sábado, 10 de novembro de 2012

Uma leve brisa - 38


Um monte de gente à minha volta do lado de fora do portão da escola, com as crianças prestes a sair. Tudo isto, porque era o primeiro dia de aulas com o Henrique no quinto ano. 

Eu tinha passado a manhã toda ali, depois dele ter entrado. Prometera-lhe que ficaria, para o caso de não haver aulas e estaria dentro do carro ou por perto. A mesquita ficava mesmo em frente e eu tinha passado por lá e ficado algum tempo no meu silêncio. 

Era uma mudança grande na vida dele. Escola nova, alteração de regime escolar, enfim, a coisa começava a ser séria. Isso não me preocupava, porque ele era uma criança que sabia levar as coisas a sério. Sabia encarar as responsabilidades com maturidade de mais para a sua idade. Mas estava apreensiva com a distância. Deixá-lo-ia todas as manhãs, ao início das aulas, mas à saída não podia levá-lo. Teria que fazer o percurso a pé e sozinho, para ir até casa da ama, onde esperaria pelo fim da tarde, a hora a que eu saía, para então o apanhar e seguirmos os dois para casa, dado que ele ia e vinha sempre comigo. 

A minha cabeça martelava e o meu coração não estava tranquilo. Sabia que ele não era um bebé e daria bem conta de recado. Mas eu continuava preocupada. Era um troço razoável com muito, muito trânsito e no inverno, com o mau tempo, até chegar a casa da ama, estaria exposto ao frio, vento, chuva, coisa a que ele não estava nada habituado. Eu sabia que não seria o primeiro, nem o único, a passar por estas coisas, mas nem por isso ficava mais tranquila. Não ia ter sossego e não tinha como resolver o problema. Era assim que as coisas se apresentavam. 

Enfim, infeliz e ansiosa por causa de todos estes pensamentos, invoquei o nome de Deus e pedi aos céus que cuidassem do meu filho querido. Pedi toda a protecção possível, entregando nas mãos do Divino tudo o que tinha de melhor nesta vida, para que nada de mal lhe acontecesse e para que eu pudesse ter sossego. E na expectativa de que o meu pedido seria atendido, sinto alguém chegar perto de mim. Era uma mulher, talvez da minha idade, que eu não conhecia e que me disse com toda a clareza "eu posso levar o Henrique todos os dias, já que os dois estão na mesma turma". 

Olhei de frente para ela, que continuou "eu sou a mãe do João". Neste instante, os garotos chegaram, um pouco agitados, atropelando-se uns aos outros. A mãe do garoto olhou para o Henrique, falaram-se e de seguida ela disse-lhe "sais com o Joãozinho e eu levo-te todos os dias, está bem?" O Henrique acenou afirmativamente com a cabeça, ao mesmo tempo que se apressava a dizer que o amiguinho era colega da outra escola e morava mesmo ao pé da ama. Meio atónita, agradeci à mãe do garoto o inesperado acolhimento por parte dela. Agradeci-lhe muito e agradeci a Deus tê-la colocado no nosso caminho. Parecia que ela tinha ouvido o meu pensamento. 

Fomos para casa, o Henrique falando, muito bem disposto, coisas da nova escola, da nova vida e eu com o coração leve, leve que nem uma pluma. Tive que parar para ir fazer uma compra e quando voltava de novo para o carro, com ele, aquela cena passou toda de novo pela minha cabeça. Só não compreendia como aquela mulher tinha captado a minha angústia, a minha aflição de mãe e, inconscientemente, tinha vindo ao meu encontro, como que um autómato, sem me dirigir palavra nenhuma especial, falando directamente do assunto que tanto me preocupava e as coisas se tinham resolvido como que por milagre. Ela nem sabia se eu queria que o levasse, além de que eu nunca a tinha visto. Como é que ela me conhecia? Tudo aquilo não me saia da cabeça. Era tão estranho! Estranho, mas bom demais. O meu pedido tinha sido atendido da melhor maneira possível. Parecia que alguém tinha sussurrado ao ouvido dela e lhe tinha dito "leva o Henrique"... 

