sábado, 25 de março de 2023

A Lua e o Sol - 109


Oh!... Azar. Pior do que isso. Que teria acontecido? Como foi que aconteceu?! Onde?... Não me lembrava de quando teria sido a última vez que estava com os dois. A lua estava lá. A estrela (o sol), fora-se. E com isso, uma nuvem um pouco pesada e um pouco escura, abatera-se sobre mim. Não que fosse uma coisa de valor, porque de valor não tinha nada. Mas eu gostava tanto deles, apenas por serem pequenos, discretos e pelo que representavam! Uma lua e uma estrela. Eu adorava aquele conjunto e ainda por cima dava com quase todas as minhas indumentárias. Eram perfeitos para todos os dias, todas as ocasiões e na fase em que me encontrava, deprimida e sem ânimo para nada, pelo menos, não tinha que pensar todo o santo dia nos brincos que iria usar.

Pronto. Agora não havia nada a fazer. Não adiantava pensar mais naquilo, porque a minha estrela não ia aparecer… apenas e somente por um grande acaso que, para ser bem realista, era certo que seria impossível. Mesmo sabendo onde e quando, já assim seria difícil, quanto mais não tendo a menor ideia. Tanto podia ter ficado presa numa qualquer peça de roupa, como podia simplesmente ter caído, num toque de cabelo, num cumprimentar alguém… enfim, fora-se. Até podia estar no chão do carro, enfiada em qualquer lado, debaixo dum tapete. Impossível reaver.

Ultimamente a vida não estava fácil. Nada de muito grave, mas muitas coisas, umas pequenas, outras nem por isso, eu só sabia que me sentia ir por água a baixo. Tinha plena noção disso e não sabia o que fazer para alterar o padrão. Os setenta anos tinham-me trazido uma certa angústia. A angústia do tempo. Do tempo passado e do que, eventualmente, estivesse ainda por vir. Parecia que o presente não existia.

Sobre o futuro ninguém sabe. Desde que nascemos, ninguém sabe o tempo que tem pela frente. E se às vezes eu pensava, pelo menos setenta já cá cantam, por outro lado, pensava também, que a cada dia, o tempo encurtava, encurtava… mas isso é assim para todo o ser. Humanos, animais, plantas… todos estamos sob a mesma condição universal.

Parecia que a vida não tinha mais nada de bom para me oferecer. Parecia que já tinha cumprido todas as missões, vivido todos os amores. Sentia que todos os dias me afastava mais dos que me rodeavam, por minha própria vontade, porque da mesma maneira que não encontrava em mim nada mais que me encantasse, o mesmo via nos outros, isto é, nada. Tudo tinha a mesma repercussão, a mesma falta de interesse, a mesma desilusão. E a sensação de que já não andava cá a fazer nada, era muito forte.

É... quando a cabeça começa a bater mal, não é fácil dar a volta. E o pior é que eu tinha a consciência de me ter deixado apanhar na armadilha e não ter feito nada por isso, no tempo certo. Estava bastante arrependida, o que não é normal em mim. Arrependimento é coisa que nunca combinou com a minha pessoa. Mas chega sempre uma primeira vez. Porque eu reconhecia que estava bem arrependida de não ter tomada as devidas providências. Agora parecia que era tarde demais. Parecia que não havia solução para sair do pesadelo em que me tinha metido. Nada me dava alento e só me apetecia desistir, desistir.

E agora, mais um pequeno aborrecimento que, não tendo a dimensão que eu lhe estava a dar, não deixava de me chatear de mais. Eu gostava muito daquele par de brincos. Eles combinavam bem demais comigo. A lua e o sol. Os dois lados da moeda. A noite e o dia. O negro e o branco. O céu e a terra. Masculino e feminino. Que chato! Não me conformava. Parecia uma criança. Mas eu queria o meu querido brinco. E usar só um não fazia sentido. Eu queria a minha estrela. Paciência. Ela não voltaria, porque não tinha como. E eu estava a ser simplesmente parva e tinha que me libertar daquilo.

Os dias foram passando, passando e como não gosto de andar sem brincos, lá fui à minha caixa, escolher uns bem simples, para substituírem a lua e o sol, aceitando que aqueles já eram. E aos poucos fui fingindo não me importar com o facto, apenas porque não tinha outra solução. E ficava espantada comigo mesma, por me sentir tão chateada com uma coisa daquelas. Eu percebia que aquilo tinha um significado para mim e que era aí que residia o problema, mas, ainda assim, não podia ser uma justificação para me causar tanto pesar. Era um pouco ridículo.

O tempo continuou a passar e como tudo passa, passa mesmo, de uma maneira ou de outra… de repente, quando nada faria supor, sem entrar em pormenores, posso dizer com toda a verdade, que uma estrela de verdade, apareceu na minha vida. E não só apareceu, como foi entrando, entrando no meu dia a dia, de uma forma tão natural, que começou a preencher os meus pensamentos e até os meus projectos de vida.

Poderia dizer que foi um virar da página. Mas não. Foi muito mais do que isso. Foi o final de um interminável capítulo. Uma lufada de ar fresco que, não sabendo como, tinha chegado até mim, vinda lá das alturas, daquele lugar que ninguém sabe onde fica, nem como se chama, nem o que é, e onde ninguém chega. Mas veio e chegou até mim, à minha triste vida, iluminando o meu caminho, fazendo tudo ir ao seu lugar, abrindo janelas, portas, por onde o sol entrar. O sol! E foi então que uma vez mais me lembrei da minha estrela perdida para sempre.

Mas a estrela que tinha acabado de penetrar no meu conteúdo existencial era bem mais importante do que a outra, a do brinco, mas sem comparação, levando-me a pensar que agora já podia viver bem sem ela. A pessoa que tinha chegado e cruzado o meu destino era muito, mas muito importante. A cada momento que passava eu reconhecia isso e mais certeza disso eu tinha. Contudo… contudo, era um acontecimento tão inesperado e tão improvável que, ao mesmo tempo que era tão bom, me fazia ter dúvidas, dúvidas de todas as espécies. Chegou uma altura em que, se fosse possível ter dois pratos de balança, um com dúvidas, outro com certezas, estou certa de que eles se equilibrariam na perfeição. E então?

Os dias foram passando e dando espaço para as certezas, o que fez as dúvidas irem perdendo o seu potencial e a sua força. E mais uma vez me lembrei dos meus brincos, pois eles combinariam na perfeição com esta situação. Onde estaria a minha estrela? Que raio! Como era possível ter sumido sem eu ter dado por isso? Lamentei a minha teimosia em continuar a pensar naquilo. Apenas porque não me conformava em me ter separado, por assim dizer, da minha estrela, porque isso representava a invalidade da lua, que ficara sozinha, sem o seu sol.

Em contrapartida eu tinha encontrado uma estrela de verdade, uma estrela humana, o meu sol, de um brilho intenso, e não contava nada com isso, especialmente nesta fase da vida. No entanto, assim do nada, apareceu. E foi uma coisa muito louca, verdadeiramente surpreendente. Quase um milagre! A vida é uma caixinha de surpresas e não havia palavras para descrever a surpresa que foi ter encontrado a minha alma gémea. Algo que parecia impossível de todo.

