segunda-feira, 23 de maio de 2022

As novas tecnologias - 102

 

Há dez minutos e eu ali sentada, com a atenção focada no quadro em frente, à espera de ser chamada para a consulta de oftalmologia, num dos Hospitais da Cuf. Tinha tido consulta há cerca de seis meses no hospital público, por isso, em princípio, estaria tudo bem. Mas o problema da alergia, para o qual já tinha consultado a dermatologista, não me dava tréguas. Por vezes, as minhas pálpebras começavam a inchar de uma maneira estranha, ficando vermelhas, o que me dava imensa comichão, difícil de resistir. E quanto mais coçava, mais comichão me dava e os olhos ficavam uma lástima por dentro e por fora. Já tinha ido à farmácia e também me tinham dado gotas para a alergia ocular, mais pomadas e cremes para as pálpebras, mas nada surtia grande efeito e eu estava muito baralhada no meio de tanta coisa, que já não sabia o que fazer. Decidi, então, na tentativa de ser uma última vez, ir a um oftalmologista privado, levar toda a tralha que tinha da farmácia e dos outros médicos, para me orientar e dizer o que deveria fazer correta e definitivamente e pôr fim àquele suplício que, não sendo nada de muito grave, nem por isso deixava de me incomodar o suficiente.

Ao fim de dez minutos, uma assistente vem à sala de espera chamando pelo meu nome e pedindo-me para a acompanhar. Encaminhou-me pelo corredor e parou, com papéis na mão, dizendo para aguardar a auxiliar de enfermagem que me levaria à sala de exames, onde seria devidamente observada, para depois ser vista pelo médico.

E aí, pensei para comigo mesma, que não pretendia exames. Não precisava. Só queria uma opinião em relação ao que deveria fazer exatamente como certo e mais nada. Mas acabei por ser interrompida nos meus pensamentos, pela auxiliar de bata branca que, dirigindo-se à minha pessoa, me cumprimentou e me pediu para a acompanhar. Bem, lá fui com ela, cogitando na possibilidade de a interpelar para me poder explicar em relação ao pretendido, porque achava que realmente não necessitava de exames.

O facto é que ela abriu a porta do gabinete e pediu para me sentar em frente ao equipamento, sem que eu recusasse e falasse o que tinha em mente. Porque é que me havia de sujeitar àqueles exames? Em princípio estaria tudo bem!? Portanto, para além da consulta, ia ter de pagar mais os exames, que não são propriamente baratos. Mas o facto é que, da minha boca, nada saía. E eu até me sentia indignada comigo mesma, pelo facto de não me explicar e dizer, atenção, eu não vim aqui para fazer exames, vim por outro motivo.

Mas, entretanto, enquanto a minha cabeça trabalhava cheia de dúvidas e de incertezas, a auxiliar, uma garota muito jovem, muito calma e simpática, diz que não está a perceber o que se está a passar com o equipamento, que tem estado em perfeitas condições e de repente não quer funcionar. Não quer funcionar?! Ouvi bem o que ela disse e a minha intuição imediatamente deu sinal de alerta, conectando-se.

Silenciosa, ela tentava por todas as vias que estavam ao seu alcance, perceber o que se passava com o computador, enquanto eu continuava com os meus pensamentos em negação, achando que era uma perda de tempo e de dinheiro, e o melhor seria aproveitar a oportunidade de o computador estar a meu favor para dizer que não tinha importância, porque eu não precisava de fazer os exames.

Ela pedia desculpa, dizendo que realmente não conseguia perceber o que se estava a passar e eu sempre pensando que estava na altura de falar. Só que não me saía o que eu queria dizer, o que não é muito normal em mim. E ela desfazendo-se em desculpas pelo tempo que achava que me estava a roubar. O que ela não sabia é que esse era o menor dos males, uma vez que eu tinha o tempo todo por minha conta. E mais, o que ela nem imaginava, é que o computador estava sob um controle que ela desconhecia. E eu sabia também que não falava porque me estava a dar conta dessa situação insólita e precisava de ter a certeza absoluta disso. Porque, tal facto, podia ter-me escapado e passado completamente despercebido. Mas se a minha intuição tinha dado sinal, eu estava simplesmente a seguir a sua indicação e, de acordo com essa informação vinda do campo holístico, o problema do computador não funcionar era pura e simplesmente consequência da minha dúvida. Assim, decidiu chamar um colega para, em conjunto, tentarem resolver o problema. 

As novas tecnologias são a grande maravilha, a maior descoberta do mundo em que vivemos e porque não dizer universal, independentemente do seu tamanho, dimensão e infinidade. As tecnologias abrem-nos as portas para outros patamares nunca antes imaginados. E por último, mas não muito, a inteligência artificial é a maior conquista do ser humano até hoje. Mas não será a última, acredito que não. Com ela é possível fazer o impensável e chegar sabe-se lá onde!? Quem, em sã consciência, acredita que hoje em dia poderia viver sem Internet, se telemóvel, sem computador, etc...!? 

A evolução tecnológica disparou e continua a disparar a uma velocidade sem precedentes. É importante estar a par e tentar acompanhar, o que pode não ser tarefa fácil. Cada um deve fazer o melhor que puder e contribuir para este crescimento e, mais importante do que tudo, utilizar as novas ferramentas para coisas válidas, para coisas que valham a pena e ajudem a humanidade a progredir positivamente e não de maneira fútil e desinteressante e muito menos para a destruição e para o mal. Temos toda essa pesada responsabilidade. Validar as tecnologias e seguir sempre nessa direção, sem dúvida. Contudo, por mais longe que consigamos chegar, aonde quer que elas nos levem, e não obstante a falta e a necessidade que nos fazem, para não falar da dependência… apesar de tudo e não desvalorizando absolutamente nada, a mente humana ganha pontos. Sem dúvida! E é isso que me dá força e ânimo e vontade de caminhar sem medo e sem angústia.

Há já alguns anos atrás, quando na RTP comecei a trabalhar com o computador e posso dizer com toda a verdade que fui das primeiras mulheres a utilizar o computador para a quase totalidade do meu trabalho, estando um dia num programa de Excel, aconteceu uma coisa interessante. Eu já trabalhava em Excel há muito tempo, mas uma vez em que tive que parar para atender o telefone, o écran interrompeu o programa, como era natural, e começou a passar um fundo que tinha sido escolhido por mim e que era umas flores de lótus, muito bonitas e muito relaxantes.

Já tinham passado pelos meus olhos centenas de vezes, mas naquele dia, antes de reiniciar o trabalho de Excel, fiquei a admirar, achando que era muito bonito o que via. Apenas, se fosse eu que tivesse feito, teria alterado as cores das flores e ter-lhes ia dado outras tonalidades, que surgiram de imediato na minha imaginação, lamentando o facto de não ser exactamente como eu gostaria, o que não era viável, mas também nada importante.

E de repente, sem mais nem menos, as flores começam a cair com as cores alteradas, precisamente como eu as tinha imaginado! Sem pôr nem tirar!? Fiquei perplexa, sem perceber o que se estava a passar. Como é que podia acontecer uma coisa daquelas? Eu já tinha o programa há séculos e aquilo nunca tinha acontecido. Naquele dia pensei nas flores com outras cores e ele, como que obedecendo à minha vontade, desata a deitar as flores precisamente como eu as imaginei!?… Exatamente naquele momento!?

Depois, falando com um técnico a quem relatei o assunto sem entrar em pormenores, foi-me explicado que provavelmente o programa estava muito pesado, o que de facto aconteceu e que levou à desconfiguração da imagem. Claro, estava explicado. Tinha que haver uma explicação técnica. Mas porque é que só aconteceu exactamente no momento em que a minha cabeça como que “pediu”? A mente humana ganha pontos ou não?! Coincidência?... Nem por isso. Fora de questão. Para os outros até pode ser. Para mim, não.

