terça-feira, 27 de março de 2018

A máquina fotográfica - 69



Era uma vez uma máquina fotográfica… que era para ser um presente de alguém muito especial. Alguém com quem vivi sete meses, com quem planeei ficar junto o resto da minha vida, etc…, etc..., etc… e que, ao fim de sete meses, em vésperas de fazermos a viagem que tínhamos idealizado para a nossa de lua de mel, que marcaria também o nosso casamento, adoeceu repentinamente e, em menos de uma semana, partiu para não mais voltar.

 

Seis anos depois deste triste e infeliz acontecimento, consigo falar perfeitamente sobre o assunto, porém, na altura e durante bastante tempo, foi difícil. Foi uma tragédia e tanto na minha vida. Mais uma a somar a outras.

 

Sempre gostei de fotografar e tinha uma máquina pequena que cabia em qualquer mala de senhora. O Álvaro dizia que eu levava jeito para a coisa e gostava que eu fizesse um curso para aprender e melhorar. Ao mesmo tempo, como era engenheiro na Sony, mandou vir uma máquina profissional ou quase, para me oferecer. Máquina essa que eu não cheguei a ver, porque estava guardada no gabinete dele, na Sony, e que seria para me dar na hora certa. Nem questionei nada, posto que na cabeça dele estava tudo sempre muito bem pensado, planeado e nada falhava. Cabia-me apenas esperar que ele decidisse a tal “hora certa”.

 

Todavia, eu sabia qual era a máquina e quais as características dela, porque ele tinha dado as dicas. Não era segredo. Ele apenas queria esperar uma altura qualquer especial. E aparentemente nada disto deu certo, uma vez que ele partiu repentinamente e, portanto, aparentemente - repito -, tudo foi para o espaço. Tudo. Não restou nada, a não ser as lembranças daquilo que foi muito bom. E com as voltas que o destino nos trocou, nunca mais pensei na máquina. Tinha tantas outras coisas com que ocupar o meu pensamento! Com a partida inesperada dele, fiquei meses à deriva, pairando, sem conseguir reagir, à espera que aquela dor me desse tréguas. E o tempo foi passando. É verdade, o tempo foi passando e levando aquela dor, ao mesmo tempo que, conforme podia, ia apanhando todos os cacos do que tinha restado de mim e um por um, fui colando no lugar certo, até me refazer completamente.

 

Um dia, pegando na minha velha máquina, veio-me à memória a tal especial que ele tinha mandado vir para mim. Até isso eu tinha perdido, muito embora esse fosse o menor de todos os males. Mas ele queria tanto que eu tivesse uma máquina boa e esse prazer não lhe tinha sido concedido. Mas eu haveria de ter uma máquina decente, quanto mais não fosse, em sua memória. Haveria de comprar uma e pensar que tinha sido presente dele na mesma, porque a intenção é que contava. Pois bem, era isso que eu faria.

 

Nesse sentido, liguei para um dos colegas dele que eu conhecia bem e falei da minha intenção de adquirir uma máquina boa para melhorar a qualidade do meu registo fotográfico. É claro que nada falei sobre a outra que ele tinha mandado vir, porque iria parecer que eu a estava a pedir e isso não fazia muito sentido. Perguntou exactamente em que é que eu estava a pensar e respondi, com toda a franqueza, que não fazia ideia. Ele disse que falaria com outro colega que estava mais dentro do assunto e decidiriam o que fosse melhor para mim. Pedi-lhe que tivesse em conta o preço, só porque não queria uma coisa excessivamente cara e assim ficou combinado que resolveriam o assunto por mim. Finalmente, eu ia ter uma máquina a sério, conforme o Álvaro queria. Não sabia quanto tempo poderia demorar, mas ela viria, era só esperar e também tinha a certeza de que o que viesse era bom, sem ter de me preocupar se tinha feito a escolha certa. Também era certo que não seria a mesma, mas a intenção é que contava.

 

O tempo passou. Passa sempre. Felizmente, para o bom e para o mau. E então, um belo dia, o Luís telefonou-me para saber se eu podia ir ter com ele à RTP, porque tinha que lá ir com o colega a quem tinha pedido ajuda para a máquina e já a tinham. Ah, fiquei toda contente! E assim marcámos encontro no gabinete do meu antigo chefe, porque, embora eu já estivesse reformada, mantinha ligação com ele. Por lá estive toda a tarde, até que eles apareceram com um saco da Sony.

 

O Luís era um amigo muito especial. Foi ele que me apresentou o Álvaro e foi ele que esteve por dentro e a par de tudo, aquando do problema de saúde que o levou sem volta. 

 

Eles chegaram sorridentes, cumprimentámo-nos todos, fizemos perguntas uns aos outros sobre como ia a saúde, a vida em geral e finalmente deram-me um saco grande dizendo que era a máquina. Fiquei muito feliz e comecei a abrir a embalagem para ver a máquina. Era uma máquina a sério, que metia respeito. Para quem tinha uma que cabia em qualquer lado, não estava nada mal. Eu sabia que eles resolveriam o assunto. Mas ao olhar mais atentamente, de repente, pensei que aquilo deveria custar um balúrdio e talvez fosse mais do que eu podia pagar. Havíamos de ver, porque talvez pudesse pagar em duas vezes, por exemplo. Não me preocupei muito porque confiava neles e sabia que eles confiavam em mim.

 

O Luís pediu ao colega e amigo para me dar umas dicas e assim ele começou a dar umas explicações sobre o funcionamento: para que serve isto e para que serve aquilo e por aí fora. Eu estava radiante. Finalmente tinha uma câmara fotográfica a sério. O Álvaro ficaria feliz. E eu já me via de máquina em punho, inventando fotos por todo o lado. Agora tinha que justificar semelhante aquisição, mas como eu gostava muito de fotografar, não seria nada difícil.

