quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os livros do Paulo - 29


Há muitos anos atrás e, por curiosidade, fui a um Centro Espírita acompanhar uma amiga, que habitualmente lá ia. Não aconteceu nada, mas fiquei curiosa e logo me veio a tentação de saber o que era realmente o espiritismo, como funcionava, etc, etc, etc...

 

Não tencionava lá voltar, mas tinha que adquirir conhecimentos sobre o assunto. Era chegada a hora. Que fazer? Lá no centro tinha visto numa vitrina alguns livros em exposição e reparei que eram todos do mesmo autor: "Allan Kardec". Quis comprar um, mas não tinha orçamento para isso. Depois, os livros eram vários e eu não tinha realmente possibilidades de os adquirir.

 

Os dias foram passando sem que eu deixasse de pensar naquilo. Precisava de ter conhecimentos de raiz sobre o espiritismo. Talvez esse fosse o caminho para entender muitas das coisas que se passavam comigo.

 

Um dia, estava na fila do refeitório para o almoço e estava ao pé de mim o Paulo, que estudava psicologia. De repente, lembrei-me de lhe perguntar se ele sabia alguma coisa de espiritismo. Ele respondeu que não e nem acreditava nisso. Era assunto que não lhe dizia nada. Quis saber a razão da minha pergunta e qual o meu objectivo, ao que respondi com a verdade: que estava interessada em saber tudo o que fosse possível acerca do assunto. 

 

Com grande espanto meu, respondeu que, se era para mim, talvez pudesse resolver o problema. Fiquei entusiasmadíssima e perguntei como(?). Disse-me, então, que o seu falecido avô era espírita e tinha todos os livros de Allan Kardec, que estavam guardados no sótão da casa deles. Se eu realmente estava interessada, ele emprestar-mos-ia, com a condição de os devolver à procedência, logo que não precisasse mais deles. E porque era para mim, os confiava plenamente, sendo que, apesar de se tratar de um assunto que não lhe dizia nada, tinha muita estima nos livros por terem pertencido ao avô.

 

Entendi perfeitamente e garanti-lhe que teria todo o cuidado com eles, como se fossem meus, bem como lhos devolveria logo que fosse possível. Dito e feito. O acordo estava concluído. Uns dias depois o Paulo trazia-me um saco cheio de livros. Eu nem queria acreditar que tinha toda a colecção de Allan Kardec à minha disposição, sem ter gasto um tostão. Era um grande presente da vida.

 

Os livros eram muito velhos, muito usados, mas estavam intactos. Sentia-me eufórica e completamente preenchida, pensando nas horas de deliciosa leitura que eles me iriam proporcionar e o quanto eu iria aprender com toda aquela informação. Era uma delícia ter finalmente tudo aquilo ao meu alcance.

 

Comecei a olhar para eles com olhos de ver. Peguei-lhes, um por um. Vi título por título. Mas depois de tudo isto, deparei-me com um outro problema. E agora, como é que eu me havia de orientar? Por onde começar? Não podia ler aquilo à toa. As coisas deviam ter uma sequência! E saber qual seria o primeiro e o segundo e por aí fora? Ainda não tinha pensado nisso. Mas era uma questão pertinente que se punha. Guardei os livros todos no saco e fui dormir, a pensar em como resolver o assunto. Estava num beco sem saída. Para mim era muito importante a orientação de alguém. Mas quem? Os livros tinham vindo parar à minha mão, isso era certo e fora conseguido sem grande esforço. Fazia sentido que me viesse alguma informação sobre a ordem dos mesmos. Mas como? Como?...

 

No dia seguinte, todo o tempo pensei naquilo. Não me saía da cabeça que, a oportunidade de adquirir todo aquele conhecimento, estava mais complicada do que parecia. De regresso a casa, à hora do dia anterior e depois de ter encerrado toda a rotina diária, volto a pegar nos livros, um pouco desanimada e muito pensativa. Espalho-os em cima da minha cama e mais uma vez fico a olhar para eles, sem saber o que fazer. Decido então pegar num, à toa. Pego e olho capa e contracapa. Vejo o título. Decido que vou abrir, mas não sei exactamente para quê. Contudo, abro. De repente, exactamente no sítio onde abro, está uma folha de papel amarelada pelo tempo, com qualquer coisa escrita, numa caligrafia bem desenhada e portanto bem legível. O papel é tão velho que já nem tem cantos. Achei que não seria nada de importante, qualquer anotação que por acaso ali fora parar. Não importa. Vamos ver o que está escrito.