Foi então que pensei que, se isto tinha sido possível, também o meu brinco poderia “ainda” aparecer, porque nalgum lado ele estaria. Perdido, sim, mas não desfeito, nem evaporado. E do campo holístico uma mensagem chegou até mim, dizendo, a tua pequena estrela vai aparecer. É certo. Fiquei nas nuvens! Como poderia? Onde? Quando? Já tinham passado umas boas semanas. A casa já tinha sido limpa tantas vezes. Talvez não fosse em casa. Mas onde poderia ser?!…

Dois dias depois, ao sentar-me no sofá, levantei-me para ajeitar a almofada. Quando me virei e puxei por ela, dei por algo que estava sorrateiramente a escorregar para o interior do sofá. Intrigada, meti a mão e com os dedos segui qualquer coisa que não percebia o que era.

A minha estrela não estivera perdida, nem por um instante. Ela estivera ali todo o tempo, silenciosa, mas bem pertinho, bem juntinho a mim. Era impensável. E o campo holístico continuava a enviar mensagem, dizendo: agora não tens mais por que duvidar da tua estrela maior, aquela que é e será o teu verdadeiro sol, porque te retornou tudo o que tinhas perdido de verdade e muito mais. Agora está tudo bem. A vida está de volta. E como, deus meu!...


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

A mensagem - 108

 

O céu estava com um fundo de azul suave e coberto de pinceladas de nuvens brancas, tortas, irregulares, que alternavam entre si, com a suavidade do fundo celestial.

Eu tinha-me recostado, um pouco cansada, acabando por me deitar com a cabeça apoiada no braço do sofá em que estava, e depois esticar-me, saboreando o início de tarde calma e tranquilamente relaxada, por oposição aos imensos problemas que pairavam sobre a minha cabeça, sobrecarregando o meu espírito e a minha mente.

Várias questões estavam no ar, mas uma em especial, parecia que nunca iria terminar, o que me estava a tirar todas as forças, a roubar toda a minha energia, bem como a coragem e a vontade de viver. Viver a vida, o sonho, tudo o que houvesse no meu presente e tudo o que estivesse para vir. Mas, de facto, não conseguia ter sossego, sempre dominada por pensamentos negativos, fazendo-me sentir mal e às vezes muito mal, dando oportunidade a crises de pânico.

Tudo o que está no nosso caminho, seja bom ou mau, é para vivermos, querendo ou não. E neste caso, não querendo entrar propriamente em pormenores, não havia escolha possível. A única escolha era a aceitação, o que estava a ser muito difícil para mim. Às vezes sentia-me revoltada, mesmo sabendo que não devia, não podia, mas… fazer o quê?

A questão em si, complicada e delicada, tinha surgido aparentemente do nada e por isso mesmo deixava-me impotente, sem a menor possibilidade de alterar a situação, pois não dependia de mim. Há anos que se arrastava e eu ia levando e encarando como podia. Umas vezes com mais paciência, outras vezes sem a menor paciência. E é assim que a vida nos testa. Por vezes levando-nos ao limite.

Olhando o céu, intervalado de azul e branco, estive uns cinco minutos presa nesta paisagem, que poderia parecer monótona, mas era muito mais do que isso. Relaxante e tranquila, em que nada se alterava, nada se movia. Ou, se se movia, era tão, mas tão lentamente, que o meu olhar não conseguia perceber a mais pequena alteração.

Inconscientemente, estabeleci uma analogia entre aquela paisagem absolutamente estagnada e o problema que tanto me afligia. Não era normal olhar o céu com nuvens, sem que elas se deslocassem, por muito lento que fosse o seu caminhar. Mas aquelas, estavam completamente paradas, sem o menor movimento. E foi aí que pensei: tal qual o problema que tanto me aflige. Nada se move, nada muda. Era como se o universo estivesse em comunicação comigo, mostrando-me aquele panorama, para que, uma vez mais, eu percebesse que a única solução era aceitar e esperar... esperar.

Ao cabo de mais ou menos uns cinco minutos e cansada de tudo o que passava na minha cabeça, quase sem querer, fechei os olhos, a fim de desanuviar e pensar em outra coisa qualquer. Para onde fui, nem sei. Que pensamentos passaram pela minha mente nesse entretanto, francamente não tenho ideia. Talvez porque era precisamente essa a intenção ou porque nem sequer deu tempo para isso, para me desligar um pouco, se possível. Mas passados que foram uns segundos apenas, tentando acomodar-me um pouco melhor na posição do sofá em que estava, e sem ter noção disso, abri os olhos quase sem querer, para logo os fechar outra vez. Só que não!…

Surpresa das surpresas. A paisagem que estava fixa, sem o menor movimento, durante os cinco minutos em que estive a observá-la, por achar que não era muito natural que as nuvens não se movessem, por muito pouco que fosse, surpreendentemente, estava completamente mudada. Não havia a mais pequena comparação. Agora, o céu estava todo coberto pela suavidade da brancura das nuvens, que pareciam algodão desfiado, mas que cobria tudo, não havendo um bocadinho de azul à mostra.

E pensei, raios, como pode? Durante cinco minutos nada aconteceu. Tudo estava parado. Estranhamente parado. Fecho os olhos por uns breves segundos e quando os abro, parecia que estava noutro lugar. Parecia que as nuvens estavam à espera que eu fechasse os olhos para alterarem a sua posição. Mas era uma mudança radical. Não havia rasto da anterior. Em cinco minutos nada se moveu, parecendo que ia ficar assim para todo o sempre. De repente, em escassos segundos, modificou-se do dia para a noite. Era inconcebível! Mas era o que era.

Foi então que se fez luz. Na verdade, aquilo era uma mensagem do universo, dizendo-me que tudo era assim. Quando menos esperamos, a vida dá um passo adiante. Mesmo quando já nada esperamos. Nada é eterno. Tudo tem o seu tempo e de um instante para o outro, tudo pode mudar.

Sem dúvida. Era uma mensagem, uma mensagem perfeita. Tão perfeita, que dois dias depois, o problema que há tanto me afligia, dava um passo em frente. Um passo que considerei gigante, diante dos obstáculos que se entrepunham e que pareciam não ter fim.

Mas aquela mensagem foi uma coisa extraordinária, por duas razões: pela carga do conteúdo que ela continha e pela percepção que a minha consciência teve a capacidade de alcançar. Uma simples mensagem, mas uma muita especial mensagem, que podia ter passado completamente despercebida, perdendo todo o seu real potencial, zerando e anulando, simplesmente e completamente, a sua função – a beleza da suprema e eterna interacção entre o universo e o homem.