Voltando atrás, a minha dúvida continuava em relação a fazer ou não os exames e o computador continuava a não dar sinais de querer avançar. Agora, os dois assistentes em silêncio, olhavam para o écran, na tentativa de encontrar a solução, enquanto eu ainda não me tinha decidido se queria ou não fazer os exames. Neste impasse todo, cheguei finalmente à conclusão de que mais uns exames não iriam fazer mal, antes pelo contrário, e o dinheiro, também não era por aí. Como se diz: vão-se os anéis, ficam-se os dedos ou vão-se os dedos, ficam-se os anéis...

Pois bem, naquele preciso momento decidi que sim, faria os exames. Sim, já não tinha dúvidas. E também não tinha dúvidas de que, naquele preciso momento, o computador deixaria de continuar a dar trabalho aos dois assistentes, para recomeçar imediatamente a trabalhar, obedecendo apenas e simplesmente à minha vontade, e repito, de querer fazer os exames, o que de facto aconteceu, para grande alívio dos dois, que estavam completamente baralhados. 

E repito, coincidência? Não. Muito pelo contrário. A falta de coragem do ser humano faz com que se torne incapaz de validar os factos tal como são, preferindo enquadrá-los e qualificá-los apenas como insignificantes coincidências, sem qualquer relevância.

O homem ainda continua de olhos fechados, sem os conseguir abrir. Mas só não os abre porque não quer. Porque não acredita em si. Acredita em tudo e mais alguma coisa. Acredita em tudo o que vê e ouve, só não acredita no que não vê e não ouve. 

Pôr a inteligência a trabalhar para se desligar da intuição não resulta. As duas coisas têm que caminhar juntas. Continua a existir uma Verdade Maior por descobrir. E essa não se pode ensinar nem transmitir, porque é parte inerente e exclusiva do ser humano e cada um tem o que tem.

As novas tecnologias são a marca do tempo. A inteligência artificial comandará o mundo novo. Mas à frente de tudo e maior do que tudo, para os que querem e para os que não querem; para os que acreditam ou não… para nossa maior felicidade e para o nosso maior bem… a mente humana sempre se sobreporá e sempre ganhará pontos. 

 


sábado, 21 de maio de 2022

Era uma vez... um gato siamês... - 101

 

Nicole era uma inglesa, professora, dava aulas de inglês e vivia sozinha. Solteira, sem filhos, os pais viviam em Inglaterra. Apesar de ser discreta, tinha amigos e gostava de sair e divertir-se, como era normal. Tinha carro, mas raramente conduzia, porque preferia andar nos transportes públicos. E também tinha um gato. Um gato siamês que ela tratava com todo o amor, cuidando de todos os pormenores e dando-lhe tudo do bom e do melhor.

Era o seu gato, o seu bichano, que estava sempre em casa à sua espera. Nicole não tinha do que se queixar da vida. Uma mulher ainda, jovem com cerca de quarenta anos e uma vida bem confortável. De vez em quando ia a Inglaterra para matar saudades do seu país e estar com os pais e restante família.

Um dia, numa viagem, conheceu Eric. Eric era australiano e tinha uma quinta onde vivia permanentemente. Divorciado, com duas filhas adolescentes, mantinha um relacionamento civilizado com a ex-mulher. Nessa viagem, Nicole e Eric trocaram impressões, conheceram-se um pouco e ficaram amigos, tendo mantido a comunicação um com o outro por aí fora. Aos poucos foram-se aproximando emocionalmente e tornaram-se íntimos. Foi então que começou o namoro, ou seja, os dois assumiram um relacionamento. Porque não? Se se encantaram um pelo outro, se ambos eram desimpedidos e livres, porque não dar uma oportunidade a si mesmos de serem felizes e aproveitar da vida o que há de melhor?!

Tudo corria às mil maravilhas, porém, com um pequeno pormenor: a distância. A distância era realmente um grande problema, porque, para nós, a Austrália é mesmo no fim do mundo, quer dizer, do outro lado do mundo. Nicole foi lá, esteve lá, não muito tempo por causa do trabalho, mas o bastante para ficar encantada e deliciada com o mundo de Eric, um mundo novo que abria um caminho sorrindo, mas com esta tremenda dificuldade, muito difícil de ser ultrapassada.

Eric também veio a Portugal por diversas vezes. Uma vez até esteve algumas semanas com as duas filhas. E dava gosto vê-los, porque todos tinham um ar radiante e feliz. Uma nova família surgia, com uma excelente perspectiva de harmonização. Enfim, o amor estava no ar, de vários lados e com várias facetas porque, ao que parece, Nicole e a ex-mulher de Eric conheceram-se e entenderam-se bem, sem problemas nem ressentimentos, o que foi muito bom para todos. Tudo parecia em ordem para poder caminhar. Somente o problema da distância se entrepunha no caminho de ambos e não era pouco.

Então, um dia, para poderem desfrutar do amor que sentiam e queriam ver crescer, foi tomada uma grande decisão. Nicole iria viver para a Austrália. Para ela era indiferente. De qualquer modo, já estava fora do seu país de origem, por isso, estar aqui ou estar ali, tanto fazia. Não tinha nada que a ligasse especialmente a Portugal. Já para Eric, era muito complicado mudar-se. Porque viria, se a própria Nicole nem portuguesa era? Ele não se apaixonara por uma portuguesa, mas por uma inglesa. E para Eric vir para Portugal, quem tomaria conta da quinta? E as filhas como ficariam? Perto do pai e longe da mãe ou vice-versa?

Nicole tomou a decisão considerada por eles como certa: mudar-se de armas e bagagens para a Austrália. Estava tudo certo na sua cabeça. Alugaria o seu apartamento, até ver, para não ficar desabitado e mais adiante se veria. Mas, para já, estava resolvido. Apenas um pormenor a inquietava. Um pormenor que não era pequeno, ou seja, era e não era. O seu gato siamês. Aquele fofo que parecia uma bola de lã, lindíssimo e bem tratado, que ela tanto amava. Mas Nicole não queria levá-lo. O amor que nutria pelo seu bichano, impedia-a de o levar, pelo facto de ser um percurso demasiado longo, achando que o animal não iria aguentar tantas horas de viagem!?...

E agora, o que fazer? Decidiu então procurar alguém a quem doar, para ficar com ele e cuidar muito bem dele. Fez várias tentativas, mas ninguém respondia. As coisas começaram todas a tomar o rumo certo para a sua partida, só o problema do gato não se resolvia. E apesar de ser o gato que sempre tinha estado com ela e que preenchia as suas horas de solidão, Nicole não queria levá-lo, sempre insistindo que gostava demasiado dele para o sujeitar a uma viagem daquelas!?…

O tempo estava a esgotar-se e Nicole não tinha solução, simplesmente porque ninguém se candidatava ao seu tão querido, tão “precioso” gato siamês. Mas Nicole não ia desistir do seu plano. Isso nunca, jamais… e para grandes males, grandes remédios. E assim viu-se obrigada a tomar outra dura decisão. Uma decisão de peso, mas tudo por “amor”: mandar abater o bichano. Sem dúvida, tudo por amor(!?), porque amava demais o seu bicho para o deixar a sofrer. E com ele morto, o seu (dela) problema estava resolvido e finalmente poderia partir, livre de tudo o que ficava para trás, simplesmente porque nada daquilo lhe fazia mais falta…

Agora sim, Nicole estava livre. Podia respirar aliviada, porque não havia pedra nem entrave no seu caminho. Na Austrália seria feliz, finalmente, na sua nova família, onde tudo seria perfeito. O seu gato não ficara em sofrimento, simplesmente porque tomara a decisão certa, segundo a sua óptica. Nicole desapareceu, pois, da face da terra portuguesa, para aparecer no outro lado do mundo e sem o seu tão querido gato, que muito provavelmente não aguentaria a viagem (?!)…

Mas ela aguentou e como! Chegou feliz como nunca antes. Instalou-se na sua nova casa, na sua nova vida e na sua nova família. Pronta a dar tudo por tudo para ser feliz a qualquer preço. As amigas portuguesas e não só, poderiam dar disso testemunho, pelos registos do Facebook e outras coisas mais. As fotos eram uma postagem infindável e fidelíssima. O seu tempo tinha chegado. A sua hora estava mais do que na hora. Nicole tinha toda uma vida pela frente com o seu amado Eric, que até parecia ser uma boa pessoa.