"Paulo, se um dia tiveres vontade de ler estes livros, deves lê-los pela ordem a seguir indicada (seguem-se os títulos pela ordem indicada, um por um). O teu avô que sempre te amará”.


Estava resolvida a questão. Eu podia simplesmente ter pegado num outro livro qualquer. Podia tê-los lido todos, por qualquer ordem e ter pegado naquele, em qualquer altura. Podia até ter sido o último e quando finalmente encontrasse as indicações de que tanto precisava, já elas não teriam servido para nada. Mas não foi nada disso que aconteceu. A intuição dizia-me que faria sentido uma sequência. Pegar no livro certo e abrir exactamente no sítio onde estava a indicação, era a chave do sucesso do caminho que, naquela altura da minha vida, tanto fazia sentido.


Feliz coincidência! Quando o avô do Paulo escreveu aquele manuscrito, conscientemente, ele não sabia, mas já o estava escrevendo para mim. Efectivamente, era a mim que ele se dirigia. A ele devo todos os meus conhecimentos sobre o Kardecismo e o quanto esse conhecimento foi importante, respondendo às minhas perguntas que não tinham resposta. Por isso, para ele, onde quer que esteja, o meu sincero e eterno agradecimento.

Quando queremos, queremos. E é aí que, passado, presente e futuro se unificam, igualando espaço e tempo, para dar resposta à nossa soberana vontade.

 

sábado, 24 de março de 2012

O anel - 28


Quando a minha mãe faleceu, entre outras coisas, foi-me dado um anel que teria sido o anel de noivado que o meu pai lhe oferecera. Tinha três pedras: dois rubis e uma safira. De uma grande simplicidade, mas muito bonito, eu adorava-o e recebera-o com muito carinho e ternura, sendo que raramente o tirava do dedo.

 

Um dia, o meu filho Henrique era ainda muito pequeno, tive que levá-lo à consulta de Pediatria. Não tinha transporte para lá e por qualquer razão estava sem carro, pelo que tivemos que andar um pouco a pé, descendo a rua, que nessa altura ainda não era alcatroada. Não era longe, mas para uma criança de quatro anos, o mesmo não se poderia dizer.

 

Era uma tarde de verão, pelo que estava quente, e lá fui eu, avenida abaixo, de mão dada com ele que, com a transpiração, às vezes perdia-lhe a mãozita. E lá voltava a agarrar a mãozinha dele, puxando um pouco mais, para chegar a horas à consulta. Por aí a baixo, foram vezes sem conta, que as nossas mãos dadas se perderam, por conta de tanto transpirarem.

 

Fomos e voltámos para casa e a páginas tantas, apercebi-me de que me faltava o anel. Fiquei aflita, olhando ao meu redor, a ver se o tinha deixado cair naquela altura, mas não o vi em lado nenhum. Posto isto, não tinha por onde procurá-lo, pois tinha a certeza de não o ter tirado para nada e ele estava no meu dedo, como de costume. Parei para pensar e rebobinar o filme, tendo chegado à conclusão de que, numa daquelas vezes em que perdi a mãozinha dele, o anel escorregara sem dar por isso. Era a única explicação plausível.

 

Pensava agora que, por aquela avenida abaixo, caído na terra clara e poeirenta, algures, estaria o anel da minha mãe. Onde teria sido? Que fazer? Eu podia percorrer de novo o caminho, mas seria o mesmo que encontrar uma agulha num palheiro. E quem poderia garantir que tivesse tido esse descaminho? Poderia ter sido de outra maneira!? A minha cabeça rodopiava aflita, porque eu não podia ter perdido aquele anel, tão importante que ele era para mim. Parecia que tinha perdido uma parte de mim e eu não estava inteira. E comecei a sentir uma grande tristeza, bem como um nefasto sentimento de culpa. Estava mal, horrivelmente mal. Sentia-me até merecedora de um castigo.

 

Nessa noite, quando me deitei, sem deixar de pensar no assunto, chorei, para me sentir um pouco aliviada e adormeci com a mágoa de ser certo não voltar a ter o meu tão precioso anel.

 

A noite passou. Quando acordei, era outra. O sono tinha-me sido francamente repousante e ilibara-me da carga emocional que pesava sobre mim. Tinha tido um sonho espectacular. Maravilhoso! Parecia real, tão forte tinha sido a sua sensação.