 

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Anita - 107

 

Anita era uma miúda filha de uns amigos nossos, que tinha apenas mais um ano que o meu filho, mas uma criança difícil, que só queria fazer o que lhe apetecia e o que não devia. Está bem, era criança, mas "é de pequenino que se torce o pepino", como diz o povo. Isto, só para dizer, que os pais não estavam nem aí para a educação da sua menina querida, que adoravam, mas não faziam nada de proveitoso por ela. Não se incomodavam e nem se davam ao trabalho de contrariar a menina, quando se fazia necessário, o que era praticamente sempre.

Anita estava sempre em contradição com tudo e com todos. Já o irmãozinho, com menos dois anos do que ela, por qualquer coisa, levava boas palmadas dos pais. Anita fazia coisas verdadeiramente inconcebíveis. Nos Açores era frequente reunirmo-nos para passar alguns serões entre amigos, conversando e gracejando por tudo e por nada, enquanto as crianças se entretinham brincando umas com as outras. Anita tinha prazer em estar sempre a interferir na brincadeira dos outros, procurando dar nas vistas de maneira muito inconveniente, e sempre a perturbar tanto os pequenos como os adultos.

Com apenas três anos, roubava os cigarros que o pai estava a fumar, num intervalo em que os punha no cinzeiro, e descaradamente, exibia-se, desfilando em frente de todos, atirando o fumo para o ar, rindo feliz da vida, porque estava a fazer o que os adultos faziam. E os pais na boa! A mãe sorria, deliciada, e o pai ficava mais do que envaidecido, achando que a filha era muito inteligente e muito engraçada. Era o fim da picada. Eu ficava completamente consternada. E não adiantava tentar fazê-la parar, porque o próprio pai incentivava e ficava orgulhoso com a ousadia da sua menina, rindo gostosamente, o que me deixava completamente consternada. Não conseguia compreender aquilo e dentro de mim abria uma brecha de revolta, porque achava que aquilo era tudo menos serem pais. Pais que amam os seus filhos não fazem coisas desta natureza. Muito pelo contrário.

Isto era nos Açores. Todos tinham crianças ainda pequenas, porque eram todos da nossa geração e mais ou menos, todos casámos na mesma altura. Mas já aí eu percebia, apesar de as crianças serem ainda muito pequenas, compreendia perfeitamente e sem sombra de dúvidas, que o meu filho não tinha nada a ver com os outros. As suas capacidades eram muito acima. Havia um abismo entre ele e os outros, porque se destacava em tudo, de uma forma muito concreta. Era o que ele sabia e os outros não. O que entendia e os outros não. Era da educação, da formação e da orientação. Sim, talvez, mas, acima de tudo, era dele. Porque ninguém consegue fazer dos outros o que eles não são.

Com Anita, eu chegava a ter pena dela, porque percebia que aquela criança não tinha sequer chance. O que poderia ser diferente nela, se os próprios pais não eram?! Esse era, sem dúvida, o maior problema. Como seria pela vida fora? Era dramático. Ah, pois, mas as pessoas mudam! Ou não. A mudança pode sempre ser para melhor ou ainda para pior.

Um dia em que eu andava em buscas no google, de repente, sem mais nem menos, aparece-me o nome dela como médica endocrinologista, numa clínica em Ponta Delgada, S. Miguel, Açores. O nome era o dela, portanto, era ela. Não havia dúvidas. A mesma idade, tudo igual. Não posso dizer que não fiquei bastante surpreendida, porque fiquei mesmo. Caramba! Afinal eu tinha-me enganado. E não é que, ser médica, fosse algo de extraordinário, mas para a pessoa que eu conhecia ou que eu tinha conhecido, era mais que muito. Como era possível aquela miúda ter chegado ali?! Fiquei deveras surpreendida e até com muita dificuldade em acreditar nas informações que ali estavam e que qualquer um podia testemunhar.

Era bom, evidentemente. Mas era tão estranho! Na minha cabeça e, tendo-a conhecido como a conheci, era quase um milagre. E não estou a exagerar. Porque a criança que eu conheci, jamais chegaria àquele ponto. Era preciso ter tido uma grande determinação, em qualquer altura da sua vida, para mudar completamente o rumo das coisas. E por parte dos pais, também não conseguia ver a possibilidade de lhe terem proporcionado esse caminho. É certo que tudo pode ser mudado, quando e como quisermos. Mas esse é que era o problema. Ali, de acordo com tudo a que sempre assisti e sabia, nada poderia ter mudado, porque era o que era e não havia como, nem jeito.

O facto é que ali estava o nome dela, médica endocrinologista, numa clínica em Ponta Delgada. Nem sequer podia haver engano, porque o sobrenome e apelido eram pouco ou nada comuns e num lugar tão pequeno, era impossível haver outra pessoa com o nome dela. Seria uma coincidência muito grande, nada provável. Se fosse um nome comum, até podia ser outra. Mas o dela não. Não havia do que duvidar.

Eu estava perplexa, com imensa dificuldade em acreditar no que lia. Como era possível uma tamanha mudança? Era uma viragem inconcebível. E aí eu tinha que admitir que afinal me tinha enganado e que, por trás daquela Anita, havia outra, que eu nunca tinha conseguido ver. De certa forma, sentia-me completamente derrotada pela maneira como sempre tinha enxergado as coisas. Tinha-me enganado redondamente e feito muito mau juízo da criança. Levei dias a tentar digerir aquilo, acusando-me a mim mesma por me achar uma pessoa má, por ter feito um péssimo julgamento de uma criança, que afinal, apesar do que era, tinha conseguido encontrar o seu caminho e trazido ao de cima o seu melhor. Talvez esse melhor sempre lá tivesse estado e só eu não tenha tido a capacidade de ver e de compreender.

Era uma estranha sensação. Por um lado, eu continuava a ter toda a dificuldade do mundo em aceitar. Por outro, queria muito não ter feito um julgamento tão errado e adoraria conseguir congratular-me com aquela outra Anita. Mas estava completamente dividida nos meus sentimentos e nas minhas emoções. A questão já não era ela - Anita. A questão agora era eu. Quem era eu, afinal? Um ser mesquinho e malévolo, que tinha feito um juízo tão mau daquela criança que, lá atrás, eu achava que tão bem tinha conhecido. Até na adolescência, eu sabia de fonte segura, que à noite, frequentava a discoteca, utilizando o cartão de crédito da avó, que já tinha muita idade, esbanjando dinheiro com amiguinhos. Isto era de loucos, completamente.

Mas o importante é que Anita tinha conseguido. Muito provavelmente, sentia-se realizada e muito bem preenchida e a sua vida era muito válida. Isso estava acima de tudo e era mais importante do que tudo o resto. Tudo o resto era passado e tinha ficado lá atrás, esquecido e enterrado para sempre. Que bom para ela e bom para o mundo!

O tempo passou e um dia, tive que falar com o meu ex-marido, por qualquer coisa que já nem me lembro. Por acaso ele até estava nos Açores, onde, depois de se reformar, passa a maior parte do tempo. E de repente, lembrei-me de lhe perguntar. Disse-lhe que tinha encontrado no google uma Anita, médica endocrinologista, e que fiquei bastante admirada com o facto.  Contudo, e sem se fazer esperar, ele logo respondeu sem qualquer hesitação: “não, não é a mesma. É outra”. Outra, disse-lhe, mas é o mesmo nome!? E ele respondeu: “Sim, mas não é ela, é outra”.