 

E já tinha quase um curso ali, de tanta troca de impressões com o colega do Luís. Ele também tinha uma igual e estava muito satisfeito com ela. Se ele estava satisfeito, era certo que eu também estaria e aos poucos havia de me familiarizar, para tirar o máximo de rendimento.

 

Estava feito, mas ainda não sabia quanto aquela brincadeira me ia custar. Finalmente e um pouco apreensiva, perguntei quanto era a minha dívida, porque estava um pouco ansiosa para saber. E aí os dois responderam que não era nada. Nada? Como podia ser? É oferta da Sony para ti, responderam eles. Mas… oferta porquê? Eu só tinha pedido a eles porque não ia saber comprar uma máquina boa, adequada à minha pessoa. Mas eles, sorrindo, disseram que era uma oferta merecida. Merecida? Então porquê, perguntei novamente. Ah, porque tu mereces, responderam eles. Bem, fiquei um pouco sem jeito, pensando, eu até aceitava que eles me fizessem um desconto qualquer, mas daí a oferecerem-me a máquina, realmente, com essa não contava. E como perceberam o meu constrangimento, reforçaram que eu merecia, que não estavam a fazer nada de mais, enfim, muito simpático da parte deles. Para finalizar tudo sobre a máquina, o amigo do Luís, referiu ainda, que eu só teria que comprar um cartão de memória e uma tampa, porque a máquina não tinha. Respondi que sim, sem qualquer problema. Agradeci e voltei a agradecer, até um pouco comovida com a atitude deles e tudo ficou por aí mesmo.

 

À noite, quando ia para me deitar, comecei a pensar no assunto e então a ficha caiu, isto é, fez-se luz. A máquina correspondia à descrição da que o Álvaro tinha mandado vir para mim. Talvez ele até tivesse pedido ao colega uma opinião mais avalizada, tal qual eu fiz. A máquina estava lá guardada no gabinete dele. Quando ele faleceu, certamente fizeram uma limpeza e encontraram a máquina. O amigo do Luís, uma vez que a máquina era igual, ficou com o cartão, que dá sempre jeito e provavelmente com a tampa que é uma coisa também susceptível de se perder com facilidade. No entanto, a máquina ficou lá guardada, porque não tinha registo para ser vendida ao público. Quando eu pedi uma, eles devem-se ter lembrado daquela e a máquina era a que o Álvaro tinha mandado vir para mim. Provavelmente eles não sabiam, mas eu sabia que, apesar de vir das mãos deles, o presente do Álvaro acabava finalmente de chegar às minhas mãos. 

 

E hoje eu posso dizer, sem dúvida alguma, que foi mais um presente dele, de entre tantos, mesmo depois de ter partido e por mais que doa, na “hora certa”(!) …

 

 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O oftalmologista - 68



Alguém me disse, depois de ter lido algumas das minhas histórias, que dou sentido à minha vida. Por acaso eu acho que é mais a vida que me dá o sentido, a orientação, sei lá… porque as coisas acontecem simplesmente, encaixando-se por si mesmas.

 

Eu tenho uma meia-irmã, filha do segundo casamento do meu falecido pai, com quem deixei de me comunicar, por conta das maluquices do meu cunhado, marido dela, que a obrigou a cortar relações com as irmãs. Foi terrível para para ambas, mas para não complicar ainda mais a vida dela, que ficou encurralada numa situação extremamente delicada, não tivemos outro remédio senão distanciarmo-nos. As escolhas são feitas e a responsabilidade cabe a quem as faz.

 

O tempo foi passando e as feridas sarando, sem nunca serem definitivamente curadas, mas o facto é que a vida continua. Passaram-se anos e a páginas tantas comecei a sentir uma grande saudade dela e das crianças que, entretanto, já estariam bem crescidas. Como estariam, como seria a vida deles? Lembro-me de que uma das minhas grandes preocupações era que ele não queria que as crianças fossem à escola(?) porque, dizia ele, os pretos batiam-lhes(?). E coisas destas eram difíceis de digerir, além de que um grande problema para a minha irmã.

 

Bem, então, um dia comecei a pensar neles com saudade e as preocupações começaram a voltar. O que fazer? Como saber deles, se já todos tinham falecido? O pai, a mãe, os tios… restavam os primos dela. Mas como encontrá-los? Por esta altura já eram homens… sabia-se lá por onde andavam?

 

Até que um dia, estando eu em casa de uma vizinha e amiga, onde vou com frequência passar um bocadinho de tempo, por acaso comentei que precisava de consultar um oftalmologista e logo ela me falou do dela, recomendando-o vivamente. É muito bom, muito bom mesmo. Nós todos gostamos muito dele, o Miguelito. Perguntei o nome: MR. Ao ouvi-la pronunciar o nome fui apanhada de surpresa e achei curioso, dizendo-lhe que sabia muito bem quem era, um primo/irmão da minha meia irmã.

 

Lembrava-me dele ainda garoto, brincando com o irmão e a minha irmã. Ela também achou engraçada a coincidência de ele ser primo da minha irmã, sobrinho do meu pai por parte da minha madrasta e voltou a frisar que ele era um bom especialista. Poderia lá ir mas, de repente, lembrei-me de como toda aquela gente era materialista, vivendo só em função do dinheiro. Ele mesmo, ainda garoto, com frequência salientava o facto de querer ser médico e fazer uma especialidade que desse bastante dinheiro e como o pai e a tia tinham ambos casas de óculos (oculistas), a oftalmologia vinha a calhar. 