 

Eu entrava numa capela ou coisa que o valha. Ao fundo, um altar e uns bancos de madeira corridos como os das igrejas católicas. No centro desse altar, ornado de flores, estava uma imagem da Virgem, linda, tão linda que parecia real. Perante aquela maravilha, comecei a caminhar lentamente na sua direcção, com a intenção de me aproximar e lhe tocar. Ela irradiava luz e parecia que uma frescura ou um sopro de vida, passava por ela. E à medida que me aproximava, tornava-se ainda mais real, mais bonita, mais luminosa, mais pura e eu tinha que lhe tocar e ajoelhar aos seus pés e implorar que aliviasse o meu sofrimento. 

 

Mas eu ia andando e ela também e havia sempre uma distância entre nós, que eu não conseguia encurtar, por mais que andasse. E sempre com os olhos fixos nela, começo a ver que o rosto dela é o rosto da minha mãe. E quanto melhor a vejo, mais o rosto da minha mãe eu via, sorrindo docemente, enquanto ia transmitindo a sua mensagem. Queria dizer-me que o anel não tinha importância nenhuma e que não valia o meu sofrimento. Que tudo o que temos nesta vida é matéria perecível e que nada justificava o estado de tristeza em que eu me encontrava. Que o importante para ela era a minha felicidade, a minha alegria e que nenhum anel ou outra coisa qualquer, eram mais preciosos para ela, do que eu. Que ela me amava incondicionalmente e era tudo o que lhe importava.

 

E eu queria chegar até ela, tocar as suas vestes de luz e ela dizia que isso não podia acontecer. Que o nosso encontro não podia ser físico e que tinha ido até ali só para me devolver a paz de espírito. E as minhas lágrimas de felicidade rolavam pela cara abaixo, pedindo-lhe que não se fosse embora, que ficasse, que me levasse com ela, porque queria estar junto dela e ela só dizia que isso não podia ser de maneira nenhuma. Que ela tinha que partir, mas eu tinha que ficar bem, porque estava tudo bem. E sorrindo se foi.

 

Quando acordei, revi o "filme" e entendi a mensagem. Tinha entendido o sonho. Agradeci a Deus por aquela bênção tão grande e a partir daí, comecei a dar um valor diferente às coisas materiais. De facto, elas não me fazem tanta falta assim. Aquele anel ensinou-me uma das maiores lições da vida e esse foi o real valor que ele representou para mim. Sem dúvida.

 

A morte não é o fim. Quem sabe, o princípio…


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O rapaz do avião - 27


Levantei-me para ir à casa de banho e quando voltei fiquei presa no corredor, porque as hospedeiras de bordo andavam nas vendas e, com o carrinho, impediam a passagem. Apoiei-me na cadeira que estava à minha esquerda, enquanto esperava para passar e reparei que estava sentado um rapaz novo que, pela conversa, pertencia a um grupo de estudantes em viagem de finalistas dos EAU. Já os tinha ouvido falar uns com os outros, porque se levantavam constantemente e trocavam de lugares entre si e percebi que também iam de férias para o Dubai.

De repente, enquanto aguardava para poder passar, reparo que o rapaz da cadeira onde eu estava apoiada, tinha as mãos sobre as pernas, uma ao lado da outra, com as palmas abertas e viradas para cima. Mesmo sem querer, olhei e, rapidamente, fiz uma leitura das mãos dele, que me deixou completamente em alerta. O rapaz era novo e eu não lhe via a cara, porque estava atrás da cadeira, mas teria a mesma idade dos outros, que rondavam, em média, os vinte, vinte e um anos, e as mãos dele tinham um traçado completamente anormal. Era muito mau. 

Concentrei-me para ver melhor, mas aquilo era o que se poderia chamar "falta de sorte". Algo muito terrível o perseguia pela vida fora. Algo contra o qual ele não podia fazer nada. Não sei se seria um acidente, uma doença, mas o percurso de vida dele estava completamente distorcido. Àquela distância não era possível entrar em pormenores, mas o traçado mostrava claramente que seria vítima de algo que lhe marcava a vida negativamente e sem volta.

Olhei para os outros e achei-os todos normais, cheios de vida, rapazes e raparigas saudáveis e eu não sabia como encarar aquilo. Só pensava comigo mesma "coitado, coitado!" Porque é que eu tinha que passar ali naquele momento? Podia ter passado e não ter visto e estaria muito mais feliz. Mas vi e não podia fazer nada. Ou podia? Seria correcto falar com ele para dizer o quê? Por exemplo: "olhe, tenha atenção a um acidente ou a qualquer coisa que põe a sua a saúde em risco e muda a sua vida para sempre"... iam rir-se de mim(!). Tão certo como certo. O que é que eu podia fazer!? Ainda iria a tempo? Mudaria alguma coisa? Qual seria a reacção dele, depois de saber aquilo? Como é que ficaria, se acreditasse que seria vítima de uma fatalidade? Era terrível! E ia de férias todo tranquilo e satisfeito!... E, ainda, pensar que eu era portadora de um segredo tão horrendo!? Nada daquilo era agradável e eu não queria estar naquele lugar. Como é que eu poderia saber se se confirmariam as minhas suspeitas? Nunca mais o veria. Mas também podia estar enganada e isso seria óptimo. Podia ser, claro.