O amor está envolvido em estranhos sentimentos. Por vezes, parece que animais sentem como humanos e humanos como animais. Que coisa estranha!? Talvez eles nos pudessem ensinar e dar lições de amor, se lhes déssemos essa oportunidade!? Quando nos pomos a analisar os sentimentos, se é que isto é possível, descobrimos um oceano desconhecido e indecifrável.

Mas o tempo passou… e um belo dia, talvez um ano depois, talvez nem tanto, no meio de tanta alegria, subitamente, apareceu quem não estava faltando, quem não fazia absolutamente falta. Nicole não queria, não queria mesmo, de tanto que já amava Eric. Mas ela foi mais forte e contra tudo e todos cumpriu a sua missão. O destino por vezes é cruel, tanto para os animais como para o homem!

 Pois é… a morte fez-se presente e levou Eric para sempre.


sexta-feira, 4 de março de 2022

A Comunicação - 100

 

Desde que me entendo por gente, ou seja, muito cedo percebi que comunicar é muito mais do que falar.  Os animais, por exemplo, eles não falam e nem por isso deixam de comunicar. Muito pelo contrário, eles conseguem comunicar-se na perfeição. Se as palavras podem induzir em erro, a comunicação a outro nível não tem erro. Isto é uma coisa fantástica que, infelizmente, continua a ser ignorada pelo ser humano e quando não é ignorada, é-lhe atribuída uma conotação de algo que é extraordinário, que só alguns têm o direito de ter, quando na verdade não é. Todos têm. Só que não usam e não usam porque acham que não têm. Mas essa facilidade que sistematicamente ignoramos está incorporada no nosso ADN. É o mesmo que ter pernas, braços e tudo o mais. Contudo, parece que são poucos os que acreditam nisso, ou melhor, que aceitam. Pois, a questão passa também por aí. Se, de facto, temos o poder da comunicação, ou os poderes telepáticos, então podemos entrar em sintonia com os outros, como eles connosco, certo?! E então os outros vão saber o que estou a pensar, o que estou a sentir e eu também vou saber o mesmo acerca deles!? Isso é uma grande chatice! Mas as coisas não são bem assim. Para isso acontecer é preciso uma outra coisa. É preciso estar na mesma sintonia, o que normalmente não acontece. Cada um é um universo único e singular, entregue a si mesmo. Só partilhamos quando queremos ou quando precisamos.

Desde criança que eu escutava muito os outros, mesmo quando não estavam a falar comigo. E percebia que às vezes, o que diziam, parecia não encaixar no que estava na cabeça deles. Parecia que diziam uma coisa e por trás do que diziam estava outra. Outras vezes, não falavam, mas parecia que tinham alguma coisa dentro deles, alguma coisa que ficava lá guardada e não saía. Com frequência, diziam-me que eu estava sempre no mundo da lua. Só que isso não era verdade. Eu só não ouvia aquilo que não me interessava, de resto estava sempre atenta, como que estudando cada um por si. Mas isso era uma coisa que ninguém via e ninguém prestava atenção. Portanto, a questão da comunicação propriamente dita, foi algo que sempre chamou a minha atenção. Contudo, só muito mais tarde, por volta dos dezassete, dezoito anos, é que me foi confirmado com todas as letras.

Aos dezassete anos deixei Setúbal, onde vivia com a minha avó, e decidi ir para Lisboa, onde viviam os meus tios. Deixei o Liceu e fui trabalhar e continuar a estudar à noite. Achei que estava na hora de ter a minha independência em todos os aspetos e deixar de ser sustentada pelo pai, que era militar e estava em Angola. Durante o dia trabalhava no Ministério das Finanças e à noite tinha aulas num externato. Foi então que a minha vida mudou drasticamente, mas agora para melhor. Ficava para trás tudo o que não fazia falta. Eu precisava de crescer, amadurecer e fortalecer-me emocionalmente. A liberdade começava a dar os primeiros passos. E como era bom! Um mundo novo se abria, dando-me oportunidade de mudar, de evoluir.

Passava a semana inteira em Lisboa e na maioria dos fins de semana ia a Setúbal ver a minha avó e os meus primos, que viviam com ela, onde sempre vivemos todos, desde que a minha mãe morreu. E assim os meus horizontes começaram a ampliar-se. Comecei a conhecer gente, tanto no trabalho como à noite no externato. E não eram tão poucos os que, como eu, estudavam à noite, pela necessidade de trabalhar. Foi precisamente no externato que conheci um rapaz da minha idade que, aparentemente igual a todos, tinha uma particularidade. Dava muita importância à espiritualidade, o que combinava comigo. Por isso, tínhamos muitas conversas a esse respeito. Foi bom para mim, porque percebi que não estava sozinha. Todos os que estavam à minha volta tinham as suas características. Uns ligavam-se à moda e a tudo o que estava na vanguarda. Outros eram chegados aos namoros e aos flirts e estavam sempre à procura de parceiros e parceiras, nem que fosse para passar tempo. Outros só pensavam em ganhar dinheiro, muito dinheiro, para ter isto e aquilo. Outros ainda, concentravam-se muito na sua vida familiar, sendo que alguns já tinham família formada, os mais velhos.

Aquele rapaz, que era exatamente da minha idade, tinha uma aparência bonita, agradável, gostava de falar e enturmava-se facilmente com todos, mas para além de tudo isso, tinha essa tendência de realçar o aspeto espiritual, o que muito me agradava. E não se fechava por isso. Não tinha medo de se expor, o que eu achava extraordinário. Para além disso, era um indivíduo normal, como eu. Porque há quem pense que as pessoas que são mais dadas à espiritualidade têm que ser diferentes. Mas não têm. Eu sempre fui uma garota muito moderna. Posso dizer, com toda a verdade, que era a rainha da mini saia e dos hotpants, muito em voga na altura. E apesar de magrinha eu era muito sexy, porque não? E gostava de namoriscar, porque não, também? Isso fazia-me muita falta. Era muito importante dar e receber o carinho e a atenção dos outros ou de alguém em especial. Faz parte da vida. Não tem nada de mais. Isso nunca me impediu de ser o ser espiritualizado que sempre fui. Não temos que ser falsos nem pretender ser o que não somos. O mais importante é sermos verdadeiros e fiéis a nós mesmos. Assim era o rapaz que, como eu, vivia intensamente o seu mundo espiritual.

Um dia, estando num pequeno grupo, conversando sobre esses assuntos, ele propôs-me uma experiência a dois. Para mim, sim, porque para os outros não fazia sentido. Era uma sexta-feira à noite. No dia seguinte, sábado, eu iria até Setúbal, como quase todos os fins de semana, para retornar no domingo à tardinha. E a proposta que ele me fazia era entrarmos em sintonia no sábado, por volta das onze horas da noite, hora a que ele me enviaria uma mensagem com uma ordem para cumprir. Todos acharam interessante e incrível, pois mais parecia um desafio. Eu aceitei, porque não tinha nada a ganhar nem a perder. Era uma experiência que não tinha consequências de mal para ninguém. Se desse, dava, se não desse, não dava. E todos ficaram animadíssimos, à espera do resultado da dita experiência.

