sábado, 19 de fevereiro de 2022

Encontro - 99

 

Todas as noites na hora de me deitar para dormir, sinto um fardo pesado em cima de mim, que não tem que ver propriamente com o dia ter sido bom ou mau, mas por todo o tempo que durou e por tudo o que passou por ele. Talvez pela intensidade com que vivo todos os momentos, que é como se um dia fosse muito mais do que as quinze horas habituais da minha jornada diária.

E enquanto estou a tirar a roupa para me deitar, tenho a sensação de que com ela algo mais se está a ir de vez. De repente, passa o filme pela minha memória, um filme rápido, mas onde está tudo pormenorizado e gravado, sem a mais pequena possibilidade de alteração. Penso sempre que já passou e que foi mais um, e cada um que passa é mais um que já não volta. Não há retrocesso para isso.

Quando finalmente deito a cabeça na almofada, passa na minha cabeça mais uma página do livro da minha vida, para dar lugar a outra, a seguinte - porque também não é possível saltar-, que vem em branco, pelo menos na minha consciência, para ser preenchida no dia que se segue, desde o abrir dos olhos até novamente os fechar para voltar a adormecer. E essas páginas têm uma carga enorme, porque são as páginas dos nossos registos akáshicos, devidamente elaboradas e trabalhadas pelo cosmos, onde apenas lhes damos a nossa vida, o que não é pouco.

Entre essas duas páginas, a que passou e a que vem a seguir, escolho sempre a que vem em branco. Porque é a que representa o futuro e porque é aquela que ainda não tem peso, sendo por isso, a mais leve, a que me ajuda a ir ao encontro do sonho. Porque é a que vai abrir o meu próximo dia, o dia seguinte, aquele em que as portas se podem sempre abrir para uma nova paisagem ou um novo cenário, uma boa decisão ou uma boa escolha. Um caminho diferente, mais construtivo, mais edificante e em que sempre nos podemos tornar melhores, maiores e assumir novas oportunidades, que nunca deveriam ser desaproveitadas.

E com esses pensamentos começo a aliviar a minha carga do dia que passou. É como se a minha pele, aquela pele, estivesse a sair, para dar lugar a uma nova. Começo a soltar-me, a desprender-me do já passado, para poder dar lugar ao que vem, ao que se segue, porque a vida é, ou deveria ser, sempre para a frente e nunca para trás.

A nossa vinda a este mundo é exatamente uma enorme oportunidade da mudança para melhor e nunca para pior. Infelizmente, a verdade é que alguns de nós fazem o percurso inverso, o que é lastimável. Mas também, se o fazem, é porque é necessário. Contudo, dependendo do nosso ajuste espiritual, podemos sempre dar o salto quântico, tomar consciência e alterar esse padrão. E então, já terá valido muito a pena.

Mas a hora de adormecer é sempre uma hora de introversão. Uns fazem orações, preces, outros simplesmente interiorizam, fazendo um exame de consciência, projetando-se nos acontecimentos que passaram… enfim. Eu prefiro, sem dúvida, deixar ir o que foi e focar-me no que está por vir, no que vai ser ou não, sem tentar adivinhar, para não correr o risco de errar, mas desejar que o amanhã me traga seja o que for, diferente, único, o que tiver que ser, para o qual, nesse preciso momento, me comprometo comigo mesma a enfrentar da melhor maneira possível, com a bênção e a ajuda do universo, que tudo e todos rege.

E um dia, na hora de me deitar, no meio destes pensamentos, lembrei-me que tinha tido um acontecimento um pouco estranho. Estava sentada no sofá, durante a tarde, a fazer qualquer coisa que não me lembro o que era e ao mesmo tempo com a televisão ligada. De repente, senti algo que vinha do meu lado esquerdo, do fundo da sala, para onde o meu olhar foi imediatamente atraído. Senti então a presença de uma energia, mas uma energia que eu não conseguia identificar. Até pensei que era impressão minha. Mas não, não era. Ali havia alguma coisa. Uma energia envolta num vulto escuro e completamente esfumada. Contudo, ainda que sem identificação, eu conseguia perceber que se tratava de uma energia masculina. Porém, não conseguia reconhecer, nem perceber o que queria e o que estava ali a fazer.

Prossegui com os meus afazeres, mergulhada nos pensamentos em que estava. E naquele dia quando me deitei, logo me veio à ideia aquele acontecimento inusitado, porque eu não via ligação daquilo com nada da minha vida. A coisa parecia que não encaixava. Foi o que mais uma vez pensei, mas ao mesmo tempo, não descartando a hipótese de haver algo de mais concreto por de trás daquilo. Nada feito, porque continuava sem resposta. E adormeci, esquecendo de vez aquele incidente.

No outro dia ao acordar, já não me lembrava daquele assunto e na verdade o dia foi decorrendo normalmente, sem pensar naquilo, até que ao final da tarde, uma colega e amiga da universidade sénior me telefonou, como muitas vezes o faz, falando de projetos e de decisões a tomar sobre a universidade. Estivemos cerca de uma hora a trocar informação e já no final do telefonema, surgiu uma novidade sobre uma outra colega, que veio esclarecer tudo. Essa outra colega era a Fátima.

A Fátima foi alguém com quem, desde o início, tive uma ligação muito forte e muito boa. Desde o primeiro dia percebi que sentimos uma pela outra uma verdadeira simpatia. E logo no primeiro convívio que tivemos, o almoço de natal, ela fez questão de me apresentar ao marido, como uma amiga muito especial, o que muito me lisonjeou. O marido levantou-se e cumprimentou-me com um simpático aperto de mão e um sorriso que lhe era muito peculiar, mas que eu só com a continuação o perceberia. E aquele casal eram umas pessoas com quem sempre mantive um excelente e especial relacionamento, pelo carinho que sempre me dispensavam.

A Fátima frequentava as aulas, já o marido era só sócio, mas acompanhava a mulher em todos os eventos, por isso era conhecido de todos. E sempre que ela estava sozinha eu fazia questão de perguntar por ele, que para a idade que tinha, estava muito bem conservado, o que não é muito comum nos homens que, em geral, envelhecem mais cedo que as mulheres. E eu falava muito com os dois. Dava-lhes sempre uma especial atenção, porque eles mereciam e faziam por isso, sendo também especialmente carinhosos comigo. E quem não gosta disso?

Um dia a Fátima adoeceu. Foi diagnosticada com cancro na mama. Todos gostávamos muito dela, até hoje, pelo que todos lastimámos o acontecido. Tanto assim, que nas minhas aulas de Meditação lhe dedicámos um tempo, canalizando e enviando energia positiva com todo o nosso amor. Um dia tivemos notícias ótimas. Tinha sido operada e a cirurgia tinha corrido muito bem.

A Fátima continuou com o seu processo de recuperação e sempre a evoluir de modo muito positivo, para grande satisfação de todos à sua volta que muito a estimam, por ela ser a pessoa especial que é, de facto.

Sempre que nos encontrávamos eles eram uns queridos. E o marido, apesar de discreto e sem muita intimidade comigo, sempre me falou muito bem, dando para perceber que não era indiferente, pelo menos comigo, pela maneira como falava e até do que falava.

Lembro-me de um dia, em que a Fátima e eu estávamos em conversa, porque ela é uma pessoa com quem é possível desenvolver um assunto, sabe do que fala, é sensata, tem uma opinião formada e um pensamento claro. Não é dramática, pelo contrário, é uma pessoa muito positiva e com experiência da vida. E quando acabámos o que estávamos a falar, mais uma vez lhe perguntei pelo Agostinho, que já não o via há algum tempo e estava com saudades de o ver. A Fátima sorrindo, agradeceu o cuidado e em resposta afirmou que o marido também gostava muito de mim e tinha um grande carinho pela minha pessoa.

Achei surpreendente, mas nem por um instante duvidei do que ela acabava de dizer, porque isso não faz o género dela. Definitivamente, não é pessoa para estar a ser agradável só para agradar aos outros. Nem havia porque fazê-lo, mas esse não é o seu género.

Voltando atrás, estava eu no final de conversa, ao telefone com a minha outra colega, quando de repente ela se lembrou de me dar uma notícia desagradável. Sabes quem morreu, dizia ela. Não faço ideia, respondi. O marido da Fátima. O marido da Fátima(?!)…

Sim, continuava ela, foi ontem, às não sei quantas horas (já não me lembro). Fui completamente surpreendida com tal notícia, pois não estava nada à espera e acho que ninguém estava, mas foi aí que de repente voltei algumas horas atrás no tempo e imediatamente me lembrei da "visita" que tinha tido no dia anterior durante a tarde, quando surgiu uma entidade que não reconheci.

Ao pensar nele, senti exatamente a mesma sensação, ou seja, a mesma energia, que não identifiquei na altura porque, apesar de tudo, nós não tínhamos intimidade, nem convivência suficiente para que eu o pudesse ter reconhecido. E, se algumas pessoas fazem a sua passagem de uma forma, outras fazem de outra, dependendo única e exclusivamente de si mesmos. Tem que ver com o seu estado evolutivo ou vibracional. Não quero dizer que ele não fosse uma pessoa espiritualmente evoluída, não é nada disso. Mas, digamos que, para haver uma identificação, as portas têm que estar abertas de ambos os lados e provavelmente não era esse o caso. Além disso, o facto de ele ser uma pessoa muito discreta, só isso, já pode justificar não se ter deixado identificar por mim.