Então, já a chegar ao carro, algo se revelou. Eu já estava tranquila e corria em mim um sentimento de paz, que me fazia estar muito grata à vida por isso. Mas, de repente, senti uma leve brisa, morna, que se deslocou do meu lado esquerdo, vinda de trás de mim, passou à minha frente e seguiu, desaparecendo no próprio ar.  

O dia estava quente, não corria uma aragem. Mas aquilo também não tinha sido propriamente uma aragem. Era uma deslocação de ar, parecido com o movimento de alguém a correr, porque passou mais rápido do que o meu andamento. E ao passar, interferiu na minha aura, manifestando-se como um raio de luz adicional, que iluminou o meu espírito e me fez perceber que o espírito da minha falecida jovem mãe estava presente. Era ela. Era inconfundível.

Aquela leve brisa anunciava-me que ela estivera presente para resolver a minha aflição e, mais uma vez ela tinha acorrido, para ajudar o neto muito querido. Essa revelação, como de costume, encheu o meu coração de uma alegria a nada igual às alegrias desta vida. Era uma alegria transcendente, que só a alma pode entender e viver. A manifestação daquela leve brisa era o sinal da presença do amor mais puro e incondicional, vindo do outro lado da vida, manifestando-se da forma mais subtil possível, porque ela sabia que eu a reconheceria imediatamente. Era o seu cheiro, o seu perfume, toda a energia da sua identidade única e inconfundível, que só uma filha amada podia reconhecer.
 

E nesse momento senti-me a criatura mais feliz e abençoada deste mundo. Em nome de Deus, agradeci-lhe infinitamente.

 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A casa assombrada - 37


Quando eu era criança, falar em assombração era coisa corrente. Hoje em dia já ninguém fala desses assuntos. Em todo o caso, existem documentários que passam em certos canais da televisão, que dissecam esses assuntos, com todos os pormenores, relatando casos com toda a exactidão. 

Quando me divorciei tive que comprar um apartamento para mim e para o meu filho. E um dia, uma amiga falou-me de um, que ela sabia estar à venda, na zona que eu lhe tinha indicado e com as condições que eu pretendia. Porém, tinha um problema: a casa estava assombrada.  

Não dei importância ao assunto, antes pelo contrário, fiquei muito interessada e pedi-lhe que fosse comigo ver. Mas ela não gostou da ideia e respondeu que não. Dava-me os contactos, mas ir comigo nem pensar. Morria de medo. Assim, lá fui eu sozinha. 

Surpreendentemente, assim que entrei, senti-me em casa e à medida que ia vendo, reconhecia ser exactamente aquilo que tinha imaginado. Um terceiro andar num prédio de nove andares, sendo que a construção era boa e o lugar muito agradável, com pequenos ajardinados em volta, fora das ruas principais, com espaço para o Henrique andar de bicicleta e jogar à bola e ainda tinha perto, tudo o que era necessário. Enfim, era agradável, com imensa luz, janelas e portas amplas e uma varanda que era um espectáculo. Porém, estava um lixo, porque há sete anos que não era habitado. E aqui começa a confusão. 

Tinham havido algumas tentativas de compra, mas as pessoas acabavam desistindo. Razões? Várias. O antigo proprietário suicidara-se lá dentro, na casa de banho, que tinha ainda intactas as marcas de sangue. Duas vizinhas contaram-me que já tinham visto o fantasma do falecido, à porta de casa, e até tinha falado com elas. E eram pessoas de toda a credibilidade, educadas e com formação académica de nível superior, sendo que uma delas era psicóloga clínica. 

Que fazer!? Para ser franca eu tinha gostado do apartamento. Estava de bom tamanho para as minhas necessidades e também para a minha bolsa. O preço era significativamente mais baixo do que os equivalentes naquela zona, por conta da história que corria da assombração. Mas aquela diferença de preço era significativa para mim. 

Que fazer!? Eu até tinha gostado da sensação agradável que tinha tido ao entrar lá! Qual assombração? Não senti nada que me incomodasse. O que é isso de assombração? De onde vinham aquelas histórias e como proliferavam e passavam de uns para os outros!? Estranho!... 

