção pulmonar causada pela bactéria que se estava a alastrar. Uma cena complicadíssima. Dada a gravidade do seu estado clínico foi ainda necessário induzi-lo em estado de coma.

 

Isto provocou uma verdadeira corrida ao hospital por parte de toda a família e amigos mais próximos, revezando-se sem descanso. E Tiago teve mesmo que ser operado de urgência, sendo que os médicos prepararam a família para a realidade nua e crua do problema, dizendo que não podiam garantir nada. Em todo o caso, a cirurgia correu bastante bem e agora era aguardar a reacção do paciente, a resposta do seu corpo a tudo o que a medicina aparentemente tinha podido fazer. Uns rezavam, outros iam à igreja, outros choravam e lamentavam… tudo o que é natural nestes casos. É normal as pessoas reagirem assim. Vieram as duas ex-mulheres da América, os dois filhos adolescentes e todos se condoíam pelo estado do pai, do amigo, do irmão, do filho, sobrinho, etc…

 

Passou uma semana em que o estado de saúde de Tiago andava ora para a frente, ora para trás, para finalmente sucumbir. Para grande pesar e tristeza de todos sem excepção, Tiago partira para não mais voltar. Casos destes acontecem todos os dias, a todas as horas, mas nós não sabemos, graças a deus. Até ao dia em que nos toca pela porta.

 

Estávamos no funeral, um funeral com gente que nunca mais acabava, porque é uma família muito, muito grande. Uns choravam, outros aceitavam. As duas mães dos filhos acompanharam o corpo até entrar no gavetão e ambas choravam, choravam, mas o desassossego da segunda era bem maior que o da primeira. A segunda era Nina, a mãe de Mia, que tinha ficado com a família materna em Miami, por ser muito pequenina. Nina estava sozinha e chorava que dava dó. Chamava por ele, beijava o caixão, etc, etc, etc… e é nesta altura que começo a ouvir vozes que se salientam, comentando que Nina tinha muita culpa. Nina tinha “expulsado” Tiago e arruinado a vida dele. Como é que podia agora mostrar-se tão chorosa, tão infeliz, se tinha corrido com ele da maneira mais cruel possível!? Ela tinha dito que não queria mais nada com ele e não o queria na América porque, sem ela, não havia justificação para ele continuar lá. E porquê? Porque ficaria sozinho, sem família. Ela não o queria mais.

 

E os comentários continuavam, chamando a atenção para o facto de ela ter sido um “diabo” na vida dele.

 

Aparentemente era assim. Ela despachara-o, efectivamente, sem dó nem piedade. Tinha sido muito dura. Todos estavam cientes disso, porque ela mesma, a própria, não mandara recado, tinha feito questão de deixar isso bem esclarecido. Não era segredo para ninguém.

 

Eu estava assistindo a tudo isto e não tinha razões para a defender ou para a atacar. Mas, de repente, pensei para comigo mesmo “e se ela não o tivesse mandado embora, se apenas se tivesse desligado dele e não se importasse com o facto de ele ficar sozinho ou não? Como é que teria sido? Não teria sido muito pior!?”

 

Segundo os médicos, o tumor de Tiago era muito grande e teria no mínimo uns cinco anos. Foi o tempo de eles se conhecerem, se apaixonarem e terem uma filha. E o tumor lá. Só na hora da bomba rebentar é que ele foi “escorraçado”. A minha questão é: Nina foi um “anjo” bom ou um anjo mau? Ressalve-se que “anjo” é apenas um modo de falar. Então Nina foi do bem ou do mal? Pelas aparências, tudo leva crer que foi do mal. Mas, insisto, se ela não o tem mandado embora, ele tinha ficado lá sozinho com aquele problema e quem sabe, teria morrido sozinho, sem a família por perto, o que teria sido muito, mas muito pior para todos. 


Quando ela o manda embora não sabe, claro, não está consciente disso, mas está apenas cumprindo a sua missão, porque o está devolvendo ao seio familiar, para com eles viver os seus últimos dias de vida. Nem ela nem ninguém sabe disso, mas o cosmos sabe o que faz e nós somos apenas induzidos superiormente para cumprir as nossas missões, que é para isso que aqui estamos. Apunhalar Nina seria, à primeira vista, a coisa justa a fazer. Mas aí estaríamos apenas a considerar uma das faces da moeda. Se a virarmos, a história é outra e então compreenderemos muito melhor o destino dos homens, o destino da humanidade. 


As coisas não são o que parecem. O plano divino é verdadeiramente fabuloso. Mas acima de tudo é um grande mistério. E é essa a razão porque não podemos nem devemos julgar, pois o risco de errar é quase certo. A verdade é que a atitude aparentemente desumana de Nina poupou à família um desgosto ainda maior. Nina sem saber, fez a coisa certa, devolvendo-o à família. É assim. A moeda tem sempre duas faces.

 


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

"Improviso" - 74



Na sexta-feira fui ao Chi Kung e encontrei a Cris. A Cris é minha colega no Chi Kung, na USO e presentemente, uma das minhas melhores amigas. Às vezes fazemos programas juntas e não raras vezes vamos ao cinema. E na sexta-feira quando a vi, apeteceu-me falar-lhe em cinema para o fim-de-semana. Porém, ela comentou tanta coisa acerca dos seus afazeres, que percebi que não valia a pena falar nisso. Ficaria para outra ocasião. 

Entretanto, ainda na sexta-feira ao fim da tarde, cruzei-me com a Rosário, minha vizinha do mesmo prédio, mesmo andar, do meu lado esquerdo, que alterna os fins-de-semana entre esta casa e a casa de campo em Torres Vedras. Falámos e ela comentou que este fim-de-semana era do lado de cá. E porque não dar uma saidinha, talvez ir ao cinema? Afinal, não tinha combinado nada com a Cris nem com mais ninguém, portanto, podia ser. No entanto, ainda estava em tempo de telefonar à Cris, para o caso de ela estar interessada em ir connosco. Mas depois havia a Isabel e a Flora, que às vezes também alinham. Mas voltei a pensar que a Cris realmente parecia estar muito cheia no fim-de-semana e uma vez que nem sequer tinha falado nisso, é porque era quase certo não poder ir. Quanto às outras, deveria ter combinado mais cedo. Pois bem, iria ao cinema no sábado com a Rosário. 