No dia seguinte lá fui na camioneta para Setúbal, para mais um fim de semana familiar, com todas as turbulências inerentes e habituais, a que já estávamos acostumados. Perto das onze horas da noite fui para a cama. Primeiro, porque não tinha o hábito de me deitar tarde, porque sempre precisei muito de dormir. Segundo, porque às onze horas, queria estar concentrada, para receber a mensagem que me estava destinada. Assim foi. Às onze horas aí estava eu deitadinha, em silêncio, à espera de receber a ordem. O tempo começou a passar, a passar, mas nada acontecia. Eu continuava deitada, entregue a mim mesma e aos meus pensamentos, tentando afastar tudo, para estar disponível para o que viesse. Passaram cinco, dez minutos, quinze minutos e mais alguns minutos e comecei a ficar farta de estar deitada e só me apetecia ir à janela desanuviar. Mas à janela àquela hora, para quê? Ali só havia a escuridão própria da noite e nada mais. Raramente passava vivalma. Virava-me para um lado e para o outro, tentando adivinhar qual seria a ordem, mas nada. A única coisa que me apetecia era ir à janela e esquecer-me daquelas parvoíces. Volta para a direita, volta para a esquerda e decidi que o melhor seria dormir, pois já estava a ficar tarde. Então, exatamente para conseguir dormir, decidi esquecer a tal da "mensagem" com a ordem e resolvi ir mesmo à janela respirar, para logo me deitar e definitivamente dormir. Sem pensar mais no assunto foi o que fiz, quando já passava das onze e meia.

Estive uns cinco minutos, porque afinal estava-se bem a apreciar a noite. Uma noite de verão, com uma temperatura agradável, uma noite calma e tranquila, que me deixou muito bem disposta. Posto isto, fui para a cama e dormi. O fim de semana na reta final, lá fui de volta na camioneta para Lisboa, para segunda-feira começar mais uma semana. Só que eu não estava muito satisfeita comigo, por não ter recebido a dita mensagem. Eu achava que tinha que adivinhar e o erro foi só esse. Mas naquela altura estava convencida disso e, portanto, para mim, tinha falhado redondamente, o que me estava a incomodar. Ia ser difícil encarar o grupo e sobretudo o meu amigo. Era um falhanço completo, mas não tinha como dar a volta ao assunto. A verdade era só uma. O que poderia eu inventar? Nem ia querer uma coisa dessas. Ou era ou não era.

Portanto, a semana não começou nada bem. Fui trabalhar e até pensei em faltar às aulas, à noite. Mas isso era cobardia da minha parte. Isso eu não podia fazer, o que só aumentaria o meu mal estar. Por isso, na hora certa, lá fui eu às aulas. Foi complicado, mas fui. Para meu grande alívio, o grupo estava disperso, o que me fez pensar que talvez já ninguém se lembrasse daquilo. Contudo, no primeiro intervalo, o meu amigo estava à minha espera. Fiquei tão atrapalhada que nem conseguia falar e cumprimentá-lo. Mas ele adiantou-se e depois de me cumprimentar, apressou-se a perguntar “então, fizeste o que te mandei?”… E a minha resposta, que tardava em sair, só podia ser não, não consegui saber o que era, sendo que nesta altura eu estava completamente de rastos pelo fracasso da experiência, pela minha grande decepção, por tudo e por tanta coisa… e pelo tempo que demorei para responder, ele apressou-se a continuar “foste à janela ver a noite, como te mandei ir”? (!?).

 


sábado, 19 de fevereiro de 2022

Encontro - 99

 

Todas as noites na hora de me deitar para dormir, sinto um fardo pesado em cima de mim, que não tem que ver propriamente com o dia ter sido bom ou mau, mas por todo o tempo que durou e por tudo o que passou por ele. Talvez pela intensidade com que vivo todos os momentos, que é como se um dia fosse muito mais do que as quinze horas habituais da minha jornada diária.

E enquanto estou a tirar a roupa para me deitar, tenho a sensação de que com ela algo mais se está a ir de vez. De repente, passa o filme pela minha memória, um filme rápido, mas onde está tudo pormenorizado e gravado, sem a mais pequena possibilidade de alteração. Penso sempre que já passou e que foi mais um, e cada um que passa é mais um que já não volta. Não há retrocesso para isso.

Quando finalmente deito a cabeça na almofada, passa na minha cabeça mais uma página do livro da minha vida, para dar lugar a outra, a seguinte - porque também não é possível saltar-, que vem em branco, pelo menos na minha consciência, para ser preenchida no dia que se segue, desde o abrir dos olhos até novamente os fechar para voltar a adormecer. E essas páginas têm uma carga enorme, porque são as páginas dos nossos registos akáshicos, devidamente elaboradas e trabalhadas pelo cosmos, onde apenas lhes damos a nossa vida, o que não é pouco.

Entre essas duas páginas, a que passou e a que vem a seguir, escolho sempre a que vem em branco. Porque é a que representa o futuro e porque é aquela que ainda não tem peso, sendo por isso, a mais leve, a que me ajuda a ir ao encontro do sonho. Porque é a que vai abrir o meu próximo dia, o dia seguinte, aquele em que as portas se podem sempre abrir para uma nova paisagem ou um novo cenário, uma boa decisão ou uma boa escolha. Um caminho diferente, mais construtivo, mais edificante e em que sempre nos podemos tornar melhores, maiores e assumir novas oportunidades, que nunca deveriam ser desaproveitadas.

E com esses pensamentos começo a aliviar a minha carga do dia que passou. É como se a minha pele, aquela pele, estivesse a sair, para dar lugar a uma nova. Começo a soltar-me, a desprender-me do já passado, para poder dar lugar ao que vem, ao que se segue, porque a vida é, ou deveria ser, sempre para a frente e nunca para trás.

A nossa vinda a este mundo é exatamente uma enorme oportunidade da mudança para melhor e nunca para pior. Infelizmente, a verdade é que alguns de nós fazem o percurso inverso, o que é lastimável. Mas também, se o fazem, é porque é necessário. Contudo, dependendo do nosso ajuste espiritual, podemos sempre dar o salto quântico, tomar consciência e alterar esse padrão. E então, já terá valido muito a pena.

Mas a hora de adormecer é sempre uma hora de introversão. Uns fazem orações, preces, outros simplesmente interiorizam, fazendo um exame de consciência, projetando-se nos acontecimentos que passaram… enfim. Eu prefiro, sem dúvida, deixar ir o que foi e focar-me no que está por vir, no que vai ser ou não, sem tentar adivinhar, para não correr o risco de errar, mas desejar que o amanhã me traga seja o que for, diferente, único, o que tiver que ser, para o qual, nesse preciso momento, me comprometo comigo mesma a enfrentar da melhor maneira possível, com a bênção e a ajuda do universo, que tudo e todos rege.

E um dia, na hora de me deitar, no meio destes pensamentos, lembrei-me que tinha tido um acontecimento um pouco estranho. Estava sentada no sofá, durante a tarde, a fazer qualquer coisa que não me lembro o que era e ao mesmo tempo com a televisão ligada. De repente, senti algo que vinha do meu lado esquerdo, do fundo da sala, para onde o meu olhar foi imediatamente atraído. Senti então a presença de uma energia, mas uma energia que eu não conseguia identificar. Até pensei que era impressão minha. Mas não, não era. Ali havia alguma coisa. Uma energia envolta num vulto escuro e completamente esfumada. Contudo, ainda que sem identificação, eu conseguia perceber que se tratava de uma energia masculina. Porém, não conseguia reconhecer, nem perceber o que queria e o que estava ali a fazer.

Prossegui com os meus afazeres, mergulhada nos pensamentos em que estava. E naquele dia quando me deitei, logo me veio à ideia aquele acontecimento inusitado, porque eu não via ligação daquilo com nada da minha vida. A coisa parecia que não encaixava. Foi o que mais uma vez pensei, mas ao mesmo tempo, não descartando a hipótese de haver algo de mais concreto por de trás daquilo. Nada feito, porque continuava sem resposta. E adormeci, esquecendo de vez aquele incidente.

