segunda-feira, 4 de maio de 2015

As Túlipas - 58


As tulipas são lindas, mas aquelas eram mais do que isso. Eram belíssimas e muito especiais. Negras, brancas, amarelas, roxas…

Aquelas tinham sido especialmente encomendadas. Os bolbos vieram da Holanda directamente para o frigorífico da casa de Alcobaça. E foram para o frigorífico porque não era a altura de irem para a terra. Mas chegou o dia em que era necessário plantá-las e então escolheu-se cuidadosamente o lugar.

Na porta que dava para o jardim, frente à piscina, havia dois potes de barro, muito grandes e altos, que estavam vazios. Foi aí mesmo que decidimos plantá-las e ficámos a aguardar, com grande espectativa, o dia em que elas surgiriam à luz do sol.  

Antes disso, muito chuva viria, certamente, e muitas outras coisas também, acima de tudo, com que não contávamos. Seguramente... 

O tempo passou e o Álvaro queria tanto ver as suas túlipas, sobretudo porque não sabia de que cores eram. Era surpresa e eu também estava ansiosa por vê-las, pois elas ficariam lindamente naquele espaço e dariam outra vida ao terraço e ao jardim, demasiado verde, apesar de que o verde nunca é demais. 

Todas as semanas íamos a Alcobaça e todas as semanas espreitávamos as nossas tulipas, mas nem sinal delas. O Álvaro já achava que não iam dar em nada. Já eu, não. Porque não pegariam? Tinham todas as condições, pelo que era apenas uma questão de tempo, só isso. Ele ouvia-me e ficava na expectativa de que eu estivesse certa, porque ele adorava flores. Nunca antes tinha visto um homem gostar tanto de flores. Era admirável. 

Finalmente, chegou o dia em que fomos surpreendidos com os caules das benditas tulipas a proliferarem, despontando na terra. Estavam quase todas já de fora, umas mais adiantadas que outras, mas agora já não havia dúvidas, as que faltavam haveriam de chegar, tal como aquelas. E ficámos muito contentes, feito crianças.  

Semana a semana os caules cresciam e todas rebentaram, cada uma a seu tempo. Entretanto, a chuva parou e era necessário regá-las, para garantir o seu sucesso, por isso, todas as semanas íamos a Alcobaça, nem que fosse só para as regar e supervisionar, dado que os caules continuavam a crescer a olhos vistos. 

Mas então, o imprevisto aconteceu. O inusitado chegou e as voltas das nossas vidas foram trocadas, sem dó nem piedade. O homem põe e Deus dispõe. Assim, o Álvaro adoeceu. Teve que ser internado, submetido a uma intervenção cirúrgica, a outra e mais outra e em menos de uma semana foram, nada mais, nada menos que três cirurgias. 

Logo após a terceira, percebemos que não poderíamos ir a Alcobaça e era preciso regar as tulipas. O resto podia esperar, as tulipas não. Para o efeito e a seu pedido, telefonei para o único vizinho que tinha acesso ao jardim, para fazer o favor de regar as tulipas. Tudo acautelado. 

Fui para casa descansar, posto que as coisas tinham corrido bem com a cirurgia e esperava que no dia seguinte, o mais tardar no outro, ele tivesse alta e saísse do hospital. Mas nessa mesma madrugada o coração dele não resistiu às três cirurgias em tão pouco tempo e subitamente partiu, para não mais voltar. O terramoto estava instalado. 

À minha volta tudo tremia e ruía e eu não sabia, literalmente, onde pôr os pés. Da mesma maneira que tudo ruía eu caía, não conseguia estar de pé. Um mar de emoções avassaladoras tomava conta de mim e eu não assimilava o que me estava a acontecer. Era um pesadelo infernal. Todos os nossos sonhos se desfaziam. As nossas viagens sonhadas, os planos de vida em comum, tudo, tudo... e tudo... já era. 

Tinham decorrido três semanas em que eu só chorava. Não fazia outra coisa que não fosse chorar. Falava a chorar, comia a chorar... chorava, chorava. Mas foi preciso ir a Alcobaça uma última vez. Era estranho ir lá sem ele. Seria a última vez. E a Clara levou-me no carro dela, porque eu não tinha condições de fazer aquela viagem, nem de ir lá sozinha.  

Pelo caminho, fomos conversando e eu chorava. Aquele percurso, aquela estrada de que eu tanto gostava, parecia-me um inferno, não fazia mais sentido nem queria vê-la mais. Lá fui dando à Clara as indicações, até que chegámos. Abri o portão para o carro entrar e chorava. Olhei para a figueira que todas as vezes saciava a minha gula com os deliciosos figos com que sempre me presenteava e percebi que não voltaria a tê-los. Até isso acabava ali. Claro que o supermercado tinha figos, mas não eram seguramente os mesmos, nem nada que se parecesse. Aqueles eram únicos. E eram mesmo. 

Entrámos em casa e tudo aquilo era estranho para mim. Nada mais era igual. Eu gostava tanto daquela casa... gostava, agora menosprezava. Não queria estar ali. Olhei lá para fora, em três semanas e mais uma em que ele esteve internado, a relva tinha crescido e a falta de manutenção do jardim era notória, bem como a sujidade da água da piscina, etc... 

Enfim, tal como ele, eu já não pertencia ali. Aquilo que até há bem pouco tempo eu tinha como o meu paraíso, era agora um lugar vazio, que já pertencia ao passado e que me fazia sentir mais mal do que já estava. Não percebia porquê, mas era assim que eu sentia. Tudo tinha mudado e o pior é que não havia nada a fazer, nada que pudesse reverter a situação. Era definitivo. 

Passei pela garagem e abri a porta que dava acesso ao terraço do jardim e que ficava em linha de vista com a porta que dava para a piscina e parei. As tulipas as tulipas... lindas! Esplendorosas! Elas estavam ali à espera dele, mas ele tinha partido sem ter tido tempo de vê-las. E ele queria tanto!... O choro parou momentaneamente. Perante tanta beleza, algo travou e mudou a minha emoção. A energia dele estava ali. Eu podia sentir. Era quase visível, quase palpável.  

Os potes tinham ficado lindos, adornados pelas tulipas de cores variadas. Elas ali estavam, imponentes, cheias de vitalidade, embora evidenciando rigorosamente a sua bela fragilidade, pela doçura das suas formas, do desenho das pétalas, da graciosidade de toda a frescura e até das tonalidades fortes, mas cálidas. 

De pé, bem erguidas à luz, enraizadas na terra, davam a sensação de homenagear algo ou alguém, ao mesmo tempo que pareciam estar gratas à mão que as tinha dado à terra, para que lhes desse vida. Vida, era isso, elas homenageavam e estavam agradecidas à vida, ainda que essa vida tivesse partido. 

Eu sentia as lágrimas nos meus olhos a rolar pela face. A pele do meu rosto já estava massacrada e cansada desse rio que se acostumara a invadi-la sem descanso. Mas, naquele momento eu não me importava de sentir o peso delas. Essas eram quase de felicidade, porque ali havia algo de mágico, algo que o tocava a "ele". 

Ali, naquele espaço, no éter ou onde quer que fosse, estávamos os dois ligados de uma forma misteriosa, através da magia libertada pelas tulipas, que se recusava a ficar presa e o manifestava abertamente, através de uma pétala que se tinha evadido. 

Sim, havia uma, uma tulipa branca... talvez um pássaro ali tivesse pousado, ou não, mas uma pétala de uma tulipa branca como a neve, tinha ido parar ao chão, a menos de um metro de distância do pote onde estava. 

E aquilo que eu via da garagem, tão bem enquadrado pela ombreira da porta aberta, bem podia ser um quadro, uma pintura. Um misto de Van Gogh e Delacroix ou até mesmo Renoir, pela luz e pela cor. Mas ali, era ao natural, genuinamente natural, aquela bela combinação da natureza com a cor e a luz. A luz!... 

O amor corria ali ao de leve, com a paz a seu lado, bebendo tranquilidade e respirando harmonia infinita, transportada pelo berço da natureza até à eternidade. 

Era uma coisa linda de se ver, de se sentir, aliás, era uma coisa única, que apelava a todos os sentidos extra-sensoriais. Todas as campainhas tocavam, dando alarme de algo belo e único que jamais se repetiria e que além de mim, ninguém, mas ninguém mesmo, poderia testemunhar. Um exclusivo que a minha alma jamais dispensaria. 

Não havia nada naquela casa que eu quisesse, a não ser ele. Nem mobília, nem objectos me seduziam ou valiam de alguma coisa. Apenas ele era importante.  

Mas de repente, corri para os potes, meti as mãos bem fundo na terra e arranquei os bolbos com o cuidado necessário e o propósito de os não danificar em hipótese alguma e um por um, guardei-os num saco para voltar a pô-los na terra, bem perto de mim. Aquele era o único e real valor que dali me interessava. 

Voltaria a pô-las em outra terra para voltarem a florir à luz da vida. 

Só uma pétala ficou caída.

 

terça-feira, 17 de março de 2015

O roubo das jóias - 57


As histórias da minha vida não fazem de mim a melhor das criaturas, nem tão pouco uma heroína. Esta, muito particularmente, serve de exemplo e talvez nem a devesse escrever. Mas essa não seria eu já que, a primeira pessoa a quem devo fidelidade, é a mim mesma.  

Uma tia minha, octogenária, tinha muito ouro que sempre foi comprando em Portugal ou por esse mundo fora, nas viagens que fazia. Caixas e mais caixas de tudo: anéis, brincos, colares, gargantilhas, enfim, muita coisa. 

Há uns anos atrás, tive umas dificuldades financeiras e a minha cabeça começou a trabalhar no sentido de encontrar uma solução para o problema. Passei dias, semanas, a pensar, mas no fim, nada me parecia viável. 