Bom, depois de pensar muito bem em tudo, decidi que o apartamento seria meu e ponto final. E como a escritura demorou quase dois anos para se efectuar, por conta dos herdeiros que eram dois menores e filhos de mães diferentes, consegui que me concedessem uma autorização para habitar a casa uns meses antes, para ir adiantando o que tinha que fazer por lá. E a casa foi pintada e limpa. Mas havia coisas que pertenciam ao falecido, ex-proprietário, e que ninguém tinha retirado: uma mesa redonda com tampo de vidro, um candeeiro, livros, vários livros encadernados em pele, com desenhos, estudos matemáticos e esquemas de trabalho, porque ele era arquitecto. Em todo o caso, eu andava aliviada, porque já me sentia na minha casa nova. Mas o facto, é que começaram a acontecer uma série de coisas pouco comuns. 

Os moradores do prédio, alguns, olhavam para mim com ar desconfiado, como que me achando "doida" por me enfiar numa casa assombrada. Mas eu não dava importância, pois tinha mais que fazer e pensava que aquilo havia de lhes passar. Contudo, às vezes, tinha a sensação de que havia uma presença ao pé de mim e pensava "disparate"... mas era tão forte que eu tinha que parar e virar-me para todos os lados, a fim de confirmar o que já sabia. Não havia ninguém presente. E continuava nas minhas tarefas. Mas aquilo acontecia e voltava a acontecer. Eu sabia que não tinha nada que ver com a casa "assombrada", porque esse não era o meu território. Mas sentia uma presença perto de mim. Uma presença muda, que não interferia comigo, nem poderia... era o que eu pensava. E não sentia medo, apenas curiosidade. 

E aquilo continuava, até que percebi que era sempre no mesmo sítio. Porquê só naquele sítio? Porque era ali que estavam as coisas mais importantes dele. Os trabalhos encadernados da licenciatura e fruto do seu empenho. Ele era muito novo. À data do triste acontecimento, estava apenas na casa dos trinta anos. Depois de ter percebido isso, passei a limpar e a tocar naqueles livros, cuidadosamente, para tranquilizar o seu espírito, ao mesmo tempo que me comprometi a guardá-los religiosamente, até que aparecesse um sinal do que fazer com eles. O facto é que, aquela sensação de que alguém andava atrás de mim sempre que chegava àquele sítio e tocava nos livros dele, desapareceu completamente. 

Um dia em que estava muito, muito apreensiva, com os papéis da escritura sempre a trazerem problemas e não conseguia dormir a pensar que na manhã do dia seguinte tinha que estar bem cedo na conservatória, para resolver mais um "impossível", aí aconteceu outra coisa estranhíssima. 

Estava super angustiada e com um medo terrível de perder a casa e, mais, o sinal que já tinha dado e, enfim, era a minha vida e a do meu filho, tudo a andar para trás, o que não podia acontecer de maneira nenhuma, caso contrário iríamos morar para debaixo da ponte. Mas tinha um problema para resolver, muito complicado e precisava de mais um tempo na conservatória e também sabia que não estavam para aí virados. Toda a gente me dizia que aquela era a conservatória mais rigorosa com os prazos e não abriam excepções e eu estava num estado de nervos absolutamente deplorável. Achava até que, no dia seguinte, nem iria ter forças para me levantar e ir até lá pelo meu pé. Mas tinha que ir, porque não tinha ninguém que resolvesse aquilo por mim e ainda tinha que, por alguma forma, convencê-los a darem-me mais uns dias de prazo. E tudo aquilo me parecia absolutamente impossível. Só um milagre mesmo para eu sair daquele sarilho. Estava esgotada fisica e emocionalmente. 