Entretanto, tentava olhar as mãos dos outros, não sabendo bem porquê, mas talvez para confirmar que estava tudo bem e que, com aquele seria uma excepção, o que não aconteceu, porque eles não paravam de falar, gesticular e as mãos não estavam com as palmas visíveis. Foi então que me ocorreu uma coisa. Porque é que eu via as palmas dele sempre viradas para cima? Não era muito confortável aquela posição!? Ao mesmo tempo, a hospedeira de bordo passou e eu tive o caminho aberto. Ao passar, olho de frente para o rapaz. Tal foi o meu espanto. Ele era todo estropiado, coitado. Por isso, as palmas das mãos estavam viradas para cima de forma anormal. O que era, já era. Não me tinha enganado, nem havia nada que se pudesse fazer. Estava escrito. Todo o sistema nervoso estava afectado só que, por detrás do banco, não se percebia. Lamentavelmente, não me tinha enganado e não precisava nem de um minuto mais para o confirmar. 

O destino tinha sido implacável e estava rigorosamente cumprido, sem se fazer esperar.

 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A cigana - 26


À porta do Centro Comercial havia sempre ciganos a vender roupa. Um dia, à hora do almoço, passando por eles, veio atrás de mim uma rapariga cigana, muito jovem, que me queria ler a sina. Não lhe liguei importância, mas ela veio atrás de mim, e com a insistência que lhes é característica, tanto me chateou que cedi, na expectativa de aproveitar a oportunidade para a confrontar com outra realidade. Então, ela pegou na minha mão e na lenga-lenga habitual, começou a contar a história que contam a toda a gente, achando que me impressionava.

Olhei para ela e pedi-lhe que parasse com aquele discurso mal "parido", fazendo-a perceber que eu sabia que aquele discurso era muito bem estudado e era sempre o mesmo, passando de geração em geração, sem ter nada de consistente. Primeiro, ela reagiu, tentando amedrontar-me e querendo o lucro dela. Quando percebeu que isso não ia acontecer e que eu não estava nem aí para o que ela estava a contar, peguei na mão dela e disse-lhe que era eu que lhe ia ler a mão. 

Ela olhou para mim, desconfiada, e disse-me que não podia ser, porque eu não era cigana. Comecei a rir e disse-lhe que ler a mão não era um privilégio da etnia dela, mas um conhecimento que qualquer pessoa poderia adquirir. Ela era uma garota de dezoito anos e debaixo daquele disfarce todo, havia uma evidente inocência, própria da sua idade. E até senti uma certa empatia com aquela jovem cigana, pelo que decidi ter um pouco de paciência.

Voltando ao assunto, veio outra, mais velha, juntar-se a ela, com um ar todo empertigado, a meter o nariz onde não era chamada. Ignorei-a e pedi à jovem que me desse as mãos dela, mas ela não queria. Então, disse-lhe que se ela queria tanto ler as minhas mãos, porque não poderia eu ler as dela!? Ficou em silêncio, a pensar e sem perder mais tempo, peguei-lhe nas mãos e num primeiro olhar, saltou à vista uma coisa e perguntei: És casada? Sim, respondeu ela. O teu marido é muito mais velho do que tu. Sim, voltou a responder. Mas como é que sabe? Ignorei e continuei. Porque te casaste com ele? Não respondeu. Impuseram-te este casamento, disse eu.

A outra, a mais velha, olhou de lado para ela e deu-lhe um toque com o cotovelo. Entretanto, ela olhava para mim, atónita, sem querer acreditar no que ouvia e perguntou como era possível eu saber aquilo. Ignorei e continuei. Temos aqui um problema. As duas ouviam-me, consternadas, sem abrirem a boca e com os olhos esbugalhados. Vocês são obrigadas a casar com gente da vossa etnia, não é? Ela fez que sim com a cabeça. Eu sei, respondi, mas o teu rumo vai mudar. Vais-te apaixonar por alguém da tua idade e que não é cigano. Alguém que vai mudar completamente o teu caminho. Vai tirar-te da tua gente e vais seguir o caminho dele, de tua livre e inteira vontade. Está escrito e nada vai mudar isso. Vais crescer interiormente e vais tornar-te numa outra pessoa e abandonar o teu clã.