E apesar da minha vizinha, que é Psicóloga clínica, ter dado uma referência tão boa a seu respeito, ainda assim, não me convencia. Por outro lado, talvez fosse o caminho para saber alguma coisa da minha meia irmã. Para ser bem franca, já me tinha passado pela cabeça tentar localizá-lo, porque era o único recurso viável. Eu sabia que ele era médico oftalmologista e isso seria uma pista. Com toda a certeza ele teria notícias dela. Mas essa possibilidade eu mesma me tinha encarregado de descartar. Aquela gente nunca tinha atraído a minha simpatia. E agora, sem mais nem menos, aí estava ela a dizer-me aquilo, com a agravante de que tinha aí um bom pretexto, porque iria à consulta e ficava a saber dela. O que fazer?

 

Fiquei com aquilo no pensamento, mas deixei o tempo afastar aquela hipótese, porque era um caminho que, decididamente, não me apetecia percorrer. Havia de encontrar outra forma de me aproximar dela. Entretanto, era certo que precisava de ir a um oftalmologista, mas mais uma vez o tempo foi passando, até que um dia, o meu olho esquerdo não estava nada bem, via passar umas coisas esquisitas e aquilo estava a perturbar-me muito.

 

Voltando a pensar no assunto, mais uma vez veio a hipótese de ir ao Miguel e mais uma vez senti que não queria lá ir e ponto final. E como sou uma pessoa prática, decidi de uma vez por todas ir ao oftalmologista, independentemente de querer ou não conciliar as duas coisas. Paciência, o problema da minha irmã continuaria por resolver e, portanto, peguei no telefone para ligar para a Cuf, Infante Santo. Eles tinham muito bons especialistas, haveria de ser encaminhada para o médico que fosse, não importava qual, mas acreditava que ia ser a solução certa.


Fiz a chamada, o telefone começou a tocar e veio do outro lado uma voz feminina. Disse que precisava de uma consulta de oftalmologia, ela perguntou para quando queria e respondi que o mais depressa possível, pois era de carácter urgente. Para hoje, deseja? Perguntou ela. Fiquei espantada com a brevidade e não podia deixar de aproveitar aquela óptima oportunidade. Estava tudo no caminho certo e eu não tinha precisado de ir ao Miguel. A empregada disse que a consulta seria às dezassete e trinta e como já passava das quatro da tarde, era só o tempo de me pôr a andar, pois teria que atravessar toda a cidade para lá chegar. Perguntei ainda qual era o médico, para me orientar e ela respondeu: consulta hoje às dezassete horas e trinta, com o doutor MR. Hã?!…

 

Estava feito. Não havia como fugir.



domingo, 25 de fevereiro de 2018

Um casaco de pelo - 67


Passei o inverno correndo as lojas vezes sem conta, na expectativa de encontrar um casaco em pelo sintético. Mas não era um casaco qualquer. Tinha que ser um casaco comprido, em pelo sintético, sim; leve, fofo e com padrão de bicho: leopardo, tigre, cobra… qualquer coisa assim, que para mim não fazia diferença. Só precisava de ser bicho. 


Em vão, porque todos os que encontrei não preenchiam os requisitos.  E se bem que eu o tivesse deixado de procurar, no fundo continuava a querê-lo, só não sabia como. Até já me tinha entretido a ver na internet, mas nada se parecia com o que eu queria.


Um dia à noite, sentada no meu sofá da sala a ver o telejornal na televisão, passou a notícia de um jogador de futebol qualquer, em que aparece uma foto dele com a namorada, uma jovem linda, top model, de mãos dadas com ele e com um casaco comprido… mas não era um casaco qualquer. Olhando com mais atenção, percebi que era o que eu queria, aquele mesmo, portanto, ele existia.


Incrível! Eu tinha finalmente achado o meu casaco de “sonho”, porque logo comecei a fazer contas e a ficha caiu. Modelo, devia ter ganho o casaco num desfile qualquer e deveria ser de uma colecção de algum estilista, o que me fez pensar que barato não poderia ser. Mas era aquele o casaco certo, sem dúvida alguma. Enfim, mesmo que o encontrasse, custaria um balúrdio. Não valia a pena pensar mais no assunto. Caso encerrado.

 

O tempo foi passando e um dia acordei muito cedo, mal raiava, ainda estava escuro e o sol ainda nem sequer estava no horizonte, apenas uma luz muito ténue anunciando a madrugada de um final de Janeiro. Acordei e o primeiro pensamento consciente que tive, foi a certeza de que não tinha mais sono. Lembro-me perfeitamente de ter pensado, aflita, que o sono tinha terminado ali e a preocupação com o que eu iria fazer até serem horas decentes para me levantar. E como durmo com as persianas abertas, deixando entrar a luz, olhei para o relógio de parede e vi que eram, nada mais nada menos, que seis horas da manhã.

 

Por que raio não teria mais sono? Aquilo não era normal. Parecia que ao meu ouvido algo sussurrava, dizendo-me para acordar, porque estava na hora, mas para quê? Não havia nada para fazer, pelo que, aparentemente isto não se podia explicar. O certo é que eu sabia que não tinha acordado por nada, isto é, eu tinha acordado por uma razão especial, ainda que racionalmente isto não fizesse sentido. Acontece que há muito que aprendi que há coisas que não se explicam. Assim, não tive outro remédio se não aceitar as coisas como elas eram, como se apresentavam e esperar para ver.

 

Chateada, levantei-me e fui buscar o tablete para me entreter e ajudar a passar o tempo até o dia amanhecer. De volta ao conforto da cama, peguei no tablet e, não tendo emails para ver, sigo para o safari. Veio-me imediatamente à memória a busca do “casaco comprido de pelo sintético para senhora” porque, na verdade, eu tinha deixado de pensar nele apenas em modo consciente, porque inconscientemente ele continuava na minha cabeça. E só para me chatear ainda mais porque, primeiro: eu já tinha feito isto e nada; segundo: estava muito chateada por estar acordada sem sono àquela hora, mas como não tinha mais o que fazer, voltei ao assunto e então, um “site” novo apareceu e mais casacos começaram a passar.