Eu acredito que o ser humano nasce com o bem e o mal, o que todos têm em medidas diferentes, porque ninguém é igual a ninguém. Começa-se a crescer e começa-se assim a definir a quantidade ou tendência para o bem e para o mal, porque não há ninguém que seja cem por cento bom, assim como não há ninguém que seja cem por cento mau. A vida que levamos e as experiências que vivemos, levam-nos e conduzem-nos a bons ou maus caminhos e pronto. Por isso, muitas vezes somos surpreendidos com atitudes de outras pessoas com que realmente não contávamos, mas esquecemo-nos de que nós também estamos sujeitos a cair nessas teias. 

Mas eu tinha um problema para resolver ou achava que tinha. O certo é que um dinheiro extra dava jeito naquela altura e aquilo não me saía da cabeça. E durante bastante tempo, todos os dias pensava nisso, à procura de um milagre que não acontecia, é claro, até que um dia, estando em casa da minha tia, mais propriamente no quarto dela, que estava a escolher as joias que usaria naquela noite para ir à ópera, me dei conta da quantidade de ouro que ela possuía e de repente bateu-me uma ideia. Se eu levasse alguns anéis e mais umas coisas, ela nem daria por isso porque, com tanta coisa, era quase impossível perceber. 

Até hoje, não sei como aquela ideia maluca me veio. Nunca tinha feito nada igual nem parecido. Considerava-me uma pessoa “boa”, correcta, justa e honesta… mas são muitos predicados para uma só pessoa. Mas era assim que todos devíamos ser(?!). 

E a minha cabeça que, tinha andado semanas infrutíferas a pensar em como arranjar dinheiro, de repente, viu-se a braços com uma solução especialmente embaraçosa - roubar - sim, porque seria um roubo. Na minha cabeça, inventava mil e uma desculpas e razões para o fazer, mas era apenas para me justificar e não me sentir uma pessoa tão vil, só isso. E a mesma ideia que uns dias me parecia inofensiva, outros dias parecia-me abominável. 

Os dias passavam e a minha cabeça trabalhava, trabalhava sem descanso. O facto é que era uma solução viável. Pelo menos eu assim achava e todos os dias ensaiava a cena, tornando-a mais verídica para a conseguir concretizar. Fui amaciando a ideia, visualizando, encenando, preparando o espírito para uma coisa que nunca na minha vida tinha feito, pensando que para tudo havia uma primeira vez; não, nem tudo tem que ter uma primeira vez. Mas, digamos que, naquela altura, me dava jeito pensar assim.  

E o tempo passando e eu me torturando, dando cabo da minha cabeça a inventar as mil e uma maneiras de me sair bem daquela história, com o problema resolvido e sem ninguém dar por nada porque, ninguém, jamais, saberia desta história. Não me achava esperta por isso. Tinha apenas que me desenrascar e de entre todas as hipóteses, aquela ainda era a que me parecia mais “praticável”, por assim dizer. Ela não precisava nada daquilo tudo e a mim dava-me imenso jeito, só isso. 

O tempo foi passando, passando, até que um dia, a minha cabeça voltou a ser a minha cabeça, porque aquela outra não era a minha, com certeza. Aquela não era eu e nisso estava certíssima, porque eu jamais faria uma coisa daquelas e no final das contas, vendo bem, eu nem precisava nada de um dinheiro extra. Tinha tudo o que precisava e o que não tinha não precisava. Não havia mais o que pensar. Pedi desculpa a mim mesma, conscientemente me perdoei a mim mesma e senti vergonha de ter pensado numa coisa daquelas. Eu não podia. Se tivesse cometido aquele deslize, nunca mais seria a mesma. Era impossível fazer semelhante coisa. Não é da minha índole, nem faz parte dos meus princípios; não tem nada que ver comigo. Eu não sou assim. E respirei aliviada, ainda sem saber muito bem como me tinha passado pela cabeça semelhante coisa e ainda que ninguém, a não ser eu mesma, soubesse daquela treta. E a história deveria terminar aqui. Mas não termina. 

Oito dias depois, exactamente oito dias depois, uma senhora estranha, da maneira mais idiota possível, entrou lá em casa, levou boa parte das joias e foi-se. Não havia muito o que explicar. Ao que parece, enquanto a minha tia estava na casa de banho a tomar o seu duche e a fazer a sua higiene diária, uma desconhecida qualquer tocou à campainha e quando a empregada foi atender, ela disse que ia fazer uma visita à senhora. A empregada pediu-lhe que aguardasse na sala de estar, tendo-se retirado para a cozinha. Com a passagem livre, foi direita ao quarto, levou o que pode e pôs-se a andar sem a empregada dar por isso. E a minha tia, infeliz, telefonou-nos, dizendo: fui roubada.

A história também podia terminar aqui. Mas ainda não vai terminar. 

As casas são assaltadas – acontece. A minha tia ficou sem as suas queridas joias, no entanto e estranhamente, nem ficou tão abalada quanto eu supunha. Mas eu pensava: aquele roubo foi planeado por mim! Porque não aconteceu antes? Antes, enquanto eu decidia sobre o assunto? Podia ter sido; mas não. Aconteceu exactamente quando eu decidi que não faria semelhante coisa. Coincidência! 

Mas coincidências não existem, isto é, para além da coincidência, as coisas têm uma razão de ser. O roubo só aconteceu depois, “depois” de eu ter decidido que não o faria. Se tivesse acontecido uma semana antes, na altura em que eu ainda estava a decidir o que fazer, o meu livre arbítrio não teria sido posto em causa e a minha escolha não teria mérito algum. 

Pois é. Estava escrito que ela ficaria sem as joias, por razões que se prendem a ela e só a ela dizem respeito. A vida pôs-me à prova, só isso. Deu-me a mim a oportunidade de escolha. A escolha, claro está, não se trata da posse das joias, mas do acto em si: um roubo. A vida deu-me uma lição. Disse-me para roubar as joias. Eu disse que não e ela enviou outra pessoa que aceitou a tarefa. 

E é aqui neste ponto que se define o ser humano, a qualidade da alma, a delicadeza do espírito. Todos somos chamados e postos à prova. Cabe a nós escolher o caminho que queremos. 

Agora sim, a história chegou ao fim.

 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O casamento - 56


Tinha chegado a hora da boda e todos estavam sentados à mesa, enquanto iam sendo servidos. Havia uma sala com muitas mesas, para os convidados e outra com uma única mesa, muito grande, para os noivos, pais, padrinhos e os mais idosos de ambas as famílias. E tudo estava a correr na perfeição, quando um acontecimento inédito falou mais alto, elevando o nível vibratório da energia daquele evento a uma frequência ímpar.

 

A Mariana tinha tocado um tango ao som do seu violoncelo, acompanhada de uma amiguinha que tocou violino. Foi um momento lindo e relaxante. O dia estava solarengo, com uma temperatura generosamente amena, podendo os convidados estar lá dentro ou ao ar livre, nos jardins do hotel. Alguns sentavam-se por ali, na esplanada, nos espaços verdes, à volta da piscina, enquanto as máquinas fotográficas disparavam constantemente, para registar e filmar um momento especial. As crianças estavam eufóricas e a Sofia sempre convencida de que o casamento era dela, tanto que, na hora de entregar as alianças e as flores, era visível o seu empenho, compenetradíssima da importância da sua pessoa naquela festa que, para ela, era só dela e dos pais. Desde que começara a ouvir falar do casamento e a perceber que teria a sua participação, desde a compra do vestido e dos sapatinhos, entendeu que não era um acontecimento qualquer. Na sua curta existência, nunca tinha sido tão cuidadosamente preparada para tudo o que devia fazer. E estava certíssima porque, efectivamente, ela seria a peça chave desta história.

 

O convívio decorria sensacionalmente bem porque, de modo muito agradável e afável, todos conversavam uns com os outros e todos se davam a conhecer uns aos outros de uma forma muito natural, posto que, nem todos se conheciam. A Sofia ficou a conhecer mais primos para juntar aos que já tinha e todos ficaram a conhecer os que ainda não conheciam porque, na verdade, não havia uma única pessoa que conhecesse toda a gente. Assim, as conversas despontavam naturalmente, tornando o ambiente cada vez mais íntimo, familiar e acolhedor.

 

Em plena marginal, os carros passavam e enquanto o jovem casal posava para as fotos, as pessoas que iam nos carros abriam as janelas para acenar e desejar aos noivos votos de muitas felicidades, a que eles retribuíam com um gesto de agradecimento.

 

As crianças de várias idades, todas vestidinhas de branco com laços cor-de-rosa, brincavam com as flores, abraçavam-se, faziam rodas enquanto cantavam, corriam e sorriam de felicidade, parecendo anjos. A alegria estava no ar, estampada no rosto de todos e não era uma falsa alegria. Percebia-se que era uma alegria espontânea, que vinha de dentro, que emanava luz. É que, não era só de um casamento que esta ocasião se tratava. Era um grande encontro. Um encontro muito especial. Um encontro de duas grandes famílas, de almas e espíritos, que tornava uma simples união, num verdadeiro e grande encontro de corações verdadeiramente felizes e que, pelo menos naquele dia, naquele momento, falavam a mesma linguagem, partilhavam o mesmo sentimento, compartilhavam uma mesma vida numa única experiência, que a seu tempo iriam presenciar e da qual todos fariam parte integrante.

 

E ainda há quem não acredite no destino… quem ache que isto é tudo obra do acaso! Realmente, por vezes, a vida mais se parece com peças de um puzzle que andam todas por aí a passear, ao Deus dará, desnorteadas, sem qualquer sentido. Mas quando menos esperamos, parece que alguém se lembra de agrupá-las de modo a encaixarem no sítio certo, para então, começarem a fazer sentido, caso contrário, continuarão sozinhas, cada uma por si só, sem fazerem parte de nada, fora de contesto, desligadas do todo.