A Rosário conhece a Cris, numa viagem que fizemos à Turquia e que, quase por acaso, a Cris também foi. Mas isso é uma outra história. 

No sábado falei com a Rosário e decidimos que entre o Strada e o Loureshopping, iríamos ao Strada, por causa dos horários e iríamos com uma certa antecedência, para fazermos um lanchinho ou ver as novidades nas lojas. E assim foi. 

Sábado à tarde, muitos carros à entrada do piso menos um, fizeram-me decidir ir para o menos dois, o que é raríssimo. Mas fui, para evitar as confusões do estacionamento. Entrámos no Centro Comercial propriamente dito e sugeri que comprássemos os bilhetes, para ficarmos despachadas e depois então fôssemos dar um giro antes do cinema. Assim foi. Chegadas à bilheteira, tínhamos dois filmes em mente. Disse à Rosário que escolhesse. Escolhes tu, escolho eu, decidimos o filme que ela queria: “Amigos Improváveis”. Não era exactamente o que me apetecia, mas tudo bem. A rapariga que nos atendeu perguntou onde nos queríamos sentar. A Rosário escolheu os lugares, inclusive a fila, no que eu concordei. Era indiferente. Fomos dar uma volta e na altura certa, tendo em atenção as horas, disse-lhe que deveríamos ir andando para o cinema. E fomos. 

Entrámos na sala já com as luzes apagadas, eu na frente e ela atrás e começámos a subir os degraus. E logo no início, olhei para o cimo da sala, porque vi uma figura de mulher a despir o casaco, que pensei para comigo mesma “parece mesmo a Cristina”, longe de pensar encontrá-la ali. Chegadas à nossa fila, ouço uma voz bem conhecida dizendo: “ah… apanhei-te!” Não sem espanto, olho e nem queria acreditar, a Cris, ela mesma, em pessoa. Bom, não foi preciso perguntar o que estava ali a fazer, porque era óbvio. Sozinha(?), perguntei. Sim, disse ela. E perguntou quais eram os nossos lugares. Onze e doze. Treze é o meu, comentou ela. Não!?... Era absolutamente inacreditável. Numa sala tão grande, com meia dúzia de “gatos pingados”, a Cristina está sentada mesmo ao nosso lado. 

A Rosário ficou embasbacada, sem saber o que dizer, pensando que tínhamos combinado, sem que eu lhe tivesse dito nada, o que não faria o menor sentido, é claro, e frisei que não tínhamos combinado nada, dado que ela parecia ter o fim-de-semana cheio, o que a Cris confirmou. Mas explicou que a irmã tinha feito anos, isso já eu sabia porque era um dos compromissos dela para o fim-de-semana, e ela tinha-lhe oferecido uma camisola que, por qualquer razão, precisava de ser trocada e como não lhe apetecia ir ao Centro, pediu à Cris para lhe tratar disso. A Cris despachou o almoço em família, ficou um pouco encostada a descansar, com a sua cadela e a sua gata Maria, e a páginas tantas achou que não havia necessidade de ficar em casa, uma vez que já todos tinham dado à sola. 

Subitamente, levantou-se e decidiu ir tratar da troca da prenda da irmã. Quando chegou ao Centro Comercial foi espreitar os cinemas e vendo que estava na hora, decidiu ir ver “Amigos Improváveis”. Comprou o bilhete e lá foi ela, longe de pensar que nos íamos encontrar, claro. Mas o absurdo disto tudo é que, sem combinarmos nada, escolhemos o mesmo dia, o mesmo filme, a mesma sessão e até os lugares juntos, quando não havia mais ninguém na mesma fila, nem à direita nem à esquerda?! Bingo. A Rosário continuava intrigadíssima, achando que era muita coisa para ser simples coincidência. Mas há mais. 

Na saída do cinema, a Cris perguntou de que lado eu tinha o carro. Para ali, disse eu. Eu também, respondeu ela. E começámos a rir. No piso menos um ou no menos dois, perguntou novamente. Excepcionalmente, estou no menos dois, respondi. Eu também, respondeu ela. E lá começámos a rir outra vez. Entrámos no estacionamento e ela perguntou para que lado era. Para ali, respondi eu. Eu também. Enfim, os nossos carros estavam quase juntos. Bem pertinho um do outro. Por pouco não estavam lado a lado. Mas a Rosário parecia que ainda não estava bem convencida de que tudo não tinha passado de uma grande coincidência ou de coisas do destino, se assim quisermos. Não parava de referenciar tanta coincidência. E mais uma vez tive que relembrá-la de que foi ela quem escolheu o filme e os lugares. Eu apenas me limitei a concordar. 

Isto recordou-me uma história bem antiga, lá atrás, perdida no tempo, mas bastante curiosa ou não menos curiosa. 

Eu tinha então dezoito anos. Estava em Lisboa havia meia dúzia de meses, trabalhava no Ministério das Finanças e vivia num lar para raparigas estudantes e trabalhadoras. 

Era uma tarde de domingo de um dia invernoso, sem chuva, mas com muito frio. E decidi que me apetecia "viver", pois era para isso que tinha deixado o liceu em Setúbal, para ir trabalhar para Lisboa. Então vesti-me para sair e disse às outras miúdas que ia a uma festa. Onde? Com quem? Isso eram tudo respostas que eu não tinha para lhes dar, porque também não as tinha para mim. Apenas decidi sair e apetecia-me comer umas coisas boas e dançar. Como não tinha dinheiro para me dar a esses luxos, ia sair e havia de ir a uma festa. Numa festa encontraria isso tudo que queria. 

Claro que as raparigas não tiveram em conta nada disto. Devem ter pensado que eu era doida. Além disso, sabiam que eu estava em Lisboa havia muito pouco tempo e não conhecia praticamente nada nem ninguém, além do Ministério. 

Mas eu saí mentalizando que iria a uma festa, porque me apetecia distrair um bocadinho e descontrair. Apanhei o metro das Picoas, bem pertinho do Lar e lá fui eu rumo à baixa. No metro, sem querer, estavam ao meu lado dois rapazes e do nada, começámos a falar. Os dois perguntaram-me para onde eu ia e respondi que sem rumo, ou seja, sem destino certo, apenas passear um pouco. E aqui começa a trama das coincidências. Os dois iam a uma festa de aniversário de um amigo e convidaram-me para ir com eles. Uma festa, era tudo o que eu queria e como eles me pareceram gente fixe, logo aceitei. 