Não deixou de ser relevante, porque a presença da sua energia, tal qual ela se apresentava, era a prova do que ela um dia me tinha dito: que o marido gostava muito de mim. E estes acontecimentos são sempre dignos de registo, porque eles revelam o mundo para além da matéria e confirmam a sua poderosa existência. Ele veio anunciar a sua partida para uma outra esfera, a sua partida definitiva para outra dimensão, querendo ser ele mesmo a dar-me conhecimento disso. E ele sabia que eu era recetiva, embora não o tivesse reconhecido. Talvez se me tivesse debruçado um pouco mais sobre o assunto e tivesse levado mais a sério, talvez o tivesse reconhecido. Mas eu nem sabia que ele estava doente, por isso mesmo estava longe de imaginar tal coisa.

Independentemente disso, agradeço sempre esse especial encontro de almas, que mesmo em planos diferentes se conseguem comunicar, o que considero uma coisa extraordinária e que nem por isso deixa de ser um encontro.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Destino - 98

 

Outubro de 1976. Eu estava no aeroporto da Portela, com toda a minha bagagem rumo aos Açores, mais precisamente S. Miguel, Ponta Delgada, sem regresso marcado. No dia anterior tinha ido ao aeroporto levar a minha irmã que seguiu para S. Paulo, Brasil, também ela sem data de regresso. Os nossos destinos estavam definitivamente traçados. Nessa altura eu tinha vinte e três anos e a minha irmã dezanove. Ela ia ter com o namorado, com quem logo depois se casaria. Por mim, estava sozinha como convinha, de mudança para os Açores, onde a televisão (RTP) estava no início das suas emissões regulares, e cujo lugar eu tinha escolhido para recomeçar a minha vida do zero. Tudo o que eu encontrasse lá seria inteiramente novo para mim. Amigos, conhecidos, colegas, tudo e todos, seria uma viragem completa de cento e oitenta graus, no rumo que conscientemente oferecia a mim mesma.

O vinte e cinco de abril estava ainda muito recente e eu sentia-me cansada, precisando de respirar. Eu não conhecia os Açores. Mas já que tudo estava no seu início, sim, eu gostaria de fazer parte dessa equipa que trabalhou para levantar esse marco na história da televisão em Portugal. Os Açores! Quem diria!? Era mesmo um salto no completo desconhecido. E quando todos me perguntavam porquê, porque razão me tinha dado na telha de me mudar para os Açores, quando estava tão bem onde estava, secretária do Conselho de Administração da RTP, um futuro de certo modo risonho, etc…, eu não tinha resposta para dar. Eu tinha sim resposta para mim. Para os outros não, porque não entenderiam a única resposta sincera e genuína: porque o meu destino está lá; porque eu sinto um chamado para ir para lá… só isso. Essa era a única verdade. Mais nada interessava.

Mas as perguntas surgiam de todo o lado. Era na RTP, o militar então administrador, incomodado, porque queria saber se alguém me tinha tratado mal e que por mais que eu lhe dissesse que não era nada disso, não parava de me interrogar para tentar saber o que estaria errado comigo. Era a família, que gostariam de uma resposta que os fizesse entender o porquê da minha súbita decisão de debandar para tão longe, no meio do oceano, enfim… ninguém me dava tréguas.

É claro que eu percebia que aos outros fizesse confusão. Mas a vida é assim mesmo. E eu achava que não tinha que justificar a ninguém. Não estava a fazer nada de errado, nada que fosse prejudicial para ninguém, só queria dar voz ao grito ou à chamada que vinha de dentro de mim. A minha decisão estava tomada e nada mudaria os meus planos.

Na televisão era uma canseira. Nunca tinha hora de saída, nunca podia prever o que seria o meu dia, com quem iria trabalhar, uma vez que estavam sempre a incumbir-me de missões difíceis, sigilosas e comprometedoras. Por isso mesmo já tinham transferido uma das colegas da administração. Para tudo me indicavam como pessoa de total confiança e então caíam sobre mim todas as tarefas pesadas, chatas e complicadas. Até com o advogado de acusação do Dr. Ramiro Valadão por parte da RTP eu tive que trabalhar, na organização de todos os processos, que eram documentos e papelada que nunca mais acabava. Hoje, quando penso nisso, acho tudo uma grande loucura, porque o vinte e cinco de abril não foi aquilo que a maioria das pessoas acredita que foi. Lembro-me, como se fosse hoje, do advogado comentar comigo acerca de uns papéis que eram despesas de almoços e flores, com alguém com quem o Dr. Ramiro Valadão esteve, insistindo que aquilo era uma “vergonha”, a RTP a pagar. Uhau! Depois disso, aos dias de hoje, quantos almoços e ramos de flores, para não falar em coisas muito piores, mas muito piores, não foram e não são pagos aos governantes e aos presidentes e diretores de todas as empresas?! E o outro é que era o ladrão?!

Os militares estiveram no controle da RTP e imediatamente puseram de lado os carros de luxo. Compraram R5’s e nem logotipo quiseram. Alguns nem motoristas quiseram e quando levavam motorista, iam sentados ao lado deles para não serem identificados e não dar muito nas vistas. Veja-se agora, os carros parados no estacionamento, os carros dos administradores. A maior loucura. E não se pagam almoços de luxo? E outras despesas que nem me vou dar ao trabalho de enumerar, porque só não vê quem não quer.

Quando cheguei aos Açores, aquilo era um paraíso. O meu paraíso, que eu sozinha tinha conquistado para mim. Mas como não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, aos poucos os problemas começaram a surgir. E quando lá cheguei, também os militares estavam no comando. Um deles achou que podia arruinar aquilo tudo. Não raras vezes ia para a única boîte lá do sítio e no dia seguinte aparecia um empregado da dita boîte com as faturas do sr. Tenente C.P. para a RTP pagar. Todos os meus colegas pagavam sem nada dizer. Uns verdadeiros idiotas. Um dia teve o azar de ser eu a atendê-lo e quando apresentou os papéis e vi as bebidas e mais bebidas, etc… disse-lhe que não pagava. Ele olhou para mim e de olhos arregalados começou a falar alto, dizendo que eram despesas do sr. Delegado, que mandava cobrar à RTP. Então, se eram despesas dele, ele tinha que as pagar do bolso dele!? Ah, mas sempre pagaram e nunca ninguém recusou(?). Pois, o problema é esse mesmo, é que nunca deveriam ter pago. E recusei-me a pagar, para grande espanto de todos os colegas presentes.

Claro que logo de seguida fui chamada ao sr. Delegado, baixinho e gordinho, que gritava e esbracejava por todos os lados. Atrás de mim a Delegação em peso, admirados com o meu comportamento. Como é que eu tinha a coragem de enfrentar o homem? Era ele que mandava(!). E gritava alto e bom som, que ali quem mandava era ele, frisando bem, que eu não era ninguém. O homem estava quase a ter um treco, mas tive que lhe responder à letra, dizendo-lhe com todas as letras que por acaso estava enganado e realmente não podia fazer o que simplesmente lhe apetecesse, por exemplo, querer que a empresa pagasse as despesas da sua vida noturna, por onde quer que ela passasse e dar cabo daquilo tudo antes de se ir embora. No que dependesse de mim isso não aconteceria, até porque ele não me metia medo, além de que ele, o Delegado, não era funcionário, estava ali apenas de passagem, como todos os outros. Já eu não, eu trabalhava ali, era efetiva, tinha um número e nada nem ninguém me tiraria dali.

A loucura completa. O homem gaguejava sem conseguir articular uma palavra. Os colegas indignadíssimos com a minha “ousadia” e com medo do que me pudesse acontecer. Mas eu não tinha medo. Eu sabia que estava certa. E quem teria a coragem de dizer o contrário? Então e o vinte e cinco de Abril, onde ficou ele, coitado!? Eu podia não ter dito nada. Podia não me incomodar com nada daquilo, como os outros. Mas então que raio de ser humano era eu? Podiam até despedir-me, mas isso seria por ser e sempre ter sido a pessoa de confiança que viram em mim e nunca pelo contrário.

O capitão que se mostrara incomodado com a minha transferência tinha-me advertido de que, caso as coisas não corressem como eu gostaria, o meu lugar e a minha passagem de regresso estavam garantidos. Mas isso eu não faria de jeito nenhum. Eu tinha decidido ir, sinal de que tinha que aguentar com o que estivesse na minha frente. E teve de tudo. Bom, muito bom e mau, mesmo muito mau. Mas a vida é assim. Eu só regressaria na altura certa, mas nunca por desistir.

O facto é que, a minha chegada a S. Miguel, mudou radicalmente o ritmo e a vivência da ilha. O ano do verão quente, como lhe chamavam. O ano em que as festas e os convívios deram uma dinâmica completamente diferente à quietude daquela ilha. Por tudo eu organizava festas onde nos divertíamos em grande. Com as sardinhas e o pão de mistura como os reis da festa, o resto fazíamos nós, com piadas e brincadeiras, as mais variadas, até altas horas da madrugada. O verão quente ajudava e muito e a vida era para ser vivida.