Ai(!)... murmurava ela. A outra fazia-lhe uns sinais com a cabeça e com o olhar e eu percebi que a coisa já estava no ar. Vendo que ela estava um pouco assustada, disse-lhe, não tenhas medo, essa pessoa vai ajudar-te e vai tudo correr bem. Além disso, és livre e tens direito a escolher a tua vida.

Ela fechou as mãos e guardou-as, dando a sensação de que, conforme eu li, outra pessoa podia ler e aquilo era um segredo fechado a sete chaves, que ninguém poderia suspeitar, sob pena de ser sacrificada a maus tratos e sabe-se lá que mais.

A outra imediatamente estendeu as mãos, pedindo para eu ver também as dela. Disse-lhe que não, que não era cigana. Vocês não dizem que só vocês o podem fazer? Então, tenho cara de cigana? Não, dizia ela, mas a senhora sabe ver, pode-me dizer a mim também? Não, respondi e fui-me embora, só que elas vinham insistentemente atrás de mim e como eu as ignorava, a mais velha perguntou, onde é que a senhora trabalha? Entendi. Ela pensou que a leitura das mãos era a minha vida, o meu ganha-pão e portanto queria saber onde era, para fazer uma consulta. Fiz-lhe sinal que não e continuei. Tive que ser firme para elas me deixarem, mas não foi fácil.

No outro dia, à hora do almoço, quando saí da RTP, ao passar pelo mesmo sítio, que era inevitável, já nem me lembrava daquela história, vejo duas raparigas correrem na minha direcção e percebo que são as mesmas. Senhora, senhora, gritavam e corriam para mim, com toda a gente que passava a olhar e a pensar o que é que elas poderiam querer comigo. Senti-me confrangida e tive que fugir. Nos dias seguintes, quando saía, já ia prevenida e apalpava muito bem o terreno, para ver se não havia o perigo de ser apanhada por elas.

É verdade que por aquela elas não esperavam. Mas eu também não. Aconteceu naturalmente.

 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Avó e neto - 25


Eu senti muito a falta da minha mãe, desde que ela faleceu, quando eu tinha apenas dez anos. Só quem passa por isso é que pode avaliar e lidei muito mal com essa situação. Fiquei perdida, despedaçada de todas as maneiras e feitos. Pela vida fora, fui tentando apanhar os cacos que ficaram de mim e aprendendo a juntar cada pedaço para me refazer. Foi muito difícil. Em tudo eu sentia a falta, o apoio, o carinho dessa mãe que, com trinta e dois anos, tinha partido. Mas sobrevivi. 

Quando o meu filho nasceu, mais uma vez e tanto, senti a falta, a necessidade duma mãe que me orientasse e me transmitisse confiança com a sua experiência e que estivesse por perto de mim, como naturalmente estaria se estivesse viva, para me ajudar a cuidar do meu filho, o que teria sido uma grande alegria para ela. Mas enfim, a vida é como é, e é preciso aceitar. Mas sempre que eu estava em apuros e em situações complicadas pensava nela e isso reconfortava-me, acreditando que ela faria o impossível para protegê-lo e de alguma maneira me ajudar na missão mais importante da minha vida, sem dúvida alguma.

Desde que o Henrique nasceu, uma das coisas que sempre achei fundamental na educação dele, foi a "disciplina". Assim, ele foi crescendo com horas para tudo. É claro que a disciplina que eu introduzia nos hábitos dele, começava por mim, caso contrário, nem saberia como aplicá-la. A hora de dormir tinha a sua hora que ele, aliás, muito bem sabia e quando estava na hora, ele mesmo dava o sinal. 

Contudo, um dia, aconteceu que chegou a hora de ir para a cama mas não foi, entretido que estava com uma construção de lego pelo que, a certa altura, tive que intervir. Ele dizia que já ia, já ia, mas o já, não se concretizava e aos poucos comecei a enervar-me, a ralhar com ele, que acabou por ir para a cama contrariado e a chorar. Deve ter sido a única vez em que tal aconteceu ou talvez tenham havido outras, que não tiveram tanta importância. Esta ficou marcada porque foi um acontecimento muito, muito especial. Daquelas coisas que, em verdade, nem se deviam contar, porque não podemos esperar que os outros entendam e muito menos que acreditem. E mesmo que acreditem, é impossível relatar, de modo a passar exactamente o que aconteceu. Não há palavras que possam descrever aquilo que não se vê e não se ouve. A alma de cada um é única e, como um cartão de crédito, pessoal e intransmissível. 