Ah!... Afinal, por mais estranho que parecesse, com o mesmo nome, a mesma idade, no mesmo lugar… afinal havia outra (!?).

A minha dedução infelizmente estava completamente certa. A Anita que conheci, essa, nunca na vida. Impossível, com muita pena minha.


quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Manias - 106

 

“Meditamos sobre a Luz Divina do adorável Sol da Consciência Universal,

que estimula nosso poder de percepção espiritual”

Om Svah

 

Cada um tem as suas manias e eu também tenho as minhas, algumas delas, devidamente assumidas, porque sobejamente intrínsecas à minha pessoa. Afirmo que é uma mania, apenas porque acho que mais ninguém o faz, ou se o faz, não fala nisso, pelo menos sistematicamente, ou com a intensidade ou necessidade com que o faço. Por isso, é uma mania, sim, pelo menos no meu caso.

Também não sei porque o faço, mas faço-o constantemente. Olho para uma pessoa, umas que conheço, outras que não, tanto faz crianças como adultos e até mesmo idosos, e ponho-me a observar cuidadosamente, nos mínimos detalhes, com quem ela ou ele se parecerá, tentando perceber, por exemplo, se os olhos são uma herança materna ou paterna, a boca, o nariz, o seu perfil, etc… etc… etc… e não se trata de querer "adivinhar". É ler nos seus traços, na sua fisionomia, nas suas características, no aspecto. Isso sim.

Porque o faço, não sei. É uma mania. É quase um vício. O facto é que gosto de perceber essa coisa que é o que trazemos de trás, das gerações passadas, a genética daqueles que nos trouxeram a este mundo. Afinal, somos todos um, sendo que, nessa fusão de ADN, não há ninguém igual a ninguém. Ninguém se repete, porque não somos clones. Pelo menos por enquanto. Assim, cada um guarda, religiosamente, o seu completo historial, que está marcado na totalidade do seu ser e se repercute, de maneira mais ou menos acentuada, em todo o seu físico, ou seja, em toda a matéria da qual somos um composto.

A beleza, ou a falta dela, é, de certa forma, uma convenção, e todo o registo dos nossos traços falam, dizem de onde vêm, e têm as suas próprias características, as suas “qualidades”, quaisquer que elas sejam, bem como o seu significado. Mas não só. O porte, o modo de ser, mais feminino ou masculino, esse equilíbrio ou desequilíbrio, que leva muitas vezes a que uma coisa pareça outra completamente diferente.

É daí que vem o meu especial interesse por essa matéria, embora o faça um pouco intuitivamente. Já tenho lido alguma coisa sobre isso, precisamente porque é um assunto que tem o meu especial interesse, caso contrário, certamente não me daria ao trabalho de procurar informação a esse respeito. E por tudo isto, aconteceu um episódio, há relativamente pouco tempo, que achei interessante e chamou a minha atenção.

Moro num prédio com nove andares. Dado que cada patamar tem seis apartamentos, é bastante gente, sempre a entrar e a sair. Por isso, cruzo-me frequentemente, com os vizinhos. Uns de longa data, outros mais recentes, porque há sempre uns que vão, para dar a vez a outros.

Há um casal que já conheço há algum tempo, embora sem grandes intimidades. Bom dia, boa tarde, como vão, e pouco mais. Têm um filho, o Pedro, de trinta e dois anos, que vejo com mais frequência, porque sai várias vezes ao dia para passear o cão. E sempre que o vejo, associo-o imediatamente aos pais. Só que, desde sempre, nunca consegui encontrar nele, traços que reflitam parecenças com o pai ou com a mãe.

Parvoíces minhas. Manias. Talvez outras pessoas consigam encontrar as parecenças que eu não consigo. Os próprios pais, certamente. O facto é que, não há vez nenhuma que, ao vê-lo, não faça, repetida e insistentemente, esta relação parental, buscando qualquer coisa que os assemelhe ou que os junte. Tenho alguma necessidade disso? Claro que não. Mas não faço isso só com ele. Como já referi, de um modo geral, faço-o com toda a gente. Daí, que considere isso uma verdadeira mania.

Mas devo dizer que, da minha análise, resulta sempre um conjunto de parecenças que fazem sentido e que têm a sua razão de ser. Algumas são mais do que evidentes e qualquer pessoa pode constatar. Outras, nem por isso, passando despercebido para muitos, mas não para mim.

No caso do Pedro, sendo totalmente franca e honesta comigo, sem estar a inventar, nunca consegui encontrar o mínimo sinal de parecença, o menor detalhe de afinidade, deduzindo que as minhas faculdades intuitivas não estavam a funcionar com ele. Paciência. Isto não é relevante, nem tem interesse nenhum para ninguém. Se me desse ao trabalho de falar com os pais a este respeito, o que não faria muito sentido, talvez eles me revelassem semelhanças que eu nunca consegui encontrar.

Um dia, cruzando-me com o casal, ela ficou pendurada a conversar comigo, dizendo que às vezes tem necessidade de falar e o marido não é muito conversador. E, então, começou a desabafar um pouco da sua vida, das suas coisas. Coisas de nada, sem importância, mas tendo percebido que ela precisava mesmo disso, deixei-a falar e fui ouvindo, simplesmente. De repente, a conversa rumou aos filhos e fiquei sabendo que eles só têm aquele filho, coisa que eu já tinha desconfiado.

O curioso, é que, sempre que penso que a minha intuição não está a responder ou não está certa, alguma coisa tem por trás, alguma coisa se esconde, impedindo-me de compreender seja o que for, pelo que acabo por concluir que o problema é meu. É falha minha, porque não encontro outra explicação. Foi o caso.

A conversa fluía e com a maior naturalidade, sem mais nem menos, começou a falar dos irmãos do Pedro. De repente fiquei perdida, sem perceber nada do assunto, pensando que tinha perdido alguma parte, que por qualquer razão me teria escapado e por isso, ingenuamente, perguntei, “mas não disse que só tem um filho?” E com toda a tranquilidade, ela respondeu: “sim, o Pedro, mas nós não conseguíamos ter filhos, de modo que o Pedro é adoptado”.

Ah?!... Estava explicado o mistério. Agora sim, eu entendia e fazia todo o sentido. Estava tudo certo. A única coisa errada nisto tudo, foi, simplesmente, e uma vez mais, ter duvidado da minha intuição. Mas como também não sou dona da verdade!? Nem eu nem ninguém. 

Contudo, quer se aceite ou não, quer se queira ou não, existe uma coisa que se chama intuição, o equivalente a percepção espiritual e que, apesar de não ser muito valorizada, fala sempre mais alto do que tudo, para nos revelar apenas e somente a Verdade.