Não me enganei quando disse para mim mesma que o meu destino estava lá e que ia porque sentia o chamado. Não estava enganada de maneira nenhuma. Não sei de onde vinha aquela voz, como até hoje não sei de onde ela vem, sempre que a ouço, porque toda a vida fui guiada por essa voz que guia os meus passos e me abre os caminhos. Não sei. Sei que fui porque era lá que estava o meu futuro. Era lá que estava aquele com quem havia de ter um filho, uma família, ainda que isso muito pouco tenha durado. Mas isso não conta. O que conta é o facto em si. E desde a primeira vez que vi aquele que depois foi meu marido, desde que olhei para ele, percebi logo que era ele, o tal que estava destinado a ser o pai do meu filho que eu tanto aguardava e tanto desejava. Era como se estivesse escrito no rosto dele. A mensagem invisível estava marcada com uma força que não precisava de palavras. Ela chegava até mim através do ar que respirava.

Não foi fácil. Até porque não era, nunca foi e provavelmente nunca será a pessoa mais fácil, nem a mais compreensiva, nem a mais amorosa deste mundo. Não era de todo a pessoa mais fácil de conviver, de dialogar, de compreender. Era tudo menos isso. Dava-me imenso trabalho e mais ainda me daria. Contudo, era muito provavelmente, para não dizer de certeza, a pessoa mais inteligente que eu conhecia. E isso era importante, porque não gosto de gente estúpida. Sem instrução até poderia ser, mas estúpida não. Era inteligente e bonito e eu queria isso para o meu filho. Era uma pessoa também de múltiplas facetas criativas, o que muito me encantava. Romantismo era coisa que nem sabia o que era. Nunca na vida me disse que gostava de mim. A maneira que tinha de o demonstrar era pôr defeitos em todas as mulheres, porque para ele eram todas iguais. Todas falavam muito. Todas eram muito chatas. Todas tinham todos os defeitos. Não era ele. Eram elas. E dizendo isto, eu apenas percebia que ficava de fora. As outras eram tudo isso que ele não gostava. Eu não. Mas isso nunca na vida foi revelado ou afirmado. Apenas surgia por omissão, fazendo-se notar no intuir da questão.

Enganei-me a seu respeito? Claro que não. Eu sabia que ele era assim. O que eu não sabia é que não ia ser capaz de aguentar. Achava que o amor que sentia por ele conseguiria ultrapassar tudo. Sabia que ia ser muito difícil. Ainda assim, achava que conseguia. Portanto, se me enganei, não foi a respeito dele, mas sim a meu respeito. Percebi que afinal não era uma supermulher, apenas humana e nada mais. Fui ingénua? Acho que não. É legítimo atribuirmo-nos determinados poderes que afinal não temos. Mas parece-me legítimo. É um direito que temos. Porque não? Se não tivermos a coragem de abraçarmos algo que está para além das nossas forças, também nunca vamos permitir conhecer a nós mesmos. Depois a vida é assim mesmo.

Alguma vez me arrependi? Não. O facto de me ter divorciado ao cabo de dez anos, não significa que me tenha arrependido. Divorciei-me porque foi necessário. Ou melhor, foi imperioso. Isto é uma coisa que a família e muita gente não compreendeu. Não havia condições para coabitarmos os três. Nenhum de nós beneficiava de nada, absolutamente. Pelo contrário, era muito complicado. Tudo em nós era dissociado, a começar pela nossa vida profissional. Mas depois, diferenciávamo-nos emocionalmente, psicologicamente, para já não falar da nossa vida pessoal, que nem existia. Era nula. E o nosso filho, como ficava no meio disto tudo? Foi muito duro ter chegado à triste conclusão, bem difícil de reconhecer e aceitar por mim mesma, de que não havia solução para nós e que a única coisa, para prosseguirmos as nossas vidas sem tragédias inevitáveis, era o divórcio, que ele para não variar, não queria aceitar.

Eu podia ter escolhido outro, claro que sim. O problema é que para mim não era uma questão de escolha. Não me cabia escolher. Então era o quê? Ah, sim… com toda a liberdade possível, liberdade para aceitar o destino.

 

sábado, 15 de janeiro de 2022

O sr. Filipe - 97

 

Tocaram à campainha lá em baixo. Não era necessário perguntar quem era. O sr. Filipe, que vinha arranjar o estore do meu quarto, cuja correia se partira. Há quatro noites que estava a fazer o enorme sacrifício de dormir na escuridão total, pois o estore tinha caído por inteiro, não deixando passar o menor raio de luz, obrigando-me a ficar na mais completa escuridão. Tinha apenas uma leve claridade vinda do lado de fora do quarto, com a porta aberta.

Falei com várias pessoas, mas todos estavam muito ocupados. Finalmente encontrei uma boa alma, o sr. Filipe, que se propôs de imediato a deslocar-se à minha casa para resolver o problema. Por isso, quando a campainha tocou, percebi que só podia ser ele e sem mais demoras abri a porta. Ouvi o elevador e eis que no terceiro andar a porta se abriu, saindo de lá uma pessoa, o sr. Filipe, que eu não conhecia.

Um homem de estatura alta e magro, com um enorme sorriso que às vezes me pareceu um pouco falso e forçado. Talvez quisesse parecer simpático a toda a força. Mas cada um é como é. Comecei por lhe agradecer a vinda à minha casa e feitas apresentações encaminhei-o para o quarto, a fim de ver o trabalho que iria fazer. Pediu licença para entrar e lá foi ver o que era.

Viu e olhou para mim sempre com aquele sorriso meio estranho porque meio patético, começando por dizer que já tinha estado ali no meu prédio, em casa de duas vizinhas minhas, que depois da descrição feita por ele, lhe disse que sabia muito bem quem eram. Ele morava ali muito perto, era reformado e fazia estes biscates para ganhar mais qualquer coisa e manter-se ocupado, coisa perfeitamente normal.

Depois de ver bem o que era e com um rolo de fita na mão, que tirou da sua sacola de trabalho, disse que estava tudo bem, mas que a fita tinha que ser substituída e eu não lhe tinha dito isso. Respondi que sim, que lhe tinha dito ao telefone que a fita tinha rebentado e o estore estava todo caído, obrigando-me a dormir no escuro, mas ele com a sua cara de pateta simpático, sempre a sorrir, dizia que não, que eu não tinha dito isso, que não lhe tinha explicado esse pormenor.  

Como não, se ele até estava com um rolo na mão?! Eu tinha a certeza de que lhe tinha dito. E olhando para ele, percebi que ele estava a mentir. Completamente, sem dúvida nenhuma. Mas porquê? Não me pareceu que não quisesse fazer o trabalho, pois se assim fosse, nem se daria ao trabalho de lá ir, como é óbvio. Ir lá por outra razão qualquer, estava fora de questão, pois a pessoa que mo recomendou era da mais completamente seriedade. Então, porque seria? Estaria eu a inventar? E a minha intuição começa a trabalhar exaustivamente, dando sinal de alarme, o que já é habitual comigo.

Entretanto, da mesma maneira que eu captei que ele estava a mentir, também ele captou que eu estava a perceber isso e para continuar o filme dele, fingiu medir a fita que se tinha soltado, apenas para concluir que a que tinha levado não chegava para o trabalho. Talvez sim, talvez não, só ele o saberia. Mas isso não interessava. O que interessava é que ele não ia fazer o trabalho, foi isso que eu percebi. Sem perceber nada do que se estava a passar e como aquilo era muito importante para mim, disse-lhe que o levava à drogaria mais próxima, relativamente perto, também, para comprarmos a fita. Respondeu que não podia ser, porque estava sem tempo. Tinha um não sei quê que fazer e o tempo estava contado. Mas, tendo percebido como realmente era importante para mim o problema do estore avariado, disse que depois do almoço, por volta das três horas, voltaria com a fita para então fazer o trabalho. Menos mal. Contentei-me com a decisão dele, pois não havia volta a dar. Contudo, eu tinha a certeza absoluta de que o sr. Filipe não estava a ser franco. Havia algo que eu não percebia e que o fazia estar a mentir. Disso eu tinha a certeza. Porquê? Não entendi, nem me apeteceu matar a cabeça com aquilo. Ele voltaria dali a pouco e o problema ficaria resolvido. Disso eu também tinha a certeza. O resto era secundário.

De facto, na hora combinada, uma vez mais, o Sr. Filipe estava de volta com a sua sacola do material de trabalho, espalhando aquela cangalhada toda para começar a obra. E à medida que ia fazendo o trabalho ia falando de si, da sua vida, do neto, etc., conversando e trabalhando, o tempo ia passando. Ao fim de uma hora de trabalho, o estore de novo no lugar certo e a funcionar como devia. Tudo voltava ao normal, para meu grande alívio. Essa noite mesmo eu já não teria que ficar no escuro. De manhã quando acordasse teria o enorme privilégio de ver a luz abençoada. A luz da vida, da energia, do princípio e do fim de tudo.