A festa era numa garagem. Estavam os pais do aniversariante, alguns familiares e amigos. Fui muito bem recebida por todos os presentes, o que muito me encantou, é claro. O pai do garoto logo se apressou a convidar-me a tirar o longo casaco e foi uma verdadeira surpresa para todos, porque debaixo do casacão até aos pés estava precisamente o inverso, isto é, uma garota de dezoito anos, de hotpants atrevidos, que na altura muito se usava, e botas de cabedal pretas acima do joelho. Ninguém diria, mas foi assim: do casulo saiu uma deliciosa borboleta, que muito animou a festa, já que todos queriam dançar comigo, a começar pelo pai do garoto, que parecia encantado com a nova “amiga” do filho. 

De volta para casa, isto é, de regresso ao Lar, pela hora tardia, as raparigas, curiosas, voltaram a perguntar onde tinha ido, afinal. E simplesmente voltei a responder: “a uma festa”. O rosto delas não tinha expressão alguma. Queriam outra resposta que não fosse aquela. Uma resposta que considerassem válida e coerente ou então eu já sabia que ia a uma festa e não lhes queria dizer para não se pendurarem. Não era nada disso. Mas, uma vez mais, eu não tinha outra resposta. Na verdade, tal como lhes tinha dito antes de sair, eu tinha ido a uma festa. Uma festa de “improviso”.



terça-feira, 18 de setembro de 2018

Pôr-do-Sol - 73



Meu filho Henrique, filho único por opção e não por qualquer outra razão, foi sempre uma criança muito inteligente. É claro que todas as crianças são inteligentes e especiais para os pais, mas eu percebia que ele era esperto, inteligente e sensível, tudo mais da conta. Tímido, também, mas só até se sentir seguro, o que não levava muito tempo e então virava o oposto da timidez. Mas isso não vem ao caso. O facto é que ele era bastante esperto. Eu fazia testes de toda a ordem, a que ele respondia da forma mais eficiente e pronta possível.

 

Acontece que eu era muito preocupada com ele e sempre tentei dar o meu melhor como mãe. E isto significa dar todo o tempo possível, toda a atenção, amor, carinho, cuidar bem da sua alimentação, estar atenta a todas e quaisquer necessidades dele, à medida do seu crescimento. Claro que isto é o que qualquer mãe normal faz ou tenta fazer. Com a vida do dia a dia sempre a correr, na verdade faz-se o que se pode e é preciso muita ginástica, muita paciência, muito tudo. De facto, muitas vezes me deparei com mães bem menos preocupadas que eu. Mas cada um é como é. E eu não tive um filho por um acaso do destino. O meu filho é produto de uma relação pensada, ponderada e portanto, veio na altura em que foi planeado, como muitos outros casais fizeram e fazem.

 

No seguimento da minha sempre e constante preocupação, eu queria encontrar respostas para tudo o que se relacionava com ele e tentar ser perfeita, como se isso pudesse ser possível. Hoje sei que isso é uma utopia, mas na altura eu achava que tinha que ser uma mãe perfeita e pronto. E dentro desse espírito, aconteceu um episódio interessante.

 

Eu tinha um colega de trabalho, o Tó, que por sua vez, tinha um amigo de infância de quem falava muito. Segundo ele, o amigo era uma pessoa diferente. Tinha capacidades que mais ninguém tinha. E ele, Tó, já tinha assistido a coisas incríveis, mirabolantes, o que o fazia ter uma verdadeira admiração por ele, tanto, que chegava a ficar impressionado e um pouco assustado, quando via uma garrafa ou um objecto de vidro partir-se, segundo ele, apenas através do poder da concentração do amigo, cujo nome não me lembro. Ele também referia que as coisas se moviam sozinhas, etc.

 

Na verdade, nunca dei muita relevância às coisas que ele relatava porque, nestes assuntos, na maioria das vezes, as pessoas vêm o que querem ver e ouvem o que querem ouvir. Eu não estava lá, portanto não podia ser testemunha de nada. Tudo aquilo era apenas a interpretação que o Tó dava. O que me tocava era muito mais a maneira como ele via e nos contava as coisas e às vezes eu até ria um pouco com aquelas aventuras. Eu e os outros, que nem sequer acreditavam, apesar dele estar sempre a insistir na veracidade dos factos. Longe de mim duvidar dele, porque não é essa a questão. Não se tratava de acreditar ou não. É preciso compreender exactamente o que se está a passar e o Tó limitava-se a ver e ponto final.

 

Mas o que importa disto tudo é que ele dizia que o amigo sabia de tudo e dava respostas incríveis. E que havia muita gente que, sabendo como ele era, queria ir falar com ele para uma espécie de consulta, mas ele não queria que isso acontecesse, ou seja, não queria que a sua vida enveredasse por esse caminho e isso eu admirava no amigo, porque muita gente se diz “vidente” e outras coisas mais, para viverem disso. O amigo do Tó, pelo menos, tinha a sensatez e a hombridade de não ser exibido, nem se achar dono da verdade, chamando a si pessoas de baixa auto estima, incutindo-lhes a suas “verdades”.

 

Num ambiente de trabalho, em geral, todas as pessoas falam umas às outras dos seus problemas. Desde o que vão jantar, à discussão que tiveram com alguém. É inevitável. Conhecem-se as doenças e as maleitas de todos e as coisas boas e os podres uns dos outros. Mesmo quando as pessoas não falam muito, há sempre conversas telefónicas que não se podem evitar e onde sai tudo, sem dó nem piedade.

 

Assim sendo, como eu era uma mãe sempre muito preocupada com o meu filhote, além de outros problemas à margem, que foram aparecendo pela vida fora, e como o Tó era muito meu amigo, começou a tentar convencer-me de que, com certeza, eu ia gostar de conhecer o amigo. A princípio não liguei e realmente não passava pela minha cabeça uma coisa dessas. Queria lá saber do amigo “doido” do Tó. Eu já o achava a ele um pouco doido por conta do amigo, ia lá perder o meu precioso tempo para falar com ele?!