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Tadeu e Vinicius - 105

 

Tadeu e Vinicius, dois jovens brasileiros e irmãos por parte da mãe. O primeiro é o mais velho, com cerca de trinta anos e o segundo mais novo. A mãe, uma brasileira de quarenta e cinco anos, vive em Portugal há já muitos anos, no que está mais do que adaptada e onde gosta de viver, inclusive, casada com um português.

Tadeu e Vini vivem no Brasil, mas estão sempre em contacto com a mãe, através de mensagens de WhatsApp e chamadas de vídeo, onde têm acesso ao quotidiano uns dos outros, podendo aliviar as saudades. Tadeu é casado, trabalha por conta própria mais a mulher. Segundo a mãe, Josy, têm uma vida muito boa em todos os aspectos, porque conseguem fazer muito dinheiro. Têm uma menina com sete anos, filha de um primeiro namorado da mãe e agora um menino com seis meses, filho de ambos.

Josy é minha vizinha, porque ela e o marido vivem no mesmo prédio que eu e não raras vezes estamos juntos. Pela nossa diferença de idades eu poderia perfeitamente ser mãe, tanto dela, como do marido, o que não impede que nos demos muito bem. Eles fazem muitos programas, tanto dentro de casa como fora, no qual me incluem, o que para mim é sempre muito agradável. E Josy tem sempre coisas para me contar da vida dela, seja daqui, seja do Brasil, ou da sua vida particular, enfim, conta-me muita coisa. Eu diria mesmo que me conta tudo da sua vida, para a qual eu sou sua fiel confidente, pois respeito tudo o que ela me fala e muito embora me atreva a dar a minha opinião, é apenas a minha opinião, sendo que as decisões que toma, por sua livre e espontânea vontade, são um direito seu.

A companhia deles é sempre muito bem-vinda, por se contrapor à minha solidão. O marido tem dois filhos ainda adolescentes, fruto do seu casamento anterior, que muitas vezes estão com eles. E embora se deem muito bem, como qualquer casal normal, às vezes há problemas. Aí, Josy desabafa sempre comigo, expondo o seu ponto de vista, em relação ao qual posso concordar ou não, mas são problemas deles e não tenho nada com isso, limitando-me simplesmente a ouvi-la.

Há tempos, início de Verão, uma vez mais me convidaram para ir com eles para a casa do Algarve, onde vão com frequência passar alguns dias, quando o trabalho de ambos o permitia. E nesses dias, além de algumas horas na praia, não havia o que fazer, pois as refeições eram sempre fora ou pedidas a casa, passando o tempo a assistir a qualquer coisa na televisão, mas muito mais conversando e jogando conversa fora.

E nas nossas longas horas de conversa eu já tinha na minha cabeça a visão de tudo o que ela me contava sobre a vida dos filhos no Brasil. Ela descrevia tantas vezes e com tanta minuciosidade, que não dava para ignorar. Mesmo sem querer eu visualizava tudo, tal qual ela relatava. Já conhecia por dentro e por fora a casa de um e do outro filho e até o ambiente familiar no qual estavam inseridos. Visualizava as crianças, a rotina de todos, etc. E até já sabia tudo de cor e salteado, o que era engraçado, porque tudo isto era apenas de ouvir.

Estando, no Algarve, uma vez mais, ela começa a falar dos filhos e recebe um telefonema do mais velho, que lhe fala de um assunto que a deixa de certa forma encantada e esperançosa. Terminado o telefonema, imediatamente me põe a par e passo da situação. Tadeu trabalha em casa, num negócio de vendas online e tenciona chamar o irmão, Vini, para começar a trabalhar com ele.

Isto deixou Josy encantada, porque sempre dizia que tinha pena do filho mais novo, por conta do trabalho que fazia. Era um trabalho muito duro e ao ar livre, embora ele gostasse do que fazia. Além de que não era muito bem remunerado. Então, este convite do irmão mais velho para trabalhar com ele vinha a calhar, porque era em casa, sem o desgaste físico que o outro trabalho lhe dava. Ela falando, quando de repente me lembrei de um pormenor que imediatamente lhe contei. Nunca lhe tinha falado nisso, achando que era uma confusão qualquer minha e não fazia o menor sentido. Contudo, depois deste telefonema, a minha cabeça deu sinal e percebi que afinal, parecia que as coisas sempre encaixavam. Talvez não lhe devesse ter dito nada, mas foi mais forte do que eu.

Josy, disse-lhe, então é por isso que sempre que me falas do negócio do teu filho eu vejo o Vini lá, trabalhando, andando de lá para cá, com embalagens na mão, e nunca o Tadeu. Nem nunca me lembro de ter visualizado o Tadeu, a não ser ao computador. É sempre, sempre o Vini. E nunca falei nada porque achei não fazer o menor sentido. Josy, que já está mais do que habituada às minhas estranhezas, que considera uma dádiva, imediatamente se expressou encantada e deliciada, dizendo, verdade? Não me digas isso! É tudo o que eu mais quero, é tirar o Vini daquele trabalho porque é muito duro. E se ele fosse trabalhar com o irmão era outro descanso em todos os aspectos. E continuou dizendo que queria, porque queria muito e, portanto, o que eu acabava de lhe dizer, dava-lhe uma imensa esperança de que as coisas seguissem esse rumo. Posso mesmo dizer que estava feliz, tanto com a novidade do telefonema do filho, como com aquilo que eu tinha acabado de dizer que via sempre, mesmo sem compreender, o que para ela era quase uma certeza.

Josy nunca escondeu o facto de achar que eu sou uma pessoa “especial”, muito à frente, segundo palavras dela, etc… etc… apenas porque teve alguns percalços, que acha que fui eu que os resolvi. Por exemplo, a máquina do café um dia deixou de trabalhar. Lamentou-se, dizendo que agora não tinha café em casa e porque não sabia se a máquina tinha arranjo ou se tinha que comprar outra, o que era uma chatice. Estávamos ao telefone e disse-lhe para desligar e voltar a ligar. Horas depois ligou-me muito contente, feliz da vida, porque tinha feito o que eu lhe tinha dito e a máquina imediatamente começou a trabalhar(!?). Rimos as duas, claro. Se calhar era apenas um mau contacto, só isso. Mas ela achou que foram as minhas boas energias. Outra vez, foi a máquina de lavar do salão, que não fez a centrifugação. Disse-lhe para mudar de programa e experimentar. Ela rindo, disse, já sei, a máquina vai funcionar. O facto é que funcionou. Não tenho explicação, são apenas mudanças de atitude. Se calhar estava cansada daquele programa!...

De modo que, quando lhe contei que via sempre o filho mais novo e nunca o mais velho, ela ficou maravilhada, porque era mesmo o que ela queria. Mas eu estava a ser muito franca com ela, ou seja, não estava a inventar nada para lhe ser simpática, que isso não faz o meu feitio. Agora só havia um handicap, ele aceitar ou não. Dependia apenas dele. E aí sim, percebi a sua forte apreensão.