No outro dia ao acordar, já não me lembrava daquele assunto e na verdade o dia foi decorrendo normalmente, sem pensar naquilo, até que ao final da tarde, uma colega e amiga da universidade sénior me telefonou, como muitas vezes o faz, falando de projetos e de decisões a tomar sobre a universidade. Estivemos cerca de uma hora a trocar informação e já no final do telefonema, surgiu uma novidade sobre uma outra colega, que veio esclarecer tudo. Essa outra colega era a Fátima.

A Fátima foi alguém com quem, desde o início, tive uma ligação muito forte e muito boa. Desde o primeiro dia percebi que sentimos uma pela outra uma verdadeira simpatia. E logo no primeiro convívio que tivemos, o almoço de natal, ela fez questão de me apresentar ao marido, como uma amiga muito especial, o que muito me lisonjeou. O marido levantou-se e cumprimentou-me com um simpático aperto de mão e um sorriso que lhe era muito peculiar, mas que eu só com a continuação o perceberia. E aquele casal eram umas pessoas com quem sempre mantive um excelente e especial relacionamento, pelo carinho que sempre me dispensavam.

A Fátima frequentava as aulas, já o marido era só sócio, mas acompanhava a mulher em todos os eventos, por isso era conhecido de todos. E sempre que ela estava sozinha eu fazia questão de perguntar por ele, que para a idade que tinha, estava muito bem conservado, o que não é muito comum nos homens que, em geral, envelhecem mais cedo que as mulheres. E eu falava muito com os dois. Dava-lhes sempre uma especial atenção, porque eles mereciam e faziam por isso, sendo também especialmente carinhosos comigo. E quem não gosta disso?

Um dia a Fátima adoeceu. Foi diagnosticada com cancro na mama. Todos gostávamos muito dela, até hoje, pelo que todos lastimámos o acontecido. Tanto assim, que nas minhas aulas de Meditação lhe dedicámos um tempo, canalizando e enviando energia positiva com todo o nosso amor. Um dia tivemos notícias ótimas. Tinha sido operada e a cirurgia tinha corrido muito bem.

A Fátima continuou com o seu processo de recuperação e sempre a evoluir de modo muito positivo, para grande satisfação de todos à sua volta que muito a estimam, por ela ser a pessoa especial que é, de facto.

Sempre que nos encontrávamos eles eram uns queridos. E o marido, apesar de discreto e sem muita intimidade comigo, sempre me falou muito bem, dando para perceber que não era indiferente, pelo menos comigo, pela maneira como falava e até do que falava.

Lembro-me de um dia, em que a Fátima e eu estávamos em conversa, porque ela é uma pessoa com quem é possível desenvolver um assunto, sabe do que fala, é sensata, tem uma opinião formada e um pensamento claro. Não é dramática, pelo contrário, é uma pessoa muito positiva e com experiência da vida. E quando acabámos o que estávamos a falar, mais uma vez lhe perguntei pelo Agostinho, que já não o via há algum tempo e estava com saudades de o ver. A Fátima sorrindo, agradeceu o cuidado e em resposta afirmou que o marido também gostava muito de mim e tinha um grande carinho pela minha pessoa.

Achei surpreendente, mas nem por um instante duvidei do que ela acabava de dizer, porque isso não faz o género dela. Definitivamente, não é pessoa para estar a ser agradável só para agradar aos outros. Nem havia porque fazê-lo, mas esse não é o seu género.

Voltando atrás, estava eu no final de conversa, ao telefone com a minha outra colega, quando de repente ela se lembrou de me dar uma notícia desagradável. Sabes quem morreu, dizia ela. Não faço ideia, respondi. O marido da Fátima. O marido da Fátima(?!)…

Sim, continuava ela, foi ontem, às não sei quantas horas (já não me lembro). Fui completamente surpreendida com tal notícia, pois não estava nada à espera e acho que ninguém estava, mas foi aí que de repente voltei algumas horas atrás no tempo e imediatamente me lembrei da "visita" que tinha tido no dia anterior durante a tarde, quando surgiu uma entidade que não reconheci.

Ao pensar nele, senti exatamente a mesma sensação, ou seja, a mesma energia, que não identifiquei na altura porque, apesar de tudo, nós não tínhamos intimidade, nem convivência suficiente para que eu o pudesse ter reconhecido. E, se algumas pessoas fazem a sua passagem de uma forma, outras fazem de outra, dependendo única e exclusivamente de si mesmos. Tem que ver com o seu estado evolutivo ou vibracional. Não quero dizer que ele não fosse uma pessoa espiritualmente evoluída, não é nada disso. Mas, digamos que, para haver uma identificação, as portas têm que estar abertas de ambos os lados e provavelmente não era esse o caso. Além disso, o facto de ele ser uma pessoa muito discreta, só isso, já pode justificar não se ter deixado identificar por mim.

Não deixou de ser relevante, porque a presença da sua energia, tal qual ela se apresentava, era a prova do que ela um dia me tinha dito: que o marido gostava muito de mim. E estes acontecimentos são sempre dignos de registo, porque eles revelam o mundo para além da matéria e confirmam a sua poderosa existência. Ele veio anunciar a sua partida para uma outra esfera, a sua partida definitiva para outra dimensão, querendo ser ele mesmo a dar-me conhecimento disso. E ele sabia que eu era recetiva, embora não o tivesse reconhecido. Talvez se me tivesse debruçado um pouco mais sobre o assunto e tivesse levado mais a sério, talvez o tivesse reconhecido. Mas eu nem sabia que ele estava doente, por isso mesmo estava longe de imaginar tal coisa.

Independentemente disso, agradeço sempre esse especial encontro de almas, que mesmo em planos diferentes se conseguem comunicar, o que considero uma coisa extraordinária e que nem por isso deixa de ser um encontro.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Destino - 98

 

Outubro de 1976. Eu estava no aeroporto da Portela, com toda a minha bagagem rumo aos Açores, mais precisamente S. Miguel, Ponta Delgada, sem regresso marcado. No dia anterior tinha ido ao aeroporto levar a minha irmã que seguiu para S. Paulo, Brasil, também ela sem data de regresso. Os nossos destinos estavam definitivamente traçados. Nessa altura eu tinha vinte e três anos e a minha irmã dezanove. Ela ia ter com o namorado, com quem logo depois se casaria. Por mim, estava sozinha como convinha, de mudança para os Açores, onde a televisão (RTP) estava no início das suas emissões regulares, e cujo lugar eu tinha escolhido para recomeçar a minha vida do zero. Tudo o que eu encontrasse lá seria inteiramente novo para mim. Amigos, conhecidos, colegas, tudo e todos, seria uma viragem completa de cento e oitenta graus, no rumo que conscientemente oferecia a mim mesma.

O vinte e cinco de abril estava ainda muito recente e eu sentia-me cansada, precisando de respirar. Eu não conhecia os Açores. Mas já que tudo estava no seu início, sim, eu gostaria de fazer parte dessa equipa que trabalhou para levantar esse marco na história da televisão em Portugal. Os Açores! Quem diria!? Era mesmo um salto no completo desconhecido. E quando todos me perguntavam porquê, porque razão me tinha dado na telha de me mudar para os Açores, quando estava tão bem onde estava, secretária do Conselho de Administração da RTP, um futuro de certo modo risonho, etc…, eu não tinha resposta para dar. Eu tinha sim resposta para mim. Para os outros não, porque não entenderiam a única resposta sincera e genuína: porque o meu destino está lá; porque eu sinto um chamado para ir para lá… só isso. Essa era a única verdade. Mais nada interessava.

Mas as perguntas surgiam de todo o lado. Era na RTP, o militar então administrador, incomodado, porque queria saber se alguém me tinha tratado mal e que por mais que eu lhe dissesse que não era nada disso, não parava de me interrogar para tentar saber o que estaria errado comigo. Era a família, que gostariam de uma resposta que os fizesse entender o porquê da minha súbita decisão de debandar para tão longe, no meio do oceano, enfim… ninguém me dava tréguas.