 

O cosmos cuida de tudo. O universo é a mão grande que se encarrega de dar forma, estrutura e sentido à vida. O cosmos é a "ordem" divina, o cérebro da inteligência máxima que tudo rege. E aquele casamento que, aparentemente, começava ali, já estava traçado lá muito atrás, o que equivale a dizer que estava escrito nos registos akáshicos, como tudo, aliás.

 

Enquanto se saboreava uma agradável ementa, corria uma conversa aqui, uma conversa ali, uma troca de ideias aqui, outra ali, um cumprimento, uma graça, uma piada de bom tom, enfim… foi então que um cruzamento de perguntas e respostas, recuando quarenta anos, relembrou tempos de tropa em Angola. Meu ex-marido, pai do noivo, comentou qualquer coisa relativamente a essa altura da sua vida. No mesmo instante, o tio da noiva, irmão do falecido pai da minha norinha querida, comentou que também tinha estado em Angola na mesma época. A conversa continuou acertando o paradeiro de ambos no mesmo tempo, sítio, lugar, companhia, por aí fora e só por isso, já estavam os dois animadíssimos, quando começaram a descrever um ao outro exactamente o que faziam e mais precisamente quem era quem. Foi aí que se retrataram. Um perguntou ao outro se ele era fulano tal, ao que o outro respondeu com a mesma pergunta, se ele era fulano assim, assim. Em quarenta anos uma pessoa muda completamente. Quarenta anos podem tornar as pessoas irreconhecíveis.

 

Para quem foi testemunha deste encontro, o rosto de ambos transfigurara-se por completo. O sangue tinha subido num pico de adrenalina inconcebível. Os olhos dos dois adquiriram subitamente um brilho incomparável, parecendo saltarem das órbitas, ao mesmo tempo que se levantavam em simultâneo, de lados opostos da mesa, um em direcção ao outro, com uma sofreguidão e tanto, de braços estendidos na direcção um do outro, até que chegaram um ao pé do outro e se abraçaram com uma efusão e um entusiasmo a que ninguém conseguiria ficar indiferente. Dois irmãos perdidos no tempo.

 

Por um longo momento o silêncio era aquele momento único que não era só de dois amigos, era de pais casando os filhos; era de um passado que já estava cruzado, embora sem consciência disso; era do presente que tudo trazia à tona e acabava de selar aquele momento, que era um registo ímpar nas suas vidas e nas vidas de todos que ali estavam. E enquanto eu pensava que a vida é uma coisa maravilhosa, cheia de surpresas inesperadas, a tia Ana Maria - a matriarca da família da minha querida norinha - dizia baixinho, que aquilo era obra do Armando, o falecido pai da noiva - ali representado pelo irmão -, lá em cima, unindo as duas famílias. Ouvi e pensei - as duas famílias já estavam unidas há quarenta anos atrás. Não o sabiam, mas já estavam. O não saber é apenas um pormenor que faz parte da condição humana, por isso, unidas já estavam. Mas quem poderia saber?  

 

Na verdade, ninguém poderia dizer que eles já eram uma só família porque, uma criança faria com que, só quarenta anos depois, um, fosse seu avô e outro, tio avô.

 

O tempo, onde tudo acontece, tem três faces: passado, presente e futuro. Mas, verdadeiramente, ele é um só.

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O encontro - 55


Nos meus dezassete anos tive um namorado da minha idade que foi o meu primeiro e único namorado de adolescente. Ambos passávamos a semana inteira em Lisboa. Ele, por causa do curso que estava a fazer e eu porque nessa altura já trabalhava, no que foi também o meu primeiro trabalho, no Ministério das Finanças. 

Durante a semana, em Lisboa, nunca nos encontrávamos, mas ao fim-de-semana, em Setúbal, era infalível. Acho que vivíamos a semana para isso, para o encontro do fim-de-semana e aproveitávamos tudo o que era festas, feiras, Carnavais e outras coisas mais, mas tínhamos um sítio que era especial, porque os nossos encontros sempre começavam e terminavam aí, sem hora marcada, porque não era preciso. Eu sabia sempre quando ele estava à minha espera. Como um sussurro no meu ouvido, eu ouvia a voz dele chamar por mim, nesse lugar muito especial, muito romântico, pode dizer-se que sim e muito, muito bonito. 

Ainda hoje, o miradouro de Setúbal é um local privilegiado pela vista magnífica que tem sobre o rio e sempre muito bem cuidado, com uns bancos em pedra, todo decorado com azulejos lindos, com umas trepadeiras que embelezavam, davam sombra e ainda desenhavam de uma forma airosa, uns cantos e recantos onde, na verdade, namorar, era um momento mágico, porque não acontecia mesmo nada, isto é, tudo era ingénuo, naqueles anos, ingénuo e doce. 

O namoro era estar ao pé um do outro, sem tocar um no outro. Apenas se conversava e muito mais com o olhar do que propriamente com palavras. O desejo sufocava-nos, porque não sabíamos, nem poderíamos, como extravasar toda aquela emoção que aflorava, independentemente da nossa vontade. Explodia por todo o nosso ser, mas ficava silenciosamente contida e contida ficou “ad eternum” porque, passado um tempo, veio o serviço militar e as nossas vidas tomaram o seu rumo, cada um seguindo o seu destino, que não era comum. 

Uns anos mais tarde, já eu estava casada e com um filho, encontrei uma amiga daquela época, que me deu notícias dele, que também já tinha casado e tinha um filho da mesma idade do meu. Nessa altura eu já tinha discernimento suficiente para perceber o traçado da linha do meu destino e para tanto, bastava-me olhar para trás e perceber que estava no lugar certo. Mas foi interessante falar com a minha amiga e ter notícias dele. Não que eu tivesse “saudades”. Apenas, não podia, nem queria apagar o passado. Ele fazia parte de mim, da minha história. Depois disso, nunca mais voltei a ter notícias dele. Perdemos completamente o rasto um do outro sendo que, na verdade, não fazia falta. 

Os anos passaram. Na verdade passaram muitos e muitos anos. Por força das circunstâncias, as idas a Setúbal foram-se espaçando, até que se tornaram raras, raríssimas. No entanto, apesar da raridade ou por conta da raridade, não conseguia deixar de pensar nele. Ele sempre me vinha à lembrança e em certa altura, depois de tantos anos, uns vinte anos, comecei a sentir uma certa curiosidade em revê-lo. Apenas vê-lo, olhar para ele, rir com ele, do nosso passado, lembrando carinhosamente algumas passagens e nada mais. Mas isso era praticamente improvável. Há muito que ele já não vivia em casa dos pais, em Setúbal, junto ao miradouro dos nossos encontros. 

Lembro-me de duas ou três vezes ter ido ao miradouro e imaginar que ia ao encontro dele, como nos velhos tempos, sabendo, embora, que isso não aconteceria e entrar em contacto com ele, além de não ter como, não teria a menor graça. Não estava ali para me entregar ao JM, sob que pretexto fosse. A nossa entrega tinha sido a outro nível, portanto, isso estava fora de questão. Eu só queria mesmo experimentar aquela magia do antigamente, se isso fosse possível. Nenhum de nós era o mesmo, mas o facto é que tínhamos criado momentos mágicos. Como seria vê-lo no agora? E como aconteceria isso sem que eu desse um passo para conseguir essa magia? Impossível!  

E aqui começa a história. 

Certo dia, estando de breve passagem em Setúbal, decidi que queria, porque queria, reviver uma gota daquele velho passado. Em pensamento, vesti a pele da adolescente que tinha sido um dia e saí de casa destinada a subir a rampa em direcção ao miradouro. Isto era um absurdo, porque não havia a mais pequena probabilidade de acontecer. Mas eu queria e fui, calma e tranquilamente, a cada passo, me aproximando mais e mais do miradouro, porque, na verdade, eu não o queria ver só por ver. O que eu realmente queria era vê-lo naquele lugar que era nosso. Noutro sítio qualquer, não teria a mesma graça. Era a magia do quadro completo e só isso, nada mais. Depois, tudo se podia quebrar, o encanto, o espanto, ah… sei lá. Depois eu podia acordar, despir a pele já há muito despida da adolescente e voltar ao meu mundo actual, à minha realidade. Mas eu queria pôr o pé lá, por um só instante, naquele passado distante. 

E fui, ladeira acima, imaginando que, por qualquer passo de mágica do destino, ele estaria lá, como antes, chamando silenciosamente por mim. E, enquanto ia caminhando, pensava em quanta tolice passava na minha cabeça e em quanta fantasia alimentava. O razoável seria voltar para trás e pôr a cabeça no lugar. Meu Deus, como era lamentavelmente tola, por vezes!? 