 

Mas o tempo foi passando e “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. E, assim, um dia, lá fui eu ter uma conversa com o amigo do Tó, que me ia receber apenas porque era um pedido dele, só por isso. Bom, tudo bem. Digamos que eu ia lá mais por uma questão de curiosidade. Mas fui.

 

Cheguei lá e era uma casa normal. O rapaz - digo, rapaz, porque eles eram mais novos do que eu -, aparentemente, uma pessoa normal. Recebeu-me bem, com muita calma e um clima de tranquilidade, sempre como colega e amiga do Tó. E sempre sem me olhar muito de frente, nem nos olhos, cabisbaixo, dirigiu-se para uma mesa, pedindo-me que me sentasse. Depois, sentou-se na minha frente e assim começámos a falar, normalmente, sem nada de transcendente. A nossa conversa, como não podia deixar de ser, começou pelo Tó e o trabalho. Depois, já não sei o rumo que tomou, mas a páginas tantas, falámos de mim e falar de mim era equivalente a falar do meu filho. E foi aí que surgiu uma nota curiosa. Eu apenas lhe disse que tinha um filho. E ele apenas me perguntou o nome e a data de nascimento. Tinha uma caneta e um bloco de papel onde escreveu os dados que lhe dei.

 

Atenta, reparei que transformou todas as letras em números, que acrescentou à data do nascimento e o resultado, não sei como, era um. Escreveu o número um e sublinhou-o riscando no papel várias vezes. Então, sim, olhou para mim e começou a falar. Eu não tinha dito nada sobre o meu filho, apenas a data de nascimento e o nome. E ele disse “o seu filho é UM”.

 

Um pouco ansiosa, fiquei à espera que ele se explicasse. E olhando para mim, explicou que ele era uma inteligência acima da média, etc, etc, etc, e explicou porquê, coisa que eu não estava à espera. Nunca tinha passado pela minha cabeça, que as pessoas são o que são, por isto ou por aquilo, ou pelo menos, pela razão que ele apontou. Que o meu filho tinha sido gerado por “vontade” e não por amor. É claro que casei por amor, um grande amor e tive o meu filho por causa do amor que nos unia. Mas o que ele queria dizer era outra coisa. Ele queria dizer que o meu filho tinha sido concebido num momento que surgiu da vontade de ter um filho, portanto da vontade de engravidar. E isso era correto. Eu sei exactamente o dia, a hora, o local. Eu sabia que, nesse momento, o meu filho ia ser gerado. Nós queríamos. Por isso eu tinha essa consciência, ou seja, na altura em que estávamos a ter relações eu sabia que era chegado o momento da sua concepção. Mas podia ser outro momento? Não, não podia. Era aquele. Foi naquele dia, naquela hora.

 

E o que ele queria dizer era exactamente isso, ou seja, independentemente da nossa relação ter sido uma relação de amor, nem podia ser de outra maneira, o momento da concepção tinha sido planeado, tinha sido o resultado de um acto da vontade soberana. E isso tinha tido um peso enorme no seu ADN.

 

Nesta altura, eu estava a falar com alguém que conseguia captar a essência das coisas e não com o amigo, ou um amigo do Tó. Aquela criatura já era alguém que falava a minha linguagem. Não era o sujeito amigo do Tó, que partia vidros com a concentração do olhar, nem que fazia os objectos se moverem sozinhos. Não foi nada disso que aconteceu e eu já nem me lembrava dessas coisas. Aliás, nunca foi minha intenção ir lá para ver alguma coisa que se relacionasse com isso. Se o Tó via eu não vi. Se o Tó queria ver, eu não precisava, nem queria ver. Aquela criatura era apenas um ser humano com uma alma sensível e que tinha a capacidade de “ver” um pouco mais longe do que qualquer outro simples mortal. E só por isso já valia a pena ter ido lá.

 

Depois, ele perguntou também o meu nome e a minha data de nascimento. Voltou a transformar aquela coisa toda em números e perguntou-me como é que eu costumava assinar. Pelo menos ele era original nas questões que punha e isso também era interessante. E assinei para ele ver. Então sugeriu-me como deveria passar a assinar. E explicou que era uma questão kármica. Também nunca tinha pensado nisso, mas a explicação dele não era descabida, fazia algum sentido. E explicou que a vida me correria melhor se passasse a assinar da maneira como ele indicou. E voltou ao assunto do meu filhote, dizendo-me para não me preocupar com ele, porque estava tudo bem. “Apenas – dizia -, leve-o, de vez em quando, a ver um pôr-do-sol”. Um pôr-do-sol (?), repeti – era bonito, as coisas que ele dizia - sim, um pôr-de-sol, para que não corra o risco de ficar demasiado “cerebral”. Um pôr-do-sol ajudá-lo-ia a “humanizar-se” e a não ficar demasiado centrado nas coisas que exigem muito trabalho do cérebro. E fiquei a planar com estas palavras, com esta ideia dele, assim, tão "sui generis", por assim dizer.

 

No outro dia voltei ao trabalho e comentei por alto com o Tó e com todo o pessoal, que tinha gostado de conhecer o amigo dele. Perguntou se tinha achado esquisito e respondi que não, tudo normal, sem entrar em detalhes.


Então…

 

Um dia, num belo final de tarde nos Açores, onde íamos sempre passar férias, por causa do meu marido ser açoriano, indo por uma rua abaixo, no centro de Ponta Delgada, S. Miguel, em direcção à marginal, portanto, de frente para o mar e de mão dada com o meu filho, que era muito pequeno, deparei com um pôr-do-sol magnífico. Era realmente uma coisa maravilhosa. E quanto mais o apreciava, mais deslumbrante me parecia. Não tinha explicação. Tão bonito que pensei que nesta altura, toda a gente tinha que estar a apreciar uma coisa daquelas, ou seria sempre assim e eu só tinha dado por isso naquele dia?! Aquilo era simplesmente belo. Não havia palavras que descrevessem um cenário daqueles. Mas também podia ser exagero meu, sei lá… e segurando na mãozinha do meu filho, vieram-me ao pensamento as palavras do amigo do Tó. A cena do pôr-do-sol para o “humanizar”. Como é que uma criança de cinco aninhos observa um pôr-do-sol? Com o mesmo espanto e a mesma admiração que um adulto?! E mesmo os adultos, quantas vezes referem um pôr-do-sol ou uma outra beleza qualquer, apenas para ficarem bem vistos, para que os outros os vejam como pessoas bonitas e sensíveis, etc…. (?!) E a mim também me podia ter passado despercebido. Mas não, não era possível. Apetecia-me gritar para que toda a gente visse o que eu estava a ver. O céu parecia de veludo azul. Era simplesmente belo! E uma criança tão pequena também teria essa noção, essa percepção!? Talvez esse fosse um momento, o tal momento certo para chamar a atenção do meu pequeno sobre a magnificência daquela beleza ímpar!? Como iria ele interpretar e reagir a isso? Seria importante para ele? Ou seria eu a exagerar, empolgada pelo espírito?...