 

Começo a ver, a ver e de repente… lá estava ele. Tal qual, o casaco de pelo da jovem modelo da televisão, que tanto me tinha encantado. Incrível! Parecia que tinha sido posto ali propositadamente para mim, só podia ser. Que coisa incrível! 

 

Comecei a ver os pormenores, tentando encontrar algo de errado, algo que me dissesse que não, que ainda não era aquele, nem que fosse para não ficar com pena de não o ter. Mas não, estava tudo certo. Era aquilo que eu queria. Comecei a ver o preço e então, com grande espanto percebi que era um preço bastante acessível. Que raio!? Continuo a ver mais coisas sobre o casaco e dizia “disponível apenas por dois dias”. Uau! Vejo os tamanhos e havia o meu tamanho em stock. Vejo o preço em euros, quarenta e quatro, ponto, qualquer coisa. Não chegava sequer a quarenta e cinco euros. E os portes? O casaco vinha da China, é certo, mas não havia portes a pagar para toda a Europa. Eu nem queria acreditar!...

 

Ah, mas era da Internet e eu tinha medo, mas também, por aquele preço, não era tanta a desgraça, no caso de alguma coisa não dar certo. Começo a ver as opiniões das pessoas que já o tinham adquirido e as opiniões eram todas muito boas: confortável, preço acessível, etc. Porque não? Mais algumas informações e o casaco era um artigo de há três anos atrás. Queria lá saber, se era aquilo mesmo que eu queria!? Esperei que o dia amanhecesse e após o almoço, contactei a minha nora no Estados Unidos, para lhe perguntar acerca do site. Respondeu-me que era um site muito conhecido de roupa on line e que não haveria problema.

 

Estava resolvido. Peguei no cartão de crédito e fiz a encomenda que, segundo eles, demoraria cerca de trinta a quarenta dias. Agora era esperar. Talvez ele não viesse. Talvez viesse mas não correspondesse ao que as fotos mostravam. Talvez… talvez… talvez… era só esperar para ver. Estava feito.

 

Passaram-se três semanas, até que um dia, ao abrir a minha caixa de correio, lá estava um papel dos CTT, anunciando uma encomenda proveniente da China. O meu casaco de pelo sintético de leopardo! Eu não queria acreditar. Agora era verdade. E como seria ele?

 

Fui ao correio, levantei a encomenda que mais parecia uma almofada, entrei no carro e disparei rumo a casa. Entrei rapidamente e rasguei o plástico e o papel. Lá estava ele. Que lindo, o pelo, imitação de leopardo! De uma assentada, o casaco saiu todo do pacote. Era casaco que nunca mais acabava, mais parecia uma manta. Vesti e olhei-me no espelho. Claro que eu não era a garota top model, mas o importante é que o casaco, o casaco sim, era o tal, tal e qual eu tinha visto, tal e qual eu queria e agora sabia porque tinha acordado naquele dia às seis horas da manhã?!...

 

Bingo!

 


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Inajá - 66






Inajá, uma das tias avós por parte de pai, dos meus sobrinhos netos - porque netos da minha irmã -, uma mulher sempre muito bem disposta e pronta para tudo, estava doente.


Apanhada pela dengue, padecia de febres altas, dores musculares e tudo o mais que o vírus provoca. Não tínhamos o hábito de nos falarmos todos os dias, nem todas as semanas, era quando calhava, para saber das notícias de ambas as partes, porque Brasil é Brasil e Portugal é Portugal. Dadas as circunstâncias, as coisas alteraram-se. A cada dia que passava ela só piorava, o que fez com que eu começasse a telefonar diariamente, ansiando por uma alteração positiva no seu estado de saúde. Contudo, Inajá não melhorava e sempre que falava com ela a sua voz era mais débil, sendo notório o seu acelerado enfraquecimento, o que muito me inquietava, deixando-me terrivelmente angustiada. Até ao dia em que, tendo desligado o telefone, depois de ter acabado de ouvir a sua voz, percebi que a coisa estava mesmo feia, feia a sério e alguma coisa teria que ser feita.

 

No caminho do trabalho para casa, enquanto conduzia no meio do trânsito infernal, ia pensando que precisava de fazer alguma coisa para reverter a situação. Depois daquele telefonema eu achava que no dia seguinte ela já não estaria neste mundo, nem para me atender o telefone, nem para mais nada. Aliás, ela própria tinha essa consciência, sendo tão honesta quanto possível, em relação ao facto de o seu corpo não estar a conseguir aguentar por mais tempo, todo o sofrimento por que estava passando.

 

Mas não, isso era uma coisa que não podia acontecer. Fora de questão. Eu queria Inajá viva e bem viva. Ela era amada por todos nós e não podia morrer. Então, percebi que tinha que me ligar às minhas fontes espirituais, as mais fortes, mais poderosas, para aquelas situações de último recurso, em que não há mais nada a fazer.

 

Chegou a hora de me deitar e sentada na minha cama, que é o sítio e a hora em que estou preparada para estas situações, porque o dia acabou, tudo terminou e o espírito pode entrar na outra dimensão, aquela onde me ligo da forma mais verdadeira à fonte de todas as coisas, aquela que considero ser o sobrenatural, focada na minha intenção, comecei por visualizar a minha amiga. Através de um tubo de luz de cor indefinida fui visualizando, visualizando, à medida que afastava todas as outras imagens que tentavam sobrepor-se. Fui abandonando o meu ego, o meu eu material e navegando por aquele túnel de luz, fui aproximando as nossas duas entidades: ela e eu. Quando nos aproximámos uma da outra, estava pronta para “ver” a realidade do mundo dela, tendo-me excluído completamente do meu. Sentada na minha cama, em posição de lótus, eu estava lá, com todos os meus sentidos despertos. E assim, pude vê-la, jogada numa cama de hospital, cuja cabeceira estava bastante elevada.