De regresso a casa, os dias voltaram à sua rotina e novamente estamos juntas. Nas conversas habituais, lá vêm os filhos. E de repente, pergunto-lhe como está o assunto entre os dois, convencida de que o mais novo tinha aceitado o trabalho com o irmão. Mas para minha surpresa, ela respondeu que não, ou seja, o Vini tinha recusado, explicando que trabalho era trabalho e não queria de forma alguma pôr em risco a sua relação com o irmão. Por isso achava prudente não aceitar, continuando tudo como estava.

Eu mesma fiquei desiludida, mas compreendia a situação e no fundo achava que tinha alguma razão de ser. Em todo o caso, posso dizer com toda a verdade, que fiquei um pouco espantada e perdida, por ter saído completamente fora da verdade, isto é, por ter dito uma coisa que não correu como a minha intuição previa. Quase que me senti derrotada. Mas as coisas são como são e, então, talvez fosse mesmo apenas e somente alguma confusão da minha cabeça, como eu sempre tinha achado. Mas volta e meia pensava naquilo, sempre com um certo pesar, sempre com dificuldade em admitir que tinha falhado e que se calhar era preferível não ter dito nada. Se calhar estava mesmo a inventar. Mas porquê? Porque todas estas coisas saem do nosso controle e não são muito ou nada perceptíveis.

O tempo foi passando, passando, outros problemas apareceram e não foram poucos, tanto para eles como para mim e a vida acontecendo, com coisas que a única saída é aceitar, simplesmente. Já lá iam uns dois meses, desde aquele incidente que me tinha deixado sem palavras. Agora, Josy estava falando do netinho que já vai ao jardim escola para a mãe poder trabalhar, mostrando-me vídeos dele com muita graça. E na conversa que está a decorrer, de repente, a minha frustração esfuma-se naquele preciso momento, deixando-me bem mais tranquila e sem o arrependimento de ter falado no assunto, ao ouvi-la dizer que o Vini estava a trabalhar com o Mateus. Perguntei, espantada, o quê? Pensei que ele tinha recusado a proposta do irmão!? Ah, mas pouco tempo depois, acabou por voltar atrás e por sinal está a correr tudo muito bem para os dois.

E, afinal, tudo encaixou no sítio certo. 


terça-feira, 16 de agosto de 2022

Verdades ocultas - 104

 

Não tenho nada contra as religiões, mas também não tenho muito a favor. Cada um é livre de acreditar no que quiser e seguir os credos que entender. Respeito todos os povos com a sua cultura, os seus costumes e as suas religiões, porque acima de tudo prezo e respeito a liberdade, o bem mais precioso do ser humano.

Quando fui para os Açores e conheci o meu marido, ele vivia com a mãe, o irmão e um tio. O tio era padre e tinha outro irmão também padre, que não vivia com eles, porque era Pároco na Freguesia da Lagoa, fora de Ponta Delgada. Mas como tudo ali é perto porque a ilha não é grande, ele ia lá muitas vezes estar com a família.

Os dois eram padres, mas um bem mais do que outro, ou seja, o de Ponta Delgada, um padre a cem por cento, o outro nem tanto. E digo isto apenas no seu aspecto exterior, porque Padre Domingos andava sempre “fardado”, já o outro não. Quem o visse fora da igreja e não o conhecesse, nunca diria que ele era padre. O outro, nem nunca me lembro de o ver de roupa que não fosse da igreja. Depois, enquanto que padre Domingos andava sempre, mas sempre, de missal na mão ou debaixo do braço, padre Agostinho tinha sempre um cigarro na mão. Eram realmente muito diferentes neste aspecto. No resto eram iguaizinhos.

Focando-me exactamente no Padre Agostinho, ele vivia na Lagoa por ser o Pároco daquela freguesia e morava numa bela casa, um solar de dois pisos, de frente para o mar, com uma vista soberba. Um casarão, que ia muito para além das suas necessidades. Mas era propriedade da igreja e, portanto, por direito estava-lhe atribuída. Algo em que eu pensava frequentemente, mas a vida é o que é e as coisas são como são. Além disso, tinha um pequeno terreno onde ele tinha feito uma hortinha bem jeitosa, no qual colhia legumes fresquinhos quando quisesse. Se eram só para ele ou se os distribuía com a população, não faço a menor ideia. Lembro-me de que, de vez em quando, levava uma cesta com coisas lá para casa e especialmente quando engravidei, no que ele tinha o cuidado de, com muita regularidade, levar produtos fresquíssimos como alfaces, cenouras, batatas e outras coisas mais, o que muito agradeci.

Mas Padre Agostinho, tio do meu marido, andava quase sempre acompanhado de um garoto a quem ele chamava de afilhado e que o tratava precisamente por “padrinho”. O garoto estava com frequência lá em casa, pelo facto de andar sempre com ele. Segundo dizia, era filho da senhora Lucinda, a pessoa que lhe fazia a faxina em casa e cuidava de tudo na igreja. E assim, ele tinha o garoto como afilhado e como afilhado acompanhava muito o padrinho.

Todos nós já estávamos mais do que habituados ao convívio do garoto e que estava completamente à vontade tanto com o padrinho como com o resto da família. E algumas vezes dei por mim a pensar que o miúdo, que deveria ter uns onze, doze anos, poderia perfeitamente ser da família, pela semelhança que tinha com todos. Achava imensa graça à coincidência das semelhanças dele com o padrinho. Mas se calhar era só eu. Talvez os outros não se dessem conta disso, porque provavelmente nem se detinham nesses pensamentos. E não é que eu quisesse ou tivesse alguma intenção especial. Era simplesmente porque aquela “coincidência” era tão consistente, digamos, que era mais forte do que eu. Quantas vezes dei por mim a pensar, a olhar para ele, a observar e sempre a chegar à mesma conclusão de porque razão aquilo haveria de ser uma obstinação para mim. Eu nem queria saber daquele assunto. Não tinha interesse nenhum. Mas acabava por ser mais forte do que eu, sem dúvida.

Olhando-os de costas, um era a miniatura do outro. A mesma forma, a mesma estatura, os ombros largos, o cabelo claro como o meu filho e os primos. Os olhos castanho-esverdeados como os da minha sogra e do meu marido. O mesmo tom de pele, enfim, as semelhanças eram inúmeras. No meu íntimo, não era nenhuma insinuação que eu fazia. Longe de mim pensar que o garoto fosse filho dele, mas é que realmente era tão grande a semelhança, que me deixava completamente confusa.

Todos sabemos que os padres não podem casar, não podem ter filhos e isto, em princípio, é aceite pela comunidade. É uma estupidez! Não interessa. Problema da igreja. Quando se metem a ser padres já sabem disso. É problema deles. E também nunca conheci nenhum padre que tivesse filhos. Mas cada vez há mais casos desses. Isso é sabido. E para mim tanto faz como fez. É-me absolutamente indiferente, dado que a religião não me diz nada. O facto de ser crente, não implica ter uma religião. Mas isso sou eu, por isso também, aceito os outros como são.