Já na ponta final, o sr. Filipe deu um rumo um pouco diferente à conversa e começou a falar do Covid, confessando-me que já tinha sido contaminado, tendo estado muito mal. Por isso não tencionava ter mais vez nenhuma. Agora tomava todos os cuidados e mais alguns. E continuando a conversa, confidenciou-me que não aceitava qualquer trabalho. Falava só ele. Eu limitava-me a escutá-lo. Então… não aceitava qualquer trabalho. Primeiro ia ver. Se a casa não fosse suficientemente arejada e aberta, ele não aceitava. E olhava para mim com o olhar bem fixo nos meus olhos, para eu saber que desta vez ele estava a dizer a verdade. Percebi imediatamente que estava certa quando, anteriormente, ele me disse que eu não lhe tinha dito que a fita estava partida, o que não fazia o menor sentido. Agora sim, as coisas encaixavam. Claro que ele tinha ido de manhã só para ver. Ele sabia de antemão que não faria o trabalho naquele momento, por isso invocou a desculpa da fita, dizendo que eu não lhe tinha dito. Ele sabia que estava a mentir e que eu percebi que ele estava a mentir. Mas agora as coisas estavam explicadas.

Ele terminou, paguei o trabalho dele, agradeci muito e foi-se.

Quando as pessoas mentem, normalmente só contam com elas. E acham que a pessoa para quem se dirigem apenas capta a mensagem falada, a mensagem oral. Por trás da mentira há a verdade. Uma coisa é o que se diz e outra é o que é e o que é tem uma força completa, muito mais poderosa do que a mentira. Digamos que a mentira é a casca da laranja ou do fruto e a verdade é o fruto. Da mesma maneira que aquilo que se vê nem sempre corresponde ao que é real. Por vezes há uma outra realidade que se esconde. Quando os sentidos trabalham todos para o mesmo fim, um sexto sentido comanda tudo e todos os outros lhe obedecem, por assim dizer.

Esta história do sr. Filipe não tem a menor importância. Não é relevante. Mas é apenas um exemplo do que pode ser uma mentira e da repercussão que ela pode ter. Aqui não se trata de um julgamento. Não é essa a questão. Não é a mentira como o mal e a verdade como o bem. Não é por aí. Até porque há mentiras que se justificam. O que está em causa é muito mais do que isso, é a perspetiva holística, ou seja, é quando o todo é maior do que a soma das partes. A verdade está aí. Não importa as palavras que são ditas. A verdade está antes e depois. A verdade está impressa e tem uma força que as palavras não têm, sejam elas quais forem.

 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

A vida espiritual (cont.) - 96

 

Almancil, Março de 2001, meditação guiada (II). 

Seguida da mandala, a meditação do nível II. Felicidade abre um livro. Todos à sua volta sentados em posição de lótus, preparados para ouvir e seguir a voz da guia espiritual. 

É um campo muito verde, cheio de árvores. Cada um deverá escolher uma árvore e eu já estou enraizada. Que sensação boa, cheia de braços e ramificações e olhando para o alto, as minhas folhas balançam ao sabor do vento, num lindo dia duma Primavera florida e orgulhosa dos seus frutos desabrochando de aspecto delicioso. Eu e a árvore numa perfeita sintonia, com a luz trespassando os ramos, entrando por todos os lados. A guia pede para prestarmos atenção a um raio de sol que entra pelo centro da copa e percorre todo o tronco da árvore. O tronco da árvore é o nosso próprio tronco. Algumas raízes estendem-se, outras descem ao fundo da terra. A minha consciência desce com elas e de repente está muito escuro onde estou, algures nas profundezas no centro da terra. E eu não gosto do escuro! Porém, a guia diz-nos que lá em baixo vamos encontrar um lugar cheio de luz. A mesma luz que no início me trespassou, entrando pela copa, percorreu o meu tronco e está comigo no centro da terra. É um lugar muito bonito. A luz que brota da escuridão revela-nos sempre lugares de uma beleza inaudita. Agora estou bem. Há um ribeiro e a guia manda-nos mergulhar as raízes nessa água cristalina que corre cantando, revelando toda a pureza da sua energia. É um quadro muito prazeiroso. Quem o conseguiu atingir, testemunhá-lo-á. Para mim é muito fácil entrar em sintonia com o guia. A minha capacidade receptiva é muito boa, o que significa que o meu chacra está muito aberto. Então, Felicidade manda-nos seguir por onde a luz nos leva. É uma espécie de gruta. À medida que vamos andando, a gruta vai-se abrindo, o sol iluminando mais o seu interior e a guia diz que vamos sair por um descampado, do qual eu já havia avistado um jardim. Em volta desse jardim há um campo de trigo ensolarado, por onde caminhamos agora, tendo no meio uma espiral de luz dourada. O meu corpo funde-se com essa luz por alguns instantes. Espero que os outros o consigam porque é uma sensação deliciosa. Continuando, caminhamos por esse campo, em corpo de luz, durante algum tempo, contemplando toda a natureza, recebendo todos os benefícios daquele lugar radioso de luz pura, de cheiros indecifráveis, passando por entre espigas de trigo louro banhado de luz, de toque suave, até chegarmos a um lago. No meio desse lago avisto uma fonte que brota no seu centro e num impulso corro ao seu encontro. Felicidade pede-nos para entrarmos no lago. Já lá estou, no centro, onde agora me vejo como um cristal, estando o meu corpo de luz apoiado na fonte que brota do lago. Sinto-me leve, leve, dançando em torno do meu próprio eixo imaginário, tal qual uma estátua, mas uma estátua transparente, que se move num lento movimento e de repente apercebo-me de que não estou sozinha. A guia diz-nos que se aproxima o nosso anjo. Ei-lo na minha frente. Na meditação do primeiro nível eu nem o queria receber. Era um estranho. Agora eu e ele estamos felizes, brincando. Ele está feliz, toca-me levemente com as pontas dos dedos erguendo-me no alto e eu giro, giro, em torno de mim mesma, plena de bem-estar, cheia de luz e graça e ele orgulhoso da sua pupila. Agora parece que toda a vida estivemos ligados e que nunca fomos estranhos um para o outro. Agora o reconheço perfeitamente. Isto significa que houve um grande progresso na minha evolução espiritual. Ele e eu estamos felizes. E é agora que sucede algo extraordinário. Algo que em nada tem que ver com o caminho que a guia nos aponta. O anjo, na minha frente, aponta a sua mão direita para o lado, a direita dele. Tem o seu braço direito esticado, apontando para a direita com a mão e o dedo indicador esticado. Presumo que ele quer que eu olhe naquela direcção, que é a minha esquerda. Eu paro de girar, fico de frente para ele e olho na direcção que ele aponta: a minha esquerda. Não me apercebo logo do que se trata. Mas olhando mais atentamente, começo a avistar ao longe, um lugar escuro. Continuo a olhar e então vejo alguém que, andando apressado e compondo a lapela do casaco do fato que tem vestido, atravessa o escuro vindo na minha direcção. Olhando-o mais fixamente acabo por reconhecê-lo. Vem apressado, quase correndo e por cima dele há uma faixa de luz, horizontal, que deita chuva. É uma chuva de prata. Soube mais tarde que significa, para quem a recebe, limpeza espiritual. Toda igual, certinha, caindo abundantemente sobre ele. E ele apressava o passo com medo de chegar “tarde de mais”. Mentalmente pergunto ao anjo o que faria ele ali, ao que o anjo, mentalmente, responde que no momento ele é a minha outra “metade”, ou seja, a minha energia complementar. Fico parada, sem saber o que pensar e o que fazer, mas querendo continuar no caminho da guia. Então o anjo detém-me, continuando na minha frente e como que respondendo à minha pergunta, ele deixa cair, depositando nas minhas mãos, um par de alianças grossas de ouro maciço, lindas, que estão agora depositadas nas minhas mãos. Olho-as, um pouco espantada, admirando-as, enormes e reluzentes, perguntando-me, o que faço com elas, para que me servem? O anjo fecha as minhas mãos, transmitindo-me que elas são minhas… simbolizando o meu livre arbítrio(?!)… E tudo não tem nada a ver com a meditação guiada. 

Quero sair dali. Ele deixa-me passar. Ouço a voz da guia dizendo para continuarmos o caminho. Mas eu já tinha continuado até ao ponto onde havia um túnel por onde entrámos. Era um pouco escuro, mas logo encontrei a luz e a saída que dava para uma pequena ponte cheia de roseiras e outras flores, deixando o ar bem perfumado. Talvez seja a resposta ao direito da minha escolha, ao direito ao livre arbítrio, à liberdade. 

Finalmente, somos conduzidos a um jardim, onde nos sentamos, descontraímos e de novo voltamos ao nosso mundo material, com todo o seu peso e as suas consequências. 

E debaixo deste delírio muitas respostas foram dadas.

 


quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

A vida espiritual - 95


Ponta Negra, Brasil, Janeiro de 2001, Meditação guiada (I). 

Olhos suavemente fechados, Inajá e eu sentadas lado a lado com um pequeno intervalo para que as auras não interfiram uma na outra e Irene começa descrevendo no espaço imagens de tanta beleza que não esquecerei jamais. 

A concentração é grande. Presa por um fio de respiração à vida real, a única coisa que me interessa a partir deste momento, é a voz de Irene que fez a minha mente viajar no seu pensamento, com a velocidade da luz. 