 

Fiz a chamada do seu corpo energético e à medida que ia testando as suas energias, ia percebendo a prostração e a dor porque estava passando. Iluminei todo o quarto, pedi luz, mais luz para transmutar toda a energia negativa que tomava conta dela, ordenando a retirada do mal. E, de repente, aconteceu uma coisa fantástica. De dentro dela começaram a sair mosquitos, muitos mosquitos. Era um verdadeiro enxame. Uma nuvem negra que se libertava do seu corpo e saía em direcção ao espaço. Era um nunca mais acabar de mosquitos. Fiquei parada a olhar aquele espectáculo absolutamente transcendente. E quando finalmente eles acabaram de sair, a minha amiga deu sinal de vida e começou a virar o corpo lentamente na cama, ao mesmo tempo que entreabria os olhos. Ordenei que viesse alguém vê-la. E logo apareceu um médico que chegou junto dela, tendo começado a observá-la. Depois veio outro médico e mais outro. Veio ainda um quarto e formaram uma equipa. Os médicos todos de volta dela examinavam-na cuidadosamente, enquanto falavam uns com os outros. Enviei luz para toda a equipa médica, muita luz e fiquei observando.

 

Passado algum tempo, a equipa médica retirou-se e veio uma enfermeira que trouxe um caldo para ela tomar. Inajá já se sentou e com a ajuda da enfermeira conseguiu então tomar o caldo todo, o que foi uma grande vitória, porque há alguns dias que não conseguia comer nem beber. Estava reagindo, finalmente. A enfermeira foi-se embora e deixou-a deitada com a cabeceira um pouco mais baixa. Agora eu sabia que ela estava bem. Já tinha uma cor e o semblante estava aliviado.

 

Estava na hora de me desligar, de abandonar aquele plano e voltar à minha realidade, à minha dimensão. Já no meu mundo, cansada pelo esforço de visualização, deitei-me para dormir, com a convicção de que alguma coisa tinha sido feita pelo bem dela.

 

No outro dia acordei, levantei-me e fui trabalhar. O dia foi passando e quase à hora de me vir embora, precisava de lhe ligar para saber notícias. Como estaria? Sentia um certo receio, mas precisava de ter coragem para lhe falar. Não podia deixar de lhe telefonar, independentemente do receio do que poderia vir do outro lado. Ela estava tão mal no dia anterior, que a dúvida era muito grande.

 

Peguei no telefone e comecei a marcar. A chamada estabeleceu-se e alguém atendeu do outro lado. Todo o meu ser estremecia de ansiedade. Mas fosse o que fosse, tinha que saber. Aquele passo tinha que ser dado. E, finalmente, a voz que acabava de ouvir, era a voz de Inajá, fresca e sorridente, com a sua gargalhada de sempre… eu nem queria acreditar. Ela tinha conseguido reagir e ali estava ela inteira, em franca recuperação. O meu coração pairava de alegria. Tudo tinha passado.

 

Ansiosa, perguntei como tinha sido aquela súbita reviravolta. Contou então que, no final do dia anterior, tinha tido a visita de uma “equipa médica” que tinham estado de volta dela muito tempo, fazendo não sei o quê e que depois de se irem embora começou a sentir-se muito melhor. Depois veio uma enfermeira com “alguma coisa para comer” e até conseguiu comer tudo. E a partir daí começou a melhorar a olhos vistos.

 

Ela falava e eu revia nas palavras dela tudo o que tinha presenciado enquanto estabelecia o meu plano de cura à distância. E tudo se tinha passado exactamente como eu havia visto e no mesmo fuso horário, de acordo com a hora indicada por ela mesma. Era uma coisa fantástica. Se há muita coisa que não tem explicação, esta é uma delas.

 

Inajá estava bem e isso era tudo o que eu queria. O que eu fiz com ela é uma coisa que não se aprende e que não tem preço. É intuitivo e o que reverteu para ela reverteu para mim também. Foram apenas as forças do bem que foram activadas. A vontade, o amor incondicional, a fé, essas foram as únicas vitoriosas. E essas são as únicas coisas na vida que não se corrompem e não se vendem por nada.

 

Viva a vida!

 

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O semáforo - 65



Eram umas onze horas da manhã e eu estava bem tranquila, parada no semáforo bem pertinho de casa, porque o sinal estava vermelho. Quando comecei a subir a rua ainda estava verde, mas resolvi abrandar a marcha porque calculei que não ia chegar lá a cima ainda no verde. E foi o que de facto aconteceu.

 

Naquela zona, com quatro escolas nas imediações e passadeiras necessárias, não é exactamente o lugar certo para acelerar. E enquanto estava parada, concentrada na luz vermelha à espera que passasse a verde, vejo pelo rectrovisor um Smart branco, que vindo da estrada nacional, entra na Luis de Camões, a rua em que eu estava, começando a subir. Exactamente o mesmo percurso que eu tinha feito. A questão é que, assim que o Smart surgiu lá ao fundo, no início da rua e que eu apenas vi de relance pelo espelho, imediatamente me passou pela cabeça isto: “ele não vai parar no semáforo”.

 

Mas logo dei por mim a reagir àquele pensamento, justificando-me comigo mesma. Porque não haveria de parar? Era disparate! Claro que ia parar. Até porque, entretanto, o sinal já poderia estar aberto, mas não havia motivo algum para pensar que ele não iria parar. Não era pelo andamento, porque vinha a uma velocidade perfeitamente normal. Então porque haveria de ser? E continuando à procura de justificativas para não dar como certo aquele pensamento que me havia ocorrido, foquei a atenção novamente no sinal vermelho.