Em relação ao caso do tio padre, às vezes até me sentia incomodada com a tentação de pensar constantemente naquele assunto. Longe de mim imaginar que o garoto seria seu filho. E tinha a certeza de que ninguém na família alguma vez tivesse pensado nisso. Nunca. Eles eram tão rígidos com os princípios do catolicismo!? Eu fui “obrigada” a casar-me, segundo os rituais da Igreja Católica, para poder ter acesso aos encontros em família ao Domingo, dia do “Senhor”. Enfim… só disparates. Mas eram os costumes deles, eram as suas tradições, as suas regras e tudo tinha que seguir os seus trâmites, caso contrário era muito complicado.

Entretanto, o meu marido e eu divorciámo-nos, cada um seguiu o seu caminho, apesar de mantermos um relacionamento civilizado, quanto mais não fosse porque tínhamos um filho que precisava disso. Os anos passaram, fomos todos envelhecendo, as crianças tornaram-se adultos e também seguiram o seu rumo, o caminho destinado e por aí adiante. Os tios padres morreram, primeiro um, depois o outro e a minha sogra foi a última, porque faleceu com cento e quatro anos.

Muito recentemente, dei por mim a andar para trás no tempo, porque a minha cabeça, sem motivo aparente, foi buscar todas essas recordações lá atrás, o que me parece natural. E foi aí que vi o filme na sua película original e verdadeira. Ou seja, de repente, sem mais nem menos, percebi porque razão eu ia sempre parar ao mesmo caminho: o padrinho e o afilhado. Pela primeira vez na vida eu vi com os olhos da alma, que não havia padrinho e afilhado, mas um pai e um filho, pura e simplesmente. E perguntei a mim mesma porque razão tinha escondido isso de mim mesma durante tantos anos!?

Estava claro, mais do que claro, que desde a primeira vez que os vi, percebi que eram pai e filho. Não havia dúvida nenhuma. Só não via quem não queria. E também estava claro que os outros sabiam perfeitamente. Hoje tenho a certeza disso, mas ninguém tinha a coragem de falar. Aceitavam aquilo como uma verdade oculta, por uma questão de princípio, porque estavam em causa os princípios da Igreja e o respeito pelo tio Padre, que não tinha outra saída naquela história.

Os padrões a que estamos sujeitos e as regras que nos impõem desde sempre, conseguem bloquear totalmente as capacidades inatas do ser humano. Elas foram feitas para isso e cumprem a cem por cento os resultados a que se destinam. E mais uma vez encontramos um lugar comum, ou seja, aqui, somos todos iguais. A limitação continua a dominar-nos. As verdades ocultas continuam a ter total soberania, se não evoluirmos como seres humanos. A nossa evolução passa pela luz que conseguimos chamar a nós. À medida que crescemos interiormente e desenvolvemos o nosso ser de luz, assim conseguiremos desabrochar e deixar sair a nossa verdadeira e mais pura identidade, para a qual não há meta e onde o céu não tem limite. O limite sem fronteiras que libertará de vez o espírito e acabará de vez com todos os nossos bloqueios e todas as verdades ocultas. 

 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Viagem à Rússia - 103


O ano de 2020, o ano do “rato”, de acordo com o zodíaco chinês, tinha acabado de dar entrada. A Direção da Associação Sénior de Odivelas estava reunida para mais uma reunião, a primeira do ano, na qual estavam presentes todos os seus membros.

A senhora Presidente, dirigindo-se ao colega Celestino cujo pelouro são as viagens, pergunta se já tem alguma coisa em vista para a viagem internacional da ASO. O colega Celestino é uma pessoa de eficiência total. Prepara a sua parte com todo o cuidado e com uma antecedência espantosa, pelo que está sempre pronto a responder a qualquer questão que lhe seja posta. Portanto, não seria agora que ia falhar e por isso, uma vez mais, ele já tinha o trabalho de casa perfeitamente elaborado, pronto para ser apreciado por toda a direção, a fim de se planear a viagem sem falha.

Das várias propostas apresentadas à mesa, a mais apelativa para ele é uma viagem de cinco dias à Rússia. E depois de distribuída toda a informação sobre este assunto, para que todos pudessem avaliar e formar uma opinião, um a um, todos se manifestam a favor da Rússia, incluindo a Sr.ª Presidente, que faz questão de afirmar que, em seu entender, é a melhor escolha e vale muito a pena. Ela tinha estado lá com familiares, muito recentemente e adorou, dizendo maravilhas da Rússia.

Enquanto isto, limito-me a ver e ouvir o interesse por parte de todos, sem me pronunciar. Achando estranho, a senhora presidente pergunta porque razão ainda não proferi uma palavra sequer em relação à viagem. No mais profundo silêncio, de facto, eu era a única que não se manifestava. Todos pareciam unânimes em votar na viagem à Rússia. Porque razão eu não me manifestava, era a pergunta da Senhora Presidente e agora dos outros também. Não queria ser desmancha prazeres, mas a minha única resposta era “não”. A viagem seria feita, uma vez que todos concordavam, mas eu não iria. E intrigados começaram a levantar questões, porque eu sou sempre muito animada com as viagens internacionais e não falho uma. Sem dúvida, mas à Rússia não.

E começa uma espécie de “batalha”, com todos exigindo da minha pessoa uma resposta concreta e objetiva, uma resposta cabível, que tenha fundamento. Não que eu tivesse obrigação, mas por uma questão de princípio e como Vogal da Direção, deveria pronunciar-me, só isso. Mas essa resposta eu não tinha. A única coisa que sabia é que assim que ouvi falar em Rússia, a minha intuição deu de imediato alerta e a resposta era um não, sem sombra de dúvida. Porquê, eu também não iria explorar muito essa questão, nem para mim mesma, pois há muito que aprendi que em casos destes, a resposta a seu tempo virá. Mas à Rússia era certo que não iria. Paciência. Era dinheiro que eu não ia gastar, mas não era por essa razão. Não tinha nada que ver com isso. Outros valores se sobrepunham.

E a Senhora Presidente insistia que não compreendia a minha decisão, continuando com perguntas a que eu só podia responder com “não”. Não tinha nada contra, apenas não iria à Rússia, para obedecer rigorosamente à minha intuição, que vinha não sei de onde, mas isso também não importava. Era não e tudo o que eu pudesse dizer, não teria o menor fundamento, o que não tinha qualquer importância, nem tão pouco me constrangia. O importante é que eu estava a ser fiel a mim mesma e à minha verdade. À Rússia não iria. 

Não foi muito fácil lidar com este assunto, porque os outros não compreendem nem têm que compreender. Não se pode exigir isso de ninguém. Ali, o elemento “estranho”, por assim dizer, estava a ser eu, que continuava irredutível e imperturbável, sem me incomodar absolutamente nada. Não valia a pena era estar a inventar desculpas para satisfazer os outros. Isso também não. Achavam estranha a minha atitude? Pois iam ter que se aguentar. Eu própria já passei por isso em relação a mim mesma. Quantas e quantas vezes me interroguei em situações análogas, sabendo qual a resposta, quando não percebia porque haveria de estar a ser empurrada, por assim dizer, para uma decisão que conscientemente ainda não tinha sido tomada por mim mesma, mas que na verdade, vinda não sei de onde, era muito mais forte do que tudo e acabava por me indicar o caminho!? Independentemente de o fazer ou não, mais tarde lá vinha a resposta ou as consequências positivas ou nefastas. Por isso, era o que era.