Dadas as circunstâncias, consenti que ele ficasse um pouco mais tempo acordado, já na cama, para que se acalmasse e fui para a sala, embora irritada por me ter aborrecido com ele e o ter feito chorar. Precisava de ter mais paciência e às vezes não tinha. Também me queria deitar, porque estava cansada e só depois dele, é que eu conseguia dormir. De modo que o melhor era dar-lhe mais um tempinho para sossegar.

Passados alguns minutos, achei que devia ver se já estava a dormir. Levantei-me e estranhamente comecei a ouvir a voz dele. Dava para perceber que toda a agitação tinha desaparecido. Estava muito calmo, como se nada tivesse acontecido e falava quase em monossílabos, frases curtinhas, como se estivesse a falar com alguém, a responder a alguém. Há crianças que falam sozinhas e algumas têm uma espécie de amigo imaginário, mas o Henrique nunca foi disso. Mas que estava a falar, estava, e que estava sozinho, era certo, com a luz ainda acesa e o lego que continuava entre mãos. A minha irritação persistia, ainda que eu não tivesse muita consciência disso, e senti uma fúria por ele continuar acordado. 

Quando cheguei à porta, senti um impulso que me repelia e não me deixava transpor a entrada. Uma estranha força entrepunha-se e barrava-me a entrada. Ao mesmo tempo, a luz que inundava o quarto não era a luz do candeeiro que eu bem conhecia e o Henrique estava sentado na cama, muito calminho, muito tranquilo e continuava a falar como se alguém estivesse ao lado dele. Percebi imediatamente que algo "estranho" se estava a passar.  

Senti a calma que reinava ali e percebi que era incompatível com o meu estado de espírito, cuja vibração que me impediu de entrar. Inclinada sobre ele, a figura etérea da minha mãe, emanava uma aura absolutamente deslumbrante, que envolvia o Henrique, o quarto e decididamente não tinha nada a ver com a luz do candeeiro. O rosto dela estava impresso no éter, assim como o vulto, que se esbatia em finíssimas camadas de luz. Todos os contornos estavam lá, definidos na indefinição que se perdia num fundo de luz infinita. Era o retrato da pureza. E a sua mão branca, fina e delicada, passava quase rente ao cabelo curtinho e louro do Henrique, contornando a cabeça desde a testa até à nuca, sem lhe tocar, num gesto de uma ternura indescritível, de paz e tranquilidade, aconchego de avó, que não podendo estar em presença física, desceu à terra, em espírito, para apaziguar um neto muito, muito querido, que amava e protegia acima de todas as coisas. 

A sua expressão de enlevo mostrava uma felicidade que não era deste mundo e o Henrique, inocente e inconscientemente, absorvia e desfrutava daquela bênção sagrada. Era um quadro de um fascínio delirante, onde o amor estava patente, desenhado e materializado. Uma coisa deslumbrante! Uma coisa do céu, do céu azul, onde vive a luz da eternidade. Era um encontro maravilhoso, de uma avó que já cá não estando, continuava perto, deixando a marca e a mensagem do amor incondicional. Com efeito, era bom que todos soubéssemos que, em qualquer plano ou dimensão, a vida supera a morte. 

Aquele não era o meu lugar naquele momento e eu não queria "conspurcar" a beleza daquela energia que nos presenteava. Mas o meu coração chorou lágrimas de alegria.  

Voltei para onde estava e aguardei. Agradeci a Deus aquela coisa maravilhosa e fiquei sentada no meu sofá da sala, deixando o pensando fluir, fluir, pleno daquele bem-estar. Mais tarde voltei ao quarto, devagarinho, pé ante pé. A luz continuava acesa e o ambiente tinha voltado ao normal. Ela viera em nosso auxílio. Cumprida a sua tarefa de tranquilizar o neto e fazê-lo adormecer - fazer aquilo que eu não conseguira fazer - partira, pois há muito que não pertencia a este mundo. Apaguei a luz e o Henrique respirava calmamente, num sono tranquilo e inocente, como o de uma criança feliz e abençoada. 

A partir daí, eu sabia que ela estaria sempre por perto, não só do Henrique, como dos outros netos, o que me deixou muito, mas muito mais feliz e imensamente grata à vida, por se estar sempre a revelar e sempre a manifestar da maneira mais surpreendentemente possível.