 

É claro que tudo isto se passou em fracções de segundo. E focada no sinal, decidi esquecer o Smart e a questão de ele passar ou não. Se ele passasse era complicado. Havia um semáforo à direita e outro à esquerda, na perpendicular à rua onde estávamos. E naquele sinal só estava eu, pelo que ele haveria de posicionar-se atrás de mim. Continuei a olhar para a luz vermelha e esqueci o Smart. Era estupidez minha. Claro que ia parar. Mas porque razão aquele pensamento me tinha ocorrido assim que o vi? A isso não sabia responder.


Nos quatro anos que vivi nos Açores, em S. Miguel, aconteceram-me cenas incríveis. Foi nos Açores que tirei a carta de condução, há cerca de quarenta anos atrás. Mas não aprendi a conduzir em nenhuma escola de condução. A minha escola foram os pilotos de rally. O meu marido, entre outras coisas, na altura era rádio amador e os rádio amadores juntavam-se para fazer a cobertura das competições. No final das provas fazíamos grandes farras, todos juntos, e isso promovia a nossa amizade e a nossa intimidade como grupo. Então, era frequente sairmos nos carros dos pilotos e eles convidarem-nos para conduzir, aproveitando para nos dar dicas que faziam uma grande diferença na condução. Isto era frequente. Bem antes das provas, lá apareciam os pilotos para testar os carros, os caminhos e tantas outras coisas que estavam em jogo. Mas havia sempre a oportunidade para pormos as mãos nos volantes dos carros deles, em ameno passeio, o que era uma sensação e tanto. E assim aprendemos a conduzir.

 

O inusitado da coisa é que, não raras vezes, eu advertia para o facto de que, adiante, encontraríamos polícia de trânsito e se fôssemos apanhados a conduzir sem carta era complicado. Eu nem queria pensar. Portanto, o meu alerta era sagrado e assumidíssimo por todos. No início, o pessoal achava aquilo estranho, como é natural. Até eu achava. Como é que ela sabe que vai aparecer polícia se a estrada está livre, sem o menor sinal deles? O facto é que, mal eu recebia esta mensagem ou este pensamento, imediatamente parávamos para fazer a troca e pôr no volante alguém com carta. E um pouco à frente, na verdade, a polícia aparecia.

 

Era coincidência? Não, não era coincidência porque, do mesmo modo que eu alertava para a ameaça de polícia, também sabia quando não havia perigo algum. E às vezes, na brincadeira, quando queriam fazer graça com o assunto, perguntando se ia haver polícia, eu respondia com toda a clareza que não, que estava tudo calmo e sereno. Com efeito.

 

Eu apenas seguia a minha intuição. Mas não é só isso, é um pouco mais do que isso. Eu era absolutamente fiel à minha intuição e por isso ela se activava e se mantinha alerta, caso contrário falharia, como falha tudo aquilo que não é usado e que não responde, porque não tem utilidade. Não houve uma única vez que eu não reagisse, quando a minha voz interior se fazia ouvir. E só por isso ela nunca me deixou ficar mal.

 

Mais tarde, quando estava em plenas funções do meu papel de mãe e o meu filho ainda pequeno me perguntava se podia ir para a rua brincar, eu ouvia a mim própria antes de tomar uma decisão. E às vezes dizia-lhe que esperasse um pouco, só um pouco. E ele esperava até que eu dissesse que podia ir, sem qualquer reserva, porque sabia que as minhas decisões tinham a sua razão de ser. Alguma coisa não ia dar certo quando lhe dizia para esperar um pouco. Alguma criança dava uma queda, uma briga se desencadeava, e ele nunca contestava porque sabia que a minha única preocupação era sempre a segurança dele.

 

Há alturas em que ando mais desligada, é verdade, mas nunca completamente cortada do cordão umbilical do eu mais profundo, que sabe verdades que nós próprios desconhecemos.


E aí estava eu, focada na luz vermelha do sinal, divagando sabe-se lá por onde e esperando que passasse a verde, já esquecida do Smart branco que tinha avistado lá atrás, quando de repente, ainda com o sinal bem vermelho, apercebo-me de um carro que me ultrapassa, passando o traço contínuo e entrando na contramão, vira à direita, como se fosse a coisa mais natural do mundo, trazendo-me de volta à circunstância, perplexa e sem entender – o Smart branco, conduzido por um indivíduo que mal deu para ver, tinha cumprido a sua mensagem, isto é, deliberadamente, passou, impecável, sem parar no semáforo. 

 

domingo, 3 de setembro de 2017

Obrigada - 64


Havia uma pessoa na minha família que não me era nada, porque veio no pacote do segundo casamento do meu pai, sendo que era tia da minha meia irmã. Faleceu com idade perto dos oitenta anos.

A tia Guida era uma pessoa de uma certa complexidade. Durona e fria, não era fácil nem acessível. Vivia apenas para ter. A sua razão de ser baseava-se inteiramente no objectivo de alcançar mais e mais, dinheiro e bens materiais. Depois, a nada disto dava uso, nem tirava partido algum. Mas tinha e queria cada vez mais.

Sozinha, nunca casou, nunca teve filhos, nunca se lhe conheceu um namorado sequer. Vestia-se de uma maneira simples demais e basicamente nunca a vi arranjada, muito menos maquillada. Tinha todo um perfil muito próximo do masculino. Gostava de dar ordens em toda a gente e achava que punha e dispunha de todos, falando sempre com a peculiar superioridade de quem pode tudo. Não era fácil.

A única coisa que eu queria era nunca ter problemas com ela, porque não ia deixar que me hostilizasse sem motivo e motivo eu jamais lhe daria. Muitas vezes a vi sendo dura e áspera com o meu pai, com a minha madrasta, para não falar de todos os que a rodeavam, porque ela era assim. E com a minha meia irmã, que era a sua sobrinha predilecta, indirectamente, era ela que guiava o seu futuro, coisa que com os outros não podia fazer. Enfim, quando digo que não era uma pessoa fácil, não era mesmo.