Mas quando já estava decidida a voltar para trás, a meia dúzia de passos do miradouro, a paisagem abre-se como a página de um livro, mostrando aquele belo cenário, sempre diferente e único. As cores do sol sobre o rio sobrepunham-se a tudo e a qualquer coisa fútil e fugaz. Era lindo demais! Do outro lado do rio, Tróia a compor o quadro. Era um belíssimo fim de tarde, com uma temperatura excelente. Mais um passo e estava no fim do muro que acompanha a ladeira. Nesse preciso ponto é uma esquina e esbarro em alguém que vem do meu lado direito. Levanto a cabeça e vejo um sorriso largo, acompanhado de um ar de espanto e admiração. Um sorriso que eu tão bem conhecia, o JM, ele mesmo, inteirinho, em pessoa… 

Nesse preciso momento percebi que não sabia de nada, que não tinha explicação razoável, plausível, nem mesmo inventando o que só podia ser uma invenção, não minha, do destino. Eu não invento, porque simplesmente não tenho a capacidade de alimentar a ficção. Eu sou sólida e mesmo no que toca ao plano espiritual, preciso de consistência, preciso de me sentir enraizada. O facto é que, sem saber como, os nossos passos, uma vez mais, tinham entrado numa sintonia cósmica perfeita, colocando-nos ali, sim, uma vez mais, naquele momento e naquele lugar de sempre.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Viagem ao Paquistão - 54


Havia uns anos já que o Riaz estava comigo. A nossa relação como casal tinha tanto de descontraída como de conturbada. Não era fácil viver com um indivíduo muçulmano de origem paquistanesa, ainda mais por eu ser ocidental, nascida na Índia. Como ele próprio dizia, eu estava dividida em duas metades: uma ocidental, outra oriental. Paradoxalmente, isso deveria afastá-lo, pois nenhuma dessas condições combinavam com ele. No entanto e, novamente, paradoxalmente, eram essas duas condições que nos uniam e sem elas, a nossa relação nunca teria existido.

 

A questão é que eu o compreendia e aceitava. Aceitava o que conhecia e aceitava o que não conhecia, como um desafio. E aceitava porque queria, porque na verdade, nada, nem ninguém me obrigava a isso e quando eu contava às minhas colegas as coisas que fazia, ficavam incrédulas, achando que uma pessoa como eu, tão moderna, tão à frente, cabeça aberta, tão livre e independente, etc., não podia “submeter-me” às vontades dele. Só que elas não entendiam que eu não me submetia a nada e muito menos era forçada, bem pelo contrário, fazia exactamente o que queria. Que diferença me fazia entrar na água do mar vestida, em vez de ir de biquíni, quando era preciso?! Que diferença me fazia não comer carne de porco, se sempre fui alérgica ao porco?! Não poder usar decotes muito pronunciados e outras coisas do género… eu estava com um muçulmano, essa era a questão e seria muito burra se não soubesse o que isso significava. Portanto, ou aceitava ou não haveria relacionamento. E convém esclarecer que nada disso me inferiorizava, bem pelo contrário, porque o fazia com plena consciência de que o queria fazer. Era uma maneira de assumir a minha relação com ele.

 

Contudo, havia coisas em que eu não o deixava interferir. Por exemplo, com o meu filho. Um dia ele viu fiambre de porco no frigorífico e ficou furioso. Disse-lhe que era só ele que o comia, não eu, mas ele não ficou satisfeito e exigia que retirasse o fiambre e não o deixasse comer. Disse-lhe “não”, sem rodeios, sem hesitações, não. Não gostou, ficou chateado, mas expliquei-lhe que o que servia para mim não tinha que servir para o meu filho e que a relação dele era comigo e não com ele. Ficou calado, pensou, pensou e ponto final, não se voltou a falar no assunto.

 

Um dia disse-me que queria ir à terra dele, mas queria que eu fosse com ele. Aí estava uma coisa em que eu nunca tinha pensado, ir ao Paquistão. Já tinha estado com ele na Grécia e tinha sido maravilhoso, mas ir ao Paquistão… pensei, pensei, pensei muito. Falei com a minha família, perguntei a opinião de cada um… não que eles o decidissem por mim, mas queria ouvir o que os outros tinham a dizer acerca disso. Curiosamente, todos diziam que sim, porque todos gostavam dele. Contra todas as probabilidades, ele tinha sido aceite a cem por cento pela minha família e isso eu nunca iria entender, mas melhor assim, menos trabalho para mim convencê-los a aceitá-lo. E o facto de todos serem de opinião que eu poderia ir, seria uma boa razão para não ter dúvidas, mas na verdade não bastava.

 

Pouco depois de ter estado na Grécia fui submetida a uma intervenção cirúrgica urgente e fui para casa do meu pai para me recuperar. Mas era complicado porque o Henrique estava em casa do pai até eu voltar para minha casa e por mais que ele gostasse do pai, preferia estar na minha casa, portanto, precisava de mim em casa e isso estava a criar-me muita ansiedade, atrapalhando a convalescença. O Riaz, que tinha ficado na Grécia por conta do trabalho, veio imediatamente e expressamente para cuidar de mim. Isso eu nunca esqueceria em toda a minha vida, porque só assim foi possível o Henrique regressar à sua base e eu estar na minha casa. Ele cozinhava e cuidava de tudo.

 

Por todas as razões ou por muitas, aparentemente não havia razão para não fazer essa viagem, mas ainda não estava satisfeita e decidida a ir só pelo facto de ninguém me ter apontado um motivo em contrário e continuava à procura de indícios, isto é, à procura de uma resposta mais concisa(?)... nem tanto. Mais verdadeira, talvez. 

 

O nosso caminho está traçado, ainda assim, temos que descobri-lo. Então, porque não iria eu? Era a coisa de que eu mais gostava, viajar. Porque não? Porque não, era isso que eu precisava de saber porque, contra tudo e todos, a minha intuição falava mais alto, dando-me um alerta que eu não tinha como explicar. Precisava de uma resposta. Mas como? Como sempre. Escutando no silêncio dentro de mim. 

 

A verdade a todas as respostas de que precisamos está sempre dentro de nós, registada no nosso ADN. Não é mistério nenhum. A verdade está sempre connosco, desde o início dos tempos de toda a nossa existência, ou seja, desde sempre. É preciso saber escutá-la.

 

E comecei a minha busca na paz interior do meu ser. Eu queria saber se essa viagem era para ser feita ou não. Que ela me atraía, claro, mas isso não chegava, isso não era o mais importante. Queria tanto ir à Índia e aí estava a oportunidade de o fazer porque até isso  o Riaz tinha prometido, ir comigo à Índia, o que não era difícil e seria uma viagem de sonho. Mas se nada se cumprisse de acordo com o combinado e se tudo o que estava prometido não acontecesse como o previsto, essa viagem podia ser um inferno. Mas ele não faria isso comigo!?...

 

Em todo o caso, as viagens foram marcadas e as férias planeadas. A família dele telefonava e eu falava com regularidade com os irmãos que estavam lá, com o tio, que substituía o pai que já tinha falecido e todos me incentivavam e queriam muito que eu fosse. Eu fazia imensas perguntas ao Riaz sobre o que eu faria, como eu me relacionaria com cada um deles, o meu vestuário, a minha alimentação, o que visitaria, como seria o nosso relacionamento lá, visto que ele era casado e tinha um filho, mas isso não vem ao caso agora, isso é uma outra história. 

 

Eu iria respeitar a esposa dele e ser-lhe-ia apresentada como uma amiga. De resto, nós falávamos muitas vezes ao telefone e entendíamo-nos muito bem, porque como toda a gente sabe, eles podiam contrair mais do que um casamento, como acontecia com o irmão mais velho que vivia com duas esposas. Os mais novos, porém, as respectivas mulheres já não estavam a aceitar isso. A mudança começava a tomar forma e eu não queria que a mulher do Riaz me considerasse uma segunda esposa, de jeito nenhum. Não havia a menor necessidade disso. O nosso relacionamento só tinha acontecido por ele estar sozinho em Portugal e eu sabia que um dia teria o seu fim. Se ele estivesse com a mulher, jamais teria acontecido. Por isso, era importante definirmos o nosso relacionamento no Paquistão e eu tinha-o feito prometer que, enquanto lá estivéssemos, seríamos apenas amigos, só isso.

 

Enfim, eu fazia de tudo para me documentar, digamos assim, sobre essa que seria uma grande viagem, contudo não conseguia definir-me, não conseguia ver um sim definitivo e sem dúvidas. Por mais que tudo apontasse para lá, dentro de mim, bem no fundo da minha alma havia uma verdade que tardava em vir ao de cima e eu continuava sem saber o que seria porque, essa verdade, a ser não, teria que ter tanta consistência como a que teria o sim. E por enquanto, o não, apenas se manifestava num silêncio profundo, lá bem no fundo, fazendo-me permanecer na dúvida. Ainda assim eu sabia que tinha de lhe dar ouvidos porque tinha um peso enorme.

 

E um dia acordei com a lembrança de um sonho que tinha tido nessa noite. Assim que acordei revi o sonho por inteiro e percebi que nesse sonho havia algo de revelador. Eu estava no Paquistão, na casa do Riaz, à porta, do lado de fora, nos terrenos deles e dali avistava-se uma fronteira. Essa fronteira era a fronteira entre o Paquistão e a Índia e tinha uma porta. E para lá dessa porta, tudo era muito bonito, mágico, verdadeiramente tentador. Não que eu visse, porque estava do lado do Paquistão, mas os olhos da alma viam tudo isso e era aí que eu queria ir. Eu estava com um dos irmãos do Riaz que conheci na Grécia e pedia-lhe que me levasse lá e ele simplesmente me respondia que não, nem pensar. E depois de revê-lo várias vezes, de facto achei que era um indicador, não exactamente por ele me dizer que não podia ir à Índia, porque a linguagem onírica não é só simbólica, é também codificada. Se não fosse à Índia, ainda assim não seria uma tragédia. A tragédia escondia-se no que representava essa “fronteira” e no que estava barrado para lá dela. Essa fronteira representava literalmente o meu aprisionamento no Paquistão, o meu isolamento, as minhas dificuldades, a minha liberdade posta em causa e a não acessibilidade a tudo aquilo que eu queria e não poderia porque, fatalmente, seria feita “prisioneira” das vontades deles às quais, aí sim, teria mesmo que me submeter por estar na terra deles e não ter alternativa.