É claro que eu percebia que aos outros fizesse confusão. Mas a vida é assim mesmo. E eu achava que não tinha que justificar a ninguém. Não estava a fazer nada de errado, nada que fosse prejudicial para ninguém, só queria dar voz ao grito ou à chamada que vinha de dentro de mim. A minha decisão estava tomada e nada mudaria os meus planos.

Na televisão era uma canseira. Nunca tinha hora de saída, nunca podia prever o que seria o meu dia, com quem iria trabalhar, uma vez que estavam sempre a incumbir-me de missões difíceis, sigilosas e comprometedoras. Por isso mesmo já tinham transferido uma das colegas da administração. Para tudo me indicavam como pessoa de total confiança e então caíam sobre mim todas as tarefas pesadas, chatas e complicadas. Até com o advogado de acusação do Dr. Ramiro Valadão por parte da RTP eu tive que trabalhar, na organização de todos os processos, que eram documentos e papelada que nunca mais acabava. Hoje, quando penso nisso, acho tudo uma grande loucura, porque o vinte e cinco de abril não foi aquilo que a maioria das pessoas acredita que foi. Lembro-me, como se fosse hoje, do advogado comentar comigo acerca de uns papéis que eram despesas de almoços e flores, com alguém com quem o Dr. Ramiro Valadão esteve, insistindo que aquilo era uma “vergonha”, a RTP a pagar. Uhau! Depois disso, aos dias de hoje, quantos almoços e ramos de flores, para não falar em coisas muito piores, mas muito piores, não foram e não são pagos aos governantes e aos presidentes e diretores de todas as empresas?! E o outro é que era o ladrão?!

Os militares estiveram no controle da RTP e imediatamente puseram de lado os carros de luxo. Compraram R5’s e nem logotipo quiseram. Alguns nem motoristas quiseram e quando levavam motorista, iam sentados ao lado deles para não serem identificados e não dar muito nas vistas. Veja-se agora, os carros parados no estacionamento, os carros dos administradores. A maior loucura. E não se pagam almoços de luxo? E outras despesas que nem me vou dar ao trabalho de enumerar, porque só não vê quem não quer.

Quando cheguei aos Açores, aquilo era um paraíso. O meu paraíso, que eu sozinha tinha conquistado para mim. Mas como não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, aos poucos os problemas começaram a surgir. E quando lá cheguei, também os militares estavam no comando. Um deles achou que podia arruinar aquilo tudo. Não raras vezes ia para a única boîte lá do sítio e no dia seguinte aparecia um empregado da dita boîte com as faturas do sr. Tenente C.P. para a RTP pagar. Todos os meus colegas pagavam sem nada dizer. Uns verdadeiros idiotas. Um dia teve o azar de ser eu a atendê-lo e quando apresentou os papéis e vi as bebidas e mais bebidas, etc… disse-lhe que não pagava. Ele olhou para mim e de olhos arregalados começou a falar alto, dizendo que eram despesas do sr. Delegado, que mandava cobrar à RTP. Então, se eram despesas dele, ele tinha que as pagar do bolso dele!? Ah, mas sempre pagaram e nunca ninguém recusou(?). Pois, o problema é esse mesmo, é que nunca deveriam ter pago. E recusei-me a pagar, para grande espanto de todos os colegas presentes.

Claro que logo de seguida fui chamada ao sr. Delegado, baixinho e gordinho, que gritava e esbracejava por todos os lados. Atrás de mim a Delegação em peso, admirados com o meu comportamento. Como é que eu tinha a coragem de enfrentar o homem? Era ele que mandava(!). E gritava alto e bom som, que ali quem mandava era ele, frisando bem, que eu não era ninguém. O homem estava quase a ter um treco, mas tive que lhe responder à letra, dizendo-lhe com todas as letras que por acaso estava enganado e realmente não podia fazer o que simplesmente lhe apetecesse, por exemplo, querer que a empresa pagasse as despesas da sua vida noturna, por onde quer que ela passasse e dar cabo daquilo tudo antes de se ir embora. No que dependesse de mim isso não aconteceria, até porque ele não me metia medo, além de que ele, o Delegado, não era funcionário, estava ali apenas de passagem, como todos os outros. Já eu não, eu trabalhava ali, era efetiva, tinha um número e nada nem ninguém me tiraria dali.

A loucura completa. O homem gaguejava sem conseguir articular uma palavra. Os colegas indignadíssimos com a minha “ousadia” e com medo do que me pudesse acontecer. Mas eu não tinha medo. Eu sabia que estava certa. E quem teria a coragem de dizer o contrário? Então e o vinte e cinco de Abril, onde ficou ele, coitado!? Eu podia não ter dito nada. Podia não me incomodar com nada daquilo, como os outros. Mas então que raio de ser humano era eu? Podiam até despedir-me, mas isso seria por ser e sempre ter sido a pessoa de confiança que viram em mim e nunca pelo contrário.

O capitão que se mostrara incomodado com a minha transferência tinha-me advertido de que, caso as coisas não corressem como eu gostaria, o meu lugar e a minha passagem de regresso estavam garantidos. Mas isso eu não faria de jeito nenhum. Eu tinha decidido ir, sinal de que tinha que aguentar com o que estivesse na minha frente. E teve de tudo. Bom, muito bom e mau, mesmo muito mau. Mas a vida é assim. Eu só regressaria na altura certa, mas nunca por desistir.

O facto é que, a minha chegada a S. Miguel, mudou radicalmente o ritmo e a vivência da ilha. O ano do verão quente, como lhe chamavam. O ano em que as festas e os convívios deram uma dinâmica completamente diferente à quietude daquela ilha. Por tudo eu organizava festas onde nos divertíamos em grande. Com as sardinhas e o pão de mistura como os reis da festa, o resto fazíamos nós, com piadas e brincadeiras, as mais variadas, até altas horas da madrugada. O verão quente ajudava e muito e a vida era para ser vivida.

Não me enganei quando disse para mim mesma que o meu destino estava lá e que ia porque sentia o chamado. Não estava enganada de maneira nenhuma. Não sei de onde vinha aquela voz, como até hoje não sei de onde ela vem, sempre que a ouço, porque toda a vida fui guiada por essa voz que guia os meus passos e me abre os caminhos. Não sei. Sei que fui porque era lá que estava o meu futuro. Era lá que estava aquele com quem havia de ter um filho, uma família, ainda que isso muito pouco tenha durado. Mas isso não conta. O que conta é o facto em si. E desde a primeira vez que vi aquele que depois foi meu marido, desde que olhei para ele, percebi logo que era ele, o tal que estava destinado a ser o pai do meu filho que eu tanto aguardava e tanto desejava. Era como se estivesse escrito no rosto dele. A mensagem invisível estava marcada com uma força que não precisava de palavras. Ela chegava até mim através do ar que respirava.

Não foi fácil. Até porque não era, nunca foi e provavelmente nunca será a pessoa mais fácil, nem a mais compreensiva, nem a mais amorosa deste mundo. Não era de todo a pessoa mais fácil de conviver, de dialogar, de compreender. Era tudo menos isso. Dava-me imenso trabalho e mais ainda me daria. Contudo, era muito provavelmente, para não dizer de certeza, a pessoa mais inteligente que eu conhecia. E isso era importante, porque não gosto de gente estúpida. Sem instrução até poderia ser, mas estúpida não. Era inteligente e bonito e eu queria isso para o meu filho. Era uma pessoa também de múltiplas facetas criativas, o que muito me encantava. Romantismo era coisa que nem sabia o que era. Nunca na vida me disse que gostava de mim. A maneira que tinha de o demonstrar era pôr defeitos em todas as mulheres, porque para ele eram todas iguais. Todas falavam muito. Todas eram muito chatas. Todas tinham todos os defeitos. Não era ele. Eram elas. E dizendo isto, eu apenas percebia que ficava de fora. As outras eram tudo isso que ele não gostava. Eu não. Mas isso nunca na vida foi revelado ou afirmado. Apenas surgia por omissão, fazendo-se notar no intuir da questão.