Ainda não há muito tempo, talvez dois anos ou talvez menos, comecei a ensinar português a uma rapariga indiana, que queria muito aprender para poder arranjar trabalho, mas não sabia onde, nem tinha dinheiro para isso. E por ter sido pedido e falado por quem foi, eu acedi. A rapariga em questão ligou-me, conversámos e combinámos o dia em que daríamos início às aulas. Uns dias antes de ela vir comecei a ter uns sonhos esquisitos, meio embrulhados e acordava estranha, sem perceber nada do que estava a acontecer. E na noite anterior ao dia em que ela veio pela primeira vez, tive um sonho horrível, um pesadelo medonho, que me fez acordar com vontade de não ter acordado ou então, com vontade de acordar e sair daquele horror. Só me apetecia chorar e vomitar, para me livrar daquela sensação tão negativa, na qual me sentia completamente aprisionada.

Satti veio a meio da manhã, conforme combinado e traçámos um plano. Houve empatia entre nós, é verdade, mas ela dificultava muito o trabalho e parecia que não dava a importância que dizia. Dizia uma coisa e depois na prática tinha um comportamento que não correspondia. Estava sempre a atender chamadas no telemóvel e coisas do género. Queria falar de tudo, menos de português. Uma bagunça. Se estivesse a pagar não faria isso, com certeza.

E um dia, novamente na noite anterior, tive o mesmo tipo de sonho, que me deu um mal-estar de arrasar, ao acordar. Era um mal-estar tão forte que eu perguntava a mim mesma, porquê? Mas a resposta eu sabia qual era. Era não estar mais disponível para ela. E por não entender porquê e querer a toda a força uma resposta coerente, dei-me muito mal. Apenas porque não fui fiel à minha intuição.

Ela estava constipada. Tinha apanhado muita chuva e nesse dia várias vezes espirrou. Nós não tínhamos máscaras para pronunciarmos as palavras o melhor possível. E apesar de haver uma certa distância entre as duas e de estarmos na varanda com as janelas meio abertas, não serviu de nada. Nos dias que se seguiram ela não apareceu, ficou muito doente e ao fim de uma semana fez um teste que deu positivo à Covid. Ligou-me para me dizer isso. Lamentei e desejei-lhe as melhoras. Só que, depois, comecei a pensar, e se eu também estou? Lembrei-me dos espirros dela e a minha cabeça começou a trabalhar porque, entretanto, eu já tinha estado muito de perto com mais pessoas, por isso, para aliviar a minha consciência, liguei para o SNS, que me mandou imediatamente fazer um teste, apesar de eu não ter sintomas. Passado poucas horas veio o resultado e surpresa das surpresas, estava positivo, com todas as letras, o que significava que, apesar da ausência dos sintomas - talvez por causa das duas doses de vacina que já tinha tomado - ordens expressas do SNS, tinha que ficar dez dias em casa, sem qualquer contacto, completamente isolada. E foi aí que comecei a sentir-me mal, muito mal. Os meus níveis de ansiedade subiram drasticamente, de uma forma incontrolável e passei mal. Tive que ligar para o SNS e estive uma hora ao telefone com uma psicóloga que tentou acalmar-me e para o efeito até me mandou tomar um banho quente, etc… mas foi horrível! Parecia de tinha entrado no inferno. Senti de novo todo aquele mal-estar do sonho, que tinha tido aquando do primeiro dia da rapariga indiana e que eu não percebia, ou melhor, percebia e sabia, mas rejeitei, por achar que não fazia sentido e que tinha que “ultrapassar” essas coisas.

Definitivamente, há coisas que estão acima, muito acima do nosso entendimento. Não adianta barafustar, procurar entender, não adianta nada disso. Só uma coisa é certa, por mais estranho ou relutante que pareça é aceitar. É a intuição a sobrepor-se ao nosso universo tridimensional, quando existem dimensões tão superiores a isso. Não conseguimos lá chegar, estamos muito longe dessa compreensão. Em todo o caso, somos filhos do universo e o universo está connosco, tentando comunicar-se. É preciso ouvir, escutar a voz do silêncio, as orientações cósmicas, que têm diferentes formas de chegar até nós. Não podemos dar luta porque, quem sai perdendo, somos nós próprios. Além de que estamos a rejeitar a sua proteção. É como desperdiçar comida.

E agora, à mesa da reunião, com todos esperando ouvir de mim uma explicação ou um voltar atrás na palavra dada, nada disso aconteceu, porque a minha posição foi irredutível, continuando sem me alongar nas explicações, porque não convém nada.

O tempo passou, com os números do Covid a aumentar, os países a tomarem as suas medidas, os aviões a não levantarem e tudo o resto a que nenhum ser humano pôde ficar indiferente, porque nos atingiu a todos, directa ou indirectamente. E o que é que aconteceu? A viagem à Rússia não pôde ser realizada. E vieram os confinamentos e o mundo inteiro foi condenado. A minha resposta estava mais do que justificada. “Não” à Rússia, porque a viagem teve que ser adiada, versus cancelada.

E chegou o ano de 2021, o ano do boi. Se o ano do rato é chato, porque o rato nos faz partidas e aparece onde não devia aparecer e é nojento e ninguém gosta deles, o búfalo tem cornos e é marrento. E quando a Direção de novo começou a preparar-se para, enfim, dar oportunidade aos seniores de irem à Rússia, pois o mundo teve que aprender a lidar com o Covid e agora já havia as condições mínimas para se poder fazer a viagem, recomeçam-se os preparativos com mais pessoas a juntarem-se ao grupo. E mais uma vez sou questionada, por acharem que agora a minha posição seria outra. O problema é que não era nada com a predisposição. O problema era outro. Mas achavam que ainda estava em tempo de voltar atrás e aproveitar essa malograda viagem. Aconteceu isso com muitos colegas, que não se tinham inscrito anteriormente e agora tinham ido a correr fazer a sua inscrição. Mas a minha intuição continuava a dizer “não”. E então pensei para comigo mesma, nem agora nem nunca. Talvez numa próxima reencarnação. Nesta não. Porquê? Não sabia e não estava interessada em saber. Mas a seu tempo saberíamos.

Vinte e quatro de Fevereiro de 2022: o ano do Tigre! A Rússia mostra as suas “garras” e decide entrar em acção, fazendo guerra à Ucrânia, à Europa, ao mundo. Fazer o quê?

Viagem à Rússia? Esqueçam. Infelizmente, agora, estava dada a resposta. Adiada sine die, porque nem para mim nem para ninguém.