 

Durante todo o dia, enquanto trabalhava, o filme do sonho passava, passava e tornava a passar e a leitura era sempre a mesma. Não tinha nada que saber. Esse sonho era um indicador. Mas, até que ponto poderia levá-lo em consideração, uma vez que estava tão mergulhada e influenciada na dúvida? Apesar da verdade que ele continha, podia ser simplesmente o meu inconsciente a trabalhar em favor do subconsciente. Involuntariamente eu podia estar a atraiçoar-me. Logo, a coisa continuava a não ser decisiva e deixei o tempo passar.

 

Faltava uma semana para a grande viagem que continuava de pé, e um dia ligaram da agência dizendo que os bilhetes tinham que ser levantados no dia seguinte sem falta. Atormentada, pensei que o tempo se tinha esgotado e que estava na hora de saber. Mas não sabia mesmo que mais voltas dar. À noite, quando me deitei, e deitei-me um pouco mais cedo do que o costume porque me sentia esgotada física e psicologicamente, pedi a Deus que me trouxesse uma resposta imediata, porque já não tinha de onde sacar essa resposta. Era o meu último recurso e tinha plena consciência disso. Pedi com todas as forças do meu ser. Assim, adormeci.

 

O Riaz não estava porque nem sempre ficava comigo. Às vezes ficava na casa dele e nesse dia à tarde tinha ido ter com um amigo que já não via há muito tempo. Deitei-me por volta das dez e meia da noite e devo ter adormecido logo de seguida. Sei que acordei com a campainha de baixo a tocar. Achei que era engano, não liguei e continuei a tentar dormir. Mas o toque repetiu-se uma e outra vez. Olhei para o relógio, era uma e meia da manhã. O que poderia ser? O Henrique já estava a dormir e não queria perturbar o sono dele. Contrariada, levantei-me e fui ao intercomunicador. Era a voz do Riaz a pedir para lhe abrir a porta, porque ele não tinha chave. Disse-lhe que não eram horas de estar a tocar, que era muito tarde e estávamos a dormir. Pediu novamente para abrir a porta e só abri porque estava a falar muito alto e àquela hora, ia certamente incomodar todo o prédio, o que era uma chatice.

 

Num instante estava cá em cima, mas não estava sozinho. Queria entrar com o amigo que eu nunca tinha visto e queria que eu fosse com ele levá-lo a casa, de carro, claro. Percebi que não estava sóbrio. O Riaz não bebia álcool, por isso, bastava-lhe uma gota para ele ficar ko. Eu estava de rastos, morta de sono e tinha que aturar aquela cena completamente fora de contexto… alguma coisa estava errada. Ele nunca tinha feito uma coisa daquelas, porque se o tivesse feito antes, era certo que já não estaríamos juntos àquela altura. Disse-lhe que se fosse embora porque não ia levar o amigo dele, nem o queria lá em casa assim. Começou a exercer domínio sobre mim para não ficar mal visto perante o amigo e a dar-me ordens, etc, etc. Fiquei muito nervosa e disse-lhe que não o queria ver assim, que se fosse embora, que queria dormir e não o ia aturar, nem a ele nem ao amigo e que chamaria a polícia se fosse preciso. 

 

Depois desta cena, não teve outro remédio e foi-se embora. Felizmente que ele não gostava de bebida, mas aquela cena não vinha por acaso, porque era simplesmente a resposta que eu tinha pedido. Já não tinha dúvida alguma. A viagem não era para ser feita porque aquilo era apenas uma pequena amostra das surpresas negativas e desinteressantes que me aguardavam numa terra estranha em que eu, com toda a certeza, perderia toda e qualquer “chance” de fazer o que queria. 

 

A fronteira do sonho jamais seria ultrapassada. Ela estava ali, bem presente, naquele indesejável episódio e era apenas uma pequena amostra de todos os aborrecimentos que eu teria de enfrentar em território muçulmano.

 

Mesmo sem saber, o Riaz tinha acabado de me fazer um enorme favor. Ele próprio, que tanto queria que eu fosse, quase se recusava a ir caso eu não fosse, tinha acabado de ser o portador da verdade que tão bem se escondia, porque aquela atitude tão fora de propósito era tudo o que eu precisava. Era a resposta indubitável de que aquela viagem não era mesmo para ser feita.

 

E não foi.


domingo, 31 de agosto de 2014

O guarda-sol - 53


O Verão de 2013 foi um Verão quente, especialmente quente, por isso as praias em todo o país estiveram sempre cheias, mesmo lotadas. Então, eu e a Sofia, uma amiga com idade para ser minha filha, fomos muitas vezes juntas para a praia, um dia no carro dela, outro dia no meu. 

Num sábado em que ela começava a trabalhar só a seguir ao almoço e as temperaturas logo pela manhã estavam muito acima dos trinta graus, combinámos ir à praia, sendo que saíamos às oito e meia para estarmos na praia às nove e às onze regressávamos. Duas horas de praia chegava e dava tempo para ela se arranjar, almoçar e ir trabalhar. 

Nesse dia fomos no meu carro e entrámos em desacordo porque ela queria ir para a Ericeira e eu para a linha. Comecei a tomar o rumo da linha e ela muito chateada, parecia uma miúda pequena, porque queria à força ir para a Ericeira. Fui-lhe dando várias razões, mas ela não aceitava. Um calor abrasador e aquele clima entre as duas, as coisas não estavam a começar da melhor maneira. 

Quando entrámos na marginal o trânsito estava um horror. Ainda não eram nove horas, o calor já estava insuportável e as praias cheias de gente. Na verdade, já me tinha arrependido, mas agora não tinha como sair dali e estávamos muito perto, só que o trânsito não andava e a Sofia de mau humor, que chatice! Parecia que todo o mundo tinha ficado na praia de véspera, porque aquilo não era normal. Carros estacionados por todo o lado, uma confusão dos diabos! Um verdadeiro caos. 

A Sofia queria fazer toplesse, queria espaço para ela sem ser incomodada por ninguém e com aquele amontoado de gente era impossível e queixava-se de que as brigas dela com o ex-namorado eram sempre por causa daquilo. Queria praias que lhe dessem espaço e privacidade, no que não deixava de ter razão, mas àquela altura já não havia volta a dar, porque dali não tínhamos como sair e a verdade é que para o outro lado, em fim-de-semana e com aquele calor, também não seria muito diferente. 

Agora a nossa preocupação era com o estacionamento. Onde iríamos estacionar? Mas eu dizia-lhe que havia de haver um lugarzinho à nossa espera, um lugar que ninguém via, o que em boa verdade aconteceu. Entrei no parque e lá estava aquele lugar ligeiramente fora da marcação, mas que devidamente estacionado nem se dava por isso. Assim foi e só por isso a Sofia já ria. Pegámos na tralha e lá fomos, sem saber para onde ir nem por onde abrir caminho. Nunca se vira uma coisa assim e um calor insuportável, parecia o Brasil, porque naquele ano até a água estava quente, por causa das temperaturas excessivamente altas. 

Onde fixar o guarda-sol? Onde pôr os pés? Por onde caminhar, se não havia espaço?! Insuportável. Já tinha sido uma coisa extraordinária termos conseguido chegar ali e ainda mais termos arranjado lugar, quando todos os carros andavam às voltas parecendo umas baratas tontas. Um calor abrasador e eu só queria largar tudo e entrar pela água dentro e a Sofia outra vez mal disposta. Há dias em que não se pode sair de casa. Aquele era um deles. 

Enfim, com muito custo e já extenuadas entrámos à força na areia, com muito cuidado para não pisar ninguém, curvando-nos para passarmos por baixo dos chapéus, que eram mais que muitos e todos juntos, era realmente dramático. Toda a população de Portugal inteiro estava espalhada pelas praias que não davam vazão. Não se conseguia perceber onde acabava uma família e começava outra. 

Era preciso ver que eram apenas nove horas da manhã e aquilo já estava assim. Muita gente devia ter ido de madrugada, talvez até durante a noite. Há gente que tem dificuldade em dormir por causa do calor, por isso não me admirava nada que tivessem ido dormir para a praia. A areia estava a ferver, a água um caldo, estavam todas as condições reunidas para, a qualquer hora, quererem estar na praia o que, aliás, para muitos, seria mesmo a única solução. 

Mas e agora, nós, onde conseguiríamos um espaço para assentar e pôr as nossas coisas? O guarda-sol nem pensar, mas também quase não era preciso, porque os chapéus estavam todos tão próximos uns dos outros, que se apanhava uma sombra de qualquer lado. A questão era haver espaço. 

Com um ar desolado, as duas caminhando pela areia, insistindo e forçando a passagem, já nem queríamos saber se incomodávamos ou não. Só queríamos fazer valer o nosso direito de também estar ali. Na retaguarda, as pessoas que chegavam ficavam paradas, sem se moverem, olhando a massa de gente na praia, sem saberem o que fazer. Mas nós não íamos entregar os pontos assim tão facilmente. 

Já estávamos quase junto à água, paradas, olhando em volta uma brecha que não conseguíamos vislumbrar, quando de repente uma criança pequena se levantou e se dirigiu para a água. A seguir, alguém foi atrás dela. Rapidamente nos apropriámos daquele minúsculo espaço. Desviámos um pouco as toalhas que estavam no chão e como quem não quer nada, mas sentindo-nos umas intrusas, largámos os sacos no chão o mais juntos possível para não se misturarem com os de mais ninguém e aí ficámos, olhando uma para a outra, com umas caras de lástima. 

Com cuidado, tirei o guarda-sol, não precisamente por causa do sol mas para afastarmos um pouco de nós os que estavam em volta. Era realmente desagradável e sufocante. Estávamos completamente em cima uns dos outros. Montei o chapéu e disse à Sofia que ia à água, porque estava com muito calor e cansada. Como ela estava chateada ficou na areia, estendida, de barriga para baixo e com a cabeça entre os braços, para tentar evadir-se e esquecer que estava quase colada aos outros. Toplesse, nem pensar, claro. 