Irene manda inspirar e expirar três vezes, devagar, para afastar as tensões e as preocupações, liberando a mente e preparando-a para a meditação. Esse momento é para mim de grande expectativa e tem um encanto todo especial, como o de uma criança numa noite de Natal, cheia de mistério. Tudo depende da concentração da mente, do que ela é capaz de nos proporcionar e da capacidade de aderirmos ou não à viagem astral, onde a criatividade do espírito é soberana. 

Inspirando e expirando, vamos ficando cada vez mais leves, deixando o nosso eu mais superficial de fora e mergulhando no eu mais profundo, que passa pelo subconsciente até atingir o inconsciente. Agora entramos num estado de transe e a minha comunhão com Irene é perfeita.  

Primeiro, a luz verde que vem da terra, entrando pelos pés, percorrendo todo o corpo até atingir a cabeça, mais precisamente o chacra da coroa. Depois, a luz dourada que vem fazer o percurso contrário, vinda do céu, entra pelo chacra da coroa, sai pelos pés e entra na terra. Ambas se misturam no nosso corpo. É a energia reicky a fluir dentro de nós. De seguida, uma luz branca que vem do alto, entrando pelo chacra da coroa, percorre todos os chacras através do tronco, saindo pelo “sacro”, o primeiro chacra, limpando todo o nosso ser, indo para a terra mãe, a fim de ser purificada. Novamente uma luz dourada lá do alto, que se dirige ao prana, o terceiro chacra, começando a circular à minha volta, em ondas de mar e terra, formando um círculo cada vez maior. Eu sou o centro e as ondas continuam alargando-se por toda a terra, mais e mais, até atingirem o limite do horizonte. Já não é possível alargar mais o círculo. A energia preencheu completamente todo o globo terrestre atingindo a linha do horizonte e já não tem por onde crescer, porém, continua rodopiando à minha volta, alternando o verde com a terra. Aguardo directrizes de Irene, porque não sei para onde expandir toda a energia que transborda de mim. Parece que vou sair do planeta e projectar-me no espaço. E surge, algures no espaço, um lugar onde estou realmente, onde me vejo. É como se fosse um duplicado de mim mesma, porque continuo na terra, mas estou a ver-me num plasma, instalado no espaço. Nesse instante, Irene intervém, pedindo para tomarmos consciência do lugar onde estamos. 

O chacra da terceira visão abre-se e o filme surge nesse écran da minha alma. Só eu posso vê-lo. Inajá verá o dela, sendo, contudo, Irene, quem nos fornecerá a chave deste écran panorâmico, atingido pela nossa mente, mais precisamente pelo nosso espírito, predisposto para esta extraordinária sintonia telepática. 

Aí estou eu correndo graciosamente, em “slow motion”, sem idade, não sei onde nem quando, com tanta leveza, por entre árvores repletas de luz, num lugar fresco e arborizado, sem tocar o chão coberto de relva, onde passa como “laser”, entre o verde e os meus pés, uma energia muito definida, muito bonita, muito fina, numa mistura de água e vapor, absolutamente indescritível. Essa sou eu e quão maravilhosa foi essa descoberta. Aquela era o meu eu mais verdadeiro, a minha essência mais profunda. A que existia na terra era outra, disfarçada de tudo o que era negativo, carregada de preconceitos, completamente distorcida da verdade, assustada, encerrada em medos sem sentido, enfim… uma sombra nula e escura do que afinal eu era realmente. Então decidi que voltaria a vestir a minha pele original. Prometi a mim mesma trabalhar para recuperar a minha essência. Isso valia a pena. 

Com a sua voz de comando, Irene pede-nos para olharmos para trás, o que eu já havia feito, tendo avistado umas árvores que se deixavam atravessar por raios de sol, tal qual ela acabara de mencionar e que chegavam até mim trazendo-me uma luz impossível de descrever, de tão especial, que me deixava no rosto e na alma um sorriso delicioso, fazendo-me sentir feliz e abençoada, naquele cenário transcendente, sem tempo e sem lugar. 

Irene diz-nos que vamos chegar a um sítio que tem um lago. De facto, antes mesmo de ela o dizer, eu já o avistara, por isso paro, até porque ele não me deixa passar. Talvez haja um caminho em volta, mas algo me diz que é por ali que tenho que seguir, sendo que o lago constitui uma barreira. Que faço então? Irene pede para pararmos junto ao lago onde eu já me encontrava. De repente, começo a sentir uma energia do meu lado direito. Irene pede-nos para olharmos para o nosso lado direito e nos esforçarmos por ver quem lá está. De facto, eu o reconheci. Era o Dr. X. Lá estava ele, de óculos e com livros debaixo do braço, com um fato escuro. Era ele. Não tinha dúvidas. Logo em seguida apercebo-me de uma segunda energia, muito mais forte, quando Irene nos pede para olharmos para o nosso lado esquerdo. Fiquei ligeiramente confusa, tive que olhar bem para cima, abrir mais o chacra e prestar muito mais atenção, porquanto aquela energia era demasiado portentosa para ser reconhecida imediatamente. Agora, porém, ela já preenchia todo o meu ser, banhando-me com a sua luz e deixando-me ver o seu rosto, para que não restassem dúvidas... era Jesus. Senti-me tão pequena e ao mesmo tempo tão importante. Como podia Ele estar ali ao pé de mim, sem mais nem menos... era uma sensação que tinha tanto estranhamento bom como fascínio… e de repente senti-me protegida. Nada, absolutamente nada de mal me podia acontecer naquele momento que parecia eterno. A minha alma planava, leve como uma pluma, ao sabor destes acontecimentos tão deliciosos e inesperados. 

O lago continuava lá e fui arrancada a este delírio pela voz de Irene, que nos chamava a atenção para a chegada de um anjo, quando eu já tinha sido orientada pela energia de Jesus para lhe ser entregue. Ele vai ajudar-me a atravessar o lago e a partir desse momento ele é o meu anjo da guarda. Não sei quem é, mas ele estava lá e reconhecendo-o ou não, ele tinha chegado até ali para minha guarda, que eu julgava futura, mas que, na verdade, era muito mais do que isso, sendo o nosso ponto de encontro no passado, presente e futuro. Todos temos uma protecção divina que nos acompanha por todo o sempre. Essa protecção aqui é entendida como um anjo que nos protege desde o nosso nascimento. Todos sabemos mais ou menos isso, mas tê-lo presente, ainda que noutra dimensão, torna tudo cada vez mais estranho. Mas, enfim, é realmente outra dimensão. Ao vê-lo e não sabendo quem ele era, fiquei confusa. Um anjo para mim! Desde o falecimento da minha mãe, apenas com 32 anos de idade, eu sempre contara com a sua protecção para mim e mais tarde, muito especialmente, para o meu filho. Eu tinha dez anos quando ela fez a sua passagem. Nesta cena, com os meus quarenta e nove anos, há uma relutância quase infantil da minha parte em aceitar o anjo, uma entidade que não me era familiar e, no entanto, tão próxima de mim, o meu anjo da guarda. Por outro lado, eu não podia aceitar tal reacção da minha parte. Seria como negar a minha ligação ao divino. Que fazer? Eis se não, quando do meu lado esquerdo surge, com grande evidência, uma outra energia que logo identifico, não sem espanto, como sendo a minha mãe, como sempre, um ser de luz, descrevendo uma meia lua de cima para baixo e elevando a minha mão, sem a tocar, entregando-me ao anjo. E vai-se toda a minha relutância. Sou entregue ao anjo pela minha própria mãe. Percebo então que, provavelmente, ela vai deixar aquele estado, o estado de luz e entrar numa outra dimensão, ou seja, parece chegada a hora de uma vez mais, reencarnar (?!) … Por isso tem de me deixar à guarda do anjo. É espantoso o decorrer do tempo noutra dimensão. Não tem nada que ver com o tempo que nós conhecemos, o tempo de que nos servimos como padrão que nos rege. E conforme veio, foi, descrevendo uma meia lua no caminho inverso. Dou então um passo em direcção ao anjo e sou-lhe entregue com alegria, respirando fundo. Sei agora das razões porque tal aconteceu. Tudo isto aconteceu à margem das directrizes de Irene, num breve piscar de olhos. Irene prossegue, depois de ter dito que o anjo ficaria então sempre connosco, por toda a nossa caminhada na terra, auxiliando-nos em tudo, não nos deixando nunca sós. 

E estou do outro lado do lago. 