Enganei-me a seu respeito? Claro que não. Eu sabia que ele era assim. O que eu não sabia é que não ia ser capaz de aguentar. Achava que o amor que sentia por ele conseguiria ultrapassar tudo. Sabia que ia ser muito difícil. Ainda assim, achava que conseguia. Portanto, se me enganei, não foi a respeito dele, mas sim a meu respeito. Percebi que afinal não era uma supermulher, apenas humana e nada mais. Fui ingénua? Acho que não. É legítimo atribuirmo-nos determinados poderes que afinal não temos. Mas parece-me legítimo. É um direito que temos. Porque não? Se não tivermos a coragem de abraçarmos algo que está para além das nossas forças, também nunca vamos permitir conhecer a nós mesmos. Depois a vida é assim mesmo.

Alguma vez me arrependi? Não. O facto de me ter divorciado ao cabo de dez anos, não significa que me tenha arrependido. Divorciei-me porque foi necessário. Ou melhor, foi imperioso. Isto é uma coisa que a família e muita gente não compreendeu. Não havia condições para coabitarmos os três. Nenhum de nós beneficiava de nada, absolutamente. Pelo contrário, era muito complicado. Tudo em nós era dissociado, a começar pela nossa vida profissional. Mas depois, diferenciávamo-nos emocionalmente, psicologicamente, para já não falar da nossa vida pessoal, que nem existia. Era nula. E o nosso filho, como ficava no meio disto tudo? Foi muito duro ter chegado à triste conclusão, bem difícil de reconhecer e aceitar por mim mesma, de que não havia solução para nós e que a única coisa, para prosseguirmos as nossas vidas sem tragédias inevitáveis, era o divórcio, que ele para não variar, não queria aceitar.

Eu podia ter escolhido outro, claro que sim. O problema é que para mim não era uma questão de escolha. Não me cabia escolher. Então era o quê? Ah, sim… com toda a liberdade possível, liberdade para aceitar o destino.

 

sábado, 15 de janeiro de 2022

O sr. Filipe - 97

 

Tocaram à campainha lá em baixo. Não era necessário perguntar quem era. O sr. Filipe, que vinha arranjar o estore do meu quarto, cuja correia se partira. Há quatro noites que estava a fazer o enorme sacrifício de dormir na escuridão total, pois o estore tinha caído por inteiro, não deixando passar o menor raio de luz, obrigando-me a ficar na mais completa escuridão. Tinha apenas uma leve claridade vinda do lado de fora do quarto, com a porta aberta.

Falei com várias pessoas, mas todos estavam muito ocupados. Finalmente encontrei uma boa alma, o sr. Filipe, que se propôs de imediato a deslocar-se à minha casa para resolver o problema. Por isso, quando a campainha tocou, percebi que só podia ser ele e sem mais demoras abri a porta. Ouvi o elevador e eis que no terceiro andar a porta se abriu, saindo de lá uma pessoa, o sr. Filipe, que eu não conhecia.

Um homem de estatura alta e magro, com um enorme sorriso que às vezes me pareceu um pouco falso e forçado. Talvez quisesse parecer simpático a toda a força. Mas cada um é como é. Comecei por lhe agradecer a vinda à minha casa e feitas apresentações encaminhei-o para o quarto, a fim de ver o trabalho que iria fazer. Pediu licença para entrar e lá foi ver o que era.

Viu e olhou para mim sempre com aquele sorriso meio estranho porque meio patético, começando por dizer que já tinha estado ali no meu prédio, em casa de duas vizinhas minhas, que depois da descrição feita por ele, lhe disse que sabia muito bem quem eram. Ele morava ali muito perto, era reformado e fazia estes biscates para ganhar mais qualquer coisa e manter-se ocupado, coisa perfeitamente normal.

Depois de ver bem o que era e com um rolo de fita na mão, que tirou da sua sacola de trabalho, disse que estava tudo bem, mas que a fita tinha que ser substituída e eu não lhe tinha dito isso. Respondi que sim, que lhe tinha dito ao telefone que a fita tinha rebentado e o estore estava todo caído, obrigando-me a dormir no escuro, mas ele com a sua cara de pateta simpático, sempre a sorrir, dizia que não, que eu não tinha dito isso, que não lhe tinha explicado esse pormenor.  

Como não, se ele até estava com um rolo na mão?! Eu tinha a certeza de que lhe tinha dito. E olhando para ele, percebi que ele estava a mentir. Completamente, sem dúvida nenhuma. Mas porquê? Não me pareceu que não quisesse fazer o trabalho, pois se assim fosse, nem se daria ao trabalho de lá ir, como é óbvio. Ir lá por outra razão qualquer, estava fora de questão, pois a pessoa que mo recomendou era da mais completamente seriedade. Então, porque seria? Estaria eu a inventar? E a minha intuição começa a trabalhar exaustivamente, dando sinal de alarme, o que já é habitual comigo.

Entretanto, da mesma maneira que eu captei que ele estava a mentir, também ele captou que eu estava a perceber isso e para continuar o filme dele, fingiu medir a fita que se tinha soltado, apenas para concluir que a que tinha levado não chegava para o trabalho. Talvez sim, talvez não, só ele o saberia. Mas isso não interessava. O que interessava é que ele não ia fazer o trabalho, foi isso que eu percebi. Sem perceber nada do que se estava a passar e como aquilo era muito importante para mim, disse-lhe que o levava à drogaria mais próxima, relativamente perto, também, para comprarmos a fita. Respondeu que não podia ser, porque estava sem tempo. Tinha um não sei quê que fazer e o tempo estava contado. Mas, tendo percebido como realmente era importante para mim o problema do estore avariado, disse que depois do almoço, por volta das três horas, voltaria com a fita para então fazer o trabalho. Menos mal. Contentei-me com a decisão dele, pois não havia volta a dar. Contudo, eu tinha a certeza absoluta de que o sr. Filipe não estava a ser franco. Havia algo que eu não percebia e que o fazia estar a mentir. Disso eu tinha a certeza. Porquê? Não entendi, nem me apeteceu matar a cabeça com aquilo. Ele voltaria dali a pouco e o problema ficaria resolvido. Disso eu também tinha a certeza. O resto era secundário.

De facto, na hora combinada, uma vez mais, o Sr. Filipe estava de volta com a sua sacola do material de trabalho, espalhando aquela cangalhada toda para começar a obra. E à medida que ia fazendo o trabalho ia falando de si, da sua vida, do neto, etc., conversando e trabalhando, o tempo ia passando. Ao fim de uma hora de trabalho, o estore de novo no lugar certo e a funcionar como devia. Tudo voltava ao normal, para meu grande alívio. Essa noite mesmo eu já não teria que ficar no escuro. De manhã quando acordasse teria o enorme privilégio de ver a luz abençoada. A luz da vida, da energia, do princípio e do fim de tudo.

Já na ponta final, o sr. Filipe deu um rumo um pouco diferente à conversa e começou a falar do Covid, confessando-me que já tinha sido contaminado, tendo estado muito mal. Por isso não tencionava ter mais vez nenhuma. Agora tomava todos os cuidados e mais alguns. E continuando a conversa, confidenciou-me que não aceitava qualquer trabalho. Falava só ele. Eu limitava-me a escutá-lo. Então… não aceitava qualquer trabalho. Primeiro ia ver. Se a casa não fosse suficientemente arejada e aberta, ele não aceitava. E olhava para mim com o olhar bem fixo nos meus olhos, para eu saber que desta vez ele estava a dizer a verdade. Percebi imediatamente que estava certa quando, anteriormente, ele me disse que eu não lhe tinha dito que a fita estava partida, o que não fazia o menor sentido. Agora sim, as coisas encaixavam. Claro que ele tinha ido de manhã só para ver. Ele sabia de antemão que não faria o trabalho naquele momento, por isso invocou a desculpa da fita, dizendo que eu não lhe tinha dito. Ele sabia que estava a mentir e que eu percebi que ele estava a mentir. Mas agora as coisas estavam explicadas.