Fui para a água e entrei de supetão. Que bem que aquilo me sabia porque, uma vez dentro de água, o calor já não me incomodava. A água reanimava-me e as minhas energias já estavam renovadas. Tínhamos conseguido chegar à praia, estar na praia e eu estava na água que era tudo o que queria. A Sofia estava a torrar, que era a preferência dela. Mas tinha valido a pena chegar até ali e a água estava óptima! 

Nunca tinha visto tanta gente na praia. Sem dúvida, era um verão fora de série. Havia tanta gente na água, um magote! Parecia uma banheira gigante. Tínhamos que ter cuidado para não dar uma braçada ou uma patada em alguém. Era uma loucura. Mas enfim, era o que tínhamos. De tanto que pedíamos o calor, ele aí estava com toda a força. Tínhamos que o aproveitar e saber tirar o melhor partido da situação. 

Estive uns dez minutos na água, depois resolvi sair e ir para junto da Sofia apanhar sol, enquanto o corpo estava fresco, o que não seria por muito tempo. Ainda dentro de água olhei em frente para a areia à procura de espaço ao pé da Sofia, mas não a vi. Comecei à procura do guarda-sol, mas também não o encontrei. Com calma, saí da água, olhando com mais atenção. Certifiquei-me do sítio onde deveríamos estar, mas não vi o guarda-sol e nem a Sofia. O que se estaria a passar? 

Teria ela ido andar um pouco a pé? Era pouco provável, mas talvez tivesse encontrado alguém conhecido e podia ter ido falar com essa pessoa, mas, nesse caso, o guarda-sol, onde estaria o guarda-sol? Volto para a água, para me afastar da praia e ter um maior campo de visão, mas continua tudo na mesma. Nem sombra da Sofia e quanto ao guarda-sol, havia muitos azuis, mas nenhum deles era o meu. Olhei para o morro, para mais uma vez me certificar da direcção onde supostamente deveríamos estar e achando que não havia como errar, começo novamente a seguir todos os chapéus azuis, mas nenhum era o nosso. 

E a Sofia? Ela, simplesmente, não podia ter-se evaporado? Nem ela nem o chapéu e nem as nossas coisas! E eu na água, de bikini, sem mais nada!... Começo a equacionar todas as suposições prováveis, todas as conjecturas possíveis e até as impossíveis. Cheguei mesmo a pensar que a Sofia se teria ido embora, porque ela não queria estar ali e porque ela estava de posse de tudo, dos sacos, das chaves do carro, etc... mas não, isso não podia ter acontecido. Compreendo que todos temos o direito de às vezes nos passarmos e fazermos coisas inconcebíveis, mas isso ela nunca faria, era impossível. Contudo, o facto é que ela não aparecia, nem ela nem o chapéu. 

Já meio transtornada e a ficar em pânico, começo a percorrer a praia. Primeiro para um lado, depois para o outro e ando na beira da praia, depois mais acima, feito louca, meio doida varrida, toda a pingar água por todos os lados e a tentar controlar-me porque só já me apetecia gritar. Mas isso não podia acontecer. Tinha que me controlar, fosse de que jeito fosse. 

Finalmente dou-me por vencida. A Sofia não estava na praia e o chapéu evaporara-se. Tudo tinha desaparecido (ou não), o certo é que eu não tinha mais por onde procurar. Assim, restava-me uma única solução: pedir ajuda. Mas também não tinha a menor ideia de como fazê-lo. Iria aonde, ter com quem, dizer o quê? Eu, uma mulher de sessenta anos, perdida na praia, ah, essa não! Que cena! Realmente, se há mesmo dias em que não devíamos sair de casa, aquele era o dia. 

Agora tinha de agir e o mais depressa possível, porque precisava de saber o que se estava a passar e não aguentava mais aquela irrisória situação. Tinha que pedir ajuda. O que fazer? Procurar alguém, alguma pessoa dali mesmo, dizer que estava aflita, que a minha amiga tinha desaparecido da praia e eu não tinha nada, nem roupa, nem chaves, nem telemóvel, nada. Estava a sentir-me como que nua, literalmente nua, indefesa, envergonhada, tola, tudo isso e muito mais. Era absolutamente ridícula toda aquela situação, porque uma cena daquelas não podia acontecer. 

Olhei rapidamente, mas as pessoas estavam todas ocupadas com os outros ou consigo mesmas e depois quem é que ia querer saber de mim? Eu não queria mesmo incomodar ninguém, mas alguém ia ter de me ajudar. Estava exactamente no sítio onde devíamos estar. De pé, olhando em volta, tentava perceber qual a pessoa que estaria mais disponível para me ouvir. Um casal, outro casal, uma avó com dois netos... que bronca(!)… e vejo um indivíduo por volta dos quarenta anos, talvez um pouco menos. Olhei bem e pareceu-me que estava sozinho. Estava à procura de qualquer coisa na mochila... uma sandwish. Rapidamente vou na direcção dele que está a cinco metros de distância e antes que meta o pão à boca, mas já metendo, chego e digo-lhe precisamente que preciso de ajuda. 

Contrafeito, tira o pão da boca e fica sério a olhar para mim, e com ar desconfiado repete as minhas palavras: precisa de ajuda?! Sim, digo eu e pergunto-lhe se está sozinho. Ele, cada vez mais contrafeito, com cara de quem não esconde o seu desagrado e que não está a gostar nada da cena, diz-me que está sozinho, sim, porquê? Claro, só podia. Também... chega uma desconhecida ao pé dele, enfim... e antes de mais nada, digo logo que estava na praia com uma amiga mas que ela desapareceu enquanto fui à água, ela e bem assim, o chapéu. O indivíduo, sem saber o que dizer e o que pensar, olha para mim cada vez mais intrigado, perguntando como é que eu não sabia da minha amiga, então não sabe onde é que ela está e eu digo, não sei e não sei o que fazer. 

Entretanto, uma senhora que estava ali ao pé, debaixo de um chapéu, ouve a conversa e pergunta-me qual é a cor do chapéu, para eu procurar e eu respondo que isso já eu tinha feito, sem sucesso. Os dois perguntam ao mesmo tempo, onde é que eu devia estar e eu respondo aqui, aqui mesmo, ao mesmo tempo que aponto para o chão; e enquanto aponto para o chão, alguém se levanta e chama por mim, Luisa... qual não é o meu espanto, quando vejo a Sofia ali mesmo, claro, levantando-se, agarra-se ao meu pescoço dizendo que já estava muito preocupada porque eu nunca mais aparecia e que já tinha ido à água à minha procura e não me tinha encontrado e estava aflita. 

Meia aparvalhada, percebo que a Sofia estava e sempre esteve exactamente no sítio onde eu a tinha deixado, no sítio por onde eu já tinha passado várias vezes, no sítio onde eu sabia que nós estávamos. E o chapéu? Ah… o chapéu!...O chapéu também. Nada se tinha evaporado, tudo estava como deveria estar. Tudo tranquilo, tudo certo. 

Então? 

Então, que o chapéu estava lá, é verdade, só que não era azul, era vermelho. Vermelho!? E eu sempre à procura de um azul! Ah, disse eu e levei um susto, porque percebi que tudo se tinha dado por conta de um erro meu. O chapéu era vermelho e era meu. Eu mesma o tinha comprado. Como podia acontecer-me uma confusão daquelas? 

Mas este erro não era um erro qualquer. Era um erro assaz importante e com o qual aprendi. 

A nossa mente é diabólica. Eu tinha feito uma programação inconsciente e só naquele momento acabava de ter essa consciência. Quando comprei o chapéu eu queria um azul. Azul é a minha côr de eleição. Acontece que não havia azul. Procurei em vários sítios e não tendo conseguido um azul, fui obrigada a escolher outra cor, tendo optado pelo vermelho. 

Mas o facto de ter comprado um guarda-sol vermelho não mudou nada. Ficou subjacente na minha mente o chapéu azul que eu queria, apesar de o não ter conseguido. Inconscientemente, tinha feito uma programação mental, sem ter levado em conta o quão importante era a cor. 

Bem, depois disto pedi desculpa dando uma explicação sumária, porque me senti tão mal que achei que era o mínimo a fazer para limpar a minha imagem, para que não ficassem a pensar que eu era doida. E tudo terminou bem. A Sofia puxou-me e fomos para a água arrefecer os ânimos, rindo muito daquela maluquice toda e ficou bem disposta com tanto que riu, tanto que, ao entrar na água até dizia “somos todos uma família”. Queria isso dizer que, finalmente, tinha aceitado estar ali como todos os outros. 

Na água, muito nos rimos e divertimos. Dávamos vazão a todas as peripécias e todas as chatices que tínhamos vivido naquela manhã. Agradecíamos à vida o facto de estarmos aliviadas e de tudo ter terminado bem. A água estava uma delícia e brincámos com outras pessoas e crianças que estavam ali também. Quando voltámos à areia já não tínhamos lugar para nos estendermos, mas ficámos sentadas. E nesse instante em que nos sentámos, um garotinho que vinha da água, ali mesmo em cima de nós, deu um berro "Vóoooooooo..."! No meio daquela confusão, ele não tinha reconhecido nem o chapéu de sol, nem a irmã, nem a avó, que mesmo ao lado dele o agarrou pelo braço e o puxou, dizendo-lhe também a gritar "estou aquiiiii... já te disse para quando fores à água vires sempre na mesma direcção"… 

Eu e a Sofia olhámos uma para a outra e desatámos a rir. Parecíamos umas tontas. Mas a história do chapéu não ficou por ali. Devia, mas não foi. Aquela situação não foi o suficiente para reprogramar o meu cérebro. Uns dias depois fomos para a Ericeira, para a Sofia fazer o seu merecido topless e ficámos do lado das rochas, para onde quase ninguém vai. Haviam três chapéus, com o nosso eram quatro. Fui à água e a Sofia ficou a torrar. Quando saí da água, olhei os chapéus à procura do nosso e onde é que ele estava? 