Embrenhada nestes pensamentos, de repente, aconteceu uma coisa fantástica. Estava sentada, de pernas cruzadas, no colchão onde dormia, na sala, porque estava tudo ainda na fase do provisório. Havia um candeeiro de mesa aceso. De repente, o meu coração começou a ficar leve, sem aquele peso todo que me atormentava. A luz ficou diferente e tive a sensação de que o corpo levitava, porque deixei de senti-lo e parecia que me elevava no ar, sem eu fazer nada. 

Percebi que algo de estranho se estava a passar. Mas eu estava bem. Estava muito calma e invadida por um bem estar muito grande, contrariamente ao que antes sentia. De repente, o meu olhar foi atraído para um canto da sala, onde estava a mesa que lhe tinha pertencido e que ele próprio construíra. Através do tampo da mesa todo em vidro, transparente, trespassava uma figura completa, dos pés à cabeça. 

O facto é que, ao olhar para aquela materialização, soube imediatamente que era ele. Fiquei maravilhada com aquele acontecimento e ainda mais porque, sem perceber como, soube imediatamente que era ele. Em pensamento perguntei-lhe o que fazia ali. Respondeu-me, em pensamento, que viera para me tranquilizar em relação aos papéis e à compra da casa. Que antes não tinha consentido que ninguém comprasse o apartamento. Sabia que eu ia precisar dele e tudo o que queria era ajudar-me. Assegurou-me de que, no dia seguinte, tudo se resolveria da melhor maneira possível, sem esforço nenhum da minha parte, porque ele estaria lá, em espírito, para resolver tudo por mim. Perguntei-lhe, porquê eu(?). Respondeu em pensamento que, em troca, um dia mais tarde, eu estaria em condições de ajudar os filhos, caso viesse a ser necessário. Perguntei-lhe se alguma vez na vida eu iria ter essa possibilidade. Respondeu-me que sim e que confiava plenamente em mim. Com esta resposta telepática desapareceu.

A luz voltou ao normal. Aquele ambiente estranho de "magia" e encantamento desapareceu. Não sabia como explicar aquilo, mas sabia que não estava a sonhar, porque estava bem acordada. O bem estar e a tranquilidade ficaram. Um peso enorme saíra da minha alma. Sim, estava em paz. Agradeci a Deus aquela comunicação, que me tinha trazido de volta o sossego e até a felicidade. Fui ver o meu filho, que dormia tranquilamente. Deitei-me e dormi tranquila.

No outro dia acordei em pânico, porque tinha que ir resolver o assunto. Tremia dos pés à cabeça. Lembrava-me de tudo o que tinha acontecido, mas tinha que cair na real. Ainda hoje, não sei como tive a coragem de entrar no carro e conduzir até à conservatória, dado o meu estado de desgaste emocional. Cheguei lá, fui atendida de modo quase invisível, porque não olhei de frente para ninguém, nem ninguém o fez comigo. Limitei-me a pôr os papéis sobre o balcão e achar que ia desmaiar. Alguém levou os papéis para dentro. Poucos minutos depois, alguém me devolvia os papéis, dizendo que me haviam concedido, a título excepcional, um prazo bastante alargado, para garantir que dava tempo de tratar de tudo, até à data da escritura. 

Eu ouvia o que me diziam e mal podia acreditar. O milagre tinha acontecido. Todos os meus problemas estavam resolvidos. Não havia mais motivo para preocupação. A minha tensão descia agora em ondas galopantes por todo o corpo e eu nem sentia as pernas. 

Não sei nada de assombrações. Este foi apenas mais um contacto com o mundo espiritual e, na verdade, não tem nada de extraordinário. Há mais de vinte anos que estou na mesma casa e nela corre uma energia muito boa, conforme o testemunham as pessoas minhas amigas e familiares que me visitam. 

Há todo um intercâmbio de ajuda mútua, que se faz sentir ao nível físico. É normal e necessário. Para isso estamos cá. Quando essa ajuda ultrapassa as limitações humanas, de algum lado do universo ela virá. Mas para isso temos de estar atentos e primeiro acreditar,  depois aceitar e finalmente agradecer. 