Com a idade veio o Alzheimer e o Parkinson, obrigando-a a deixar os negócios, as lojas, tendo que ficar cada vez mais em casa, onde mantinha uma empregada a tempo inteiro para tomar conta dela. Assim, foi ficando cada vez mais sozinha e saindo cada vez menos, também.

Certo dia em que fui a casa do meu pai, que vivia muito perto dela, por causa da irmã, a empregada telefonou para a minha madrasta dizendo que a patroa não estava nada bem. Posto isto fomos lá, inclusive eu, ver o que se passava com a tia Guida.

De facto, não estava nada bem. Havia algum tempo que não dizia coisa com coisa, sendo raros os momentos de lucidez. Mas naquele dia a coisa tinha piorado. Estava enfiada no seu quarto de dormir, sentada numa beira da cama e transtornada de todo, mais que nunca. Fazia pena. A irmã falou com ela, a sobrinha tentou falar com ela, mas não sabiam o que dizer e ninguém a arrancava daquela situação. Tentaram falar-lhe à razão, mas como pode uma pessoa naquele estado ser chamada à razão, se a razão está totalmente perturbada?! Ela não tinha noção de quem era mais. Estava completamente perdida. Até reconhecia os outros, o problema é que não sabia quem era ela própria!?

E isto, a irmã não conseguia compreender nem conceber. A irmã, que toda a vida tinha sido sua cobaia e vítima dos seus desmandos, estava agora por cima da situação, porque não estava num estado de senilidade tão avançado como o dela. E então, ralhava com ela, parecendo querer vingar-se de toda a vida se ter deixado levar por ela, sem nunca ter tido voz activa. Mas, nesta vida, para tudo impera a lei do mais forte. E dizia à outra que ela tinha que saber quem era e que tinha que saber o que tinha. A tia Guida só dizia: “não sei”, “não sei”, “não sei”. E insistia: “mas como é que não sabes? Então não sabes o quê?” E a outra, entre o desespero, a raiva e as lágrimas, gritava: “não sei”, “não sei!...” Olhava-se no espelho, como que a ver se se reconhecia e voltava a gritar desesperadamente “não sei(!)...”, pondo a outra cada vez mais furiosa, sem ter a mais pequena noção do real estado da irmã.

Era uma coisa aflitiva. A minha meia irmã estava aterrada, sem palavra, porque não sabia lidar com coisas que saíssem fora do seu controle e fora da sua zona de conforto. O meu pai, um pouco afastado, deixando tudo por conta das duas, porque também não tinha como intervir. A empregada, calada, sem um pio, porque a função dela era receber ordens e nada mais. E eu presenciava aquela cena triste, onde o tempo tinha deixado as suas marcas grosseiras, bem como as suas garras devastadoras, sem dó nem piedade. Aquela mulher que toda a vida tinha sido um expoente máximo de comando e autoridade, estava agora reduzida a zero. Ela que sempre sabia de tudo, ela e só ela é que sabia disto, daquilo, de todas as coisas e mais algumas, estava agora confinada àquelas palavras, duras de ouvir de qualquer pessoa, quanto mais vindas dela: “não sei!..” Era a única coisa que dizia, mas percebia-se que o “não sei” era apenas um código que se referia ao maior dilema que um ser humano pode ter. Quem sou eu mesma que nunca me encontrei, nunca soube quem eu era? Estive sempre ausente, apenas e somente a representar um papel e nunca parei para pensar em mim, para me descobrir, para saber quem eu era!? Como posso, agora que tudo passou e que já quase não sou eu, saber quem fui ou quem é o que ainda resta de mim? Perdi tudo. Passei pela vida a ser aquela, uma outra qualquer, mas nunca, em momento algum, fui eu. Agora, na recta final, alguém que me diga quem sou eu, afinal?

Era isto que aquela linguagem codificada por duas palavras apenas – não sei – queria dizer. É triste. E já não eram os gritos dela, da voz dela, mas os gritos da alma. Da alma aflita, sem uma identificação genuína. De uma alma que se sente anónima, porque sempre mascarada, sem uma revelação do seu eu. Isto não é fácil de entender. Aquele “não sei” era um verdadeiro e sentido pedido de socorro. Interpretar aquilo como uma simples loucura ou um qualquer delírio era um drama e tanto. Era um sofrimento deplorável! E com a cabeça entre as mãos, continuava gritando para a irmã: “não sei!” Então não sabes quem és? Entre soluços, respondia: “não sei”. Mas não sabes o quê(?): “Não sei… não sei”. Mas o que tens, afinal? “Não sei”… não sei nada”, concluía, do que lhe restava em consciência. E eu já não sabia o que mais me estava a incomodar: se as perguntas impertinentes de uma ou a resposta fatídica da outra. A quanta loucura e perturbação o ser humano pode estar sujeito!?

Aquilo não podia continuar.