Está escuro. A princípio não consigo ver nada. Talvez uma montanha. Maior concentração, maior abertura do chacra. É uma montanha muito escura. Não consigo ver mais nada. Porquê uma montanha? Irene pergunta-nos se conseguimos ver o que está na nossa frente. Respondo para mim própria que na minha frente tenho uma montanha e está tudo escuro. Irene adianta que devemos encontrar um Templo. Não vejo templo nenhum. Estou esforçadíssima, numa concentração a cem por cento, mas onde está esse templo? Ela deve ter observado a minha expressão de perplexidade, porque continuou insistindo para observarmos bem, que nalgum sítio da montanha avistaríamos um templo. Afinal sempre havia uma montanha, portanto, eu estava certa. Talvez isso me tivesse deixado confusa. Então, se havia uma montanha e eu a vi, se ela diz que há um templo, porque é que eu não o vejo?! Gera-se a impaciência. Será que vou ficar por aqui? Será que terminha aqui a minha caminhada? Será que as minhas capacidades não me permitem ir mais longe? Fico muito impaciente. Tempo demais no escuro. Nada acontece. Eu não o vejo e Irene não fala, provavelmente dando-nos tempo. Onde será que anda a Inajá? Provavelmente já o avistou. Dentro de mim há um sentimento de desânimo, mas volto a concentrar-me tentando reunir uma maior concentração e faço um esforço grande, grande mesmo, como se estivesse a parir um filho mentalmente, provocando uma ainda maior abertura do chacra. A montanha está lá. O templo não. Fico à espera dos efeitos da abertura do chacra. Ouço um barulho estrondoso que parece um enorme terramoto. Simultaneamente, o chacra funciona como um “zoom” e a montanha vai-se aproximando de mim e vai chegando perto, mais perto, sacudindo-se toda de cima a baixo e de todos os lados. E eis que se abrem dois gigantes portões de madeira, com ferrolhos fortes em ferro, assombrosamente grandes, saindo de dentro da montanha, abrindo-se de par em par. O templo está soterrado, completamente coberto pela montanha. Como é grande! As portas abrem-se sacudindo terra e pó por todos os lados e eu ali, de frente para aquela coisa tamanha, pasma, enfeitiçada, sem saber o que fazer. De repente, aquela escuridão no interior do templo começa a tomar forma de gente e não é pouca. Irene diz para olharmos para o seu interior. É o que já estou fazendo. Irene pede para vermos se encontramos lá alguém conhecido. Continua uma escuridão de arrepiar, mas cheia de gente que nunca mais acaba. Pergunto-me, o que faz toda aquela gente ali. Olho atentamente para aquela amálgama de gente sufocante, é uma verdadeira massa, não sei se gritam, não entendo o que querem, parece que apelam não sei a quê, parece que imploram e de repente alguém se eleva, deixando-se reconhecer. Surpresa das surpresas, não estou enganada, é Seu António, pai da Inajá, ali na minha frente. É ele, que parece levitar para que eu o veja. Será que ela também o vê? Porque será que ele me aparece? Muito curioso, muito estranho, mas é ele, não tenho dúvidas. Irene diz para tentarmos comunicar, caso encontremos alguém conhecido. Espero na retaguarda, imóvel, que ele me contacte, mas ele não o faz. Apenas se apresenta. Tem um ar meio apático, meio desiludido e uma expressão séria, que me constrange. Faz-me sentir culpada, mas não sei de quê. Porque não reage? Tenho a certeza de que quer ver a filha. Porque apareceu para mim? Sinto-me como peixe fora de água. Que situação embaraçosa e delicada!? 

E conforme veio, foi, engolido pela multidão e pela escuridão, também. Então, Irene, pede-nos para entrarmos no templo. E da escuridão faz-se luz. Todo aquele cenário lúgubre e deprimente desapareceu, dando lugar a um estadium muito mais agradável e compensatório. Quanta luz! Um clarão branco invadindo o átrio do templo é um convite para entrar. Eu estava ansiosa por saber o rumo de Inajá. Quem dera que ela andasse por um caminho bonito como o meu! Mas só no fim poderíamos saber. Era preciso esperar. Por outro lado, tudo aquilo era tão fascinante que não me apetecia que tivesse fim. Mas a nossa dimensão é a dimensão dos limites, das fronteiras e bermas e de tudo o que começa e termina, portanto, a única coisa que me interessava era insistir na concentração a qualquer custo, para não me dispersar. 

Luz, muita luz e eu já estou no seu interior. À medida que vou entrando no templo, vai-se abrindo o caminho numa amplitude cada vez maior. São alas e alas. Já não me lembro muito bem, mas naquela altura, sei que era tudo muito nítido: o chão, as paredes, o fundo, o tecto. Mas já não me lembro exactamente dos deliciosos pormenores por que passei na altura. Lembro-me de que havia uns pilares cilíndricos, colunas que sustentavam a arquitectura fabulosa dos tectos trabalhados em forma de abóbada. Era tudo inundado por uma imensa luz muito clara que, conforme eu ia passando, me seguia, focando-me sempre, iluminando-me ainda mais, assim como tudo à minha volta. E enquanto vou penetrando por aquela imensidão, vejo que há uma passadeira vermelha estendida pelo chão, por onde eu passo e como se isso não bastasse, de cada lado há uma fileira de anjos suspensos no ar, corpos de luz, tocando pequenas harpas, cítaras, violinos e entoando cânticos belíssimos que me tocaram na alma e me encheram de tanta felicidade e tanta paz. Alados e em fileira, vão-me conduzindo para a parede central do fundo, onde avisto um buda que se vai ampliando à medida que me vou aproximando. Um buda de verdade, sentado em posição de lótus. E Irene? Já quase me esquecera que fora a voz dela a responsável por eu estar naquele lugar. E recomeça, dizendo-nos precisamente que lá dentro está um buda à nossa espera, o que quer dizer que eu continuo no caminho certo. Olho melhor o buda que, por sua vez, segura um embrulho muito bonito e atraente. Irene convida-nos a aproximarmo-nos dele e vermos o que tem para nos dar. Olho novamente para o embrulho nas suas mãos e apercebo-me de que aquilo, o que quer que seja, é para mim. Irene diz-nos que o buda tem um presente para nos dar. É isso mesmo, ele tem realmente uma oferta para mim. Estupefacta, sem fazer a menor ideia do que possa conter aquela caixa espectacular, cujo aspecto em si já é um presente, não faço a menor ideia do que possa conter. Uma caixa quadrangular, com cerca de 20 cm de lado, em papel vermelho acetinado e com um fiozinho dourado passado em toda a volta, que termina com um pequeno laço de pontas caídas na parte superior; vermelho e dourado era o que eu via nas mãos do buda, que as estendia para me fazer entender que era meu. Que estaria lá dentro? Irene incita-nos a abrir o presente. Enquanto eu faço um gesto de receber, esticando os braços ao seu encontro, ele faz o gesto de dar, estendendo os braços e mostrando a dádiva nas suas mãos. Sem nos tocarmos, eis que o fio dourado insinua desatar-se sozinho e sem que o papel de embrulho fosse retirado, num acto mágico, que fez o meu delírio completo, começou a saltar de todos os lados do embrulho, um pó dourado em estrelinhas, brilhando e rebrilhando, era uma coisa verdadeiramente mágica, magnífica, uma coisa inexplicável. Parecia ouro que não acabava nunca. Era um espectáculo fabuloso. Era ouro, confirmava-o a expressão do buda. E era para mim?!... Era ouro puro que caía continuamente sobre as minhas mãos e se espalhava pelo chão à minha volta. Ouro, o metal mais precioso do planeta. Jamais me ocorreu receber das mãos do buda, semelhante oferta. Era simplesmente espectacular! 

E com esta visão fabulosa, revestida de tão grande riqueza espiritual, Irene chama-nos a atenção que é terminada a nossa meditação, trazendo-nos para a realidade da nossa dimensão, ao nosso tão conhecido mundo tridimensional. Abrimos os olhos ao chamado de Irene e respiramos fundo. Estamos novamente de volta à casa materna: a terra mãe. Abro os olhos, respiro com tranquilidade. Onde foi que eu estive, que foi que me aconteceu? Estou em estado de graça, isso sim, feliz e leve como uma pluma. 


Quando nos interrogámos em conjunto sobre o acontecido e comentando entre nós, descobri que o pai de Inajá, que tinha feito a sua passagem há um tempo atrás numa cama de hospital, tinha sido conduzido por um budista que estava presente, depois de ter obtido a concordância da família para aquela cerimónia, uma vez que eram católicos. Eu, porém, desconhecia tal facto. Mas foi por essa razão que ele me apareceu no templo, o que eu tanto estranhei. Inajá não viajou. O chacra da terceira visão não funcionou com ela. E foi também por isso que ele me apareceu, porque não conseguiu ser visível à filha, pretendendo que eu lhe passasse esta informação.

Assim é a vida espiritual.  


domingo, 19 de dezembro de 2021

Reencarnação - 94

 

Reencarnação… algumas pessoas acreditam, outras não. Independentemente de se acreditar ou não, se prestássemos mais atenção à vida, ao desenrolar dos acontecimentos, talvez víssemos e percebêssemos melhor as coisas. E a aceitação seria bem diferente, com toda a certeza.

Uma criança nasce, é recebida no seio familiar e até pelos amigos, como um desconhecido que acaba de chegar a este mundo. Mas será mesmo um desconhecido ou será muito mais do que isso, alguém bem chegado a nós, bem já nosso conhecido, de outras vidas, de outros passados com outras histórias?…

Há tempos, uma amiga minha contava-me que tinha ido a um lugar muito místico, onde teve uma experiência que achou muito interessante, relacionada com a sua pessoa, porque baseada nas mulheres da vida dela, ou seja, até que ponto as mulheres que a antecederam: mãe, avó, bisavó, tias e por aí adiante, até que ponto essas mulheres tiveram importância na sua vida e na pessoa que ela é. Portanto, ela seria, de certa forma, um reflexo de tudo o que está para trás.