Só isso.


terça-feira, 12 de junho de 2012

A carta do médico - 36


Joana veio ter comigo e começou a falar da amiga, de quem gostava muito. O filho sofria de epilepsia e tinha crises com frequência, nuns períodos mais do que noutros. A amiga sofria por causa do filho, como aconteceria com qualquer mãe e ela sofria por causa da amiga. O garoto tinha feito uns exames recentes e aguardava-se o resultado, que seria anunciado pelo médico, numa próxima consulta e resultante de dados laboratoriais. 

A Joana levou a semana toda a falar-me do mesmo assunto. Vivia o drama da amiga como se fosse dela. Quando percebi isso, pensei que talvez pudesse ajudá-las de alguma maneira. E faltavam ainda alguns dias para terem o resultado dos exames médicos. A epilepsia estava controlada. O problema é que podiam surgir outras coisas que alterassem o quadro clínico. 

Nesse dia fui para casa a pensar no assunto e à noite, antes de dormir, concentrei-me. Mal fechei os olhos, comecei a visualizar a figura do médico por detrás da secretária, de bata branca e de pé. Com os óculos na ponta do nariz, segurou o envelope, que abriu com um objecto metálico cortante e com os dedos tirou de lá a carta que desdobrou. Aqui, a minha mente parou. Eu não sabia o que lá estava escrito. Mas logo de seguida, o médico pousou a carta sobre a secretária e olhando para a Cidaliza, a mãe do garoto, com um ar bem tranquilo e também sem surpresa, disse: "para além do que já se sabe, não há mais novidade nenhuma". E com esta resposta, finalizei a minha visualização. 

No outro dia quando nos encontrámos, perguntei-lhe quando era a consulta. Ela disse que era dali a dois dias e que a amiga estava cada vez mais ansiosa. Então, disse-lhe que, se quisesse ajudá-la, podia dizer-lhe que estava tudo bem. Ela não entendeu e disse-me que não estava tudo bem. Aliás, não estava nada bem. O garoto podia começar a ter crises novamente e não se sabia o que mais teria.  

Insisti com ela e disse-lhe que tinha entendido tudo e percebia o que se estava a passar, por isso mesmo, queria dizer-lhe que podia tranquilizar a amiga, dizendo-lhe que não estivesse tão preocupada, que não precisava. E repeti-lhe o que o médico havia dito na minha visualização. Mas ela parecia que não ouvia sequer o que lhe estava a dizer. 

Uns dias depois encontrámo-nos, começamos a falar disto e daquilo, mas ela já não falava do assunto. Então, perguntei-lhe se já havia notícias do filho da Cidaliza. Com uma enorme desenvoltura e como se nunca tivesse ouvido aquilo antes, respondeu que ela estava muito aliviada, porque o médico tinha dito que "para além do que já se sabia, não havia novidade nenhuma"(!)… 

 

A visualização através da concentração é uma coisa que toda a gente deveria exercitar e perceber o que é. É claro que para isso é preciso uma abstracção total do "ego". Mas não é nada de transcendente. O passado, o presente e o futuro são um só. Nesse encontro, encontramos a resposta.

 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A Sara - 35


A Sara era minha colega, minha amiga e minha vizinha. Por isso, quase todos os dias, no regresso a casa, ao fim do dia de trabalho, apanhava boleia comigo e enquanto eu conduzia, vínhamos conversando. 

Um dia, disse-me que estava muito nervosa por conta de um exame escolar que estava muito próximo. Ia enfrentar um júri composto por várias pessoas e sentia-se muito insegura. Perguntei-lhe se sabia a matéria e ela respondeu que sim, mas tinha medo de ficar bloqueada e ser traída pela memória. 

Percebi no seu rosto a inquietação, o nervosismo, o mal estar que a estava a impedir de se descontrair e confiar em si mesma. A Sara era muito jovem, casada e com um filho ainda pequeno e ainda tinha que conciliar o trabalho com o estudo. Não era fácil. Pensei que, de alguma maneira, tinha de a ajudar. 