Mais uma vez eu procurava um chapéu azul e não o vendo, comecei a sentir aquele mal estar do outro dia, mas rapidamente me lembrei da cena. Então olhei as pessoas que estavam debaixo dos chapéus e lá estava a Sofia toda estiraçada na areia, debaixo do chapéu vermelho. Ah, o chapéu era vermelho! Nem queria acreditar que estava novamente no mesmo registo. 

Esta história só acabou porque, contando ao meu filho, ele ficou um pouco apreensivo com a situação e logo tratou de me comprar um chapéu azul. Finalmente eu tinha um chapéu azul. 

Umas semanas mais tarde fui à praia, toda contente com o meu chapéu azul. Eu tinha um chapéu azul, lindo. Quando me vinha embora, estava a levantar-se muito vento e ao tentar fechar o chapéu, o vento virou-o e partiram-se umas varetas. Ficou tão danificado, que dali já não saíu. Infelizmente, achei que não valia a pena levá-lo. 

Porém, na bagageira do meu carro, está novamente um chapéu azul.  Eu vou à praia mas o guarda-sol, até ver, fica na bagageira do carro. Dali não sai. Este, veio para ficar. 

Porque eu quero.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Dieter - 52


Era o mês de Julho de um verão com dificuldades em chegar. Os dias já estavam quentes, mas não muito e com alguma instabilidade. Naquele sábado, porém, o dia estava bonito, radiante, porque o sol brilhava e a temperatura estava amena. Os dias cinzentos tinham sido uma constante do inverno, prolongando-se pela primavera e teimavam em ficar. Tinha uma consulta marcada sem hora definida, porque se tratava de uma urgência. Na tarde do dia anterior, tinha ido até à cozinha, porque me apeteceu comer alguma coisa. Era hora do lanche, por isso fui à fruteira e tirei uma maçã que, depois de lavar, meti à boca. Logo na segunda ou terceira dentada, o aparelho de contenção dos dentes do maxilar inferior veio atrás da maçã.

 

É verdade que a maçã era um pouco rija, mas já tinha o aparelho há tantos anos e nunca tinha acontecido nada. Daquela vez aconteceu e aí estava ele a dar-me problemas. Fui ver no espelho e apenas tinha descolado na parte central, porque continuava fixo nas pontas, porém, não podia ficar assim. Os dentes começariam logo a desandar e eu não suportava a ideia de voltar a andar de "ferraduras". Já não tinha mais idade para isso, portanto, era absolutamente necessário marcar uma urgência.

 

Tinha conseguido a consulta mas nada garantia que seria atendida. A condição era ficar disponível a partir das três horas da tarde, para ser atendida pelo primeiro dentista que tivesse uma aberta, o que poderia ir até às sete da tarde, e para piorar a situação, seria uma despesa com que seguramente não contava, nem tinha ideia do quanto teria que gastar.

 

No sábado acordei nervosa, mas isso eu já sabia que iria acontecer. Lembrei-me de imediato do que me estava reservado, do dinheiro que teria de "inventar", dado que o meu seguro da Médis não cobria dentista e, enfim, tudo andava para atrás. Desde o início do ano que tinha sido assim. Por mais esforços que fizesse não estava a conseguir aguentar a pressão. Sentia-me perturbada e insegura. A cena das "crianças" irem para os Estados Unidos por dois anos tinha-me deixado de rastos, e por mais que quisesse fingir que nada se passava, era completamente impossível. Estava estampado no meu rosto com demasiada evidência e não me apetecia ver ninguém e muito menos falar.

 

Faziam sempre as mesmas perguntas que não ajudava em nada e ninguém percebia isso. Toda a gente achava que era óptimo, excelente, o facto de irem para Nova York. Claro que sim, mas e eu? Falar pelo skype, com certeza mas e tudo o resto? E a minha neta Sofia? Iam em Setembro, em Dezembro já estariam de regresso para o Natal. Depois, em Agosto, viriam passar férias e era num instante que o tempo passava. Só dois anos... dois anos! Para os outros, talvez, para mim era uma eternidade.

 

Olhava o relógio e nunca mais eram horas de ir para o dentista. De qualquer modo, não adiantava ir antes das três, pois não estaria lá ninguém. Mas como estava muito ansiosa decidi antecipar-me. Precisava de sair de casa, não sabendo bem para onde e na realidade precisava bem mais do que isso. Precisava mesmo era de encontrar alguém com quem pudesse falar, falar... embora também não soubesse o quê. Mas precisava de algo novo; um agito na minha vida; algo que me desse ânimo. Precisava sair de dentro de mim e focar-me em algo fora do meu ser. Estava cansada de carregar com a minha ansiedade e a dos outros também. Em resumo, estava farta.

 

Foi então que me olhei no espelho e prestes a sair de casa vi as horas, percebendo que tinha tempo. Porque não me arranjava convenientemente? Estava escrito na minha cara que não queria ver nem falar com ninguém, mas era preciso mudar esse padrão e não custava tanto assim. Só um pouco de paciência comigo mesma e a transformação valeria a pena.

 

Vendo o meu rosto assim, com os olhos esfumados e o rímel, só isso era mais do que suficiente para disfarçar as olheiras a que ultimamente já me tinha habituado e que tanto detestava. Em seguida, liguei o babyliss e passei por todo o cabelo. Rapidamente troquei as jeans por umas calças de seda mais leves. Depois, troquei de saco de mão e voltei a olhar-me no espelho. Que força estranha me impelia a fazer o que aparentemente não queria ou não me apetecia. Mas uma vontade maior do que a minha apelava agora a todo o meu ser, numa súbita necessidade de resgatar a minha própria identidade. Eu queria viver e ser feliz e algo me travava. A minha vontade habitual estava bloqueada. Algo faltava e algo falhava em mim.

 

Espelho meu, espelho meu... não sabia para que me tinha dado a todo aquele trabalho. É verdade que estava bem, bastante bem até. As olheiras tinham desaparecido como que por magia. E não fora só por disfarce mas porque, enquanto me pintava, me distraía. Há criatividade nisso e eu gosto. Depois, logo os meus olhos ficaram com outra vida e ao ver-me assim, percebi que era de novo eu que estava ali. Olhando para mim agora, assim, ninguém poderia dizer que estava deprimida. Ninguém. Nem eu mesma. A minha confiança e a minha auto-estima vieram ao de cima rapidamente. Porque não fazia aquilo todos os dias, como sempre fizera? Porque me tinha desleixado nos últimos meses, entregando-me a uma neurose aparentemente sem razão!?

 

A vida tem que ser aceite como é. As coisas vão, as coisas vêm; pessoas vão, pessoas vêm. As coisas às vezes melhoram, outras vezes pioram. É assim, sempre foi e sempre será. Porque se complica sempre tudo? "Aceitação" é o segredo para viver em paz e harmonia. Eu sabia tudo isso e nem percebia porque estava a repetir tudo aquilo que estava farta de saber. Mas no fundo continuava a perguntar a mim mesma para que me tinha dado a tanto trabalho. Estava bem demais, mas para quê? Não ia encontrar ninguém e muito menos falar com quem quer que fosse.

 

E quem poderia responder a isso? Porque não encontraria ninguém? As pessoas andam na rua, umas e outras. Porque não se daria algo de diferente? Já me tinha acontecido tanta coisa! Aliás, toda a minha vida tinha sido pautada por insólitos e coisas inéditas, as mais imprevisíveis e eram essas as que mais apreciava e as que mais me tinham marcado. Provavelmente nada aconteceria, além de me encontrar com o dentista, sentada na cadeira, enquanto ele me mandaria abrir a boca várias vezes. Mas o facto de desejar e de sonhar já era alguma coisa, já era um padrão diferente daquele que ultimamente ia na minha cabeça. Estava na altura de reparar mais nos outros do que em mim, o que seria uma boa terapia.

 

Saí de casa com mais de uma hora de antecedência porque não aguentava mais. A minha autoestima e confiança tinham retornado, mas a ansiedade continuava como antes. Estacionei o carro um pouquinho distante para não ter de pagar parquímetro e para me permitir andar um pouco a pé na beira do rio. Gosto muito de passear no Parque das Nações. Se pudesse era ali que morava.

 

Peguei num livro e no I Pad e aí fui eu, observando as pessoas, detectando o seu estado de espírito, lendo-lhes a mente, enfim, divagando ao sabor da percepção. Cada um na sua. Cada um, um mundo diferente. Olhava a ponte, os carros, vum... vum... vum... os desportistas andando e correndo, esfalfando-se... como os admirava, porque sempre achei aquilo um sacrifício. Andar de bicicleta, tudo bem, mas correr assim?

 

Já tinha andado quinze minutos. Andando e parando entrei numa zona de sombra por causa das árvores frondosas dos jardins do oriente, quando resolvi sentar-me um pouco e ficar. Havia uma ou outra pessoa, mas nada de mais. Olhei para o relógio e faltava, nada mais, nada menos, que uma hora. Ficaria bem ali, olhando o rio, observando o vôo das aves, curtindo a quase imperceptível aragem. Meditaria um pouco, também e então chegaria a hora do dentista.