Cheguei junto da tia Guida, que continuava sentada na beira da cama, com a cabeça entre as mãos e pus as minhas mãos sobre as dela. Esqueci completamente quem era aquela pessoa fria que punha todos à distância e rejeitava a vida no que tem de mais belo: o amor e todos os sentimentos que o envolvem. Ela aninhou-se a mim como se fosse uma criança desprotegida, precisando de conforto e segurança. Baixei-me, trazendo as mãos dela nas minhas até ao regaço, sempre com as mãos bem apertadas, olhando-a de baixo para cima. Soltando uma das mãos, comecei a acariciar-lhe o rosto. Ela olhou para mim e ficámos, olhos nos olhos, sem nada dizer. Em silêncio, pensei naquela palavra maravilhosa: Namasté! (O Eu que há em mim saúda o Eu que há em ti, para promover a paz e a luz). E por um momento, a lucidez veio à tona, trazendo-lhe a paz que precisava. O rosto, que antes estava perdido, transfigurara-se rapidamente numa súbita e profunda alegria. Havia um rasgo de luz no seu olhar. De repente, a fria e dura tia Guida revelara-se uma criatura doce, meiga e afável, carente de todo o afecto possível. E nesse exacto momento ela compreendera que tinha acabado de achar a resposta que tanto exigia; ela tinha acabado por se revelar a si mesma. Tinha acabado de encontrar o seu verdadeiro eu. No meio daquele turbilhão de emoções, dramático e avassalador, acabava de resgatar o encontro consigo mesma. Tinha-se descoberto. Tinha-se finalmente encontrado. Fora uma vida inteira escondida entre os escombros do materialismo, mas agora estava ali, inteira, por breves instantes, à luz de um breve presente, que valia muito mais do que toda uma vida. Aquela era ela. A máscara caíra. O rosto transfigurara-se por completo. A alegria pela descoberta do eu, num misto de compaixão e humildade, tinham feito um verdadeiro milagre. Estava feliz. Tinha finalmente chegado a algum lado e como tinha valido a pena! O amor incondicional tinha sido activado no seu ADN, só isso.

Não tinha importância nenhuma o facto de nunca termos tido empatia alguma uma com a outra. Naquele momento ela estava perfeitamente consciente. Estava de regresso e era ela, não a outra. Estava acessível e tinha rompido com todas as barreiras que a impossibilitavam de ser ela mesma. A luz divina tinha chegado até ela e por isso estava verdadeiramente extasiada, maravilhada com essa nova realidade. As defesas caíram e ela fora capaz de dizer, com toda a sinceridade da sua alma, aquilo que muito provavelmente nunca tinha dito, em toda a vida, na sua voz mais doce e comovente, que deixou a todos sem palavras: “obrigada”... 

 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Era ele - 63


Era ele. Não era, não podia ser. Mas era como se fosse. Eu não queria acreditar no que os meus olhos viam. A impressão que tive era tão forte que não conseguia admitir que não era ele.

A noite estava quente. Nem uma brisa corria. O mar calmo, tranquilo. A rua começava a encher-se de gente. Gente para lá, gente para cá. Gente de todas as idades e de todas as nacionalidades. Os feirantes já instalados nas suas bancas iluminadas davam à noite um ar animado. Cada um com seu comércio. Desde as tatuagens às exibições artísticas, nada faltava. Para não falar das lojas abertas e cheias de movimento. E eu olhava descontraidamente quem passava, ao mesmo tempo que espraiava a vista no horizonte escondido pelo cair da noite, onde mar e céu se confundiam.

Um grupo de músicos preparavam o seu habitual show, passando fios, cabos eléctricos, etc… e de repente, olhando para eles… era ele! Era ele sem tirar nem pôr. Desviei o olhar porque senti um arrepio pela coluna de cima a baixo. Não, não podia ser. Isso era certo. Estávamos a cerca de duzentos e cinquenta quilómetros de distância um do outro. Recompus-me do choque emocional e olhei de novo. Estava sempre de costas, mas era a mesma figura. Faltava-lhe um nadinha de altura e era ligeiramente mais forte, mas assim, de repente, a sensação é que estava ali, a escassos metros de distância. Como? Porquê? Porque é que me estava a passar aquela cena pela cabeça? Eu sabia que não era. Em momento algum duvidei da minha certeza. Mas o arrepio que senti quando olhei a primeira e a segunda vez, eram sinal de alguma coisa. Alguma coisa estranha.

A noite estava óptima. As pessoas lá em baixo passeavam com prazer e descontraidamente, apreciando a temperatura que se fazia sentir e dando atenção às bancas por onde passavam. As crianças acompanhavam os familiares, uns de mãos dadas, outros soltos, alguns até correndo e gritando. E havia os mais românticos, que desciam até à beira mar para fazer umas selfies captando o mistério da escuridão nocturna, o brilho da lua na água, ou simplesmente para sentir uma vez mais os pés na areia macia e mergulhá-los na espuma prateada.

Mas eu não conseguia ignorar a “visão” que tinha tido e pela terceira vez olhei. A noite estava ainda mais escura. E a imagem dele persistia em aflorar e tornar-se cada vez mais forte. E quanto mais eu negava, mais forte era aquela coisa que me agarrava com uma impetuosidade efervescente. Até chegava a doer. Que quereria aquilo dizer? Se ele pudesse sentir o mesmo que eu estava sentindo(?)… era como se o meu corpo estivesse enrolado no dele, com aquela chama acesa e ao mesmo tempo uma sensação de paz que ele sempre me passava. Uma coisa indescritível! Era como se os dois fôssemos um só… era deveras bonito, lindo de mais. Aquela visão tinha-me feito chegar tão perto daquelas lembranças. Era tão forte! Que quereria aquilo dizer? Não era normal. Algo estava acima do meu entendimento. Seria possível que estivesse a sentir o mesmo que eu, naquele momento? Quem poderia responder? Não era possível que eu estivesse a sentir aquilo sozinha. Era um sentimento forte demais para ser unilateral. Transbordava da minha pessoa. Transbordava sem limites. Nunca me tinha acontecido nada igual. Aquilo realmente era sintomático. Mas como poderia eu saber se ele estava a sentir o mesmo?

E de repente, pela terceira vez, parei o “delírio”. Achei por bem sair da varanda e ir para dentro. No mesmo instante o telemóvel disparou sinal de mensagem. Quando ouvi, pensei: “Só pode ser ele!” Só isso justificava o que eu estava a sentir.

Era ele.