Ela tinha um conjunto de duas peças, casaco e calção em linho branco, que tinha ganho de uma colega como presente de aniversário.  A Sara era muito bonita, mas esse conjunto ficava-lhe especialmente bem. O casaco tinha um bolsinho na parte superior, onde ela colocava um lencinho, ora preto, ora vermelho. Ambos lhe ficavam muito bem, mas dando-lhe uma aura diferente. 

Pode não parecer, mas muito pouca gente sabe que a roupa que se veste tem muita influência na nossa "performance" e vice-versa. Por isso, perguntei-lhe o que ela vestiria para a ocasião. Eu tinha em mente o dito conjunto, com o lenço vermelho e ela respondeu precisamente que estava a pensar nesse conjunto, mas com o lenço preto, que achava mais formal. Disse-lhe que levasse o conjunto, sim, mas com o lenço vermelho e expliquei-lhe a história da aura que ela, embora insegura e nervosa, desvalorizou. 

À noite, quando me deitei, pensei nela, abstraindo-me de tudo o resto. Eu queria mesmo ajudá-la. Comecei a entrar no seu universo interior e percebi que ela não levaria o lenço que lhe indiquei, mas sim o preto. Vi-a perante o júri, tentando o seu melhor, mas as coisas não estavam a correr como desejado. Algo sombrio continuava a perturbá-la e a traí-la: o medo que ela temia. Pensei que a situação tinha que ser revertida. E no quadro que eu via, mentalmente, mudei o lenço para o vermelho.  

Parece ridículo acreditar nisso, mas o mundo holístico é de uma capacidade criativa infinita. E a projecção desse efeito, dessa coisa aparentemente tão insignificante, alterou completamente a situação. 

Comecei a visualizar a sua aura através da força do pequeno lenço vermelho que lá não estava, mas que a minha mente fazia com que se sobrepusesse. Trabalhava apenas na expansão dessa aura, mentalizada para o efeito e como por magia, a Sara aguentava-se, a insegurança começava a desaparecer, as ideias ficavam mais claras, as suas respostas mais precisas e a confiança voltava. À sua volta havia agora um ambiente de perfeito equilíbrio, que atraiu a simpatia dos que a interrogavam e em vez de a dificultarem, facilitavam-lhe a tarefa, sendo menos exigentes nas perguntas que lhe faziam. 

O dia do exame chegou. A Sara foi ao exame e mais tarde veio ter comigo. Sentia-se calma e aliviada. Tinha passado. Perguntei-lhe como tinha corrido. Respondeu que, no início, estava muito perturbada e nervosa. Que até lhe parecia que não tinham simpatizado com ela. Que as respostas não lhe estavam a sair, mas que, de repente, as coisas mudaram e à medida que o tempo foi passando, a situação melhorando consideravelmente, a ponto de se esquecer que estava num exame(?!). 

Perguntei-lhe, afinal, qual o lenço que tinha escolhido. Respondeu, o preto, conforme já tinha dito. 

Enfim, estava tudo sob controle e eu tinha feito a minha parte. Mas isso eu não lhe disse.  

Às vezes, é mais fácil as pessoas acreditarem em "bruxas" e "feiticeiros" do que acreditarem na sua própria sintonia com o mundo, de acordo com as necessidades do momento.

 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Palavras para quê? - 34


Poucos dias depois de ter iniciado a minha vida com o Álvaro, uma noite, estando eu já na cama, recostada nas minhas almofadas, aguardava por ele, que estava na casa de banho, cuidando da sua higiene nocturna. Antes de dormirmos, sempre conversávamos sobre os acontecimentos do dia e revíamos coisas nossas e muitas vezes até preparávamos o dia seguinte, entre outras coisas. 

O que importa é que eu estava ali, tranquila e em paz, quando o meu olhar se fixou na porta do quarto que estava aberta. Olho com olhos de "ver" e percebo que a figura do meu falecido pai estava ali. Mas que estranho!? Ele estava ali, quase colado à porta, de pé, com uma mão apoiada na maçaneta dourada da porta branca e com um jeito corporal que lhe era muito peculiar. 