 

Sempre em direcção ao mar, com todas estas questões e dúvidas pairando pela minha cabeça, e antes de ter tempo de falar alguma coisa, da maneira mais surpreendente possível, com um certo e delicioso espanto, como se tivesse entrado no meu pensamento, arrancando de mim as palavras que nunca esquecerei, ouço o meu filhote, na sua vozinha de criança: “mãe… a mãe já viu como está bonito o pôr-do-sol?!”… … …

 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Lua branca, lua cheia - 72



Sempre gostei de escrever. Mais até do que gostar, é uma enorme necessidade. Escrever é um refúgio. Durante muitos anos escrevi poesia, porque a poesia para mim é quase um código. E era nele que me decifrava. Até que um dia dei a oportunidade à prosa e a prosa saiu de vez.

Escrever é importante, tanto quanto dormir, comer, beber… é quando me entrego a mim mesma e me retrato. É quando exponho a verdade mais verdadeira. É quando me descubro e me desnudo. Tudo fica mais fácil, mais transparente, mais cristalino. E mais belo também, como a beleza duma lua iluminada.

Através da escrita estou sempre a desvendar mistérios e a descobrir quem sou e a que vim. Depois, há o resgate. E isso não é uma tarefa fácil. Mas é importante fazê-lo. São as lembranças que pensamos estarem enterradas e não estão. Não podem estar. Boas ou más elas estão sempre aí, presentes, ainda que adormecidas, mas sempre intactas, ao nosso lado. Somos seres multifacetados. Como o açúcar se dissolve na água, assim também o nosso ser essência se dilui no éter, fundindo-se com o cosmos e por aí vai ficando, sem termos consciência disso. Mas ele está lá inteiro, tal qual o açúcar na água.

Uma amiga muito especial, psicóloga clínica, contou-me uma vez uma história interessante. Que tinha ido a casa de uma colega onde estava um grupo de amigos reunidos com um indivíduo mais velho, professor universitário. Ao vê-la, sendo que nunca antes se tinham visto, olhou-a com uma certa surpresa, para logo de seguida se surpreender a si mesmo, bem como a ela, dizendo: “ah, você é a tal… quero dizer, uma que faz parte do grupo que actua comigo nos trabalhos de cura durante a noite…”(?).

Quando ela fez esta conversa comigo, não entendi ou fiz que não entendi, pois precisava de algo mais concreto. Mas ela continuou a conversa, explicando-me que também não tinha entendido o que o professor lhe teria dito. Então, ele sentou-se com ela e começou a falar-lhe do projecto que tinham e do qual ela fazia parte, sem saber.

Contando-me isto, ela ria, dizendo-me que não fazia a menor ideia de que, durante a noite, andava por aí auxiliando pessoas, levando um pouco de alívio a quem dele necessitava. Achava tão estranho quanto curioso. Mas o professor sabia do que falava e ela não o poria em causa. De certa forma, ficava até agradecida, por saber desse pormenor, que para ela representava um “mistério” ainda que fascinante. E contava-me aquilo, numa tentativa de obter da minha parte um entendimento razoável, porque não era assunto para falar com qualquer pessoa.

Na altura, de facto, parecia-me coisa de loucos, mas só na aparência, porque há muito aprendi que as maiores verdades e as coisas mais sérias, se escondem por detrás dos véus invisíveis do inconsciente. É verdade. O inconsciente sabe tudo. É uma janela fechada à espera de ser aberta de par em par.

Passaram-se uns bons anos e cada vez percebo melhor esse episódio estranho ou insólito da vida dela. Basta-me pensar que, quando me deito e adormeço, só acordo para a realidade no dia seguinte, ou antes, não importa. O facto é que quando volto à realidade, sei que estive ausente. Então, se estive ausente, por onde andei? E não raras vezes me recordo perfeitamente dos sítios e lugares por onde vagueei, das pessoas com quem estive, das coisas que fiz e que falei. Outras vezes não. Contudo, sempre que acordo, tenho a noção de que estive ausente. É uma sensação de tal modo forte que até hoje fico surpreendida e maravilhada, depois de mais um sono, por estar de volta ao mundo físico. É o planeta terra a chamar. Se é bom adormecer, também é bom acordar para um novo despertar.

A alma e o espírito, sendo coisas diferentes, trabalham para o mesmo fim - é sabido - e se o espírito tem liberdade infinita, a alma tem uma pluralidade fragmentária igualmente infindável. Logo, eu não sou só eu, ou seja, aquela que mostro ou que aparento ser, é apenas uma das muitas versões que eventualmente posso ser. E se durante o dia, acordados, fazemos determinadas tarefas e agimos em concordância com o meio, de forma coerente ou não, durante a noite, em pleno sono, em que alma e espírito se libertam da matéria para dar vazão ao ser genuíno que somos, porque não aceitar que alguns de nós tenham a capacidade de se unir numa corrente solidária, orientada pelas leis cósmicas, organizando-se de forma inteligente, a bem da humanidade? Eu sei que à primeira vista isto parece uma coisa muito louca. Mas não estará isto relacionado com o princípio da questão dos mundos paralelos?

O que sei é que durante a noite, através do sono, vagueio sem destino. Quando me recordo, sei que estive lá, mas quando não me vem nada à lembrança, aí é que reside o maior mistério. Onde estive? O que fiz? Parece que venho dum buraco negro. Do vazio. Mas isso não existe. Apenas, não me lembro. Mas porque não me lembro sempre? Deve haver uma razão. E o facto de não me lembrar altera alguma coisa?