 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Energia - 24


Um dia, fim de semana, sábado à tarde, aproveitei para descansar. Estendi-me no sofá e adormeci. Devo ter dormido cerca de uma hora ou um pouco mais. Quando acordei tive uma estranha sensação. 

Tinha acordado, porque os meus olhos abriram e a minha consciência fez-se presente. Vi o meu corpo, mas não tive consciência dele. Do sofá onde estava, via-se a porta da cozinha, que estava aberta, pelo que o meu olhar foi atraído para o seu interior, onde uma espécie de duplo do meu corpo físico estava lá, junto do lava louça, a fazer qualquer coisa. 

Como eu estava consciente, imediatamente me reconheci ali, fisicamente, naquele lugar, pensando com os meus botões: "aquela sou eu, como é possível estar em dois sítios ao mesmo tempo?... Não estou inteira… e como posso estar ali, a fazer não sei o quê, se estou aqui deitada!?"...

Percorri o meu corpo de cima abaixo, com o olhar, e estava lá tudo mas, de facto, sentia um vazio, uma leveza, como se algo de mim estivesse ainda ausente. Ao tomar consciência desse vazio, percebi que o duplo etéreo que eu estava a ver era o vazio que eu sentia. 

Houve um delay, ou seja, um desfasamento de tempo, entre a chegada de duas energias diferentes, para um acordar completo e normal. A consciência despertou, mas o espírito continuou a vaguear, não obedecendo ao físico. 

Face à minha tomada de consciência, o meu corpo energético começou a rodopiar de cima para baixo, como um vento, destruindo aquela aparente forma física que era a minha. Rodopiou, rodopiou em torno do seu próprio eixo, formando uma espiral de energia, que veio direita ao meu corpo físico e colou. Nesse preciso momento em que se diluiu por completo no meu corpo físico, tive a sensação de que se tinha ligado a ficha à corrente eléctrica e eu estava novamente inteira. 

Tudo isto se passou em fracções de segundo. Nunca me tinha acontecido nada igual e nunca mais voltou a acontecer. Foi apenas curioso.

Em teoria, eu sabia que, quando dormimos, o nosso espírito sai do corpo para ir aos lugares que lhe apetece, uma vez que, livre da matéria, não está condicionado ao tempo nem à distância, regressando após o despertar. 

E não é que eu duvidasse disso, mas nesse momento tive a prova de que realmente temos muito mais do que um corpo físico e por causa disso, muitas coisas acontecem que desconhecemos completamente.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O cão branco - 23


Era o final de uma tarde de Verão. Fui dar um passei com o Riaz nos arredores da minha casa, numa zona que, nessa altura, ainda não era urbanizada. Era campo e mato. Ao cabo de apenas alguns metros em que passeávamos descontraidamente para apanhar um pouco de sol e de ar, avistámos ao longe, entre quatrocentos a quinhentos metros, saído da mata dos eucaliptos, aquilo que me pareceu ser um pastor alemão, porque não conheço especialmente bem as raças dos cães. 

Quando olho e vejo aquele cão todo branco, imponente, saindo por entre as árvores, aparentemente na nossa direcção, fiquei imediatamente à procura do rasto de um possível dono, o que me daria bastante mais tranquilidade. E bem observado, um cão daqueles, com tão bom aspecto, bem tratado, bem alimentado, tinha que ter dono, mas onde andaria ele? Como é que salta da mata um cão daqueles sozinho?! 

Eu tenho um certo receio que consigo controlar e não demonstrar, e a coisa vai. Mas o Riaz... eu sabia que para ele era o diabo. Os muçulmanos têm uma estranha superstição com certos animais que não podem tocar porque, dizem eles, tira a potência sexual aos homens. E a verdade é que por causa dessa superstição ele e os amigos sempre se desviavam de cães e outros animais como cabras, por exemplo, e outros.  

De modo que, quando vi o cão lançado a toda a velocidade, galopando como se fosse um cavalo sem parar, sempre na nossa direcção, fiquei perplexa, não tanto por mim, mas por ele que, tal como eu já esperava, logo deu sinal. Ficou numa grande aflição, lembrando que não podia encarar o cão. Depois ele vinha perto de nós e ele nem queria pensar em tocar ou ser tocado por ele. Era a sua ruína(?!). Que maluquice!...