 

Onde sentar? Num banco... não, na pedra que corre junto ao rio. Era importante o lugar que escolheria. Os caminhos não passam todos pelo mesmo sítio e o sítio onde eu me sentasse, com certeza decidiria os acontecimentos (ou não). Percebi que as minhas energias estavam no comando e a minha sensitividade me guiava fortemente porque, de repente, a minha voz interior dizia não, aí não. Até que apareceu uma zona que me impeliu e me guiou até lá. Fosse por que fosse, era ali que devia abancar e assim o fiz.

 

Olhei à direita, uma rapariga sentada uns metros mais adiante. À esquerda, uma outra e um pouco a seguir um casal. Atrás, quase ninguém passava. Estava-se bem. Olhei o rio, observei novamente o vôo das aves e fiquei no vazio. Estava sentada na pedra frente ao rio, com uma perna no chão e a outra em cima. Pus as coisas que trazia comigo ao lado e apertei o joelho contra o estômago. Depois troquei. Estiquei o pescoço, ajudando a coluna a alongar-se e a relaxar e deitei a cabeça para trás, ao mesmo tempo que observava a rama das árvores frondosas e frescas.

 

Alguém passou atrás de mim. Oh, queria lá saber. Não era ninguém que conhecesse, de certeza. Mas parou um pouco mais à frente, do meu lado esquerdo. Como quem não quer nada, olhei discretamente. Um indivíduo de bicicleta. Não interessava, mas percebi que ele tinha firmado a bicicleta contra o chão e se tinha afastado. Olhei mais uma vez, tão discretamente quanto  possível e vi-o tirar uma foto à bicicleta que estava carregada que nem um burro. Nunca tinha visto uma bicicleta tão carregada. Até saco cama ou algo semelhante ele levava. Devia vir de longe, pensei. Além disso estava equipado com todo o rigor dos pés à cabeça. Numa bicicleta... incrível!

 

Continuei no meu canto, tentando evadir-me. Mas então, senti o olhar dele na rapariga que estava quase ao pé da bicicleta e pensei que ia falar com ela. Depois, olhou em volta, atentamente, e desistiu do que quer que era, ou não. Senti o olhar dele em mim e fiquei um pouco incomodada. Que quereria ele? E de repente percebi que devia querer uma foto com ele ao pé da bicicleta. Veio na minha direcção e senti-me bastante desconfortável, sem saber o que fazer. Achei por bem ignorar. Mas ele baixou-se um pouco e perguntou-me algo que achei que não tinha entendido. Mas quando o repetiu em inglês, percebi que afinal sempre tinha entendido. É que, primeiro, falou em alemão e isso deixou-me na dúvida, e só depois em inglês. Não estava à espera que fosse  um alemão.

 

Dieter, pediu-me para lhe tirar uma foto ao pé da bicicleta e ensinou-me como o fazer, a partir do seu telemóvel. Ok, tirei uma e mais outra. Ele veio ter comigo e devolvi-lhe o telemóvel, que agradeceu. Perguntei-lhe de onde vinha. Seguem-se uma série de perguntas e respostas de parte a parte. Quinze minutos depois já falávamos um com o outro com grande entusiasmo e mais quinze minutos e já sabíamos muita coisa acerca um do outro. Entretanto, estava quase na hora de ir para o dentista e perguntei-lhe se ele queria deixar a bicicleta de lado e dar uma volta no meu carro. Expliquei-lhe que tinha uma consulta que não sabia quanto tempo teria que esperar. Ele disse que não tinha importância, que o hotel dele era ali mesmo e que aproveitaria para descansar. Trocámos os números de telefone para nos contactarmos e cada um foi à sua vida. A minha auto-estima continuava em alto e agora sentia-me rejuvenescida. Afinal valera a pena ter-me produzido. Agora as coisas começavam a fazer sentido. Em todo o caso tinha que ir para o dentista que podia levar horas para me atender e o nosso encontro poderia ficar comprometido em função disso ou até adiado "sine die" posto que, no dia seguinte, ele regressaria à Alemanha.

 

Chegada ao dentista mandaram-me sentar e esperar. Fui à casa de banho e sentei-me. Mal tinha acabado de me sentar veio uma assistente que me mandou entrar. Fiquei boquiaberta e estupefacta. Um dentista ia atender-me de imediato. Nem queria acreditar! O destino parecia estar a meu favor. O puzzle da vida encaixava-se naturalmente. Em meia hora estava a sair do dentista com o problema dos dentes resolvido e ainda por cima tinha pago uma ninharia, comparado com o balúrdio que eu achava que ia pagar. Sentia-me leve, mas com a adrenalina a chamar por mim de todas as formas. Estava livre para uma tarde que seria muito bem saboreada e nada desperdiçada.

 

Liguei para o Dieter que já estava pronto. Veio ao meu encontro no lugar em que tínhamos combinado e em dois minutos aí estava ele, novo em folha, sorridente, simpático, afável e ao mesmo tempo misterioso. Vestia uma t-shirt branca que realçava o azul dos olhos e o cabelo era claro com muitos brancos à mistura, mas podia dizer-se que estava muito bem para os seus cinquenta e dois anos. Fomos pela linha do Estoril e parámos numa esplanada ao ar livre sobre a praia. Estava um tempo muito agradável, um dia óptimo e aí ficámos, esquecidos do tempo, falando das nossas vidas. A vida pessoal, familiar e até o trabalho. De tudo nós conversámos.

 

Dieter, tinha vindo da Alemanha a pedalar até Portugal, carregando com ele apenas o estritamente necessário. Tinha sido uma aventura inesquecível, segundo ele mesmo e Portugal tinha sido uma descoberta muito agradável, com tudo o tinha para oferecer. Estava encantado com o nosso país. Dieter não se comunicava com a família desde que tinha saído de casa. Para o efeito, tinha aberto um blogue no qual postava tudo. Os sítios por onde passava, onde ficava, o que comia. Tirava fotos dos lugares, dos restaurantes, enfim, tudo estava no blogue que a família seguia com a curiosidade que o assunto merecia. Ficámos juntos até à noite e cerca das dez horas deixei-o no hotel e fui para casa, com as lembranças daquela inesperada tarde, que tanto fugia à minha rotina e que muito bem me fizera. O destino tinha preparado um encontro leve, que nos tinha dado muito prazer a ambos e eu estava grata à vida por isso.

 

O tempo passou e eu fui esquecendo o Dieter. Outras coisas vieram. Tínhamos trocado endereço de mails, mas eu deixaria que fosse ele a comunicar comigo, a dar sinal da sua chegada. E o tempo continuava a passar e eu já me tinha esquecido daquele agradável episódio. Já nem me lembrava mais dele.

 

Um dia à noite em que estava sentada a ver televisão, de repente, a minha atenção foi desviada por um breve flash que passou na minha mente, no qual, apenas aparecia a imagem do Dieter. Não sabia porquê. Estava atenta ao que estava a ver na tv e não estava a pensar em mais nada. Foi como se alguém tivesse falado nele, porque a minha atenção foi abruptamente cortada para entrar a imagem dele, que se foi no mesmo instante. Achei muito estranho e ao mesmo tempo pensei que ele nunca mais tinha dado notícias. No mesmo instante, o telemóvel dava sinal de chegada de mail. Um mail, pensei, é o Dieter! Só podia ser. Por isso aquele inesperado flash. Peguei no I Pad que estava mais perto de mim e abri a caixa de correio electrónico. Lá estava o mail acabadinho de chegar:


“Dear Lilly, on Monday, 30.Jun the airplane brought me back to Germany. I had some very good days in Lissabon and I specially enjoyed the few hours on Friday with you. It was a pitty, we didn't had more time for each other...”

 

A Internet é uma coisa fabulosa. O mail do Dieter atravessou vários países e percorreu parte da Europa vindo das mãos dele directamente para as minhas. Se pensarmos bem nisso, realmente, é um feito e tanto. Não é pouca coisa, não, de modo algum. Eu já não saberia viver sem Internet e muitos de nós ficariam completamente perdidos e até isolados. Mas a mente é um computador vivo. A mente humana ganha pontos. A verdade, é que, o momento em que ele carregou na tecla "enviar", foi o momento em que eu o vi. Aquele disparo da cabeça do dedo indicador - porque nesse preciso momento ele pensou em mim com toda a carga energética - accionou a recepção no meu cérebro, fazendo a imagem dele aparecer na minha mente. Apenas isso, esse poder de comunicação a que se chama "telepatia" e cujo percurso foi mais rápido do que a Internet. É praticamente instantâneo.

 

Para a telepatia só é necessário um "emissor" e um "receptor", nada mais. Não são necessários fios, maquinaria, nada.

 

O que está escrito no mail é secundário e eu ou qualquer um podia adivinhar. São apenas palavras de cortesia que traduzem um sentimento comum aos dois.  Achei até que não iria chegar mail nenhum, o que não teria a menor importância. Foi um encontro agradável, mas casual, sem antecedentes nem precedentes.

 

Se há uma coisa que tem que ser percebida pelos humanos é que a força do pensamento é mais forte do que o ser humano em si.  É algo que nos supera, apenas porque nos passa ao lado.  Quando tomarmos consciência dessa realidade, imediatamente teremos mais campo de acção e os nossos "super poderes" serão definitivamente desbloqueados. 

 

O ser humano tem tudo para ser muito mais do que é. Mas é limitado porque quer. Porque não acredita em si mesmo. Porque se fecha ao seu próprio potencial para recorrer a qualquer coisa que venha do exterior. Não importa o que é. É preciso é que venha de fora de si, porque não confia em si mesmo.

 

Fala-se tanto da passagem da terra para outra dimensão - a nova terra -, essa nova terra só terá lugar se nós mudarmos. Se continuarmos como somos, sem abrir as vias da informação que sempre existiram em nós, mas que estão adormecidas, bloqueadas, nunca assistiremos a essa nova era, nova terra, a tão desejada. O bloqueio permanecerá.

 

Até quando?