Claro que para tudo isto tem que haver respostas. O facto de não as termos, não significa que não existam. Tudo tem uma razão de ser, um propósito. Nada é ao acaso. Tudo o que não sabemos é apenas “consciente”. A resposta para tudo está no nosso inconsciente. Ir lá buscá-la é que é o problema. É estranho, porque isso significa que não comandamos zonas do nosso cérebro. Confiamos tanto e entregamo-nos à inteligência artificial que passa pela robótica, mas não conseguimos acessar o nosso próprio computador humano!?

Quanto maior for a nossa capacidade de fusão com o cosmos, maior será a nossa capacidade de entendimento dos mistérios que pensamos desconhecer. Os nossos olhos, os olhos da alma, vão-se abrindo magicamente, à medida que penetramos na poeira cósmica e mergulhamos na profundidade etérica. A morada do mistério. Do mistério de todos os mistérios. A vida e a luz.

E é por isso que uns têm a capacidade de durante o sono se desdobrarem para a realização de tarefas que durante o dia, no mundo real, não podem, porque não têm tempo ou simplesmente porque são tarefas que estão para além das suas possibilidades no mundo material. A matéria limita, atrofia, bloqueia. Na matéria reside o medo, que fora dela não existe. Precisamos do mundo material para aprender, mas somos muito mais do que isso.

Assim sendo, não parece tão estranho, tão surreal, pensar que seres de luz se manifestem durante a noite, colaborando em missões verdadeiramente válidas, onde o mundo das trevas se desfaz para dar lugar ao bem maior do amor incondicional.

Pelo muito que há a fazer e a trabalhar nesse campo, não me incomodava em nada fazer parte desse projecto. Mas provavelmente não serei para aí chamada, pois muito caminho tenho ainda pela frente. Quem sabe, um dia, muitos de nós não seremos também chamados, por estarmos habilitados a entrar nesse ou noutro plano divino tão sublime!? Por ora contento-me com a minha escrita.

Muitas luas passarão, mas uma especial virá. Quem sabe?!


quarta-feira, 25 de abril de 2018

A avó Marta - 71



Não sei muito bem porquê, mas eu estava em Beja, em casa dos meus tios. Alguém achou que era bom eu ir lá passar uns tempos. Nessa altura eles ainda não tinham filhos, mas havia o Fausto, um rapaz que vivia com eles. Era uma história esquisita, que me incomodava um pouco. Filho de pai incógnito, a mãe raramente o via. Os meus tios trabalhavam, pelo que só regressavam ao fim do dia. Em casa ficava a avó Marta, o Fausto e agora eu.

 

Não havia nada para fazer e eu e o Fausto não tínhamos a menor intimidade. Éramos perfeitos estranhos um para o outro. Um dia, sem saber o que fazer, peguei num objecto qualquer, que estava no parapeito duma janela e conforme peguei, caiu no chão, partido em dois. Fiquei muito atrapalhada e aflita, achando que iam ralhar comigo. Contudo, contrariamente ao que era esperado, a avó Marta olhou para o Fausto, que estava meio escondido atrás da porta do quarto, e começou a ralhar com ele muito alto e a chamar-lhe nomes. 


Muito zangada, ela dizia, “olha o que fizeste, não tens vergonha, porque é que partiste aquilo(?)”, etc… no que me deixou muito baralhada. Então eu é que tinha partido o objeto e o coitado do Fausto é que pagava?! E queria assumir a culpa, de acordo com o que ela tinha visto, mas ela não me dava tempo e insistia em barafustar com ele. O Fausto muito vermelho e com o olhar de espanto, recusava-se de todas as maneiras e feitos a aceitar a culpa, apontando para mim, acusando-me com todas as evidências do que parecia ter toda a razão. Mas a coisa não resultava. A avó Marta estava cada vez mais chateada e aborrecida com ele, tanto, que até lhe atirou com um chinelo acima, enquanto o Fausto, a todo o custo, continuava a fazer-se de vítima. Achei aquilo muito estranho!...

 

Éramos crianças e eu não entendi logo à primeira. Levou tempo até cair a ficha. O que aconteceu é que, de facto, aquilo tinha sido quebrado pelo Fausto que, para ninguém saber, voltou a pôr tudo no lugar, muito quietinho, convencido de que, assim, se tinha livrado da culpa. E não sei como, mas a avó Marta sabia. Parece que ela tinha visto, mas na altura não esteve para se chatear. Agora que a culpa recaía sobre mim, ela tratou de chamar o rapaz à razão. Mais tarde o Fausto, também não sei porquê, foi para um internato, um orfanato, e nunca mais se ouviu falar nele.

 

Esta era a avó Marta, que entrou para a família por conta de um tio meu, irmão da minha mãe, casado com uma senhora que, por ter perdido os pais cedo demais, foi criada pela avó – o que para nós seria uma bisavó -, uma figura muito especial porque, segundo diziam, falava com os mortos, ou seja, era médium.

 

Sempre a conheci velhinha, de cabelos completamente brancos, vestida de preto e com um semblante sofrido. A vida não lhe tinha sido particularmente fácil, era tudo o que eu sabia. E sempre me lembro dela queixosa por males físicos, mas também por outros. O facto é que a avó Marta tinha fama de médium e todos a viam e falavam dela como uma pessoa muito especial, diferente das outras. E não raras  vezes, ouvia da boca dos meus tios que, quando ela estava pior e a levavam ao médico, o médico simplesmente dizia que o “problema” não era do foro dele, transcendia-o, o que confirmava a capacidade mediúnica da senhora.

 

Claro que tudo isso fazia com que eu também a visse como um ser “estranho”, misterioso, diferente das outras pessoas. Se eu acreditava ou não, isso não estava em causa, mas que ela era diferente, isso era. E fui crescendo com este assunto sempre em torno do nosso universo familiar. 


No entanto, e apesar das histórias que estavam sempre a contar, das coisas que ela transmitia, etc., passava-me tudo um pouco ao lado, porque me limitava a ser simplesmente espectadora, isto é, aquele assunto, verdade ou mentira – mentira no sentido de fantasia –, não era meu, era dos meus tios e daqueles que acreditavam piamente. O facto é que, volta e meia, lá vinha mais um episódio estranho, quanto mais não fosse, pelo modo como era apresentado. E já ninguém estranhava. Para os outros fazia sentido, o que eu admirava, porque não conseguia aceitar aquilo como uma verdade absoluta. Mas isso também não importava nada porque, na verdade, eu pouco contava. Na maior parte do tempo eu achava que ninguém se preocupava com a minha pessoa, com a minha existência.