Era muito bom vê-lo, não fossem as condições e o modo como se apresentava, tão incomodativo. Era um facto, que ele tinha feito a sua passagem num passado ainda recente, de dois anos apenas. Ainda assim, não justificava o modo como aparecia, o que realmente me incomodou. Estava lá, todo materializado, sim, sem dúvida. Já não havia sinal do derrame que lhe causara a morte. Estava com a cabeça e o rosto todo limpo. Mas estava notoriamente sem vida, sem luz, completamente vazio, inerte, lívido. Era literalmente um morto em pé. Até o frio do corpo sem vida eu podia sentir. E não havia comunicação alguma. Eu olhava, na expectativa de que houvesse alguma mensagem a transmitir, mas não havia nada de nada. Só o vazio ali estava. Não gostei e não percebi o que aquela aparição significava. Ele estava ali morto em pé e nada dizia. 

Nos dias que se seguiram, várias vezes dei comigo a pensar naquela visão, sem sucesso, porque realmente não conseguia decifrar. Era mesmo muito estranho, pelo que tentei esquecer. 

Hoje, sei exactamente a mensagem que ele passou. Naquela altura, porém, com o Álvaro nos seus cinquenta e quatro anos, cheio de vigor e de saúde, quem poderia adivinhar que tão pouco tempo estaria entre nós, no mundo dos vivos?! 

Era essa a mensagem. No quadro que se apresentava, ela estava lá, fiel, completa, sem precisar de grande esforço. O meu amado pai tinha vindo na espinhosa missão de me fazer entender aquilo que eu jamais, naquela altura, poderia ter entendido. Ele anunciava a morte, literalmente, sem necessidade de se anunciar. 

Palavras para quê?


O "acaso" - 33


Estava eu em amena conversa com uma amiga de infância, falando-lhe de um determinado assunto, quando de repente me faltou a palavra que queria dizer. Não conseguia lembrar-me de maneira nenhuma. Fazia um esforço enorme, mas a dita não me saía. Parecia que tinha desaparecido por completo da minha memória.

 

E ela olhava para mim, na expectativa de que, a qualquer instante, eu desembuchasse, mas a coisa era mais séria e eu não conseguia mesmo. Não conseguia, por mais que me esforçasse. Mas tinha que ultrapassar aquilo e para mim, coisas aparentemente impossíveis, despertam e aguçam todos os meus sentidos e o meu cérebro entra em actividade completa, o que faz com que sempre consiga resolver o problema. Ou quase sempre. Foi o caso.

 

A palavra existia. Disso não tinha dúvidas. Independentemente do meu esquecimento, fazia parte do dicionário. Dicionário!... Era esse o caminho. Começava a fazer-se luz. Mas como encontrar no dicionário uma palavra, se eu não sabia qual era e nem tão pouco me lembrava por que letra começava? Era como procurar uma agulha num palheiro! Mas o caminho era esse. Era aí que eu, eventualmente, iria encontrar a palavra que queria.

 

Posto isto, levantei-me e fui direita à estante. Ela olhava-me, atenta aos meus movimentos, mas sem fazer a menor ideia do que me passava pela cabeça. De repente, percebendo que eu estava à procura de qualquer coisa, perguntou-me o que é que eu queria. Disse-lhe que um dicionário resolveria o problema. Ela deu uma gargalhada de gozo, levantou-se e disse-me que ali só me podia arranjar um dicionário de Inglês-Português. Parei um instante e depois acedi, porque era a mesma coisa. A palavra estaria igualmente ali.

 

Voltei a sentar-me e ela fez o mesmo, olhando para mim com um certo espanto. Eu sabia que pela cabeça dela passava qualquer coisa como "é mesmo doida", mas não liguei. Coloquei o dicionário em cima da mesinha de apoio que estava junto de nós. Ela continuava observando todos os meus movimentos, ávida do que se seguiria. Disse-lhe em voz alta que a palavra estava ali e como eu não me lembrava sequer da letra por que começava, iria simplesmente pedir ajuda ao dicionário. Ela confirmava que eu era maluca e ria. Não me deixei intimidar. Carreguei a minha mente, isto é, programei-me com toda a energia necessária e dei ordem mental ao dicionário para me mostrar a palavra que eu queria. Com os olhos semicerrados abri o dicionário, que passou sozinho algumas folhas até parar e com os olhos fechados, pedi ao meu indicador que se posicionasse na palavra certa. Assim fiz. E ela ria…

 

Quando abri os olhos, segui o meu dedo indicador. Por cima dele podia ler-se a palavra "antropologia".