Ele terminou, paguei o trabalho dele, agradeci muito e foi-se.

Quando as pessoas mentem, normalmente só contam com elas. E acham que a pessoa para quem se dirigem apenas capta a mensagem falada, a mensagem oral. Por trás da mentira há a verdade. Uma coisa é o que se diz e outra é o que é e o que é tem uma força completa, muito mais poderosa do que a mentira. Digamos que a mentira é a casca da laranja ou do fruto e a verdade é o fruto. Da mesma maneira que aquilo que se vê nem sempre corresponde ao que é real. Por vezes há uma outra realidade que se esconde. Quando os sentidos trabalham todos para o mesmo fim, um sexto sentido comanda tudo e todos os outros lhe obedecem, por assim dizer.

Esta história do sr. Filipe não tem a menor importância. Não é relevante. Mas é apenas um exemplo do que pode ser uma mentira e da repercussão que ela pode ter. Aqui não se trata de um julgamento. Não é essa a questão. Não é a mentira como o mal e a verdade como o bem. Não é por aí. Até porque há mentiras que se justificam. O que está em causa é muito mais do que isso, é a perspetiva holística, ou seja, é quando o todo é maior do que a soma das partes. A verdade está aí. Não importa as palavras que são ditas. A verdade está antes e depois. A verdade está impressa e tem uma força que as palavras não têm, sejam elas quais forem.

 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

A vida espiritual (cont.) - 96

 

Almancil, Março de 2001, meditação guiada (II). 

Seguida da mandala, a meditação do nível II. Felicidade abre um livro. Todos à sua volta sentados em posição de lótus, preparados para ouvir e seguir a voz da guia espiritual. 

É um campo muito verde, cheio de árvores. Cada um deverá escolher uma árvore e eu já estou enraizada. Que sensação boa, cheia de braços e ramificações e olhando para o alto, as minhas folhas balançam ao sabor do vento, num lindo dia duma Primavera florida e orgulhosa dos seus frutos desabrochando de aspecto delicioso. Eu e a árvore numa perfeita sintonia, com a luz trespassando os ramos, entrando por todos os lados. A guia pede para prestarmos atenção a um raio de sol que entra pelo centro da copa e percorre todo o tronco da árvore. O tronco da árvore é o nosso próprio tronco. Algumas raízes estendem-se, outras descem ao fundo da terra. A minha consciência desce com elas e de repente está muito escuro onde estou, algures nas profundezas no centro da terra. E eu não gosto do escuro! Porém, a guia diz-nos que lá em baixo vamos encontrar um lugar cheio de luz. A mesma luz que no início me trespassou, entrando pela copa, percorreu o meu tronco e está comigo no centro da terra. É um lugar muito bonito. A luz que brota da escuridão revela-nos sempre lugares de uma beleza inaudita. Agora estou bem. Há um ribeiro e a guia manda-nos mergulhar as raízes nessa água cristalina que corre cantando, revelando toda a pureza da sua energia. É um quadro muito prazeiroso. Quem o conseguiu atingir, testemunhá-lo-á. Para mim é muito fácil entrar em sintonia com o guia. A minha capacidade receptiva é muito boa, o que significa que o meu chacra está muito aberto. Então, Felicidade manda-nos seguir por onde a luz nos leva. É uma espécie de gruta. À medida que vamos andando, a gruta vai-se abrindo, o sol iluminando mais o seu interior e a guia diz que vamos sair por um descampado, do qual eu já havia avistado um jardim. Em volta desse jardim há um campo de trigo ensolarado, por onde caminhamos agora, tendo no meio uma espiral de luz dourada. O meu corpo funde-se com essa luz por alguns instantes. Espero que os outros o consigam porque é uma sensação deliciosa. Continuando, caminhamos por esse campo, em corpo de luz, durante algum tempo, contemplando toda a natureza, recebendo todos os benefícios daquele lugar radioso de luz pura, de cheiros indecifráveis, passando por entre espigas de trigo louro banhado de luz, de toque suave, até chegarmos a um lago. No meio desse lago avisto uma fonte que brota no seu centro e num impulso corro ao seu encontro. Felicidade pede-nos para entrarmos no lago. Já lá estou, no centro, onde agora me vejo como um cristal, estando o meu corpo de luz apoiado na fonte que brota do lago. Sinto-me leve, leve, dançando em torno do meu próprio eixo imaginário, tal qual uma estátua, mas uma estátua transparente, que se move num lento movimento e de repente apercebo-me de que não estou sozinha. A guia diz-nos que se aproxima o nosso anjo. Ei-lo na minha frente. Na meditação do primeiro nível eu nem o queria receber. Era um estranho. Agora eu e ele estamos felizes, brincando. Ele está feliz, toca-me levemente com as pontas dos dedos erguendo-me no alto e eu giro, giro, em torno de mim mesma, plena de bem-estar, cheia de luz e graça e ele orgulhoso da sua pupila. Agora parece que toda a vida estivemos ligados e que nunca fomos estranhos um para o outro. Agora o reconheço perfeitamente. Isto significa que houve um grande progresso na minha evolução espiritual. Ele e eu estamos felizes. E é agora que sucede algo extraordinário. Algo que em nada tem que ver com o caminho que a guia nos aponta. O anjo, na minha frente, aponta a sua mão direita para o lado, a direita dele. Tem o seu braço direito esticado, apontando para a direita com a mão e o dedo indicador esticado. Presumo que ele quer que eu olhe naquela direcção, que é a minha esquerda. Eu paro de girar, fico de frente para ele e olho na direcção que ele aponta: a minha esquerda. Não me apercebo logo do que se trata. Mas olhando mais atentamente, começo a avistar ao longe, um lugar escuro. Continuo a olhar e então vejo alguém que, andando apressado e compondo a lapela do casaco do fato que tem vestido, atravessa o escuro vindo na minha direcção. Olhando-o mais fixamente acabo por reconhecê-lo. Vem apressado, quase correndo e por cima dele há uma faixa de luz, horizontal, que deita chuva. É uma chuva de prata. Soube mais tarde que significa, para quem a recebe, limpeza espiritual. Toda igual, certinha, caindo abundantemente sobre ele. E ele apressava o passo com medo de chegar “tarde de mais”. Mentalmente pergunto ao anjo o que faria ele ali, ao que o anjo, mentalmente, responde que no momento ele é a minha outra “metade”, ou seja, a minha energia complementar. Fico parada, sem saber o que pensar e o que fazer, mas querendo continuar no caminho da guia. Então o anjo detém-me, continuando na minha frente e como que respondendo à minha pergunta, ele deixa cair, depositando nas minhas mãos, um par de alianças grossas de ouro maciço, lindas, que estão agora depositadas nas minhas mãos. Olho-as, um pouco espantada, admirando-as, enormes e reluzentes, perguntando-me, o que faço com elas, para que me servem? O anjo fecha as minhas mãos, transmitindo-me que elas são minhas… simbolizando o meu livre arbítrio(?!)… E tudo não tem nada a ver com a meditação guiada. 

Quero sair dali. Ele deixa-me passar. Ouço a voz da guia dizendo para continuarmos o caminho. Mas eu já tinha continuado até ao ponto onde havia um túnel por onde entrámos. Era um pouco escuro, mas logo encontrei a luz e a saída que dava para uma pequena ponte cheia de roseiras e outras flores, deixando o ar bem perfumado. Talvez seja a resposta ao direito da minha escolha, ao direito ao livre arbítrio, à liberdade. 

Finalmente, somos conduzidos a um jardim, onde nos sentamos, descontraímos e de novo voltamos ao nosso mundo material, com todo o seu peso e as suas consequências. 

E debaixo deste delírio muitas respostas foram dadas.