 

E fui crescendo com esta coisa da mediunidade, sem saber muito bem o que pensar acerca disso. Depois, dava para perceber que era um assunto um pouco “tabu”, embora toda a gente falasse disso abertamente. Apenas não podíamos fazer perguntas porque, à partida, não era um assunto para todos. E sempre que vinha mais uma história em que todos ficavam meio pasmados com o que ouviam, eu sempre me interrogava porque razão haviam de acreditar sem quaisquer reticências? A possibilidade de ser verdade era exactamente igual à de ser uma grande mentira!? Mas isso não estava em causa.

 

A avó Marta vivia com os meus tios em Beja e de longe em longe, natal, páscoa, verão e outras datas, vinham a Setúbal, a casa da minha avó, onde eu vivia com a minha irmã e os meus primos. Era uma casa cheia. A minha irmã e eu, porque a nossa mãe falecera muito nova e os meus primos, porque os meus outros tios viviam em Lisboa e a minha avó queria os netos com ela. Era mais ou menos assim.

 

Um fim de semana qualquer especial, lá vieram os meus tios de Beja, mais os meus primos, ainda muito pequenos e lá veio a avó Marta. Aquela casa comportava gente que nunca mais acabava. Havia sempre lugar para mais um. Quando assim era, havia colchões que se punham no chão para a criançada dormir. Depois vinham as refeições e era uma azáfama naquela cozinha que, primeiro que nos sentássemos à mesa, era complicado. E quando a cozinha, enfim, ficava limpa e toda arrumada de uma refeição, era hora de recomeçar tudo de novo.

 

Nesse fim de semana a avó Marta assim que chegou foi directa para a cama, porque não se sentia nada bem. A criançada toda junta era uma folia, da qual eu era a mais velha porque, primeira filha, primeira sobrinha e primeira neta, e a primeira também, em quem tudo era descarregado, desse por onde desse, apenas porque a minha mãe já não existia e o meu pai estava ausente, só por isso.

 

E, assim, a avó Marta estava na cama, meio recostada, descansando da longa viagem, enquanto todos iam chegando perto dela, com o cuidado de saberem se estava melhor, se queria alguma coisa, etc… até que, a páginas tantas, a avó Marta começou a ficar mais agitada e a dizer coisas que, aparentemente, não faziam muito sentido. A voz dela era grossa e embargada. Ela nem bem falava, mais balbuciava. Parecia que as coisas lhe saíam sem o controlo dela. E começaram a aproximar-se, numa tentativa de a acalmar, mas ela continuava naquela espécie de delírio, ao mesmo tempo que parecia querer gesticular. Era estranho. Porque não a mandavam calar de vez e ficar quieta(?), pensava eu. Em vez disso, olhavam-na, na expectativa de que ela conseguisse dizer algo que fizesse sentido.

 

Entretanto, a minha irmã um pouco assustada, começou a espreitar, tentando perceber o que se estava a passar. E por ver a minha irmã intrigada com a situação, aproximei-me dela para a tranquilizar. A avó Marta toma consciência da nossa presença e é então que acontece um facto extraordinário, que muda completamente a minha maneira de ver, de lidar e de acreditar naquilo que, até então, eu achava uma verdadeira fantasia. A avó Marta, com a voz agora bastante mais clara, aponta para todos, dizendo: “eu não quero flores na campa, eu quero que tratem bem as minhas filhas, que são as minhas duas únicas flores”.

 

“Eu não quero flores na campa…” isto eu podia reconhecer como linguagem e pensamento muito próprios da minha mãe. Isto era dela. Como ela o tinha dito, não sabia. Mas ela tinha captado. E …”eu quero que tratem bem as minhas filhas…”, porque ela sabia melhor do que ninguém, o quanto estávamos a ser ignoradas e postas de lado, o que para uma mãe amorosa era uma dor tamanha. “Que são as minhas duas únicas flores”… isto era linguagem da minha mãe! Além disso, a energia que avó Marta tinha imputado àquelas palavras, tudo junto, era a minha mãe, sem tirar nem pôr. Disso eu não tinha a menor dúvida. Agora eu estava rendida. Não tinha a menor dúvida dessa coisa a que chamavam mediunidade. Estava rendida e achava aquilo uma coisa verdadeiramente transcendente, sobrenatural.

 

Por um longo momento fizera-se silêncio e avó Marta muito cansada, agora sim, descansava. As flores a que ela se referia, a minha irmã e eu, olhávamos uma para a outra, sem saber o que pensar. Todos sem excepção tinham mergulhado no silêncio, pensando sabe-se lá o quê. Esquecido aquele momento, tudo voltou ao normal como se nada tivesse acontecido e sem que nada tivesse sido levado em conta, o que muito me surpreendia.

 

As flores a que a avó Marta se tinha referido, continuaram meio ignoradas, sobrevivendo no meio das pedras, até ao dia em que um sol as libertou e as fez brilhar de vez.




quarta-feira, 28 de março de 2018

O último "adeus" - 70



Meu colega de trabalho, embora em áreas diferentes, o Cunha era um grande amigo. Muitas vezes almoçávamos juntos, em grupo, no refeitório da empresa ou em qualquer restaurante fora, quando nos apetecia arejar.

 

Era uma pessoa do bem, isto é, uma pessoa bem formada. Um excelente profissional, uma pessoa como deve ser, pelo que tinha muitos amigos e todos gostavam dele. E talvez porque tinha mais dezassete anos do que eu, tinha a mania de tomar conta de mim. Na verdade, estava sempre preocupado com o que eu comia, quando almoçávamos juntos, porque sempre fui magra e ele achava que era uma questão de alimentação. Não era nada, era eu que era assim mesmo, como ainda hoje o sou.

 

Mas ele estava sempre a mandar-me comer, a vigiar se eu comia tudo e sempre a tentar acrescentar mais alguma coisa à minha refeição, dizendo sempre o mesmo, que o que eu precisava era de comer e beber. Sim, porque, se eu lhe conhecia algum defeito era, talvez, a bebida. Gostava muito de beber. Não que alguma vez o tivesse visto bêbado, nem nada que se parecesse mas, realmente, sempre achei que bebia um pouco demais. Era às refeições, no fim das refeições, com o café e fora das refeições, também. Sempre havia alguma coisa que se adequava à hora, ao momento e isso era álcool, nada mais. Para mim aquilo era um pouco demasiado, mas ele era maior e vacinado e não tinha idade para mandarem nele, muito menos eu. Ele é que sabia da vida dele.