 

Ela olhou para mim e riu que nem uma perdida, dizendo que tinha sido por "acaso". Pois, para ela teria sido um acaso. Mas eu sabia que não tinha sido um acaso qualquer. Eu sabia que tinha sido a força da mente a trabalhar. A mente tem uma força absoluta, mas é preciso ter consciência disso. E eu limitei-me a usar essa força que todos nós, normalmente esquecemos, desperdiçando as nossas reais capacidades. 

 

Por mais disparatado que possa parecer eu sei que não foi o "acaso".

 

 

domingo, 20 de maio de 2012

O Álvaro - 32


Sempre que eu conhecia uma pessoa, inclusivé criança, tinha o hábito de ver as mãos e dar uma olhadela nas linhas da mão. Talvez não fosse uma boa prática, mas não conseguia deixar de o fazer. É que esta, era a maneira de ficar com uma ideia geral e bastante precisa da pessoa em causa. E isso era importante para mim.

 

Quando conheci o Álvaro, essa necessidade não se manifestou como habitualmente, pelo menos logo de início. Só passado algum tempo é que me veio aquela curiosidade. E ao olhar as mãos dele pela primeira vez, algo de estranho se me deparou. Depois de fazer o cálculo da idade, percebi que a linha da vida terminava naquela altura. Achei que estava confundida e que essa indicação seria a mudança da vida dele, relativamente ao divórcio com a ex-mulher. E como vivíamos em constante brincadeira, num clima de muita descontracção, por nos sentirmos muito bem um com o outro, sinceramente, não me dei ao trabalho de aprofundar o assunto. Nem me apetecia pensar naquilo. Estava tudo tão bem!

 

O tempo foi passando e lá voltei a ver as mãos dele, sendo que a informação era a mesma, por mais que eu tentasse ver outra coisa, por mais que não quisesse ver o que estava bem patente. A linha da vida dele era bem explícita. Terminava ali, independentemente do que eu tentasse "inventar" e ponto final. E tentava inventar razões para aquele término de linha, baralhando-a com outras linhas, tentando tirar ilacções e interpretações diferentes, que nada tinham que ver com a "verdade" nua e crua.

 

Limitava-me a pensar que não podia ser. Ele era uma pessoa saudável. Além de fumar, não tinha vícios. Porque haveria de morrer, logo agora que nos tínhamos acabado de conhecer e estávamos tão felizes? Tudo corria bem. Mais que bem. Tudo era perfeito. Certamente eu estava errada, só podia ser isso. Éramos muito felizes e isso era a única coisa que me importava.

 

Evidentemente que nunca lhe falei neste assunto, claramente. Eram apenas suposições de mau gosto da minha parte e ignorância no que respeitava à leitura das mãos. Precisava aprofundar os meus conhecimentos, para não correr riscos tão sérios de me enganar em casos de vida ou de morte. Era preciso ter muito cuidado.

 

E os dias foram passando, com a nossa vida a correr às mil maravilhas, que até parecia um sonho. E passou um mês. E passou outro mês. E passaram três meses. E passaram mais uns meses e tudo era perfeito. E chegou o sétimo mês e como tudo fosse realmente bom demais para ser verdade, as coisas mudaram. 


Assim, numa madrugada de domingo, depois de ter sido submetido a uma terceira cirurgia, no espaço de apenas uma semana e apenas por causa de uma hérnia, o Álvaro partia para não mais voltar.

 

E a vida continua, diziam-me.

 

A vida continua, sim, porque "uns têm a coragem de partir e outros têm a coragem de ficar".

 

Mas a prévia leitura das mãos acabou. Nunca mais. Foi a promessa que fiz a mim mesma.