E enquanto ela me falava disto eu ia pensando e visualizando o processo de reencarnação. Quem sabe ela não é hoje a que foi sua avó ou bisavó, por exemplo? E assim, o “reflexo”, como ela lhe chamou, não terá um significado completamente diferente? Somos sempre os mesmos que vamos, para logo - mais tarde ou mais cedo - voltarmos?!

Isabel, uma outra amiga, contou-me que a cunhada, Amália, estava grávida. Esta gravidez tinha uma certa relevância, porque Amália estava há dez anos a tentar engravidar, convencida de que nunca iria conseguir. E de repente, sem mais nem menos, a gravidez aconteceu. Uau! Achei interessante. Já estava de sete meses, era um menino e até já tinha nome: Thiago. Thiago?!... Quando ela disse Thiago, imediatamente se fez luz, quer dizer, imediatamente vi o filme passar.

Amália é cunhada de Isabel, que casou com o seu irmão mais novo, sendo que eram um total de cinco irmãos. O mais velho, Tiago, tinha morrido há quatro anos, com quarenta e oito anos. Foi uma partida dramática na vida desta família, como se pode imaginar e para trás ficaram dois casamentos com dois filhos do primeiro e um do segundo. Uma menina que, à data, tinha cinco anos.

Quando Tiago adoeceu e teve que ser internado às pressas, curiosamente, foi levado para o hospital por Amália e Paulo, que estavam com ele no momento. Tiago passou um mau bocado e acabou por falecer. Faleceu no dia de aniversário, não de outro irmão, mas deste, o Paulo, o mesmo que o levou ao hospital e esteve mais em contacto com ele. Paulo, inclusive, ficou muito marcado com este incidente, a morte do irmão no seu dia de aniversário, o que é perfeitamente normal.

E a vida continua. Amália, convencida de que não teria filhos, quando já nem pensava mais nisso, de repente engravida. Incrível! A vida é cheia de surpresas. E há quem não acredite no “destino”!?

Felizes da vida, é um menino e querem fazer uma homenagem ao irmão, por isso lhe chamaram Thiago com “h”, porque Amália é brasileira e no Brasil usa-se o “h”. E então pensei, pois claro, é Thiago porque é o Tiago que volta. Amália esteve dez anos sem conseguir engravidar, porque estava destinado que ela receberia o cunhado depois da sua partida.

Mas tudo isto poderiam ser invenções minhas. Pões podiam… a questão é que há pormenores de uma enorme subtileza, que me demonstram que não é nada imaginação minha e é só prestar atenção aos acontecimentos, onde tudo se encaixa por si, com toda a naturalidade e sem o menor esforço.

Thiago nasceu apenas uns dias depois do aniversário do pai, Paulo, ou seja, poucos dias depois da data do falecimento daquele que agora seria o seu tio mais velho - Tiago -, que na verdade é ele mesmo. O poder da reencarnação! E agora estava de volta à família que,  quatro anos atrás, tanto chorou a sua morte!

Quando Tiago estava no hospital, porque morreu no hospital lutando pela vida sem sucesso, eu achava que ele não tinha chance. Tanto fisicamente como a outros níveis. A vida dele estava completamente destruída, sem rumo e sem viabilidade de se reerguer. Ele não tinha nada. Tudo se perdera pelo caminho. E ele já tinha dado provas suficientes de que não tinha capacidades psicológicas de encontrar meios de sobrevivência a todos os níveis. O seu estado físico não era senão um perfeito reflexo disso. Ninguém pode ajudar, quando o próprio não quer, não aceita, ainda que diga o contrário. Portanto, eu sabia que ali estava o fim.

Mas dentro de mim, não via aquela família com a ausência dele. Porquê, não sei. Ou não sabia. Eu simplesmente não conseguia explicar esta estranha sensação para mim mesma. Apenas a minha alma se apercebia disso. Era como se ele fosse, mas não fosse, porque eu não via a sua ausência. Não era uma simples questão de não aceitação. Não. Era algo que estava para além disso, mas que eu não tinha como explicar. Quando Isabel me contou que Amália estava grávida e seria um menino chamado Thiago, foi então que percebi. Ele reencarnaria num espaço de tempo relativamente curto para nós, uma vez que fora da matéria a questão do tempo é bem diferente. Mas nessa altura fez-se luz e pensei, pois claro, é por isso que eu não concebia dentro de mim a sua partida!

Quando as pessoas partem com problemas de saúde, que as obrigou a permanecer nesta vida com um sofrimento penoso e muito arrastado, ou elas desencarnam e ficam o “tempo” suficiente para entrar na luz, sendo que a luz trabalha para transmutar toda a negatividade e voltarem à vida livres e “curadas” do mal da vida anterior ou elas não tiveram tempo de fazer esse processo e escolheram reencarnar num breve espaço de “tempo”, trazendo ainda sequelas: reflexo do que foram.

E como se restassem dúvidas, Amália teve uma complicação relacionada com o parto, que a fez ficar internada, sendo que Thiago veio a esta vida da mesma forma problemática com que partiu, só que desta vez era uma nova vida. As páginas do livro estavam todas em branco, por reescrever, pelo que foi possível superar. Tão simples quanto isto.

Porém, não é tão estranho assim, ou seja, o processo de reencarnação não é totalmente desconhecido para muita gente. Por exemplo, quando, com um certo receio, falei deste assunto com a mãe do falecido Tiago e avó do recém nascido Thiaguinho, dizendo-lhe com todas as letras que Tiago estava de volta... etc... ela respondeu com toda a convicção: eu sei.


quarta-feira, 17 de novembro de 2021

O túnel do tempo - 93

 

Apesar da sua sempre boa disposição, mesmo perante as adversidades da vida e da responsabilidade que lhe pesa sempre sobre os ombros por conta dos seus negócios, Humayen estava uma vez mais apreensivo e lamentando-se pelo facto de nunca mais chegar o dia de ir buscar a mulher e o filho ao seu país de origem, o Bangladesh. Mas desta vez estava mais carregado do que era costume, o que me fez redobrar a atenção em relação ao seu desânimo.

Eu sei quando uma pessoa se lamenta por hábito e costume e quando é de alma, ou seja, com verdade. E era o caso. Humayen, o meu amiguinho - que me considerava uma mãe, pela ajuda que sempre achava que lhe dava e que para mim não era nada -, passava as tardes em comunicação por vídeo com a família: mãe, pai, mulher, filho e demais família, a fim de minimizar as saudades, tanto quanto possível, mas agora dava sinais de estar no auge da sua luta de emigrante, no desejo e necessidade de ter a sua pequena família junto de si, o que era perfeitamente normal.

Depois de ter captado a minha total atenção, que me fez encarar com toda a seriedade as suas queixas de que mal conhecia o filho que tinha então quatro aninhos, concentrei-me inteiramente nas palavras dele, no problema que expunha, e não podendo fazer nada de concreto, tentei ir ao fundo de mim mesma para resgatar a verdade, aquela verdade que está dentro de nós, que mora lá bem no fundinho, no inconsciente, à espera de ser resgatada pelo consciente para a fazer emergir.

Não diria que é fácil, mas é possível. É só alhearmo-nos de todo o resto, afastar tudo para deixar que fale mais alto, mais alto que tudo. E assim, concentrando-me, deixei que saísse o que ele precisava de ouvir. Estávamos no final do ano de 2020 e ele queixando-se de que os anos passavam, e era mais um, e ele de mãos e pés atados. Já tinha estado quase, depois do confinamento em Portugal. Mas aí, veio o confinamento na Índia, no Bangladesh, o corte das ligações aéreas e lá se foram os planos ao ar. Era deveras desanimador.

Concentrando-me, entrei no túnel do “tempo”, que mentalmente percorri rapidamente, para lhe dizer que no ano seguinte o problema estaria resolvido. Mas ele pareceu não dar muita importância às minhas palavras. Por isso reforcei e aprofundei, incutindo-lhe a veracidade que o assunto merecia, pois não era para ser levado a brincar nem de ânimo leve. E uma segunda vez fui mais pormenorizada, dizendo-lhe o que estava a ver, que até ao final do ano eu tinha a certeza de que ele conseguia realizar o seu sonho. Ele, porém, continuava a implorar e a não levar muito a sério o que lhe estava a dizer. Olhei para ele de frente, tentando que me olhasse nos olhos, e aprofundei bem mais a questão. Percorrendo novamente e cuidadosamente o calendário do ano seguinte, vi os meses passar, desde Janeiro até Outubro, dizendo-lhe que Outubro, sim, Outubro seria o mês em que ele iria ao Bangladesh. Acredita, em Outubro as coisas resolvem-se.

Ele olhava para mim sem que eu percebesse muito bem se estava a acreditar ou não. E, entretanto, sem saber porquê, continuei: Outubro… Outubro. Mas aí, vi o meu dedo deslocar-se para o mês seguinte, Novembro. E, continuando sem perceber porquê, repeti em voz alta, que em meados de Novembro já cá estariam todos, com tudo resolvido. Ele olhava para mim querendo acreditar com todas as suas forças, mas ao mesmo tempo interrogando-se do porquê de eu estar a fazer previsões. Eu própria não entendia muito bem o que tinha acabado de dizer. Primeiro tinha referido Outubro, mas depois passei para Novembro, reforçando os meados de Novembro… porquê?