 

Era um indivíduo sempre muito bem disposto, quase permanentemente com um sorriso nos lábios, bem parecido, boa figura, um tipo de homem que, em geral, agrada a qualquer mulher. Simpático, educado, polido, nada inconveniente, pelo contrário, uma pessoa afável, bem disposta e de bem com a vida. Nada a apontar. E na verdade éramos muito amigos, embora ele fosse amigo de toda a gente.

 

Um dia, por conta da idade, reformou-se e foi-se embora. E uma ou outra vez foi lá de visita, como fazia toda a gente que se reformava. É difícil, quando se passa toda uma vida no trabalho, que é, sem dúvida, a nossa segunda casa. No meu caso foram trinta e oito anos, o que é uma vida e tanto. Não é fácil sair e de um dia para o outro cortar com tudo. Por isso, uma vez ou outra, aparecia por lá para matar saudades. Depois, como também é normal, as visitas começam a ser cada vez mais espaçadas, até que um dia se corta de vez o cordão umbilical. É assim com toda a gente ou pelo menos com a maioria. Mas, porque há sempre um amigo que ainda vai à empresa e se vêm lá fora, vai-se sabendo da vida de cada um.

 

Entretanto, com o passar dos anos, chegou também a minha vez de me vir embora e o processo não escapou à generalidade. Durante dois anos, de vez em quando eu ia matar saudades. Depois, as minhas idas começaram a ser mais espaçadas, até que também me desliguei completamente das idas à RTP. Mas as notícias acabam por nos chegar. O mundo é pequeno e sempre aparece alguém que sabe deste e daquele. Assim, um dia, alguém me disse que o Cunha estava doente. Doente? Cancro nos intestinos. 


Por esta altura ele estaria muito próximo dos oitenta anos, de qualquer modo lamentei. E volta e meia pensava nele. O tempo foi passando, até que um dia, alguém me telefonou comunicando o seu falecimento. Oh, fiquei muito triste, mas a vida é isso mesmo: nascer e morrer. Contudo, com a morte dele, muitas lembranças encheram o meu pensamento. Comecei a recordar muitas coisas que tínhamos vivido, muitas situações engraçadas, muitos momentos bem passados. Eram boas as lembranças, mas não deixavam de me transmitir uma certa nostalgia e um certo pesar por tudo o que já ia algures num tempo distante. 


Não me preocupando em demasia, achando que aquilo era normal, deixei as lembranças à solta, fluindo livremente. Mas durante uma semana, dei comigo a pensar sempre no mesmo. Percebi que lamentava o facto de não me ter despedido dele. Era isso. Eu gostaria mesmo de o ter visto recentemente, antes de partir. Mas a vida não permitiu que tal acontecesse. Apenas isso. Contudo, eu lamentava, e à medida que tomava consciência disso, uma tristeza aflorava. Achava que não era motivo para isso, mas o facto é que sentia tristeza por não me ter despedido dele. Parecia que alguma ponta da vida tinha ficado solta e não tinha sido rematada. Era essa a sensação. O facto é que não havia nada a fazer e remediado está o que não tem remédio, portanto, tinha que me conformar com a situação.

 

E então, passou um dia e uma noite e mais um dia e outra noite e eu sempre pensando naquilo. Uma semana inteira se passou e o inusitado aconteceu. Foi uma coisa espectacular. Sempre que a vida toca os planos superiores é uma coisa sensacional. Foi o que aconteceu.

 

Ao fim de uma semana, mal acordei de manhã, veio-me à lembrança o sonho lindo que tinha tido. Lindo, porque aquilo era a resposta ao meu desconforto, à minha sensação de algo que não se tinha completado, que tinha ficado em suspenso e precisava de ser consolidado para então, sim, finalizar.

 

No meu sonho, o Cunha aparecia vindo de cima, impregnado no éter e, embora vestido normalmente, estava completamente envolto em luz. Apresentava-se muito bem disposto, como se estivesse cheio de vida e saúde, como sempre aparentara e também como sempre, sorrindo. E eu olhava para ele, impressionada com com aquela visão tão cheia de luz. Era uma visão linda! Mas acima de tudo ele estava ali, mais do que completo, mais do que confirmado. 


Agora eu já não tinha nada a lamentar. Naquele momento estávamos os dois no mesmo plano, ou seja, não havia um que estava morto, nem outro que estava vivo. Coexistíamos na mesma dimensão. Não sei qual, mas aquela que permite estarmos visíveis e comunicáveis. E isto é uma coisa deveras extraordinária! Uma coisa que me deixa sem palavras...

 

É claro que já me tinha acontecido outras vezes, com outras pessoas, mas, de cada vez que isto acontece, é sempre como se fosse uma primeira vez. A alma vibra a uma frequência sem limites e o espírito acede a um plano verdadeiramente transcendente. Naquele momento mágico, a única coisa importante é que eu estava na presença do meu amigo, apesar de ele ter partido. 


Também não sei qual é a capacidade que nos permite este tipo de comunicação; não sei qual é o neurónio que funciona para isto, nem o tipo ou qualidade de ADN que contem este mistério e que proporciona este fenómeno. Não sei. Eu realmente não sei, nem sei se alguém sabe. O que eu sei é que a comunicação a este nível me fascina e me deslumbra de uma maneira verdadeiramente incrível e apaixonante. E mais uma vez eu estava dentro dela, olhando o Cunha, ali materializado aos olhos da minha alma. E mergulhada no sono do silêncio da noite, de forma telepática, ia recebendo a mensagem que ele me passava: “vim para me veres... para te dizer que estou aqui e estou bem... vim para te dizer adeus”…

 

Acordada e com os olhos bem abertos revia, extasiada, aquele sonho fantástico, lindo e maravilhoso, que trazia de volta a minha paz. E feliz, pensava para comigo mesmo: ele veio em resposta ao meu chamamento. Ele veio para aquilo que em vida não tinha sido possível: o último "adeus".

 

Agora tudo estava bem.