Fiquei encurralada. Não adiantava fazê-lo raciocinar. Já tínhamos falado nisso várias vezes e aquilo estava enraizado demais para ser alterado assim. Tinha que ser muito mais fundo e aquele não era o momento, de certeza absoluta, e nem havia tempo de pensar nisso. Portanto, a única coisa a fazer era tentar controlá-lo para eu também não ir atrás da onda dele, não no aspecto da superstição, mas na questão de ficarmos os dois tolhidos de medo e descontrolarmos o animal com o nosso próprio medo. 

O facto é que tinha que pensar rapidamente, porquanto tudo isto se estava a passar em segundos e o Riaz já estava todo baralhado e aflito, a esconder-se por trás de mim e a agarrar-me como se fosse uma criança. Era um absurdo um homem daquele tamanho, agarrado a mim por todos os lados por causa de um cão!? Ao mesmo tempo, eu olhava em volta, com medo do ridículo. Não havia ninguém o que, por um lado era mau, podia chamar a atenção do cão e desistir de nós, mas por outro lado, não havia testemunhas oculares para nos sentirmos envergonhados pelo caricato da situação. 

E o cão não parava de correr para nós e nem sombra de dono. A situação começou a ficar caótica e era absolutamente necessário interferir, fazer alguma coisa, pôr um ponto final naquilo, tomar o comando da situação, no que tinha que contar exclusivamente comigo. Não havia alternativa. Mas, quando não nos resta mais nada, ainda há um último recurso, provavelmente o mais poderoso de todos: a telepatia. 

Afastei o Riaz e virei-me na direcção do cão. Dei dois passos em frente e rapidamente ordenei-lhe que parasse imediatamente: "Pára"! E não é que ele parou!? Com o mesmo vigor com que vinha, apontei a minha arma secreta, a telepatia, e formulei a ordem de "stop". A mais ou menos cem metros de nós, o animal meteu travões a fundo, de tal modo, que até derrapou na terra. Abanou o rabo e depois manteve-se quieto, parado, completamente imóvel, que parecia uma estátua. Foi impressionante!

O Riaz respirou fundo e ficou a olhar para mim, como que apercebendo-se de uma pressuposta comunicação entre mim e o cão, mas sem compreender racionalmente o que tinha acontecido. Ele sentiu que o cão parou quando eu me virei para ele e fiquei em silêncio, de olhar fixo nele, depois de o ter afastado de mim. Percebeu que houve uma estranha interferência entre mim e o cão, que lhe escapou por completo. Contudo, o que quer que fosse, não era relevante, porque tudo o que ele queria era ver o animal afastado dele. O resto não lhe interessava. E de uma forma "mágica" - porque ele não tinha entendido - eu tinha conseguido isso. 

Como já disse, tudo isto se passou em segundos. E logo depois de o cão ter parado e ficado imóvel, apareceu também, por entre a mata dos eucaliptos, um homem de aspecto possante, tal qual o cão, que caminhava a passos largos, com um chicote na mão, pelo que pensei e estava certa, finalmente o dono do cão que aparece.  

Mas o homem não gostou muito de ver o cão parado, sem se mexer. Todavia, à distância a que nós estávamos dele, era impossível termos-lhe tocado. Percebi que o homem ficou intrigado com a reacção do seu cão, do qual ele devia ter muito orgulho pela raça em si e pelo porte que, naturalmente, intimidaria qualquer um, ainda que, acredito, fosse inofensivo ou agressivo sem motivo. Mas percebi que, na qualidade de dono, estranhou a atitude do seu cão, que chamou de imediato, fazendo voltar a si.  

O Riaz estava branco do susto e do desfecho inesperado, que lhe foi muito favorável, querendo ir embora dali o mais depressa possível. 

Eu acredito que a telepatia funciona e sirvo-me dela sempre que se faz necessário. Para mim é uma coisa extraordinária que a nossa condição humana nos oferece e que aceito como uma bênção enorme. E só serei privilegiada se os outros a não usarem também porque, conforme já disse outras vezes, ela é acessível a todos. 

Os nossos limites como humanos ainda não estão definidos, nem nunca estarão. Não somos um produto acabado, de forma alguma. Estamos sempre a caminho do progresso e da evolução/transformação. Temos fronteiras bem marcadas que sabemos bem demais que não podemos ultrapassar, pois elas contribuem para a destruição: as drogas que viciam e nos roubam a liberdade. Mas as fronteiras que temos que ultrapassar para crescermos em todos os sentidos e em todas as direcções, essas não podemos permitir que continuem a limitar as nossas vidas, porque são a nossa derradeira oportunidade de salvarmos a humanidade, de nos salvarmos a nós próprios. Essas esperam por nós a toda a hora, a qualquer momento, em qualquer circunstância, porque essas são infinitas.