Contudo, eu sabia que não era uma simples previsão. Só que ele não me conhece o suficiente para saber pormenores que apenas eu sei. E mais, como um bom muçulmano, ninguém pode saber tanto como Alá(!). Eu lia o pensamento dele e continuava a induzir-lhe aquilo que para mim era uma verdade absoluta, talvez estranha, até posso concordar. Mas naquele momento, fiquei a saber com toda a exactidão, o mesmo que ele acabava de saber. E só o soube para satisfazer a sua necessidade, não a minha.

Um tempo atrás, ele chamou-me para ir com ele ao MARL, no que concordei, movida pela curiosidade. Sempre gostei de mercados. Tenho mesmo um grande fascínio, porque me lembram a minha infância e agora aí estava mais uma oportunidade de ver um grande mercado abastecedor das grandes e pequenas superfícies comerciais. Depois de lá estar, foi preciso tirar uma senha para ser atendido numa determinada zona. Mas havia muita gente antes de nós, o que era uma chatice e tanto. Era Inverno e apesar do dia estar bonito, estava frio, por isso disse-lhe que ia esperar sentada no carro, que estava ali mesmo ao lado. Ele concordou e entrou também no carro, para eu não estar sozinha. E ficámos entregues aos nossos telemóveis, que é o que toda a gente faz, pois não havia mais nada para fazer.

O tempo foi passando e a certa altura achei por bem sabermos em que número ia. Ele apressou-se a ir, mas para tornar a coisa mais leve, porque era muito chato estar ali ao frio à espera, disse-lhe para fazermos uma aposta, no que ele disse um número e eu outro. Ele atirou um número, provavelmente ao acaso, e mais uma vez o meu dedo indicador esquerdo no ar - porque sou canhota -, percorreu a linha do tempo, tendo parado num número que já não me lembro. E assim estavam determinados os nossos números da "aposta", só para nos ajudar a passar o tempo. E lá foi ele. Esteve lá uns minutos e logo voltou, entrando rapidamente no carro, porque à medida que o tempo passava, mais frio ficava. E então(?), perguntei. Oh, ainda falta, disse ele. Vai no número tal. O número tal era evidentemente o meu. Ele achou graça e claro, achou que era por acaso. Mas não, não era por acaso, disse-lhe eu, fazendo-o rir, por achar que eu estava a gracejar com ele. E lá ficamos novamente ligados nos telemóveis, até que passado mais algum tempo lhe pedi que fosse outra vez ver. E novamente fizemos a aposta. Ele disse um número e eu outro. E rindo lá foi ele, feito criança, conferir a chamada. E logo em seguida voltou, dizendo que mais uma vez eu tinha "ganho", certíssimo de que mais uma vez não passava de uma curiosíssima coincidência. Expliquei-lhe que não era uma simples coincidência, mas ele ria e gozava-me por acreditar nisso. Paciência! Também não tinha, nem tenho interesse em convencer ninguém do contrário.

Voltando à sua ida ao Bangladesh, eu tinha acabado de lhe dar a informação precisa, ou não, porque não percebia muito bem porque razão lhe tinha dito “Outubro” e depois de alguns segundos tinha passado para Novembro, mais precisamente meados de Novembro, em que estariam “todos” cá. Não, não me parecia fazer muito sentido. Mas… já aprendi a não me questionar por estas coisas porque, é o que é. É esperar para ver.

E o ano novo entrou e o calendário foi passando os meses, um por um, com seus dias, horas minutos e segundos, até ao dia em que ele veio ter comigo todo contentinho, dizendo que já podia ir ao Bangladesh(!)... Agora era só pedir o visto e queria, porque queria, que eu fosse com ele. Muito gostaria de ter ido, mas, primeiro, a pandemia por todo o lado e segundo, aquilo era um momento dele, só dele, porque há três anos que lá não ia. Estávamos em pleno Verão, mês de Agosto. Mas agora ainda teria que ter o visto para ele e para a família e isso não era fácil e também levava o seu tempo. Era preciso continuar a esperar. E eu voltava a dizer-lhe que até ao final do ano viriam. Ele não se ria, mas os olhos dele sorriam, pensativo e desejoso de acreditar naquilo. Eu própria já nem acreditava muito no que tinha dito. A força que tinha tido na altura em que lhe disse, já tinha desaparecido. A única coisa que restava era continuar a esperar.

A vida prosseguia com todas as suas dificuldades e um belo dia, lá veio ele com a notícia de que já tinha os vistos! Agora era mesmo só marcar as passagens. Estávamos em Setembro, mas ele precisava de mais uns dias, pois queria mais um dinheiro e tinha muitas compras para fazer. A família no Bangaladesh reclamava muita coisa de Portugal e ele não queria decepcionar ninguém. Nesta altura eu limitava-me a estar atenta ao natural desenvolvimento dos acontecimentos e das suas decisões, lembrando-o apenas de que as coisas eram favoráveis e que de repente tudo podia desmoronar, em função da pandemia. Ele percebia, mas precisava de mais um tempo. Até que chegou finalmente o dia em que me pediu para ir com ele comprar as passagens. E lá fomos, embora o tenha deixado sozinho a tratar do assunto. Quando acabou e veio ter comigo, estava muito contente, com um ar feliz, com a passagem de ida marcada para o dia oito de Outubro e o regresso com a família para dezoito do mesmo mês. Tudo encaixava. Só não encaixava o facto de eu ter acrescentado que em Novembro estariam cá “todos”. Só isso era estranho. A que propósito?

E o dia oito chegou, não sem antes termos percorrido os centros comerciais à procura de coisas que queria comprar para levar e onde gastou uma pipa de massa. Mas o dinheiro era dele, ele é que sabia, e as malas eram mais que muitas e foi preciso pagar bastante dinheiro pelo excesso de bagagem, o que em nada o incomodou. Acho que ele achava que aquilo não estava a acontecer, que era apenas um sonho. E assim, Humayen seguiu, mais a pesada bagagem rumo ao seu destino: Bangladesh.

A viagem chata e longa demais correu normalmente, chegou bem e toda a família chorou lágrimas de emoção, o que já era de se esperar. Ele telefonava-me quando tinha rede, para dar notícias e me tranquilizar, até que se aproximou a data de regresso, dia dezoito de Outubro. Foi então que o inesperado, e de todo inusitado, aconteceu.  

Dezasseis de Outubro, o meu telemóvel tocou e peguei nele para atender a chamada em vídeo do Bangladesh. Com imensas dificuldades na ligação, Humayen falava-me quase a gritar, chateado até mais não, completamente alterado, o que não é nada seu hábito. A mulher, Moon, estava impossibilitada de viajar. Os testes obrigatórios ao Covid para embarcarem para Portugal tinha dado positivo e apenas o dela. Humayen estava de todo inconsolável. De repente parecia que todo o trabalho tinha sido em vão, porque não havia nada a fazer. No dia seguinte, impreterivelmente, ele viajaria para Portugal, pois os negócios assim o exigiam. Não havia a menor possibilidade de prolongar a sua estadia. Ela viria depois, quando voltasse a fazer o teste e estivesse negativo. Viajaria sozinha com o menino.  Todos de rastos com esta notícia, incluindo eu, que fiquei sem fala, sem saber o que dizer.

E mais uma vez parecia que as coisas não faziam sentido. Eu não conseguia perceber esta realidade, mas compreendia o sucedido. Foram tantas festas, tantos ajuntamentos, que deu no que deu, apesar de só ela ficar positiva.

Humayen regressou, chateado e frustrado, tentando resignar-se com a situação. Aos poucos retomou os seus negócios, tendo a minha ajuda no que era possível, pois o fuso horário tinha mexido muito com ele. Além disso, já não estava habituado com aquele calor insuportável, como ele próprio referia e tudo no Bangladesh já estava um pouco no passado. Os dias passavam e catorze dias depois, Moon repetiu o teste, desta vez negativo. A alegria voltou, mas agora sobrepunha-se outra preocupação. Como ela viria sozinha com o menino, numa viagem de longo percurso, com escala no Dubai por oito horas e sem experiência nenhuma de viajar!? Era muito complicado. Até eu estava pensativa com aquilo. Foi então que Humayen veio ter comigo para se aconselhar, com a possibilidade de voltar ao Bangladesh para apenas pegar a mulher e logo voltar. Seriam cinco dias apenas. Claro, parecia-me o mais sensato e não só a mim, mas a toda a família no Bangladesh. Era uma grande estafa para ele, mas parecia a coisa certa a fazer. E a decisão foi tomada. Assim, no dia seis de Novembro, seguiu uma segunda vez, rumo ao Bangladesh. Desta vez sem bagagem. Apenas o indispensável. E no dia doze de Novembro os três desembarcavam no aeroporto da Portela, em Lisboa, para uma nova vida, a vida a que tinham direito.

Enquanto esperava que saíssem do aeroporto para os levar a casa, comecei a pensar que estávamos praticamente em meados de Novembro. E de repente lembrei-me da minha previsão: “Outubro… Novembro, sim, meados de Novembro e estão todos cá”. Com efeito ele tinha ido em Outubro. Mas foi Novembro que os trouxe juntos e em definitivo, saídos do túnel do tempo…